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quinta-feira, 23 de maio de 2019

Vargas Llosa / A tumba de Kafka



A tumba de Kafka

O autor de ‘A metamorfose’ escreveu sem parar, embora suas obras tenham passado praticamente desapercebidas e só postumamente se notou que foi um dos grandes autores de todos os tempos


MARIO VARGAS LLOSA
18 MAI 2019 - 17:00 COT


Está no novo cemitério judaico de Praga, no bairro de Strasnice, enterrado junto a seus pais e suas três irmãs, que morreram nos campos de extermínio nazistas. Na verdade, esta bela cidade é praticamente um monumento ao mais ilustre de seus escritores. Toma todo um dia visitar as esculturas a ele dedicadas, as casas onde viveu, os cafés que frequentava e o magnífico museu, e em todos estes lugares coincido com bandos de turistas que tiram fotos e compram seus livros e souvenires. Eu também o faço: dos escritores que admiro, colecionaria até seus ossos.

Comove-me ver, no Museu Franz Kafka, muitas páginas da sua Carta ao Pai, que nunca enviou. Tinha uma letra arrevesada e saltitante, que, às vezes, pareciam desenhinhos de HQs. Essa enorme carta foi a primeira coisa que li dele, quando era adolescente. Eu me dava muito mal com meu pai, de quem tinha um medo pânico, e me senti totalmente identificado com esse texto desde as primeiras linhas, sobretudo quando Kafkaacusa seu progenitor de tê-lo tornado inseguro, desconfiado de todos, de si mesmo e da sua própria vocação. Recordo com um calafrio aquela frase em que Kafka explica sua insegurança a ponto, diz, de não confiar em mais ninguém e mais nada, exceto o pedacinho de terra que seus pés pisam.
Este museu, diga-se de passagem, é o melhor que já vi dedicado a um escritor. Sua penumbra, seus corredores labirínticos, seus hologramas, os filmes arruinados da Praga do seu tempo, as grandes gavetas misteriosas que não podem ser abertas, e até a tenra canção em iídiche entoada por uma moça que parece de carne e osso (mas não é) não podem ser mais kafkianos. Tudo o que se sabe dele está exposto ali, e de maneira sutil e inteligente. As fotos mostram a trajetória fugaz dos quarenta e um anos que viveu; aparece quando menino, quando jovem e quando adulto, a figurinha estilizada, o olhar penetrante e suas grandes orelhas curvas de lobo da estepe.
Está enterrado em Praga, junto a seus pais e suas irmãs, que morreram nos campos de extermínio nazistas
Há um texto maravilhoso escrito quando, recém-formado advogado, acaba de começar a trabalhar numa companhia de seguros (de oito a nove horas por dia, seis dias por semana), afirmando que esse trabalho matará sua vocação, porque como poderia chegar a ser um escritor alguém que dedica todo seu tempo a um estúpido afazer alimentício? Exceto os rentistas, todos os escritores do mundo se fizeram perguntas parecidas. Mas este fez o que a maioria deles não costuma fazer: escrever quase sem parar, em todos os momentos livres que tinha, e, embora tenha publicado muito pouco em vida, deixar uma obra que, incluídas suas cartas, é de longuíssimo fôlego.
Nada me parece mais triste que alguém que sentia intensamente essa vocação e que, como Kafka, foi capaz de escrever tantos livros jamais tenha sido reconhecido enquanto vivia, e só postumamente se notasse que foi um dos grandes escrivinhadores de todos os tempos (W.H. Auden o comparou a Dante, Shakespeare e Goethe e disse que ele, como aqueles, era a síntese e o emblema de sua época). As coisas que publicou em vida passaram praticamente despercebidas, e isso que entre elas figurava A Metamorfose. O pedido a seu amigo Max Brod para que queimasse seus inéditos revela que acreditava ter fracassado como escritor, embora talvez restasse alguma esperança, porque, do contrário, ele mesmo os teria queimado.
