terça-feira, 6 de outubro de 2015

Vargas Llosa / Carmen Balcells / Vigília de armas por uma lutadora

Carmen Balcells
Poster de Triunfo Arciniegas

Carmen Balcells

Vigília de armas por uma lutadora

Carmen Balcells tirou das cavernas a atividade editorial espanhola, incitando-a a ser ambiciosa e se projetar por todo o vasto território da língua


FERNANDO VICENTE
Quando a conheci, nos anos 60, em um voo de Londres a Barcelona,Carmen Balcells usava um estranho coque na cabeça e uma blusa que parecia de abadessa. Muitas vezes depois disso eu caçoaria dela recordando esse traje. Nunca suspeitei naquela viagem que ela seria no futuro, além de minha agente literária, minha amiga mais íntima e querida.
Com a franqueza que sempre a caracterizou, me disse naquela ocasião que tinha cometido um erro ao aceitar a oferta de Carlos Barral para ser a agente literária da editora Seix Barral, porque a razão de ser desse ofício era defender os autores frente aos editores, e não ao contrário. Na segunda vez que nos vimos, não muito depois, ela já havia convencido Carlos a deixá-la sair e começava a operar de maneira independente como agente literária. Conseguiu, ato contínuo, que a Seix Barral anulasse o leonino contrato que eu havia assinado (sem lê-lo, claro) por meu primeiro romance, A Cidade e os Cachorros, cedendo aqueles direitos por toda a eternidade e concedendo à editora uma comissão de 50% sobre todas as traduções. Já havia começado esse longo combate que ela ganharia integralmente ao cabo dos anos e que mudaria para sempre a relação entre escritores e editores em todo o âmbito da nossa língua. E inclusive além: lembro-me muito bem do dia em que ela me ligou para contar que, pela primeira vez na sua história, a editora Gallimard, da França, havia aceitado assinar o contrato de um livro por apenas dez anos.

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Os editores, a princípio, odiavam-na e queriam acabar com essa intrusa que os enfrentava de igual para igual e os obrigava a competir para conseguir um original. Alguns ofereciam pagar antecipações melhores aos autores, com a condição de que prescindissem dessa intermediária temível. Chegaram a abrir um processo judicial contra ela, o qual, felizmente, perderam. Ela, nas negociações, “derramava vivas lágrimas” (como a princesa Carmesina de Tirant lo Blanc), mas não dava o braço a torcer e frequentemente, como dizem na Espanha, los ponía a parir [os exasperava]. Pouco a pouco, os editores foram compreendendo que o que Carmen fazia era algo mais importante do que defender os direitos de seus pobres escrevinhadores, ou seja, tirar das cavernas a atividade editorial espanhola, modernizá-la, incitando-a a ser ambiciosa e se projetar por todo o vasto território da língua. Muitas vezes, nessa fonte permanente de ideias que era Carmen, eles encontraram iniciativas fecundas para lançar novas coleções, fazer lançamentos de livros, melhorar seus formatos e conquistar novos públicos para a leitura. Sem “a moça de Santa Fe”, como às vezes se autodefinia, o chamado boom literário latino-americano simplesmente não teria existido, e seus autores teriam passado despercebidos do grande público.

Ser representado por Balcells constituía um privilégio, mas também aceitar seu matriarcado
Ser representado por Carmen Balcells – algo que chegou a ser o sonho de todos os jovens que começavam a escrever, na Espanha e na América Latina – constituía um verdadeiro privilégio, mas significava, também, aceitar seu matriarcado e, em todas as decisões importantes, obedecê-la sem reclamar. Mil vezes discuti com ela, e sempre perdi a discussão. Gritava, chorava, insultava, voavam livros e outros objetos pelo ar, e sempre terminava ganhando ela, porque, além disso, quase sempre tinha razão. Duvido que alguém, em seu tempo, tenha conhecido melhor, em seus detalhes mais secretos, a indústria editorial e utilizado melhor, sempre em benefício de autores e leitores, o mercado do livro.
Nunca conheci uma pessoa tão generosa como Carmen. Com seu tempo, com seu afeto, com sua inteligência e, claro, com seu dinheiro. Alguns dos escrevinhadores aos quais – literalmente – manteve, porque acreditava em seu talento embora seus livros tivessem só um punhado de leitores, a traíram, e essas decepções ela engolia com enorme elegância, mas a faziam sofrer muito. Metia-se na vida privada dos seus autores sem o menor escrúpulo, e sempre para o bem. Consolava viúvos e viúvas e, se necessário fosse, lhes buscava cônjuges substitutos; compunha matrimônios e casais, ou, se necessário fosse, os liquidava. Uma vez passou uma noite toda – sim, toda uma noite – tentando por telefone dissuadir um editor nova-iorquino que ligou para ela de Manhattan dizendo que iria se suicidar (fracassou no seu empenho, porque nesse mesmo amanhecer, após desligar o telefone, ele se enforcou num poste de luz).
A tragédia da sua vida foi a gordura. Fez dietas, frequentou clínicas – ela me levou pela primeira vez à Clínica Buchinger –, visitou médicos de meio mundo, e várias vezes chegou a baixar de peso. Mas nunca durava, porque, cedo ou tarde, o apetite, essa tênia insaciável, a vencia, e voltava a engordar. Uma noite, fez minha coluna vertebral gelar pela resposta inesperada que me deu quando lhe contei que, não sei com que motivo, levaram-me ao Palácio de la Zarzuela e me apresentaram ao rei Juan Carlos. Sua Majestade a primeira coisa que me perguntou foi: “Como é essa famosa Carmen Balcells, que, segundo dizem, percorre o mundo vendendo os autores espanhóis?”. “Veja só, Carmen, você ficou muito famosa.” Recordo seu estranho olhar, a careta no seu rosto, e a incrível frase, resmungada em voz muito baixa: “Quer que eu te confesse uma coisa? Teria dado tudo o que fiz e consegui para ser bonita, mesmo que fosse por um só dia”. “Está falando a sério ou tirando sarro da minha cara?” Então aparentou que ria: “Sim, sim, te juro, meu sonho sempre foi ser uma mulher-objeto”.

