quinta-feira, 20 de julho de 2023

Arte no pós-II Guerra / O adormecer da razão gera monstros


Francis Bacon, *Study after Velázquez’s Portrait of Pope Innocent X*, 1953

Arte no pós-II Guerra

O adormecer da razão gera monstros

22 JUNHO 2014, 

“El sueño de la razón produce monstruos” - Goya

Após uma participação mais ou menos ativa na I Guerra, por parte de alguns movimentos de vanguardas, os artistas europeus não resistiram ao horror da guerra que veio a seguir e refugiaram-se numa espécie de estupor, onde as imagens da guerra foram banidas porque estavam demasiado presentes e por serem extremamente reais. Através da análise da obra de dois artistas, Zoran Mušič e Francis Bacon, pretendo refletir sobre o silêncio da arte europeia no pós-II Guerra.

Para Régis Debray “é uma banalidade verificar que a arte nasce funerária, e renasce apenas morre, sob o aguilhão da morte”. E conclui, posteriormente, que “as sepulturas foram os museus das civilizações sem museus, assim também nossos museus são, talvez, os túmulos característicos das civilizações que já não sabem edificar túmulos” (1993: 22). A arte nasce da morte porque a humanidade desejava ser imortal e, através das imagens de si mesma, convertia o seu desejo em obras que perdurariam para além da sua frágil existência. A figura humana, em suas diversas formas, mais ou menos simbólicas, mais ou menos perfeitas tecnicamente, mais ou menos belas, sempre foi um dos principais motivos da arte ocidental. Teoricamente, o início da História da Arte no ocidente é celebrado com as obras dos gregos que, liberados da obrigação simbólica de converter homens em deuses, tentaram criar, com suas mãos, imagens de homens e mulheres que representassem a ideia que eles tinham do real.

A presença do humano na arte confunde-se com o nascimento mesmo daquilo que chamamos de arte ‒ obras que em seu momento tiveram funções diversas, rituais, celebratórias ou mágicas, mas que a história passou a considerá-las como parte do grande acervo artístico ocidental. O corpo mimético começa a desaparecer da arte no início do século XX para ressurgir um outro corpo, fragmentado, reflexo de uma civilização à beira do abismo da I Grande Guerra. Podemos dizer que a fragmentação da figura humana nas artes visuais foi compensada pela aparição do corpo cinematográfico, cujo ecrã especular mostrava, em tamanho hiperdimensionado, corpos em movimento que encantavam um público crescente.

Através da análise do fim do século XIX, René Huyghe mostra-nos o caminho inexorável que os artistas acabarão por trilhar no século XX. Um caminho que reflete a incomunicabilidade e o declínio, não só da civilização ocidental, mas do próprio conceito de civilização. A opção pelo não figurativo na arte nada mais é que uma tentativa de escapar dos “sobejos do mundo visível”. A arte desiste de ser um reflexo da imagem humana e passa a refletir sobre a própria ideia de humanidade. A figura humana, presente em obras como a do artista italiano Giorgio De Chirico, aparece como estrutura obsessiva que exclui qualquer possibilidade de vida: são manequins e autómatos que atualizam o pesadelo de Goya. Os monstros gerados pela arte irão cada vez mais levar-nos a uma descida às trevas que pairam sobre a civilização europeia.

Apesar das descobertas da ciência e dos avanços tecnológicos, os artistas das vanguardas sentiam que era necessário representar o vazio que se instaurava na Europa, e no mundo ocidental. Sentiam-se incapazes de preencher este espaço deixado pelo fim das diversas crenças que alimentaram o século XIX e decidiram que o contributo que arte poderia, ou deveria, dar era o de representar os indícios da derrocada de um modelo de civilização. “No entanto, neste vazio, os artistas constroem muitas vezes uma realidade (…) Já no Surrealismo, Max Ernst gostava de erigir, como uma muralha intransponível, blocos de pedra numa esquadria curiosa onde, por vezes, se abrem estranhamente olhos” (HUYGUE, 1998: 270).

