sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Nobel de Literatura 2026 vai para a escritora canadense Anne Carson

 

A escritora Anne Carson


Por 
Ruan de Sousa Gabriel
 — São Paulo
8 Outubro 2026

A escritora canadense Anne Carson venceu o Prêmio Nobel de Literatura de 2026, anunciado às 8h (horário de Brasília) desta quinta-feira (8) pela Academia Sueca. Ingrid Carlberg, secretária permanente da instituição, justificou a láurea a Carson "por sua obra ousada e inventiva que, em diálogo lúdico com a tradição clássica, criou novas formas para a literatura contemporânea". Ela disse que falou ao telefone com a canadense, que estava "surpresa" e "muito feliz" com o anúncio. "Nós não tivemos muito tempo para conversar. Ela só teve tempo de me dizer que, no momento, ela está na Islândia ouvindo o vento", afirmou a secretária da Academia Sueca.


Carson nasceu em Toronto, tem 76 anos e é conhecida por implodir as fronteiras entre os gêneros literários — ela transita com invejável liberdade pela narrativa, pela poesia e pelo ensaio. O diálogo franco com a tradição literária é um dos procedimentos mais característicos de sua obra. Seu primeiro livro publicado no Brasil, em 2017, foi "O método Albertine" (Jabuticaba), que investiga o desejo a partir de "Em busca do tempo perdido", o romance monumental de Marcel Proust.


Contudo, sua conversa mais frequente é mesmo com os gregos. Ela já verteu Safo, Ésquilo e Sófocles para o inglês e ensinou os clássicos em universidades no Canadá e nos Estados Unidos. No romance em versos "Autobiografia do vermelho" (Editora 34), uma de suas obras mais conhecidas, ela reinventa a história de Gerião, monstro mitológico cujo gado foi roubado por Hércules num de seus 12 trabalhos. Carson imagina Gerião como um rapaz vermelho, alado e gay do século XX, vivendo na América do Norte e sofrendo por amar o filho de Zeus. 

A obra ganhou duas adaptações teatrais no Brasil: a de Bruno Siniscalchi, em 2024, e a de Daniela Thomas no início deste ano. "Autobiografia do vermelho" era um dos livros preferidos de Susan Sontag (1933-2004). "Ela é uma das poucas escritoras de língua inglesa de quem eu leria qualquer coisa. Se uma revista publica algum texto dela, eu a compro automaticamente", disse a autora de "Contra a interpretação".

Carson também é famosa por ser avessa a entrevistas. Em 2013, ela disse ao New York Times que, anos atrás, teve uma experiência ruim ao ver um perfil seu na imprensa e prefere não passar por isso novamente. Às vezes, ela topa receber perguntas por escrito e devolve respostas tão fascinantes como seus versos. Certa vez, uma repórter do jornal britânico The Guardian perguntou se ela tinha alguma "definição pessoal de poesia". Ela respondeu: "Se prosa é uma casa, poesia é um homem pegando fogo atravessando bem rápido a casa." 

Em abril deste ano, concordou em responder três perguntas do GLOBO sobre "Vidro, ironia e deus", obra de 1995 que estava sendo lançada no Brasil pela Relicário, e explicou por que o diálogo com outros autores é um catalisador de sua literatura: 

— O pensamento começa com frases para mim. Frases dos outros geralmente são melhores, porque são inesperadas. Ou porque propõem um ângulo diferente, sacodem ou racham a superfície. Assim eu consigo encontrar um caminho.

Voz singular

"O ensaio de vidro", poema que abre o livro, é narrado por uma mulher que se instala na casa da mãe, no interior, enquanto tenta se recuperar do término de um relacionamento. Encontra conforto ao se debruçar sobre a vida e a obra de Emily Brontë (1818-1848), autora de "O morro dos ventos uivantes". "Sinto que estou me transformando em Emily Brontë", diz ela. Tradutora de "Vidro, ironia e deus", a escritora Adriana Lisboaafirma que Carson é uma das vozes mais "singulares" da literatura contemporânea.