Morreu conforme sua lei, resistindo, combatendo, sozinha naquele dormitório repleto de originais
Já há um bom número de anos, todo tipo de mal se abatia sobre o seu corpo. Ela os combatia, com a pugnacidade e perseverança com que continuava negociando os contratos. Conservava a mente lúcida e a mesma capacidade de trabalho de sempre; já não podia caminhar e tinha que se meter em clínicas e passar horas e dias com médicos. Mas todas as outras horas continuava mantendo ativa e pujante, com horários enlouquecidos que duravam às vezes até a alvorada, esse escritório na Diagonal de Barcelona, ao qual tantos escrevinhadores e editores e leitores devemos tanto.
O último dia que a vi, na antevéspera da sua morte, estava eufórica, cheia de projetos e de piadas. Mas – visitava-a após dois meses e meio, talvez três – nunca a tinha visto tão acabada fisicamente, com tanta dificuldade para se acomodar na pequena cadeira de rodas, com aqueles súbitos ataques de tosse, aquela pele lívida, aquelas olheiras violáceas e o constante franzimento da boca. Tive então a certeza de que era a última vez que a via. Morreu conforme a sua lei, resistindo, combatendo, sozinha naquele dormitório repleto de originais que se propôs a ler até o final. Ninguém preencherá nunca o vazio que deixa no ofício que inventou e que levou a alturas desconhecidas até então. E ninguém poderá nos consolar nunca da tristeza em que deixa aqueles que a conhecemos e a amamos.

EL PAÍS




PESSOA


segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Como é a nova cadeira do físico britânico Stephen Hawking

Stephen Hawking

Como é a nova cadeira 

do físico britânico Stephen Hawking

Um sistema desenvolvido pela Intel permite ao cientista transmitir seus pensamentos mais rápido e realizar tarefas cotidianas em um décimo do tempo

Os pesquisadores de patologias motoras terão livre acesso à plataforma

  • Um remédio para a esclerose múltipla supera os primeiros testes


Depois de três anos de trabalho, engenheiros da Intel criaram a nova cadeira de rodas conectada com a qual Hawking poderá comunicar seu gênio. / INTEL
Se não fosse a tecnologia, as ideias do cientista mais brilhante da atualidade teriam ficado encerradas em sua cabeça. Acometido de uma doença que o deixou praticamente paralisado, o físico Stephen Hawking poderá, a partir de hoje, comunicar seus pensamentos e realizar tarefas cotidianas muito mais rápido graças à nova cadeira que a Intel desenvolveu para ele. O protótipo servirá de base para uma plataforma aberta a todos os que pesquisam meios de melhorar a vida dos portadores de tetraplegias e patologias motoras de origem neurológica.
Hawking estreou sua nova cadeira em um ato celebrado na manhã de terça-feira em Londres. O físico britânico, que sofre de esclerose lateral amiotrófica (ELA) desde os tempos de faculdade, poderá agora transmitir seus pensamentos com maior rapidez e realizar algo tão simples e essencial para ele como navegar na Internet em um décimo do tempo que levava na cadeira anterior.
Tanto o equipamento velho, que Hawking usou nas últimas duas décadas para se movimentar e se comunicar, como o novo são obra de engenheiros da Intel. Mas em questões de tecnologia, o tempo, esse fenômeno que tanto interessou ao genial físico, passa depressa demais e sua cadeira de sempre ficou antiquada e incapaz de aproveitar todos os avanços alcançados nos últimos anos.

A medicina não foi capaz de me curar, por isso dependo da tecnologia para poder me comunicar e viver”, diz Stephen Hawking
Com a nova cadeira, por exemplo, o sensor que atualmente tem na bochecha é detectado por um computador infravermelho montado em seus óculos, o que permite a ele selecionar caracteres em seu computador. A integração da tecnologia de software linguístico da companhia britânica SwiftKey, um aplicativo de texto inteligente, melhorou a capacidade do sistema para aprender com o professor, predizendo seus próximos caracteres e palavras.
Durante dois anos, engenheiros do Swiftkey trabalharam em um modelo de linguagem personalizada para Hawking. Em essência o sistema é similar ao do aplicativo para celulares. Aprende com o que já foi escrito em e-mails, mensagens ou posts em redes sociais para completar as palavras. No caso do físico britânico, a aprendizagem foi feita incluindo textos que o físico não publicou.
Segundo uma nota da Intel, com esse sistema, Hawking precisa escrever menos de 20% do total de caracteres comunicados. Até agora, por exemplo, para realizar uma busca na internet, o professor Hawking precisava seguir processos árduos, como fechar sua janela de comunicação, mover o cursor para abrir o navegador, movê-lo de novo à barra de busca e, por último, escrever os termos da busca. O novo sistema automatiza todos esses passos.
“A medicina não foi capaz de me curar, por isso dependo da tecnologia para poder me comunicar e para viver”, dizia o professor Hawking em Londres já instalado em sua nova cadeira.

