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sábado, 20 de novembro de 2021

Idea Vilariño / Constante despedida

Foto de Karl Blossfeldt

Idea Vilariño
CONSTANTE DESPEDIDA

Estes dias
os outros
os de nuvens tristíssimas e imóveis
com cheiro de madressilvas
e um trovão longínquo.
Estes dias
os outros
os de ar sorridente e distâncias
como um pássaro vermelho no arame.
Estes dias
os outros
este amor desgarrado pelo mundo
esta diária constante despedida.


segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

“Quando penso em você…”/ conheça a polêmica de plágio que envolve Cecília Meireles e Raimundo Fagner

Cecìlia Meireles

“Quando penso em você…”: conheça a polêmica de plágio que envolve Cecília Meireles e Raimundo Fagner



fagner
Raimundo Fagner lançou “Canteiros” em 1973, mas só incluiu Cecília Meireles como coautora quatro anos mais tarde
“Quando penso em vocêêêê, fecho os olhos de saudaaaade…” Se você nunca sentiu uma dorzinha de cotovelo ao ouvir Fagner interpretando Canteiros, sorte a sua. Se sentiu, pense duas vezes antes de colocar a culpa no cantor e compositor cearense. É que esse verso (e os seguintes), na verdade, não foi exatamente uma criação dele. A estrofe em questão é inspirada no poema Marcha, escrito por Cecília Meireles. A autora carioca, aliás, estaria completando 113 anos nesta sexta-feira, 07 de novembro.
Explicando: Fagner lançou Canteiros em 1973, como faixa do seu disco de estreia. Este não fez muito sucesso e acabou sendo retirado do comércio. No entanto, com o sucesso posterior da canção Revelação, o LP foi redescoberto e aquela música tornou-se um hit. Pouco antes disso, em 1977, o cantor havia registrado Cecília Meireles como coautora da letra, o que, no entanto, não impediu uma ação judicial movida pelas filhas da poetisa.
Em 06 de novembro de 1979, um dia antes da data de aniversário de Cecília, Fagner admitiu, em juízo, que havia tentado fazer uma adaptação do poema Marcha. Em 1983, as filhas da poetisa venceram a ação judicial, cabendo ao cantor, às Edições Saturno e às gravadoras Polygram, Polystar, Polifar o pagamento de uma indenização de 101 mil cruzeiros, por violação de direitos autorais. A Polygram, entretanto, continuou resistindo e apelou ao Supremo Tribunal Federal.
vida-cecilia
Cecília Meireles
O litígio se arrastou até 1999, quando a gravadora Sony Music fez um acordo com as herdeiras de Cecília Meireles, envolvendo a regravação da música Canteiros, no primeiro álbum ao vivo de Raimundo Fagner, que viria a ser lançado no ano seguinte.

https://www.youtube.com/watch?v=yxWbSk7yGO0
Já que tudo acabou bem, vamos aproveitar a música de Fagner e a lírica de Cecília Meireles, reconhecendo o melhor de cada um. Confira o poema Marcha e o vídeo de Canteiros a seguir.
Quando penso no teu rosto, fecho os olhos de saudade
Tenho visto muita coisa, menos a felicidade
Soltam-se meus dedos tristes
Dos sonhos claros que invento
Nem aquilo que imagino
Já me dá contentamento
.
Gosto da minha palavra pelo sabor que me deste
Mesmo quando é linda, amarga
Como qualquer fruto agreste.
Mesmo assim amarga, é tudo que tenho
Entre o sol e o vento.
Meu vestido, minha música,
Meu sonho, meu alimento


terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Hilda Hilst / Contra o medo de nomear o corpo humano da cintura para baixo

Hilda Hilst em sua casa em Campinas


Hilda Hilst, contra o medo de nomear o corpo humano da cintura para baixo

Flip 2018 homenageia a poetisa, que em vida foi considerada uma escritora hermética



São Paulo 
5 DEZ 2017 - 16:27 COT


De Hilda Hilst já se disse que era temperamental. Completamente avessa a refreamentos ou moderações, vivia apetites e paixões sem reservas. Não é necessário mais que um contato breve com sua obra para que se perceba isso. Poetisa, dramaturga, romancista, escreveu incansavelmente sobre amor, morte, loucura, transcendência e sexo. Em vida, foi tachada de autora difícil, hermética. Enxergava os comentários sobre esse suposto hermetismo, contudo, como resultado do fato de que ela não fazia o que se esperava de uma mulher – não escrevia sobre o que se devia e nem vivia como se devia. Colocou a literatura na frente de tudo, não constituiu família, viveu mil amores.