A propósito de Max Brod, um dos poucos contemporâneos que acreditavam no talento de Kafka, há agora, por motivo da aparição do livro Kafka’s Last Trial, de Benjamin Balint, uma ressurreição dos ataques que já lhe fizeram no passado, inclusive críticos e intelectuais tão respeitáveis como Walter Benjamin e Hannah Arendt. Que injustiça! O mundo deveria estar para sempre grato a Max Brod, por ter, em vez de acatado a decisão do amigo a quem estimava e admirava, salvado para os leitores do futuro uma das obras mais originais da literatura. Em sua biografia e em seus ensaios sobre Kafka, Brod pode ter exagerado a influência que o misticismo judaico exerceu sobre ele, e talvez tenha se equivocado ao deixar em seu testamento à senhora Esther Hoffe os inéditos que ainda restavam, razão pela qual o Estado judaico e a Alemanha passaram muitos anos litigando por aqueles textos (finamente foi Israel que ficou com eles), tema sobre o qual versa o por outro lado estrambótico livro de Benjamin Balint. Ninguém que desfrute verdadeiramente lendo Kafka deveria lê-lo. Os que o atacam teriam que estar conscientes de que nada do que dizem em suas análises sobre Kafka seria possível sem a decisão extraordinariamente sagaz de Max Brod de resgatar esta obra essencial.
Seu amigo Max Brod foi um dos poucos contemporâneos que sempre acreditou em seu talento
Hermann Kafka, o destinatário da impressionante carta que seu filho nunca lhe enviou, era um judeu humilde, que não teve contato nenhum com a literatura. Dedicou-se ao comércio, abrindo lojinhas de armarinhos que tiveram certo êxito e elevaram os níveis de vida da família. Mas havia nele algum germe de excentricidade kafkiana, porque como é possível que passasse a vida mudando de apartamento, inclusive dentro de um mesmo quarteirão? Os guias dizem que se mudou doze vezes de residência, e que não menos mudanças experimentaram suas lojas. A família se considerava judia e falava alemão, como a maioria dos tchecos de então, e não era particularmente religiosa. Kafka tampouco o foi, pelo menos até que chegasse a Praga aquela companhia de teatro em iídiche que tanto o impressionou. O museu documenta muito bem os efeitos dessa experiência, o empenho com que se pôs a estudar hebraico (que nunca chegou a aprender), a ler livros sobre o hassidismo e outros movimentos místicos, assim como o belíssimo texto que escreveu sobre aqueles atores e atrizes que faziam teatro em iídiche, sobrevivendo com as miseráveis gorjetas que o público lhes atirava na rua ou nos cafés onde atuavam.
O museu também dá detalhes sobre as quatro namoradas que Kafka chegou a ter e sobre como eram complicadas suas relações sentimentais. Apaixonava-se, sem dúvida, e era um amante tenaz, monopolizador, e lhes propunha casamento. Mas, assim que aceitavam, recuava, aterrorizado por ter chegado tão longe. A insegurança o perseguia também no amor. Pelo menos três dessas namoradas sofreram com esses desplantes; com uma delas, Felicia Bauer, celebrou o noivado com uma festa, poucos dias antes de rompê-lo. Com a amizade era muito mais constante. Seu melhor amigo foi sem dúvida Max Brod, que, naqueles anos, já tinha um nome literário e havia publicado alguns livros. Foi um dos primeiros em perceber o gênio de Kafka e o estimulou sem trégua a escrever e a acreditar em si mesmo, algo que efetivamente ocorreu, pois Kafka, pelo menos quando escrevia, perdia a insegurança da qual sempre padeceu e se tornava um insólito e seguro fazedor de pessoas e histórias. Uma tuberculose galopante acabou com sua existência, no começo da maturidade. Hitler deu cabo do resto da família.


terça-feira, 21 de junho de 2016

Prêmio Kafka / Árvores na neve / Discurso de Amos Oz


Amos Oz

Árvores na neve

Na opinião de Amos Oz, Franz Kafka foi o maior profeta do século XX, capaz de prever a desumanização e as tiranias, a crueldade do poder e a impotência do ser humano

Existe um conto de Kafka intitulado As Árvores. Nele, o autor diz que somos semelhantes a árvores na neve, que parecem flutuar, como se não tivessem raízes. É pura aparência, escreve Kafka, porque todo mundo sabe que as árvores têm raízes bem enterradas. E diz em seguida: mas isso também é pura aparência.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Kafka / Oportunidade para um pequeno desespero