Hawking e a responsável pelo projeto da cadeira ACAT. Intel
A plataforma foi batizada pela Intel como ACAT (sigla em inglês de Ferramentas Auxiliares Conscientes do Contexto). O projeto foi desenvolvido em três anos por uma equipe multidisciplinar de pesquisadores da Intel Labs, com a cooperação do próprio Hawking.
“Durante décadas, o professor Hawking se valeu da tecnologia para poder comunicar-se com o mundo. Entretanto, para estabelecer uma analogia, seu antigo sistema era como tentar utilizar aplicativos e sites modernos sem teclado nem mouse”, diz Wen-Hann Wang, vice-presidente da Intel e diretor executivo da Intel Labs. “Juntos, criamos uma experiência de comunicação superior em todos os níveis, que contribui para manter o professor independente em sua vida diária e que pode chegar a aumentar a independência de outros portadores”, acrescentou.
Plataforma aberta a todos
O físico britânico é o primeiro a contar com o ACAT, mas a intenção da Intel é que a plataforma seja aberta em janeiro a todos os pesquisadores e tecnólogos que trabalham no campo da deficiência.
Mais de 3 milhões de pessoas em todo o planeta sofrem de lesões edoenças motoras de origem neurológica. Estas patologias afetam as atividades musculares voluntárias, como as capacidades de falar, andar, deglutir e realizar todo tipo de movimentos corporais.

Os engenheiros trabalharam três anos na nova cadeira de rodas
A partir do ano que vem, o software ACAT estará disponível para que os pesquisadores possam criar soluções personalizadas para interações e comunicação mediante o tato, piscadas, movimentos de sobrancelhas e outros gestos.
Embora a deficiência nem sempre tenha estado na lista de prioridades de muitas empresas de tecnologia, durante a apresentação do novo equipamento, a principal responsável pelo projeto do ACAT na Intel Labs, Lamba Nachman, recordou que “o âmbito das tecnologias para deficientes é, com frequência, um campo de testes para as tecnologias do futuro”.



domingo, 4 de outubro de 2015

Stephen Hawking diz que os buracos negros não existem

Stephen Hawking

Stephen Hawking diz que os buracos negros 

não existem

A informação sobre a matéria e a energia estaria prisioneira apenas de forma temporária, e poderia emergir depois, embora de forma caótica