Nasceu em 1930, em Jaú, no interior de São Paulo, morreu também no interior, em Campinas, em 2004. Nos últimos 13 anos – como prova irônica de que estava certa quando disse que “parece que os críticos adoram escritor morto, você tem que morrer para ser lembrado” –, começou a ganhar destaque contínuo. Agora, será a homenageada do maior festival de literatura do Brasil, a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que acontecerá entre 25 e 29 de julho de 2018. A curadora do evento, Josélia Aguiar, vê, apesar de todas as diferenças evidentes – ele um cronista do social, ela mais existencial –, pontos de contato entre Hilst e o homenageado da última edição da Flip, o escritor carioca Lima Barreto.
Para além do fato de que ambos tiveram reconhecimento limitado em vida – Hilst ironizava dizendo que seus leitores faziam parte de uma organização secreta, como a KGB –, há o fato dos dois terem se entregado completamente à escrita. “O Lima Barreto costumava dizer que ou a literatura o matava ou lhe dava o que ele pedia. A frase serve também para a Hilda”, comenta Aguiar. Além disso, são figuras transgressoras. “Lima, um homem negro, intelectual e com ideias politicamente fora de seu tempo. Hilda, uma mulher livre, que viveu e escreveu como quis”, complementa a curadora.
De sobrenome quatrocentão, Hilda de Almeida Prado Hilst lançou seu primeiro livro de poesias, Presságio, aos 20 anos. Aos 22, formou-se em Direito no Largo São Francisco. Em uma reportagem do jornalista Humberto Werneck, publicada no Jornal do Brasil, em 1990, a escritora Lygia Fagundes Telles descreve assim Hilst, sua amiga mais íntima: “um tipo magrinho, esgalgado, parecendo uma folha de avenca, que chamava a atenção e escandalizava São Paulo, e não apenas por fumar de piteira e esbanjar palavrões”, mas também por ser emancipada e tomar à frente quando o assunto era conquistas amorosas – tudo o que uma moça da sociedade não fazia.
Menos pelo seu comportamento e mais pelo que escrevia, contudo, foi que encontrou dificuldades. “Se Hilda fosse homem já a teriam saudado como um de nossos escritores mais criativos”, dizia a escritora e amiga Heloneida Studart. Some-se a isso o fato de que a temática de seus textos não era usual e o estereótipo de “escritora difícil” está pronto. “Suas influências são interessantes, tem profundo contato com Fernando Pessoa, Rainer Maria Rilke e Saint-John Perse, mas no Brasil encontra pouco paralelo. É algo mais parecido com Cecília Meirelles, que adorava seu trabalho, mas muito diferente de João Cabral de Mello Neto, por exemplo”, diz a curadora da Flip.
Aos sete anos, descobriu que o pai, um fazendeiro com pendores poéticos, era esquizofrênico. A doença paterna perseguiu Hilst e sua escrita. “Sempre me pergunto por que Freud privilegiou Édipo e não Mirra, a incestuosa, que embriagou o pai e engravidou dele, parindo Adônis. Sempre procurei meu pai. Sempre quis ter alguma semelhança com ele”, disse em entrevista ao Jornal do Brasil, em 1989. A relação (ou falta de, já que nunca conviveu com o pai são) também era uma constante em sua literatura, assim como o papel que deveria ocupar na sociedade. “Aflição de ser eu e não ser outra./ Aflição de não ser, amor, aquela/ Que muitas filhas te deu, casou donzela/ E à noite se prepara e se adivinha”, escreveu em 1959, no livro Roteiro do Silêncio.