A II Grande Guerra e o fim das utopias

Cubistas, dadaístas, surrealistas, futuristas, expressionistas e todos os outros movimentos de vanguarda do início do século XX tinham algo em comum: acreditavam que a arte, a nova arte criada por eles, seria capaz de mudar o mundo. Experimentaram novos materiais, novos conceitos, novos suportes. Experimentaram novas maneiras de representar o humano, através da fragmentação, da negação do ponto de vista único da perspetiva linear, da simplificação de linhas, do despojamento ou do excesso. O corpo, na arte, era um novo corpo, construído à medida para uma nova era. Todos os artistas das vanguardas históricas transformaram a sua arte num manifesto ao novo, a um possível e desejável futuro, a um futuro que seria construído sob os escombros de uma grande guerra. Ou então, como os expressionistas, projetavam no passado o possível futuro da humanidade. Mesmo os dadaístas que fizeram da sua arte um manifesto contra o artista demiurgo, transformando os criadores em observadores privilegiados, em recolectores de objetos do quotidiano, viam na arte um caminho possível.

Com a chegada súbita, mas anunciada, da II Guerra, os artistas foram sendo dispersados pelo mundo. Da Europa rumaram, ou voltaram, para os Estados Unidos e enfrentaram a nova face do medo. Se a I Guerra ainda foi corporificável, a II não tinha uma face visível, tal era o horror que suscitava. Num mundo onde a incomunicabilidade tornara-se um problema de dimensões mundiais, paradoxalmente os novos meios de comunicação funcionavam como dispositivos de exibição de um mundo idealizado e expandido, cujo novo centro civilizacional estava situado fora da Europa.

Theodor Adorno, um dos grandes pensadores da Escola de Frankfurt, afirmou que seria impossível escrever poesia depois de Auschwitz. Esta ideia provocou um debate aceso entre os intelectuais e artistas do pós-guerra porque, afinal, a arte aparecia como uma possível forma de representação ou de sublimação do horror que fora experienciado por milhares de seres humanos. De qualquer forma, Valeriano Bozal diz que a arte e a literatura do anos 40 e 50 “estuvieron sometidos a las fuertes presiones de un mundo que parecía no poder ser dicho” (2003: 13). Um mundo em ruínas, já anunciado pelo Angelus Novus do artista suíço Paul Klee. Um anjo que é empurrado para frente, mas que olha, aflito, para o passado do qual não se consegue libertar. Uma figura que foi analisada nas teses do filósofo Walter Benjamin e que representava, na sua visão, o porvir da Europa e do mundo.

O ideário das vanguardas ainda acompanhou alguns artistas e refletiu-se em movimentos como o Expressionismo Abstrato, primeiro grande momento da arte no pós-II Guerra. Artistas como Pollock ou Rothko assumiam, nas suas obras, o silêncio do mundo visível que se tornara irrepresentável, mas as suas obras ainda aspiravam a alguma transcendência. Na Europa, o ar estava irrespirável e alguns artistas, e movimentos, reproduziram o clima de terror absoluto criando obras que lembravam a utopia passadista de algumas vanguardas, buscando o passado idílico, não na natureza, mas no próprio homem, na sua infância, antes de ser corrompido pela cultura, caso do Grupo Cobra ou da Arte Bruta. Ou, simplesmente, fugiram da representação mimética e/ou realista do mundo. Caso do artista Zoran Mušič. Ainda na Europa do pós-guerra Francis Bacon, seguindo a genealogia do espanhol Goya, produzia seus monstros: figuras disformes, como que apanhadas num momento em que revelavam seu espanto, seu estupor.

Um artista e o trauma da guerra

Zoran Mušič, artista esloveno, foi detido e ficou preso em Dauchau em 1944 de onde só saiu no fim da Guerra, em 1945. Foi-lhe dado a escolher: tornar-se um espião, membro das SS ou ser prisoneiro num campo de concentração. Ele escolheu a segunda opção que o levou para Dauchau onde presenciou a morte de diversos amigos e de desconhecidos. Conseguiu, durante a sua estância ali, representar o que via, com giz ou lápis, utilizando folhas retiradas de livros da biblioteca do campo de concentração, produzindo mais de 200 desenhos. Destes desenhos conseguiu salvar apenas cerca de 70. Os desenhos eram claramente influenciados pela obra de dois grandes artistas, considerados mestres por Mušič: Goya e Rembrandt.