O físico Stephen Hawking concede entrevista coletiva à imprensa galega no Hotel Porta do Camiño, durante sua visita a Santiago da Compostela. / ANDRES FRAGA
Stephen Hawking e os buracos negros estão indissoluvelmente ligados. Não é que ele os tenha descoberto, nada disso, mas suas pesquisas e importantes contribuições sobre esses exóticos objetos previstos teoricamente e detectados (por seus efeitos) no universo remontam a trabalhos cruciais feitos há mais de quatro décadas. Agora, porém, ele afirma que os buracos negros não existem, pelo menos não como se entendem habitualmente. Nesta semana ele apresentou um artigo, uma pré-publicação que ainda não passou pelo processo normal de revisão científica, mas que imediatamente ganhou notoriedade. Assina-o sozinho, tem quatro páginas (uma de apresentação, duas de argumentos e a última de referências) e recebeu um título estranho:Conservação da Informação e Previsão Meteorológica para os Buracos Negros. Os físicos habitualmente apresentam seus artigos no site arXiv, onde são públicos, antes de submetê-los ao processo de avaliação por pares, algo obrigatório para a sua publicação oficial.
Um buraco negro, em princípio, é algo simples: um lugar em que a matéria e a energia são tão densas que sua gravidade curva o espaço-tempo, a ponto de que nada, nem mesmo a luz, pode escapar. Mas além disso, dadas as suas condições extremas, trata-se de um campo de provas predileto dos físicos teóricos para explorarem suas conjecturas.
O ponto crítico dos buracos negros que Hawking agora ataca é o denominado “horizonte de acontecimentos”, essa fronteira a partir da qual nada pode escapar da atração gravitacional, nem a luz. “Não há saída de um buraco negro na teoria clássica, mas a teoria quântica permite que a energia e a informação escapem dele”, explicou o próprio Hawking à revista Nature, que informa em sua seção de notícias on-line sobre esse último artigo do célebre físico britânico. Para explicar todo o processo, seria necessário obter finalmente a plena integração, sob uma teoria única, da gravidade com as outras duas forças fundamentais da natureza (ou seja, a relatividade geral, que rege o universo macroscópico, e a mecânica quântica, que rege o mundo subatômico), reconhece o cientista. Mas essa fusão há muito tempo desafia os esforços dos físicos, e, por enquanto, “o tratamento correto continua sendo um mistério”, acrescenta Hawking.
Em seu novo artigo, ele propõe que não há um horizonte de acontecimentos em torno do buraco negro, e sim um horizonte aparente, que “aprisiona a matéria e a energia apenas temporariamente, antes de emiti-la de novo, embora de forma caótica”, relata Zeeya Merali na Nature. A ideia de Hawking é que os efeitos quânticos ao redor do buraco negro provocam flutuações muito violentas para que essa fronteira definida possa existir.
O horizonte de acontecimentos, consequência direta da Teoria da Relatividade de Einstein, é a superfície ao redor do buraco negro que não pode ser superada por nada que esteja apanhado dentro dele, nem sequer a luz, razão pela qual nenhuma informação poderia sair de lá. Segundo a teoria clássica, num famoso experimento teórico um astronauta que caísse em um buraco negro atravessaria o horizonte de acontecimentos sem notar nada de especial, e a partir daí ficaria inicialmente esticado como um espaguete (a enorme atração gravitacional é maior nos seus pés do que na cabeça), para então acabar completamente esmagado no núcleo imensamente denso do buraco.
Mas, há alguns anos, o físico Joseph Polchinski alterou esse cenário propondo em troca um muro de fogo: segundo a teoria quântica, o horizonte de acontecimentos é na realidade uma região de energia muito alta, em que o astronauta acabaria torrado. Isso pressupõe um desafio à relatividade, recorda Merali na Nature, já que, segundo a teoria einsteiniana, o horizonte de acontecimentos do buraco negro “deveria passar despercebido” para o astronauta em queda. A alternativa que Hawking propõe, respeitando tanto a relatividade como a teoria quântica, é que os efeitos quânticos ao redor do buraco negro provocam uma violenta flutuação do espaço-tempo, o que impede a existência de uma fronteira bem definida, descartando assim o muro de fogo.
O horizonte aparente, que a luz não consegue superar para emergir do buraco negro, prossegue Merali, e o horizonte de acontecimentos seriam idênticos em um buraco negro que não variasse. Mas, se o buraco negro vai tragando mais material, o horizonte de acontecimentos cresce e se torna maior do que o aparente. Além disso, com a famosa radiação Hawking, proposta há quatro décadas, o buraco negro pode encolher, e o horizonte de acontecimentos seria menor que o aparente. Essa variação permitiria, na teoria, que a luz escape do buraco.
O físico britânico sugere que a fronteira real é o horizonte aparente, e que “a ausência de um horizonte de acontecimentos significa que não há buracos negros […] no sentido de regimes dos quais a luz não pode jamais escapar”, embora ele não especifique como esse horizonte de acontecimentos pode desaparecer.
“A ideia de um horizonte aparente não é completamente nova”, observa Jacob Aron na New Scientist. Ele e Roger Penrose, recorda, já utilizaram a relatividade geral para demonstrar que os dois horizontes eram idênticos. Agora, “nesse último artigo seu, [Hawking] está propondo que a mecânica quântica pode revelar que eles são diferentes”. Mas essa não é a maior novidade do seu último trabalho, considera Aron, e sim “a tentativa de utilizar essas ideias para resolver a paradoxo do muro de fogo: ao eliminar o horizonte de acontecimentos, mata-se também esse muro de fogo”. E isso significa que desaparece também a consequência óbvia do mesmo, a saber, que a informação não pode emergir de maneira alguma do sumidouro negro, porque o muro de fogo a destrói.
Assim, Hawking dá uma oportunidade para que a informação escape da matéria aprisionada no buraco negro. Mas com limitações: “A estrutura de um buraco negro imediatamente por baixo do horizonte é caótica, o que dificulta a compreensão da informação que possa sair dele, em outras palavras, a informação se perde, no sentido de que seria quase impossível interpretá-la, mas não está destruída”, afirma Aron. É como a previsão meteorológica – daí o título do artigo do físico britânico –, porque “não se pode predizer o tempo senão com alguns poucos dias de antecedência”.
Don Page, especialista em buracos negros da Universidade de Alberta, no Canadá, observa na Nature que o caos da informação no buraco negro é tal que tentar interpretá-la após sua saída seria pior do que tentar reconstruir um livro queimado a partir de suas cinzas.
O breve artigo do Hawking não inclui cálculos, salienta Aron, “o que torna difícil tirar conclusões sólidas”. A nova ideia será estudada e discutida, e inclusive pode ser que o físico britânico faça alguma nova aposta com seus colegas, como já fez no passado – e às vezes perdeu –a respeito de questões profundas da física teórica. O que está claro é que nem a gravíssima incapacidade física da qual sofre nem seus 72 anos recém-completados comprometem a mente desse grande cientista.