A Obscena Senhora Silêncio, documentário dirigido por Leandra Lambert e Alexandre Gwaz, no final da vida da escritora, em sua casa em Campinas.

Sua devoção à escrita era total – “a única coisa que não é permitida na literatura é mentir”, disse em mais de uma ocasião –, sua produção febril. São 28 livros. E ainda há coisa inédita. Prova disso é que em 1966, com pouco mais de 30 anos, abandonou o círculo social e cultural de São Paulo e se mudou para a Casa do Sol, sua chácara em Campinas, onde viveu até o fim da vida e onde hoje está todo seu acervo. “O espaço foi desenhado todo como se fosse um convento, com a única intenção de estimular a literatura e a escrita”, diz Aguiar. Lá, Hilst, às vezes com mais de uma dezena de cachorros, levou uma vida afastada dos círculos literários da capital paulista, mas permaneceu de portas abertas para receber amigos e aspirantes a escritores.


No começo dos anos 1990, deu uma guinada e passou a escrever textos que foram tachados, muitas vezes, de pornografia. Críticos que sempre apoiaram seu trabalho, como Leo Gilson Ribeiro – “Hilda é a mais perfeita escritora viva em língua portuguesa”, “Há vários anos representa a mais abissal e deslumbrante prosa poética do Brasil posterior à genialidade de Guimarães Rosa” –, foram pegos de surpresa com a virada. À imprensa ela declarava: “Eu não vou escrever mais nada, a não ser grandes e, espero, adoráveis bandalheiras”. Assim, por exemplo, saiu o satírico Caderno Rosa de Lori Lamby, o diário de uma menina que, com apenas oito anos e incentivada por sua mãe, passa a se prostituir.
“Toda essa discussão sobre nudez na TV e coisas assim parecem coisa vitoriana. Penso sempre em Theodor Schroeder, que diz que não existe um quadro ou livro pornográfico, existe é um olhar diante daquilo. Todo mundo tem medo de nomear o corpo humano da cintura para baixo, isso é um absurdo”, disse em entrevista ao amigo Caio Fernando Abreu ao comentar as críticas que recebeu quando mudou o tom de sua obra. Segundo Aguiar, com Hilda nada é literal e, por isso, esse é o melhor momento do país para que ela seja homenageada. “Com ela, as coisas são complexas, menos delicadas, nunca óbvias, e não trazem respostas prontas”.


FINANCIAMENTO DA FLIP


A última edição da Flip foi marcada por uma diminuição de seu orçamento e, por isso, muita coisa mudou durante o evento. A principal mudança, foi espacial. Antes, as mesas de discussão entre os escritores acontecia em uma tenda externa, criada especialmente para o evento. Desta vez, tudo aconteceu dentro da Igreja da cidade, o que acabou por criar uma aproximação entre autores e público. Agora, a Flip busca novas formas de financiamento e, para isso, criou um Programa de Patronos às pessoas físicas interessadas em contribuir com o evento. 





segunda-feira, 22 de maio de 2017

Elizabeth Bishop / Poeta, lésbica, modernista e brasileira de adoção


Elizabeth Bishop

Poeta, lésbica, modernista e brasileira de adoção: como o mundo está redescobrindo Elizabeth Bishop

Uma biografia e uma peça de teatro recuperam a figura da poeta norte-americana, que construiu parte de sua obra no Rio


MARTA REBÓN
9 ABR 2017 - 19:18 COT



Elizabeth Bishop, fotografada aos 43 anos na fazenda Samambaia.
Elizabeth Bishop, fotografada aos 43 anos na fazenda Samambaia.