— Ela não apenas transita livremente entre os gêneros, mas também faz o que, para mim, é a marca da grande literatura: combina a sofisticação do pensamento com uma escrita de aparente simplicidade. A escrita de Carson é límpida, concisa e muitas vezes desconcertante — disse Adriana ao GLOBO após o anúncio do Nobel. — Seus textos falam de filosofia, mitologia e poesia e também da experiência cotidiana. Tudo isso aparece sem nenhuma hierarquia e numa linguagem que dispensa o ornamento e tira sua força justamente da precisão expressiva e de associações inesperadas. 

Foto de Anne Carson recebendo a notícia de que venceu o Prêmio Nobel de Literatura 2026 — Foto: Reprodução
Foto de Anne Carson recebendo a notícia de que venceu o Prêmio Nobel de Literatura 2026 — Foto: Reprodução

Carson tem um público cativo no Brasil e figura no catálogo de quatro editoras diferentes. Ela estreou na literatura em 1986, com "Eros, o doce-amargo", resultado de sua tese de doutorado. A obra adianta as principais características da literatura da canadense: a investigação da natureza do desejo e o trânsito entre diferentes gêneros e áreas do saber (o livro recorre à filosofia, à teoria literária e à poesia). O título é emprestado de Safo, poeta da Grécia Antiga. "Safo foi a primeira a chamar Eros de 'doce-amargo'. Ninguém que já se apaixonou discorda. O que significa essa palavra?", pergunta a autora, que relaciona a pulsão erótica não só ao desejo sexual, mas também à linguagem e ao conhecimento. "Parece haver alguma semelhança entre o modo como Eros age na mente de quem ama e o modo como o conhecimento age na mente de quem pensa", arrisca a escritora.


Em 2012, ela publicou sua tradução de "Antígona", a mais célebre tragédia de Sófocles. Nessa obra, lançada em agosto no Brasil pela Bazar do Tempo, Carson combina suas vocações de classicista e de narradora: sem abrir mão da força do original, ela reinventa os ritmos, as imagens e as vozes do texto, aproximando-o da sensibilidade contemporânea. Sua versão também explicita o dilema de Antígona: o confronto entre a lei do Estado (Creonte é retratado como um tirano brutal) e a consciência individual, o luto e a responsabilidade de honrar os mortos. Carson também incluiu um personagem novo na história, Nick, já anunciado no título, figura silenciosa que nunca se afasta da ação. 

Os outros títulos da canadense publicados no Brasil são: "Falas curtas"(Relicário), "Sobre aquilo em que eu mais penso" (Editora 34) e "A beleza do marido: um ensaio ficcional em 29 tangos" (Bazar do Tempo). Em 2027, a 34 vai lançar "Wrong Norma" (Norma errada), livro mais recente de Carson, que reúne 25 textos ordenados de forma “errática”, de acordo com a autora, e que abordam os mais diversos temas, como a literatura de Gustave Flaubert, a pobreza, a água e Guantánamo. A obra foi premiada pelo Círculo Nacional de Críticos Literários dos Estados Unidos. 

Um novo livro de Carson está previsto para sair em inglês em fevereiro de 2027: "Beware the man whose handwriting sways like a reed in the wind" ("Cuidado com o homem cuja caligrafia oscila como um junco ao vento". A autora apresentou a obra como "um ensaio sobre mãos e escrita à mão". "Penso na escrita à mão como uma maneira de organizar o pensamento em formas. Gosto de formas. Gosto de organizá-las. Mas, devido a alterações neurológicas recentes no meu cérebro, percebo que as formas se desmancham diante de mim. Não consigo cumprir com elegância minha responsabilidade para com as formas. Ainda assim, ofereço o que vem a seguir na esperança de que não lhes pareça desordenado ou deprimente", afirma Carson. Ainda não há informações sobre a publicação do livro no Brasil.