‘Minha breve história´

Com uma clara alusão ao seu famoso livro de física Uma Breve História do Tempo: do Big Bang aos Buracos Negros (1988), Stephen Hawking escreveu recentemente sua autobiografia com o título de Minha Breve História (Editora Intrínseca). O livro reúne suas recordações da infância na Londres do pós-guerra, seus estudos, seu trabalho e sua evolução intelectual, tudo isso salpicado de fotografias inéditas ou pouco conhecidas desse homem que não se rende nunca.
Ele acaba de completar 72 anos e continua trabalhando em sua adorada física teórica. Ocupou, até 2009, a cátedra Lucasiana de Matemática na Universidade de Cambridge (Reino Unido) e já escreveu ao longo de sua vida numerosos livros de divulgação, além de importantes trabalhos científicos.
Com 21 anos, Hawking foi diagnosticado com uma grave doença degenerativa, a esclerose lateral amiotrófica, que lhe provocou uma paralisia muscular progressiva. Apesar de a expectativa de vida de quem tem essa enfermidade ser geralmente de poucos anos, o cientista britânico sobreviveu, mesmo sofrendo problemas de saúde devastadores, como a traqueotomia que salvou sua vida em 1985, mas o deixou sem fala. A perspectiva de morrer cedo, recorda Hawking agora em seu livro, o impulsionou para o desafio intelectual.
“Hawking escreve de uma maneira comovedora”, escreveu o Financial Times sobre a autobiografia, salpicada de curiosidades de sua vida. “Nessa obra podemos escutar como sua voz é irradiada diretamente do buraco negro de sua doença, sem a amplificação e o detalhamento que acrescentavam os coautores com os quais escreveu seus últimos livros.”





sábado, 3 de outubro de 2015

Stephen Hawking /“Raça humana terá que sair da Terra se quiser sobreviver”

Stephen Hawking

STEPHEN HAWKING | ASTROFÍSICO 

Stephen Hawking: “Raça humana terá que sair da Terra se quiser sobreviver”

Físico britânico reflete sobre a origem do universo em entrevista exclusiva ao EL PAÍS

Merry Christmas”. A emblemática voz metálica do cientista mais famoso do planeta soa em meio à orla marítima da praia de Camisón, em Tenerife, na Espanha, provocando as gargalhadas dos turistas que se aglomeram ao seu redor, sussurrando entre si: “É Stephen Hawking”, a medida que passa por eles. “É uma brincadeira que costuma fazer para que as pessoas riam”, explica uma das responsáveis da equipe que o segue por todas as partes. Hawking (Oxford, 1942) se encontra na ilha espanhola para apresentar a terceira edição do festival científico Starmus, realizado a cada dois anos e que em sua edição de 2016 reunirá uma dúzia de prêmios Nobel, entre outras figuras reconhecidas da ciência, da divulgação e exploração especial.

As leis da ciência bastam para explicar a origem do Universo. Não é preciso invocar Deus
O físico, recentemente retratado no filme sobre sua vida A Teoria de Tudo, que deu o Oscar de melhor ator a Eddie Redmayne, escreve graças a um sensor na bochecha, onde está um dos poucos músculos que ainda consegue mover por conta da doença neurodegenerativa que sofre. Apesar de contar com vários programas tecnológicos que o ajudam a agilizar o processo de escrita, algumas vezes, dizem seus acompanhantes, pode levar duas horas para responder a uma simples pergunta. Mas ele tem um botão especial para fazer gracinhas com um só clique.

MAIS INFORMAÇÕES

Na rua, uma mulher de maiô grita “obrigado por seu senso de humor, Stephen!”, prova do carisma do cientista, que penetrou fundo no imaginário coletivo global muito além dos fãs de ciência. Sete pessoas acompanham o físico nessa viagem, entre assistentes, médicos e gente de sua confiança, sempre atentos a sua frágil saúde de ferro, que o manteve vivo até os 73 anos “contra todos os prognósticos”. É como explica nessa entrevista exclusiva ao EL PAÍS, que teve a ocasião de passar um dia com ele e o organizador do Starmus, o físico Garik Israelian. Hawking fala sobre a necessidade de conquistar o espaço para sobreviver como espécie, do perigo do desenvolvimento da inteligência artificial e sobre o que os jovens cientistas no mundo todo devem esperar do futuro.
Pergunta. O senhor tem uma agenda vertiginosa de viagens, conferências, entrevistas, festivais... quase como uma estrela do rock. Por que vive dessa forma?
Resposta. Sinto que tenho o dever de informar as pessoas sobre a ciência.
P. Gostaria de fazer alguma coisa na vida que ainda não o fez?
R. Viajar ao espaço com a Virgin Galactic.

Se os extraterrestres nos visitarem, o resultado será muito parecido com o que aconteceu quando Colombo desembarcou na América: não foi uma coisa boa para os nativos americanos
P. Um de seus últimos livros fala sobre a teoria de tudo, que uniria a relatividade e a física quântica. Sobre o que será o próximo?
R. Pode ser que meu novo livro seja sobre minha sobrevivência, contra todos os prognósticos.
P. Em muitos países, como na Espanha, o orçamento para a ciência é limitado, e muitos cientistas jovens precisaram emigrar para encontrar trabalho. O que o senhor diria a um jovem de países como o nosso e que pretende ser cientista?
R. Que vá para os Estados Unidos. Lá valorizam a ciência porque ela produz tecnologia.
P. Recentemente o senhor criou uma iniciativa muito ambiciosa para buscar vida inteligente em nossa galáxia. Há alguns anos, entretanto, disse que seria melhor não estabelecer contato com civilizações extraterrestres, porque poderiam nos exterminar. Mudou de opinião?
R. Se os extraterrestres nos visitarem, o resultado será muito parecido com o que aconteceu quando Colombo desembarcou na América: não foi uma coisa boa para os nativos americanos. Esses extraterrestres avançados poderiam virar nômades, e tentar conquistar e colonizar todos os planetas aos quais conseguissem chegar. Para meu cérebro matemático, de números puros, pensar em vida extraterrestre é algo muito racional. O verdadeiro desafio é descobrir como esses extraterrestres podem ser.