Em 1951, aos 40 anos, a poeta norte-americana Elizabeth Bishop parte de Nova York em um cargueiro com o desejo de dar a volta ao mundo. Não é uma simples turista em busca de prazeres e inspiração. Ao se expatriar, deseja soltar lastro, escapar de um pesado fardo cheio de episódios de depressão e alcoolismo, alternados com fortes ataques de asma e surtos de eczemas, que ameaçam truncar sua carreira como escritora. A competitiva cena literária nova-iorquina, somada à solidão que ali a invade, choca-se com seu extremado acanhamento e fragilidade emocional, marcados pela ausência de um pai que, morto prematuramente, não chegou a presenciar seu primeiro aniversário, e de uma mãe que, afundada pela dor, não tardou a ser internada num manicômio e a desaparecer por completo da sua vida.


Anotações que mostram o rigor com que Bishop tratava seus poemas.
Anotações que mostram o rigor com que Bishop tratava seus poemas.


A partir de então, Elizabeth ficará às vezes sob os cuidados da família paterna, e às vezes da materna, sem chegar a encontrar o calor de um verdadeiro lar. Na verdade, quando vive com as irmãs de sua mãe, seu “sádico” tio a submete a abusos que só confessará, décadas mais tarde, ao seu psiquiatra, como revela a recente biografia Miracle for Breakfast (“milagre no café da manhã”), de Megan Marshall. Não é de estranhar que, numa entrevista à The Paris Review, Bishop tenha confessado que quando menina se sentia como uma convidada. “Acho que sempre me senti assim”, dizia. Marshall, ex-aspirante a jovem poeta e ex-aluna dela em Harvard em 1976, conta por email que Bishop “não acreditava que se pudesse ensinar a escrever, e dizia que os poemas, no seu caso, começavam como um mistério e uma surpresa, e que os concluía à base um de grande esforço e de árduo trabalho”.
O navio SS Bowplate, cujo destino era a Terra do Fogo, faz sua primeira escala no porto de Santos, e a escritora a aproveita para visitar, no Rio do Janeiro, um compatriota dela e sua mulher, Maria Carlota Costallat de Macedo Soares, a quem havia conhecido quatro anos antes em Manhattan. A viagem toma então uma direção imprevista: obrigada a passar semanas de cama por causa de uma intoxicação virulenta, acabará por permanecer mais de quinze anos no Brasil. Sua anfitriã, a quem todos chamam de Lotta, nascera em Paris e era filha de um magnata da imprensa carioca.


Lotta de Macedo Soares, companheira de Elizabeth Bishop durante 14 anos.
Lotta de Macedo Soares, companheira de Elizabeth Bishop durante 14 anos.


Cosmopolita e envolvida na vida cultural e política do seu país, abre-lhe de par em par as portas da sua impressionante fazenda Samambaia, em Petrópolis, 70 quilômetros ao norte do Rio. Quando a relação entre ambas se estreita, Lotta, arquiteta e paisagista autodidata, manda construir um estúdio para a poeta. Suspenso no ar como um mirante de vidro, ergue-se de costas para a casa, alheio à azáfama doméstica e arrulhado pelas águas de um riacho.
O escritor Michael Sledge reconstrói em A Arte de Perder (Leya, 2011) a relação sentimental entre as duas mulheres. Uma história vivida com intensidade e com desenlace trágico: Lotta morreu de overdose – não se sabe se acidental – durante uma visita à sua já ex-amante em Nova York, em 1967. Durante os 14 anos de vida comum, a escritora cria memoráveis peças em prosa, nas quais recupera, por exemplo, os ecos da sua difícil infância na Nova Escócia (Canadá) e em Massachusetts; publica sua segunda coletânea poética, Uma Primavera Fria, prêmio Pulitzer em 1956, e concebe um terceiro, Questões de Viagem (1965), no qual lança a pergunta: “É falta de imaginação o que nos obriga a vir / a lugares imaginados, em vez de ficar em casa?”. A paisagista carioca, por sua vez, trabalha infatigável, durante os últimos anos do relacionamento, para dar à sua cidade o imponente Aterro do Flamengo: um projeto exaustivo, que cobrará um alto preço pessoal.


Parte da casa em que Bishop e Lotta de Macedo Soares viveram juntas.
Parte da casa em que Bishop e Lotta de Macedo Soares viveram juntas.