No ano passado, num texto publicado na revista literária London Review of Books, ela revelou ter começado a fazer aulas de boxe três vezes por semana para tratar sintomas de Parkinson. "Quanto mais aprendo sobre a doença de Parkinson, mais a vejo como uma luta constante contra uma correnteza implacável", escreveu. 

Jornada espiritual

A pesquisadora Carmel da Silva Ramos, doutora em filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) afirma que a obra de Carson “propõe uma retomada singular da tradição”. 

— Com destreza, transforma seus emblemas, operando tanto com o ofício de erudita (o saber técnico adquirido em sua formação helenista) quanto com o de poeta (o exercício criativo que faz as palavras derivarem umas das outras) — afirma a pesquisadora, que prepara um livro sobre filosofia e literatura a partir da escrita de mulheres a ser publicado pela Papéis Selvagens. — É uma forma de pensar e de escrever que remete à tradução como possibilidade de criação no interior de uma norma (a linguagem, o cânone, as formas estabelecidas) e capaz de unir imaginação e rigor. Essa posição de intrusa (nem inteiramente acadêmica, tampouco redutível ao trabalho literário), expressa em uma metodologia plural, é o que torna sua obra tão inconfundível. 

A pesquisadora Carmel da Silva Ramos, doutora em filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), destaca que, na obra de Carson, a autobiografia "não ocupa o lugar da armadilha de um eu transparente, acessível à escrita, mas sim o de um eu que, quanto mais se dá, mais se retira", como a própria escritora afirma no ensaio "Desejo e sujeira: uma fenomenologia da poluição feminina na Antiguidade". 

— Anne Carson propõe uma retomada singular da tradição. Com destreza, transforma seus emblemas, operando tanto com o ofício de erudita (o saber técnico adquirido em sua formação helenista) quanto com o de poeta (o exercício criativo que faz as palavras derivarem umas das outras) — afirma a pesquisadora, que prepara um livro sobre filosofia e literatura a partir da escrita de mulheres a ser publicado pela Papéis Selvagens. — É uma forma de pensar e de escrever que remete à tradução como possibilidade de criação no interior de uma norma (a linguagem, o cânone, as formas estabelecidas) e capaz de unir imaginação e rigor. Essa posição de intrusa (nem inteiramente acadêmica, tampouco redutível ao trabalho literário), expressa em uma metodologia plural, é o que torna sua obra tão inconfundível.

Ao GLOBO, Carson também falou sobre o que há de autobiográfico na jornada espiritual narrada em "Vidro, ironia e deus". "Minha religião não faz sentido/ e não me ajuda/ por isso eu a pratico", diz um dos poemas do livro, que ecoa o Antigo Testamento ao descrever o quão terrível pode ser um encontro com o divino. Os antigos hebreus temiam ser consumidos pela presença de Deus. A Bíblia conta que o profeta Isaías se desespera ao ver a glória de Deus encher o templo: "Ai de mim! Estou perdido!" Nos versos de Carson, o profeta come o pão que o diabo amassou nas mãos do Altíssimo: "Isaías amara Deus e agora seu amor tinha se transformado em dor." 

— Eu buscava as tradições místicas para compreender estados de espírito, os humores que dominam nossa felicidade cotidiana e muitas vezes são tão insignificantes que desaparecem sem deixar rastro — recordou a autora. — Talvez eu quisesse atribuir uma causa mais importante para o sofrimento que sentia na época. Acabei percebendo que essa não era uma maneira legítima de abordar os místicos. 

Antes de Carson, dois canadenses haviam sido laureados pela Academia Sueca: Saul Bellow (1915-2005), em 1979 e Alice Munro (1932-2024), em 2013. Carson é a 19ª mulher a vencer o Prêmio Nobel de Literatura e sucede o húngaro László Krasznahorkai.

O GLOBO




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