De fato, de certo modo minha incapacidade foi uma ajuda. Não preciso dar aulas e participar de comitês chatos
P. Pouco tempo atrás o senhor disse que a informação pode sobreviver a um buraco negro. O que isso significa para uma pessoa comum?
R. Cair em um buraco negro é como se lançar das cataratas do Niágara em uma canoa: se você remar suficientemente rápido, pode escapar. Os buracos negros são a máquina de reciclagem definitiva: o que sai é a mesma coisa que entra, mas processada.
P. No ano de 2015 a teoria da relatividade geral completa cem anos. O que o senhor diria a Albert Einstein se pudesse falar com ele, e o que espera da ciência nos próximos cem anos?
R. Einstein escreveu um artigo em 1939 no qual afirmava que a matéria não poderia comprimir-se além de um certo ponto, descartando a possibilidade da existência de buracos negros.
P. Por que acredita que devemos temer a inteligência artificial? É inevitável que os humanos criem robôs capazes de matar?
R. Os computadores superarão os humanos graças à inteligência artificial em algum momento nos próximos cem anos. Quando isso acontecer, precisaremos nos certificar de que os objetivos dos computadores sejam os mesmos que os nossos.

Acho que todo mundo pode, e deve, ter uma ideia geral de como funciona o universo e de nosso lugar nele
P. Qual acredita que será nosso destino como espécie?
R. Creio que a sobrevivência da raça humana dependerá de sua capacidade para encontrar novos lares em outros lugares do universo, pois o risco de que um desastre destrua a Terra é cada vez maior. Desta forma, gostaria de despertar o interesse do público pelos voos espaciais. Aprendi a não olhar muito à frente, a me concentrar no presente. Ainda quero fazer muitas outras coisas.
P. O Governo espanhol aprovou grandes cortes na ciência nos últimos anos. O que o senhor diria ao Governo?
R. Os espanhóis têm muito interesse na ciência e na cosmologia. Foram grandes leitores do meu livro Uma Breve História do Tempo. É importante que todos tenham bons conhecimentos de ciência e tecnologia. A ciência e a tecnologia estão mudando drasticamente nosso mundo, e é fundamental assegurar que essas mudanças ocorram na direção correta. Em uma sociedade democrática, isso significa que todos precisamos ter conhecimentos elementares sobre ciência, de modo que possamos tomar nossas próprias decisões com conhecimento de causa e não as deixar nas mãos de especialistas. É preciso simplificar, com certeza. A maioria das pessoas não tem tempo para dominar os detalhes puramente matemáticos da física teórica. Mas acredito que todo mundo pode, e deve, ter uma ideia geral de como funciona o universo e de nosso lugar nele. É isso que tento transmitir em meus livros e minhas conferências.

Os computadores superarão os humanos graças à inteligência artificial em algum momento nos próximos cem anos
P. Acredita que é possível ser um bom cientista e acreditar em Deus?
R. Utilizo a palavra “Deus” em um sentido impessoal, da mesma forma que Einstein, para me referir às leis da natureza.
P. O senhor disse que não precisamos de Deus para explicar o Universo tal como ele é. Pensa que algum dia os seres humanos abandonarão a religião e Deus?
R. As leis da ciência bastam para explicar a origem do Universo. Não é preciso invocar Deus.
P. Muitas pessoas precisam de cadeiras de rodas por conta de doenças como a esclerose lateral amiotrófica e muitas outras. Frequentemente enfrentam numerosas dificuldades para levar uma vida normal. Por exemplo, não podem viajar de avião em suas próprias cadeiras [Hawking costuma viajar de barco]. Uma vez que o senhor mesmo experimentou essas dificuldades, tem alguma mensagem para elas sobre a vida e como vivê-la?
R. Apesar de ter a desgraça de sofrer uma doença neuronal motora, tive muita sorte em praticamente todo o resto. Tive a sorte de trabalhar em física teórica, um dos poucos campos nos quais minha incapacidade não era um obstáculo sério, e de ser premiado com a popularidade de meus livros. Meu conselho para outras pessoas com incapacidades seria que se concentrassem em coisas que sua deficiência não as impeçam de fazê-las bem feitas, e que não se lamentem por aquelas nas quais o problema interfere.
Tudo está na mente. Preciso admitir que, quando não sigo o assunto de uma conversa, costumo divagar em reflexões sobre física e buracos negros. De fato, de certo modo minha incapacidade foi uma ajuda. Não preciso dar aulas e participar de comitês chatos, e me deu mais tempo para pensar e pesquisar.