Tudo o que Lotta tem de expansiva e segura, Bishop tem de tímida e introspectiva, mas da combinação desses polos opostos surge um vínculo que transformará a vida e a obra de ambas. Para Bishop, isso representou fincar raízes pela primeira vez em um lugar e se permitir ser merecedora do amor de alguém: "Às vezes, parece que só as pessoas inteligentes são estúpidas o suficiente para se apaixonar, e que só as estúpidas são inteligentes o suficiente para se permitirem ser amadas", escreveu em um caderno. Quando seus caminhos se cruzam -- Bishop já havia publicado um primeiro livro de poemas, Norte e Sul. Sledge observa que sua "escrita era um trabalho tão rigoroso que deixar um poema em um ponto aceitável podia levar anos".
Mais do que criar um mundo, como fazem muitos poetas, Bishop descreve com sobriedade o que vê, sem nunca ceder ao sentimentalismo, que detestava, e parece encorajar sossegadamente o leitor ao observá-lo mais de perto. Sua poesia é de percepção, na qual as palavras transmitem uma verdade transitória, nunca absoluta, sem entrar em detalhes em confissões ou verter frases categóricas. Em sua obra convergem, estranhamente, o impessoal com o íntimo. Bishop evitava os rótulos, quaisquer fossem eles: mulher, lésbica, modernista ou norte-americana. Sua dúzia de histórias e quatro livros de poemas, um por década desde seu começo, são um bom exemplo da exigência com a qual enfrentava cada composição.


La poeta, à esquerda, com o arquiteto Harold Leeds, o diretor Wheaton Galentine e Lotta de Macedo Soares.
La poeta, à esquerda, com o arquiteto Harold Leeds, o diretor Wheaton Galentine e Lotta de Macedo Soares.


Megan Marshall, sua biógrafa, acredita que a popularidade da escritora continuará aumentando e menciona, entre outros exemplos, a recente obra de teatro de Sarah Ruhl, Dear Elizabeth, que condensa 800 páginas de relacionamento epistolar entre Bishop e o também poeta Robert Lowell. Em um de seus melhores poemas, Bishop nos lembra de algo muito simples, embora essencial, que viver é aprender a conjugar o verbo perder: "Perca um pouco a cada dia. / Aceite austero, a chave perdida, a hora gasta bestamente. / A arte de perder não é nenhum mistério".


A poetisa com a cozinheira e escritora culinária Rosemary Manell.
A poetisa com a cozinheira e escritora culinária Rosemary Manell.


Marshall aponta que Bishop nos "mostra que a perda é uma experiência universal, e, ao escrever tão bem sobre esse tema, consegue criar, paradoxalmente, algo que perdura". Acrescenta que a poeta era amante do espanhol, idioma que aprendeu quando adulta e ao qual se sentia unida "já que passou vários meses durante a Segunda Guerra Mundial no México, onde conheceu Pablo Neruda, e foi então que deve ter sabido da existência do poeta Miguel Hernández, cuja Elegia tentou traduzir em 1970, e que certamente influenciou a composição de seu imortal Uma Arte, sua elegia".


sábado, 21 de janeiro de 2017

Os últimos dias de Pablo Neruda, segundo seu motorista

Os últimos dias de Pablo Neruda, segundo seu motorista

Manuel Araya, vítima da ditadura de Pinochet, denunciou em 2011 o assassinato do Nobel. “Deram-me uma injeção e estou queimando por dentro”, disse-lhe o poeta