Franz Kafka
OPORTUNIDADE
PARA UM PEQUENO DESESPERO


O livro "Oportunidade para um Pequeno DESESPERO" é uma seleção de contos de Franz Kafka escolhidos por Nikolaus Heidelbach que faz também as ilustrações do Livro. O resultado é um livro com imagens maravilhosas que a gente sente vontade de ter não só para ler como para guardar.




domingo, 19 de junho de 2016

O bicho de Kafka completa um século

Ilustração de Triunfo Arciniegas.
O bicho de Kafka completa um século

A celebração do centenário da edição de ‘A Metamorfose’

Novas versões estão chegando às livrarias


JOSÉ ANDRÉS ROJO
Madri 11 ABR 2015 - 11:15 COT







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Ilustração de Antonio Santos para 'A metamorfose'.

Em 22 de novembro de 1912 Max Brod, o amigo íntimo que desobedeceu a ordem de Franz Kafka de queimar todos os seus escritos quando tivesse morrido, escreveu a Felice Bauer, a então noiva do escritor. Tentou explicar-lhe que o autor passava por um mau momento e que seus pais não estavam conscientes de que para um ser excepcional como ele “são necessárias condições igualmente excepcionais com o objetivo de que sua delicada espiritualidade não murche”.
Esse ser excepcional, frágil, tremendamente nervoso, e básica e fundamentalmente obcecado pela escrita, redigiu entre 7 de novembro e 7 de dezembro de 1912 uma das obras-primas da literatura de todos os tempos. Foi publicada alguns anos depois, em 1915, de modo que está sendo celebrado um século de vida daquela singular história que se inicia quando o caixeiro-viajante Gregor Samsa, “depois de despertar de um sono intranquilo”, descobriu que se havia transformado em “um inseto monstruoso”. A editora Nórdica aproveitou a ocasião para lançar uma nova tradução, de Isabel Hernández, em um volume ilustrado por Antonio Santos, com prólogo de Juan José Millás, e à qual optou por dar como título A Metamorfose. A editora Navona se inclinou por traduzir o título como A Transformação, e da tradução do alemão para o espanhol se ocupou Xandru Fernández.
Ilustração de Franz Kafka

kafka (1883-1924) tinha conhecido Felice em agosto de 1912 e em setembro lhe escreveu a primeira carta. Em 1 de novembro já deixava perfeitamente claro para ela qual era sua maior obsessão: “Minha vida, no fundo, consiste e consistiu sempre em tentativas de escrever, em sua maioria fracassadas. Mas o não escrever me fazia ficar pelo chão, para ser varrido”. Na época, estava trabalhando em um romance, que Brod publicaria com o título de América. Mas estava emperrado. Como fazia um relato completo a Felice de tudo o que lhe acontecia, no dia 17 desse mesmo mês contou que lhe havia ocorrido um conto que o estava assediando “do mais fundo” de si mesmo.


O autor escreveu sua história em 21 dias, no final de 1912, e a publicou em 1915

O surpreendente dessa singular história é a naturalidade com que Gregor encara sua transformação. As coisas mudaram, parece que não o entendem quando se dirige a seus pais e à sua irmã, vai chegar tarde no trabalho, não sabe muito bem ainda como vai sair da cama para se pôr em marcha, tem uma incômoda dor nas costas e quando as toca com uma das patas sente calafrios. Mas, enfim, Gregor está consciente de que terá de fazer algo, e se empenha nisso.
“Também para o herói do meu conto as coisas hoje foram excessivamente ruins”, contou Kafka a Felice em uma carta de 23 de novembro daquele ano. Acabava de a avisar que o conto lhe daria “um medo horripilante”. No dia 24, insiste: “Meu amor, mas que extremamente repulsiva é a história que acabo de colocar de lado para recuperar-me pensando em ti. Já avancei até um pouco mais da metade, e no conjunto não estou insatisfeito com ela, mas quanto a ser asquerosa, ela é de um modo ilimitado, e coisas como essas, veja só, provém do mesmo coração que você habita e tolera como morada”.