Aprendi a não olhar muito à frente, a me concentrar no presente
P. Muitos cientistas de renome mundial, entre eles 12 prêmios Nobel, participarão do Starmus 3 para reverenciá-lo. Será um acontecimento histórico. Existe algo especial que o senhor queira ver no Starmus 3?
R. O Starmus 3 não se trata somente de buracos negros, campo no qual realizei um trabalho importante, mas abarca também a música e a arte. O Starmus 3 é o lugar onde a ciência séria se encontra com um público mais amplo; onde o pensamento intelectual, as nuances e a complexidade são reverenciados; onde se explora a maneira como trabalham os cientistas e onde são forjadas novas ideias.



sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Stephen Hawking / História de uma mente brilhante



CRÍTICA LITERÁRIA 

História de uma mente brilhante

Frente a um filme rasteiro e um pouco tolo, ‘A Teoria de Tudo – A Extraordinária História de Jane e Stephen Hawking’ é um retrato preciso de uma relação complexa

Dois ratos conversam em uma antiga filmoteca enquanto comem restos de celuloide e um deles diz ao outro: “pois eu gostei mais do livro”. Esse rato poderia muito bem estar comendo um pedaço de A Teoria de Tudo, o filme baseado na obra de Jane Hawking no qual ela conta sua relação com o físico mais famoso do momento. Frente a um filme rasteiro e um pouco tolo, A Teoria de Tudo – A Extraordinária História de Jane e Stephen Hawking é um retrato preciso de uma relação complexa que desde o no início estava fadada a terminar: “que Stephen continuasse vivo 16 anos depois do diagnóstico fez dele um fenômeno médico”.
Essa é a história de uma das mentes mais brilhantes no último terço do século XX em um dos corpos mais devastados. Tão devastado que em 1963 deram-lhe dois anos de vida e ele continua aí, brilhante em seu trabalho científico, sem renunciar ao humor, montado sobre seu ego e seu gosto pela publicidade, de acordo com o relato da primeira de suas três esposas que, durante 25 anos foi sua enfermeira, gerente, companheira e muito mais, mas não sua confidente. Essa incapacidade de falar sobre o que não fosse “a deusa física”, que, segundo a autora, Hawking herdou de sua família, levantou algumas barreiras no relacionamento e acabou tornando-a impossível. Uma enfermeira fofoqueira e pouco escrupulosa e um músico amável, um de cada lado do casal, também contribuíram para a ruptura.
Este livro é o segundo que Jane Hawking escreveu sobre a relação com o cosmólogo. O primeiro, Music to Move the Stars: A Life with Stephen (não traduzido para o português; na Amazon, as edições custam a partir de 602 reais) foi escrito em 1999, nove anos depois da separação e quatro do divórcio. Esta nova redação, publicada originalmente em 2008, deu origem ao edulcorado roteiro do filme.
O livro, no entanto, é mais verdadeiro. O relato das dificuldades dos primeiros anos, especialmente as econômicas –derivadas dos enormes gastos causados pela doença do neurônio motor que Hawking padece–, poderia se parecer com centenas de narrativas, mas esta se refere ao físico mais influente do fim do século passado. A publicação do best-seller Uma Breve História do Tempo permitiu à família viver com mais folga, mas isso não impediu que Jane Hawking, ativista de muitas causas, continuasse se queixando do abandono dos vários governos britânicos, principalmente o de Margaret Thatcher, e de uma saúde pública desmantelada. Um pouco de divulgação científica, um pouco de desmitificação do herói, um pouco de problemas com a família dele e muito amor e humor compõem este interessante retrato de um casal como todos, ou seja, muito especial.
A Teoria de Tudo – A Extraordinária História de Jane e Stephen Hawking. Jane Hawking. Única Editora, São Paulo, 2014, 448 páginas, 39,90 reais.




quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Eddie Redmayne vive primeira trans conhecida em ‘A garota dinamarquesa’


Eddie Redmayne vive primeira trans conhecida 

em ‘A garota dinamarquesa’

O filme sobre Lili Elbe está recebendo críticas por não apostar em uma atriz transexual


    Redmayne, como Lili Elbe. / WORKING TITLE
    A história de 'A garota dinamarquesa' começa em 1925. Einar e Gerda Gewener são um casal de ilustradores unido desde o começo do século XX. Casaram-se jovens, ele com 22, ela com 19, quando ainda estudavam na escola de arte de Copenhague. Einar é um paisagista de renome (ganhou o prêmio Neuhausens em 1907), e as delicadas ilustrações de Gerda mostrando jovens damas cheias de glamour aparecem habitualmente na Vogue francesa e na La Vie Parisienne. Um casal invejável e muito bem sucedido. Uma tarde, uma das modelos de Gerda não aparece no ateliê. Einar se voluntaria para ajudá-la e coloca um vestido de seda que se transforma numa revelação vital. Sente-se tão à vontade com a roupa que decide passar a se vestir de mulher e a posar habitualmente desse jeito para sua esposa. Fará o mesmo também, esporadicamente, durante viagens à França e à Itália. Quando se instalam definitivamente em Paris, Einar abandona sua masculinidade e se apresenta ao mundo como Lili, a irmã de Gerda. Gerda mantém aventuras com outras mulheres, e os dois dão festas selvagens para o mundo artístico parisiense dos anos 1930.