WINSTON MANRIQUE SABOGAL
Madri 9 NOV 2015 - 18:09 COT



Manuel Araya, que foi motorista de Neruda, em Isla Negra.  EL PAÍS


Cerca de quatro horas antes de Pablo Neruda morrer de um “câncer na próstata”, no domingo 23 de setembro de 1973, o homem que cuidava dele não pôde cumprir a sua última missão, interrompida pelos militares: comprar-lhe “um medicamento que, supostamente, aliviaria a dor do poeta”. Quarenta e dois anos depois, Manuel Araya considera que tem de cumprir, ainda, uma última missão para Neruda: “Ajudar a provar que ele foi assassinado”. Ele está convencido de que o poeta não morreu pelas causas divulgadas oficialmente. É a única testemunha direta viva dos últimos dias do Nobel de Literatura, naqueles momentos iniciais do grande túnel que foi a ditadura de Augusto Pinochet, iniciado em 11 de setembro de 1973.
Manuel Araya tinha 27 anos naquele domingo, véspera de uma viagem de Neruda ao México. Dias que ele recorda agora, ao telefone, falando do Chile, aos 69 anos. Por volta das seis e meia da tarde, ele saiu correndo da Clínica Santa María, de Santiago do Chile, pegou o Fiat 125 branco e foi comprar o medicamento. Quatro militares, portando metralhadoras, o fizeram parar. Araya lhes explicou quem ele era: “Sou o secretário, motorista e a pessoa que cuida do senhor Pablo Neruda, o Nobel de Literatura, e estou indo comprar um medicamento para ele com urgência”. Como resposta, fizeram-no descer do veículo, insultaram-no, aplicaram-lhe golpes e deram-lhe um tiro em uma perna... Depois disso, levaram-no a uma delegacia de polícia, onde foi interrogado e torturado, para depois deixa-lo no Estádio Nacional, para onde a ditadura enviava os opositores a fim de lhes aplicar maus tratos ou fazer com que desaparecessem.
Manuel Araya, em Isla Negra, neste mês (20159
Foto de  



Passou a noite ali. No dia seguinte, o arcebispo Raúl Silva Henríquez o reconheceu e, depois da surpresa inicial, lhe disse: “Manuel, veja só, o Pablito morreu esta noite, às dez e meia”. Araya exclamou: “Assassinos!”. O arcebispo pediu aos militares para tirarem o motorista do Estádio. O que só veio a acontecer 42 dias mais tarde, com ele usando roupas emprestadas, uma barba longa e pesando 33 quilos. Seu calvário estava apenas começando.

Única testemunha

Desde a morte de Pablo Neruda até hoje, Manuel Araya se manteve praticamente à sombra, em silêncio. Talvez tenha escapado pela segunda vez da morte quando, em 22 de março de 1976, seu irmão Patricio desapareceu, segundo ele, por terem-no confundido com ele. Nunca mais se soube desse irmão. Para reforçar sua tese, ele recorda que também o secretário pessoal de Neruda, Homero Arce, foi assassinado, em 1977. “Sumiram com todos os colaboradores de Neruda. Eu sou a parte principal do que ainda continua vivo”.
“Certo dia, voltei para Santiago para não continuar expondo minha família. Vivia quase escondido na casa de alguns amigos. Não tinha carteira de identidade nem carta de motorista. Não conseguia trabalho, até que, em 1977, comecei a trabalhar como taxista. A ditadura acabou em 1990. Dois anos depois, comecei a trabalhar na Pullmanbus, no setor administrativo, até 2006, quando me aposentei.”
Seu contato com Matilde Urrutia, a terceira mulher de Neruda, falecida em 1985, se manteve. “Ela nunca quis falar sobre o assassinato. Rompi relações com ela por causa disso. Acabamos criando uma inimizade. Bati em muitas portas esse tempo todo. Inclusive na do presidente Eduardo Lagos. Ninguém me ouviu.”
Passou muitos anos correndo atrás de alguém que pudesse ouvir a sua versão, mas ninguém lhe deu ouvidos: “Nem os políticos, nem os veículos de comunicação. Talvez tivessem medo, não sei”. Até que um jornalista da revista mexicana Proceso publicou a sua história, em 2011. Depois disso, o Partido Comunista e Rodolfo Reyes, sobrinho de Neruda, entraram com um pedido de investigação a partir de seu testemunho. Em 2013, o corpo do escritor foi exumado, mas os médicos legistas não encontraram nele resquícios de envenenamento.
O caso voltou à tona com o lançamento da biografia Neruda. El Príncipe de los Poetas [Neruda, o príncipe dos poetas], do historiador alicantino Mario Amorós, cuja principal revelação foi noticiada em primeira mão pelo EL PAÍS na última quinta-feira: o relatório secreto do Programa de Direitos Humanos do Ministério do Interior, enviado em 25 de março de 2015 ao juiz Mario Carroza Espinosa, encarregado do processo. O documento, baseado em provas testemunhais e documentais, afirma que “é claramente possível e altamente provável a intervenção de terceiros” na morte do Nobel. Além disso, uma equipe internacional de legistas investiga a presença do estafilococo dourado no corpo do poeta. Trata-se de um germe que, alterado geneticamente e aplicado em doses elevadas, pode ser letal. A equipe científica definiu o prazo até março de 2016 para emitir um parecer sobre um caso sem precedentes: decifrar o DNA desse germe, detectar a sua presença e se ele foi alterado por alguma equipe militar, levando em consideração que a ditadura chilena usou armas químicas para eliminar pessoas, como admitiu Carroza Espinosa.