Um assunto asqueroso que produz um medo horripilante. Kafka certamente tinha razão quando falava assim de seu texto, mas o paradoxal no assunto, como ocorre com quase tudo em sua obra, é que o relato está também atravessado por um sutil humor e que haverá alguns a quem, mais do que o medo, o que o caixeiro-viajante transformado em inseto inspira é uma tremenda ternura, simpatia, cumplicidade até. De que fala, na realidade esse conto?
O responsável pela edição das obras completas de Kafka em espanhol, Jordi Llovet, escreveu que há algo essencial em sua arte narrativa: “O sentido literal de um relato não é mais que uma armadura que sugere, senão força, uma atividade interpretativa; e essa atividade não é só labiríntica, mas interminável”. Tem razão, ao mesmo tempo que se vai lendo sua narrativa, vão surgindo hipóteses muito diferentes sobre o sentido do que ele conta. Há, portanto, muitas interpretações possíveis. E todas, além do mais, perfeitamente discutíveis. Nabokov se enfadava com quem dizia que o bicho era “muito apropriado para caracterizar o sentimento de inutilidade diante do pai”: “Interessam-me os insetos, não a insensatez; assim, rejeito esse tipo de absurdo”.


O processo de criação ficou consignado nas cartas à sua noiva

Kafka realmente velava constantemente por todos os detalhes. Quando o relato ia ser publicado, em 1915, e soube que teria alguma ilustração, escreveu de imediato aos editores: “Acontece que me ocorreu, considerando que Starke será realmente o ilustrador, que talvez ele deseje querer desenhar o próprio inseto. Isso não, por favor! O inseto em si não deve ser desenhado. Nem mesmo deve ser mostrado de longe...” Convém dizer que nas ilustrações de Antonio Santos do novo livro da Nórdica o bicho não aparece em nenhuma parte.



‘A TRANSFORMAÇÃO’ OU ‘A METAMORFOSE’?

Kafka, em 1905.  GETTY IMAGES

Franz Kafka intitulou sua narrativa como Die Verwandlung,cuja tradução literal é A Transformação. Era um sujeito extremamente meticuloso, até obsessivo, com o uso das palavras, se interessava pela precisão e que dissessem exatamente o que dizem. Assim, não utilizou o termo Metamorphose, que também existe em alemão e que limita o significado mais geral de “transformação” para um mais específico, relacionado à mudança que se produz quando os seres humanos se convertem em animais, plantas, fontes, etcétera.
“Eu traduzi o livro de contos cujo primeiro título é 'A Transformação' e nunca soube por que todos decidiram chamá-lo de 'A Metamorfose'", explicou Jorge Luis Borges em uma entrevista publicada em El PAÍS em 3 de julho de 1983. “É um disparate, eu não sei quem teve a ideia de traduzir assim essa palavra do mais simples alemão. Quando trabalhei com a obra, o editor insistiu em deixá-la como está porque já era famosa e se vinculava a Kafka.”
No terceiro volume das obras completas de Kafka publicado pela Galaxia Gutenberg, há uma explicação nas notas de que o título procede certamente de uma tradução precoce (anônima) que foi feita da narrativa em 1925 na Revista do Ocidente. Foi aí que se deu o título A Metamorfose. Continua ainda tendo êxito.


EL PAÍS



quinta-feira, 16 de junho de 2016

Borges / Um sonho eterno

Franz Kafka
Poster de T.A.