    À esquerda, Lili Elbe, quando se identificava como homem. Nas imagens do centro de da direita: Elbe nos anos 30. / WIKIPEDIA
    Essa é parte da extraordinária vida de Lili Elbe, a primeira pessoa submetida a uma cirurgia de mudança de sexo da qual se tem notícia. Uma fascinante história que voltou a ganhar notoriedade meses atrás, quando as imagens do ator Eddie Redmayne caracterizado como Lili Elbe deram a volta ao mundo. Depois de ganhar o Oscar no papel de Stephen Hawking em A Teoria de Tudo, o britânico enfrenta outro tour de force com A Garota Dinamarquesa, filme dirigido por Tom Hooper, o mesmo que o fez cantar em Os Miseráveis e o que deu a Colin Firth a chance de ganhar um Oscar pelo papel de George VI em O Discurso do Rei.
    O filme se baseia no romance A Moça de Copenhague (editora Rocco), de David Ebershoff, que narra com toques fictícios a história do casal e sua relação com a mudança de gênero. No filme, Alicia Vikander (O Sétimo Filho, Ex-Machina) interpretará Gerda, e entre os coadjuvantes estarão Amber Heard e Matthias Schoenaerts (de Ferrugem e Osso).


    Gerda Gewener, parceira e mulher de Einar/Lili. Ela será interpretada por Alicia Vikander. / GETTY
    Foi em 1930 que Lili Elbe decidiu passar pelo bisturi. Estabeleceu uma amizade com o médico Kurt Wanekros, da clínica para mulheres de Dresden, e, saindo da casa que compartilhava com Gerda, mudou-se para Berlim, onde iniciaria uma série de operações (cinco ao todo) para redefinir seu gênero. Desfez-se dos testículos e recebeu o implante de ovários de uma mulher de 26 anos, algo totalmente revolucionário na medicina da época. Seu corpo rejeitou os órgãos, o que a obrigou a passar por outras duas cirurgias corretivas.
    Elbe, depois da primeira operação, decidiu sepultar o nome masculino com o qual havia sido conhecida, e para isso contou com o beneplácito de Gerda na tarefa de apagar todos os vestígios de Einar Gewener. O casal solicitou ao rei da Dinamarca que anulasse seu casamento, e o monarca não só aceitou como também concedeu a Lili Elbe um passaporte compatível com a sua nova identidade. Lili morreu aos 50 anos, dois dias depois da sua quinta operação. Gerda voltaria a se casar, com um militar italiano de quem se divorciaria poucos anos depois.
    A expectativa causada pelas fotos de Redmayne vestido como mulher e com vários quilos a menos pode ser comparada às críticas que o projeto está recebendo por não apostar em uma atriz transexual para dar vida a Lili Elbe. Apesar de anos atrás ter surgido o rumor de que Nicole Kidman seria a protagonista como Einar/Lili, tendo Charlize Theron no papel de Gerda, agora os mais céticos criticam o fato de Hollywood enfocar a transexualidade por um prisma que não contempla os atores transexuais.

    Isso já aconteceu com Jeffrey Tambor em Transparent (papel que lhe valeu o Globo de Ouro de melhor ator cômico), e agora com Redmayne. “Por melhor que seja o trabalho de Eddie Redmayne, já é hora de que pessoas trans interpretem papéis trans”, comentava Susan Stryker, professora de estudos de gênero da Universidade do Arizona, no site Think Progress. Redmayne, por sua vez, preferiu evitar a polêmica. Em uma recente entrevista ao Telegraph, disse que “existe uma discussão muito válida sobre por que uma atriz trans não interpreta este papel, pois realmente há muitíssimas atrizes brilhantes, e estou convencido de que muitas o fariam de forma sensacional”. Redmayne, no entanto, evoca o período histórico do filme para validar sua escolha: “Uma das complicações é que hoje em dia há hormônios, e muitas mulheres trans tomaram hormônios. Nesse papel é preciso interpretar um lado masculino sem hormônios, e é um assunto que discutimos muito, porque naquele tempo não havia hormônios [sintéticos]”.

    Retrato de Lili Elbe por Gerda Gewener e uma das ilustrações que a artista fez para publicações de moda da época. /GERDA GEWENER
    Com polêmica ou sem ela, o furor com o assunto transexualidade só faz crescer em Hollywood. Além do sucesso televisivo de Transparent (que prepara sua segunda temporada) e da expectativa com A Garota Dinamarquesa, há também The Three Generations, filme em que Elle Fanning interpretará Ray, uma trans adolescente que deixa de ser menina para virar menino. Dirigida por Gabby Dellal, o filme conta com Naomi Watts no papel da mãe e com Susan Sarandon como avó. A trans que de fato está triunfando e obtendo papéis de acordo com a sua condição é Laverne Cox. A atriz de Orange Is the New Black, capa da revista Time há alguns meses, conseguiu ser uma das protagonistas de Doubt, um drama da CBS que criou um papel pensado especificamente para ela.