O golpe de Estado

Araya nasceu em 29 de abril de 1946, no hospital de Melipilla. Foi batizado como Manuel del Carmen Araya Osorio. Era o primogênito do casal Manuel e María, que teria treze filhos. Não terminou os estudos, mas com 14 anos se mudou para Santiago. Lá começou a trabalhar no Partido Comunista. Quando Salvador Allende foi indicado candidato à presidência, em 1970, Araya o acompanhou na campanha. Todos esses dias voltam agora à sua lembrança:
“Em 1972, quando Neruda retorna ao país, deixando a embaixada na França para ajudar Allende no caos que o Chile vivia, o Partido Unidade Popular me manda para ele. Passo a ser seu guarda-costas, seu secretário e seu chofer. Com ele vivi na casa de Isla Negra. Neruda tinha flebite na perna direita e às vezes mancava. Estava em tratamento de câncer de próstata, mas não estava agonizante. Era um homem de mais de cem quilos, robusto, de boa mesa e festas, e muito cordial e bom com as pessoas.”




HISTÓRIA DE UM CASO


Manuel Araya nasce em Melipilla (Chile), em 1946. Com 14 anos vai para Santiago. Começa a trabalhar no Partido Comunista.
Em 1970, participa da campanha de Salvador Allende à presidência.
Em 1972 é cedido a Pablo Neruda para desempenhar as funções de guarda-costas, secretário e motorista.
Em 11 de setembro de 1973, dia do golpe de Estado de Pinochet, está com Neruda em sua casa de Isla Negra.
Nos dia 12, um navio de guerra com canhões se instala em frente a Isla Negra, e a casa de Neruda é revistada.
No dia 19, Neruda chega à Clínica Santa María, em Santiago. No dia 22, o embaixador do México combina a ida do poeta para o seu país.
No dia 23, Neruda, segundo Araya, recebe uma injeção no estômago e morre seis horas depois.
Na noite do dia 23, Araya é levado a uma delegacia, onde é interrogado e torturado. Sai 42 dias depois. Vive semioculto.
Em 1977, começa a trabalhar como taxista.
Em 2011, Araya denuncia o assassinato na revista Proceso. O Partido Comunista e Rodolfo Reyes, sobrinho de Neruda, abrem um processo.
Em 2016, o juiz Mario Carroza Espinosa ditará o veredicto.