Jorge Luis Borges

Um sonho eterno

Transcrição dos comentários gravados do narrador e poeta argentino


Minha primeira lembrança de Kafka é do ano de 1916, quando decidi aprender o idioma alemão. Antes, tinha tentado estudar russo, mas fracassei. O alemão acabou sendo muito mais simples e a tarefa foi gratificante. Tinha um dicionário alemão-inglês e depois de uns meses não sei se conseguia entender o que lia, mas podia apreciar a poesia de alguns autores. E foi quando li o primeiro livro de Kafka que, embora não lembre agora exatamente, acho que se chamava Onze Contos.
O fato de que Kafka escrevia de maneira tão simples me chamou a atenção, já que eu mesmo podia entendê-lo, apesar de o movimento impressionista, tão importante nessa época, ter sido marcado, em geral, pelo barroco, que jogava com as infinitas possibilidades do idioma alemão. Depois, tive a oportunidade de ler O Processo e a partir desse momento passei a acompanhar sua obra continuamente. A diferença essencial em relação aos seus contemporâneos e até mesmo aos grandes escritores de outras épocas, como Bernard Shaw e Chesterton, por exemplo, é que com eles o leitor é obrigado a levar em conta a referência local, a conotação do tempo e do lugar. O que também é o caso de Ibsen e de Dickens.
Kafka, por outro lado, tem textos, sobretudo os contos, onde se estabelece algo eterno. Podemos ler Kafka e pensar que suas fábulas são tão antigas como a história, que esses sonhos foram sonhados por homens de outra época sem necessidade de vinculá-los à Alemanha ou à Arábia. O fato de haver escrito um texto que ultrapassa (em informação) o momento de sua concepção, é notável. É possível pensar que foram redigidos na Pérsia ou na China e aí está seu valor. E quando Kafka faz referências é profético. O homem que está aprisionado por uma ordem, o homem contra o Estado, esse foi um de seus temas preferidos.
Eu traduzi o livro de contos cujo primeiro título é 'A Transformação' e nunca soube por que todos decidiram chamá-lo de 'A Metamorfose'. É um disparate, eu não sei quem teve a ideia de traduzir assim essa palavra do mais simples alemão. Quando trabalhei com a obra, o editor insistiu em deixá-la como está porque já era famosa e se vinculava a Kafka. Acho que os contos são superiores a seus romances, que, por outro lado, nunca terminam. Têm um número infinito de capítulos, porque seu tema é de um número infinito de postulações.

Gosto mais de seus relatos breves e, embora não haja, agora, nenhuma razão para qualificar um sobre outro, escolheria aquele conto sobre a construção da muralha. Eu escrevi também alguns contos nos quais tratei, ambiciosa e inutilmente, de ser Kafka. Há um, intitulado La Biblioteca de Babel e algum outro, que foram exercícios na tentativa de ser Kafka. Esses contos eram interessantes, mas eu me dei conta de que não tinha cumprido meu propósito e de que devia buscar outro caminho. Kafka foi tranquilo e até um pouco secreto e eu escolhi ser escandaloso.
Comecei sendo barroco, como todos os jovens escritores e agora trato de não sê-lo. Tentei também ser anônimo, mas qualquer coisa que escreva se reconhece imediatamente. Kafka não quis publicar muito em vida e pediu que destruíssem sua obra, o que me lembra o caso de Virgílio, que também encarregou seus amigos de destruírem a não concluída Eneida. A desobediência destes fez com que, felizmente para nós, a obra se conservasse. Eu acho que nem Virgílio nem Kafka queriam, na realidade, que seus trabalhos fossem destruídos. Senão eles mesmos teriam se encarregado do trabalho. Se eu atribuo a tarefa a um amigo, é um modo de dizer que não me responsabilizo. Meu pai escreveu muitíssimo e queimou tudo antes de morrer.
Kafka foi um dos grandes autores de toda a literatura. Para mim, é o número um deste século. Eu estive nos atos do centenário de Joyce e quando alguém o comparou com Kafka disse que isso era uma blasfêmia. É que Joyce é importante dentro da língua inglesa e de suas infinitas possibilidades, mas é intraduzível. Por outro lado, Kafka escrevia em um alemão muito simples e delicado. Ele se importava com a obra e não com a fama, isso é indubitável. De todas as maneiras, Kafka, esse sonhador que não quis que seus sonhos fossem conhecidos, agora é parte desse sonho universal que é a memória. Nós sabemos quais são suas datas, qual foi sua vida, que é de origem judaica e tudo, mas isso vai ser esquecido, apenas seus contos continuarão a serem contados.




quarta-feira, 4 de maio de 2016

Kafka dormindo



Kafka dormindo

Estou sempre a reler, com o mesmo espanto, os sonhos de Franz Kafka

Estou sempre a reler, com o mesmo espanto, os sonhos de Franz Kafka — na edição lançada pela Iluminuras, em tradução de Ricardo F. Henrique, em 2003. Eles reforçam a tese de que a literatura começa muito antes da escrita, e mesmo antes de qualquer processo intelectual anterior (a leitura, os esboços, etc). A literatura — mostram — começa antes ainda de estarmos acordados. Apesar da estrutura desordenada e do estilo apressado, os sonhos de Kafka antecipam seus relatos. Lá estão os mesmos monstros, a mesma arquitetura escabrosa, os mesmos vícios, a mesma insanidade. Tudo — ou quase tudo — vem dali. Por isso se torna tão estimulante lê-los.