“Em 11 de setembro de 1973, quando Pinochet dá o golpe de Estado, estávamos em Isla Negra. Nesse dia ele ia fazer uma espécie de inauguração de Cantalao, uns terrenos que ele havia comprado, em El Quisco, onde queria construir uma residência para escritores do mundo todo. Mas às quatro da manhã escutei o sininho com que ele me chamava, para me dizer que acabava de escutar numa rádio argentina que um golpe de Estado estava sendo preparado. Nesse dia entram no palácio de La Moneda e assassinam Allende. Eu tinha afrouxado uns tubos da televisão para que ele não visse o que acontecia. Mas fica sabendo, claro. Todo o país entra em toque de recolher. Ficamos sem telefone. Isla Negra se enche de carabineiros. ‘Vão matar todo mundo’, dizia don Pablo. Falava da Guerra espanhola, do que Franco fez… Neruda se dava valor.”
“No dia seguinte, colocam um navio de guerra com canhões em frente a Isla Negra. O embaixador do México lhe oferece asilo. No dia 14 chegam os militares e revistam a casa. Ficamos assustados. Neruda fala com seu médico, o doutor Roberto Vargas Salazar, que lhe diz que em 19 de setembro vagaria o quarto 406 da Clínica Santa María. Os militares não queriam lhe dar o salvo-conduto, então ele precisou dizer que estava mal e que precisava sair para receber tratamento; a única forma de tirá-lo era por razões humanitárias.”
“Nos dia 19 viajamos de carro de Isla Negra a Santiago. Levamos umas cinco horas, quando o normal eram duas. Foi um dia horrível. Pararam-nos várias vezes. Em Melipilla nos fizeram descer e deitar no chão. Fizeram-nos passar medo. A perseguição foi terrível. Chegamos lá pelas seis da tarde. Não deixamos Neruda sozinho em nenhum instante. Todas as noites eu ficava dormindo sentado numa poltrona, e Matilde numa saleta da entrada principal do quarto.”
“Nos dia 22 lhe entregam o salvo-conduto e ele decide com o embaixador mexicano, Gonzalo Martínez Corbalá, viajar na segunda-feira, dia 24. Nesse mesmo dia 22 [o embaixador] o visita na Clínica Radomiro Tomic e lhe conta que Víctor Jara foi assassinado. Neruda se desespera."

Um domingo negro

"No dia seguinte, domingo, dia 23, ele me diz para ir a Isla Negra com La Patoja, como ele chamava Matilde, para trazer a bagagem. Vamos, e ele fica com sua meia irmã Laurita. Quando estamos quase de volta, às quatro da tarde, ele liga para a Hospedaria Santa Helena e pede que digam a Matilde que vá imediatamente para a clínica. Quando chegamos, vejo Neruda com a cara vermelha. ‘O que está havendo, don Pablo!', pergunto. ’Deram-me uma injeção no estômago e estou queimando por dentro’, me respondeu. Fui ao banheiro, peguei uma toalha, molhei-a e a coloquei sobre o estômago. No que estou fazendo isso entra um médico e me diz: ‘Como motorista, você precisa ir comprar Urogotán’. Eu não sabia o que era, só depois soube que era para a gota.”
Manuel Araya, na época em que trabalhava como motorista para Neruda.

Saiu e nunca pôde voltar

“Quando estou no carro, outros dois automóveis me interceptam. Descem quatro homens com minimetralhadoras e me golpeiam. Falam de tudo para mim: filho da mãe, da avó… Digo a eles quem sou. ‘Vamos matar os comunistas!’, gritavam. Levam-me para a delegacia, me interrogam e me torturam. Queriam que eu lhes dissesse onde estavam os líderes comunistas, e com quem Neruda se reunia. Digo a eles que só se reúne com escritores. No final me levam ao Estádio Nacional. No dia seguinte, o arcebispo Silva Henríquez me dá a notícia [da morte de Neruda].”
Em 2011, Manuel Araya diz que Pablo Neruda foi assassinado. Abre-se o processo. O cadáver é exumado em abril de 2013, e em novembro desse mesmo ano a equipe científica opina que não encontrou rastro de veneno. Em janeiro de 2015, a presidenta Michelle Bachelet designa advogados para que investiguem o caso no âmbito do Programa de Direitos Humanos do Ministério do Interior. Assim, em 25 de março enviam a conclusão das suas investigações ao juiz Mario Carroza Espinosa, que a incorpora ao sigilo do processo.
Manuel Araya espera o veredicto. Sua última missão com Pablo Neruda está cumprida. Foi ouvido. Em 2016, já com 70 anos, saberá como tudo termina. Agora no Chile é primavera, como naqueles dias de 1973, mas ele sente frio e afirma: “Estou mais tranquilo do que nunca”.