Entre tantos sonhos, um dos que mais me impressionam é o que Kafka teve com seu pai em 6 de maio de 1912. Passeando por Berlim, e depois de saltar de um bonde, Kafka e seu pai esbarram com uma parede muito íngreme. Um obstáculo, como as folhas em branco. Os dois começam a escalá-la. “Meu pai foi escalando quase dançando”, descreve Kafka. Ele, ao contrário, logo fica para trás. Escorrega várias vezes seguidas. Tem a sensação de que, quanto mais avança, mais íngreme a parede se torna. Cabe perguntar se essa não é a mesma sensação que Kafka tem ao escrever. Quanto mais escreve, mais difícil se torna escrever.

“Também era muito desagradável o fato de a parede estar coberta de excremento humano que ia grudando em mim, aos flocos, sobretudo no peiro”, prossegue Kafka. Escritores também lidam com restos. Com dejetos. Quanto mais escrevem, menos satisfeitos estão e mais necessidade têm de alterar ou de cortar. Escrever é mexer em coisas desagradáveis que, “como flocos”, vão grudando na gente. Falava o próprio Kafka do “limite tênue” que separa a vida cotidiana e a vida onírica. Muitas vezes as experiências dos sonhos, de tão fortes, parecem mais reais do que as experiências vividas. Dessa contaminação Kafka tirava suas histórias.

Quanto mais se suja de excrementos, mais Kafka tenta se limpar. Mais ele limpa seu texto. Mas quanto mais se limpa, mais sujo se sente. Quanto mais corta suas palavras, quanto mais as remenda, quanto mais conserta, mais infeliz está. No alto da parede há um edifício. Quando Kafka consegue chegar, seu pai já está saindo do edifício, onde teve um encontro. “Esse Dr. von Leyden! É um homem extraordinário!”, Hermann Kafka diz cheio de entusiasmo. O doutor é médico. Acontece que Hermann não o visitou como um paciente, mas como um admirador. Chegando atrasado ao topo, Kafka, o filho, pega a cena pelo meio. Exatamente como as cenas “surgem” na cabeça de um escritor: soltas, arbitrárias, incoerentes, e só depois são costuradas.

“À esquerda atrás de mim vi um homem sentado de costas num aposento que era todo de vidro.” Kafka entendeu logo — por razões que permanecem obscuras — que se tratava não do Dr. von Leyden, mas de seu secretário. Seu pai, Hermann, falara com o secretário, e não com o próprio médico. Logo, entusiasmara-se pelo homem errado. O malentendido — ou talvez o incompreendido — também está na base da literatura de Kafka. O mundo é incoerente, as várias peças não se encaixam. E por isso parece absurdo, e por isso também parece imóvel. Kafka “julga” o erro do pai, mas não considera a hipótese de ele mesmo estar enganado. Também um escritor pode julgar criticamente um texto (um ato) alheio. Mas como muito mais dificuldades conseguirá julgar seus próprios atos (escritos).

O sonho do pai (eu o chamarei assim) reúne vários dos impasses, malentendidos, e também sentimentos insuportáveis que configuram a atividade do escritor. O sonho é quase um resumo das adversidades que o próprio Kafka teria (ou teve) que enfrentar para escrever seus relatos. Onde o pai aparece como o enganado, ou até como falsificador, é na verdade o filho que derrapa e treme. É ali que o filho, ao se expor à grande “sujeira” da escrita, consegue afinal se tornar quem ele é.






domingo, 19 de abril de 2015

Franz Kafka / O exame

Eden Some
Franz Kafka
O EXAME

Sou um criado, mas não há trabalho para mim. Sou medroso e não me ponho em evidência; nem sequer me coloco em fila com os outros, mas isto é apenas uma das causas de minha falta de ocupação; também é possível que minha falta de ocupação nada tenha a ver com isso; o mais importante é, em todo caso, que não sou chamado a prestar serviço; outros foram chamados e não fizeram mais gestões que eu; e talvez nem mesmo tenham tido alguma vez o desejo de serem chamados, enquanto que eu o senti, às vezes, muito intensamente.
Assim permaneço, pois, no catre, no quarto de criados, o olhar fixo nas vigas do teto, durmo, desperto e, em seguida, torno a adormecer. Às vezes cruzo até a taverna onde servem cerveja azeda; algumas vezes por desfastio emborquei um copo, mas depois volto a beber. Gosto de sentar-me ali por que, atrás da pequena janela fechada e sem que ninguém me descubra, posso olhar as janelas de nossa casa. Não se vê grande coisa; sobre a rua, dão, segundo creio, apenas as janelas dos corredores, e além do mais, não daqueles que conduzem aos aposentos dos senhores; é possível também que eu me engane; alguém o sustentou certa vez, sem que eu lho perguntasse, e a impressão geral da fachada o confirma. Apenas de vez em quando são abertas as janelas, e quando isso acontece, o faz um criado, o qual, então, se inclina também sobre o parapeito para olhar para baixo um instantinho. São, pois, corredores onde não se pode ser surpreendido. Além do mais não conheço esses criados; os que são ocupados permanentemente na parte de cima, dormem em outro lugar; não em meu quarto.
Uma vez, ao chegar à hospedaria, um hóspede ocupava já o meu posto de observação; não me atrevi a olhar diretamente para onde estava e quis voltar-me na porta para sair em seguida. Mas o hóspede me chamou e, assim, então, percebi que era também um criado ao qual eu tinha visto alguma vez e em alguma parte, embora sem ter falado nunca com ele até aquele dia.
- Por que queres fugir? Senta-te aqui e bebe. Eu pago.
Sentei-me, pois. Perguntou-me algo, mas não pude responder-lhe; não compreendia sequer as perguntas. Pelo menos eu disse:
- Talvez agora te aborreça o fato de ter-me convidado. Vou-me, pois.
E quis erguer-me. Mas ele estendeu a mão por cima da mesa e me manteve em meu lugar.

- Fica-te! -disse. Isto era somente um exame. Aquele que não respondesse às perguntas está aprovado no exame.


sexta-feira, 17 de abril de 2015

Frank Kafka / Poseidón


Franz Kafka
POSEIDÓN

Poseidon estava sentado à sua mesa de trabalho e fazia contas. A administração de todas contas. A administração de todas as águas dava-lhe um trabalho infinito. Poderia dispor de quantas forças auxiliares quisera, e com efeito, tinhas muitas, mas como tomava seu emprego muito a sério, verificava novamente todas as contas, e assim as forças auxiliares lhe serviam de pouco. Não se pode dizer que o trabalho lhe era agradável e na verdade o realizava unicamente porque lhe tinha sido impôsto; tinha-se ocupado, sim, com frequência, em trabalhos mais alegres, como ele dizia, mas cada vez que se lhe faziam diferentes propostas, revelava-se sempre que, contudo, nada lhes agradava tanto como seu atual emprego. Além do mais era muito difícil encontrar uma outra tarefa para ele. Era impossível designar-lhe um determinado mar; prescindindo de que aqui o trabalho de cálculo não era menor em quantidade, porém em qualidade, o Grande Poseidon não podia ser designado para outro cargo que não comportasse poder. E se se lhe oferecia um emprego fora da água, esta única idéia lhe provocava mal-estar, alterava-se seu divino alento e seu férreo torso oscilava. Além do mais, suas queixas não eram tomadas a sério; quando um poderoso tortura, é preciso ajustar-se a ele aparentemente, mesmo na situação mais desprovida de perspectivas. Ninguém pensava verdadeiramente em separar a Poseidon de seu cargo, já que desde as origens tinha sido destinado a ser deus dos mares e aquilo não podia ser modificado.

O que mais o irritava – e isto era o que mais o indispunha com o cargo – era inteirar-se de que como representavam com o tridente, guiando como um cocheiro, através dos mares. Entretanto, estava sentado aqui, nas profundidades do mar do mundo e fazia contas ininterruptamente; de vez em quando uma viagem da qual além do mais, quase sempre regressava furioso. Daí que mal havia visto os mares, isso acontecia apenas em suas fugitivas ascenções ao Olimpo, e não os teria percorrido jamais verdadeiramente. Gostava de dizer que com isso esperava o fim do mundo, que então teria certamente ainda um momento de calma, durante o qual, justo antes do fim, depois de rever a última conta, poderia fazer ainda um rápido giro.


quinta-feira, 16 de abril de 2015

Franz Kafka / O jeguador


Franz Kafka
O JEGUADOR

A Hunger Artist by Franz Kafka (Cuento en inglés)
Franz Kafka / Un artista del hambre (A short story in Spanish)

O interesse pelos jejuadores profissionais decresceu sensivelmente nos últimos decênios. Antes, convinha aos empresários organizar tais espetáculos, mas atualmente isto se tornou quase impossível. Vivemos num mundo diferente. Houve época em que a cidade inteira sentia viva curiosidade pelo artista da fome, aumentando a excitação à medida que o jejum se prolongava, querendo todos vê-lo ao menos uma vez por dia. Havia mesmo pessoas que compravam bilhetes para os últimos espetáculos, sentando-se desde manhã até a noite diante das grades da jaula. As exibições noturnas eram realçadas por archotes e, quando a temperatura era amena, levavam a jaula para o ar livre, sendo o jejuador mostrado às crianças como divertimento especial. Os adultos, muitas vezes consideravam aquilo pilhéria, aceita por estar em moda, mas as crianças ficavam boquiabertas, de mãos dadas para se sentirem mais seguras, maravilhando-se ante o homem pálido, de costelas salientes, que vestia justas calças negras e não tinha sequer uma cadeira, sentando-se na palha espalhada no chão. Às vezes ele inclinava a cabeça cortesmente, ou respondia com um sorriso constrangido às perguntas que lhe eram feitas, estendendo de vez o braço através das grades, para que verificassem como estava magro. Recolhia-se depois ao seu mutismo, não prestando atenção a nada nem a ninguém, nem mesmo ao relógio para ele tão importante e que era a única peça de mobília na jaula. Ficava a olhar o vazio, de pálpebras semicerradas, de vez em quando alcançando um pequeno copo d?água e tomando um golezinho para umedecer os lábios.



Além dos espectadores comuns, havia permanentemente vigias escolhidos pelo público, que se revezavam. Por estranho que pareça, em geral eram açougueiros, em grupos de três, que tinham por obrigação observar o jejuador dia e noite, para evitar que ingerisse disfarçadamente algum alimento. Mera formalidade, instituída para tranqüilizar o povo, pois os iniciados sabiam perfeitamente bem que, fossem quais fossem as circunstâncias, nem mesmo a força o artista se resolveria a quebrar o jejum, durante a prova. A honra da profissão o impedia. Nem todos os espectadores, naturalmente, eram capazes desta compreensão. Freqüentemente havia grupos de vigilantes noturnos que relaxavam o cumprimento do dever, retirando-se para um canto, onde se deixavam empolgar por um jogo de cartas, com a evidente intenção de dar ao jejuador ensejo de tomar alimento, que eles supunham existir em algum esconderijo. Nada aborrecia mais o artista que semelhantes vigias. Faziam-no sentir-se infeliz e tornavam a abstinência insuportável. Às vezes conseguia dominar suficientemente a fraqueza para cantar, o mais que lhe era possível, tentando provar a injustiça de tais suposições. Isto de nada adiantava, pois os homens apenas admiravam a habilidade que lhe permitia comer enquanto cantava. Apreciava mais os guardas que se sentavam perto das grades e que, não se contentando com a parca iluminação do local, lançavam sobre ele o clarão direto das lanternas elétricas que o empresário pusera à sua disposição. A luz dura não o incomodava.