Da obra de Goya encontramos, nos desenhos do artista esloveno, a minúcia dos detalhes nos pequenos formatos, bem como os traços selvagens, tortuosos, que tornam as figuras quase fantasmagóricas. De Rembrandt encontramos a capacidade que este tinha de isolar um rosto no meio de tantos e de, ao mesmo tempo, convertê-los todos em rostos de homens comuns. O claro-escuro das suas águas-fortes transparece nos desenhos a lápis que Mušič produziu entre 44 e 45 e que foram salvos, juntos com ele, do grande Holocausto.

A obra de Mušič compunha de corpos. Corpos amontoados, em improvisados carros funerários, homens enforcados, corpos deitados fora como lixo. Para Bozal, há uma forte consciência dramática nos traços deste artista, o que o torna muito próximo dos desenhos negros de Goya e da obra de Egon Schiele. Zoran Mušič disse que nunca teve uma intenção documental, apesar de sua obra ter-se convertido num importante retrato do pesadelo da II Guerra. Numa entrevista ao Le Monde, em Abril de 1995, quando confrontado com a ideia de ter revelado ao mundo “uma visão abominável”, ele responde: “Il le fallait. C’était abominable, mais c’était nécessaire. Je ne pouvais pas faire autrement. Dans le camp, il y avait une usine d’armement, avec des bureaux pour architectes. On m’y a mis un moment, j’ai pu prendre du papier, j’ai commencé…C’étaient des dessins descriptifs. Dans ces corps amaigris, les mains, les pieds et les sexes devenaient très importants. Et la structure, les doigts très fins, d’une finesse incroyable. Egon Schiele a dessiné des mains ainsi, mais il me semble que ce sont des dessins trop voulus, trop théâtraux. Schiele a cultivé ce genre, alors que, chez moi, c'était simplement le fait de l’observation”.

O motivo demandou o tipo de desenho que Mušič produziu. O drama não estava nos traços nem na composição em si, estava além, na própria realidade que o circundava. Depois de sair de Dauchau, o artista passou muitos anos a pintar ou desenhar apenas paisagens e muitas delas abstratas. Mesmo que estas paisagens deixassem transparecer uma certa atmosfera de desconforto, como se o mundo estivesse em suspensão, eram paisagens que nada tinham a ver com os retratos produzidos durante a sua prisão. Voltou-se para um abstracionismo muito particular, como forma de reafirmar que, diante do indizível, não havia nada que a arte pudesse fazer. Só em 1970 é que ele volta à figura humana numa série de desenhos e pinturas que denominou Nous ne sommes pas les derniers.

Nós não somos os últimos é uma série que reproduz, obsessivamente, a ideia dos desenhos de Dachau: a morte, o flagelo, a despersonalização do homem que se converte em cadáver, ao lado de tantos outros, atirados em valas comuns. O rosto de cada uma das figuras denota um desespero mudo retratado numa boca aberta que, sabemos, incapaz de produzir qualquer som. Mais uma vez os traços de Goya que anunciam o Expressionismo e a assunção plena da dramaticidade, presente nos traços de Egon Schiele. Os corpos distorcidos e alongados remetem-nos à obra de Giacometti, outro artista que Mušič admirava.

Para Bozal há, na série Nous ne sommes pas les derniers, uma tentativa do artista demonstrar que o horror não acabou, que a figura humana é esvaziada e desumanizada em diversas ocasiões e que aquelas figuras não são apenas ecos de Dachau ‒ os cadáveres sem substância, como se estivessem ocos, são memórias reelaboradas e transpostas para a contemporaneidade: “la memoria se convierte de este modo en marco donde elaborar el presente” (BOZAL, 2003: 31).

O presente é vivido através do filtro da memória que, de maneira obsessiva, reinscreve a história continuamente no ciclo da vida. Na citada entrevista ao Le Monde, Mušič acaba por dizer: “J’aurais pu illustrer. Ce n’aurait pas été difficile. Je ne voulais pas. J’attendais que cette vision prenne une forme dans ma mémoire. Elle était en permanence devant moi, ces cadavres allongés. Pour réussir à sortir une lumière de cela, il aurait fallu un Goya peut-être. Il me semble que je n’ai pas réussi comme je l’aurais voulu. Ce n’était pas possible peut-être. Si j’ai réussi à donner à celui qui regarde un peu de mon émotion, c’est déjà beaucoup”.

Foram necessários 25 anos para que o artista esloveno conseguisse recuperar as imagens que traumatizara ao sair de Dachau. Diante do horror real, à arte, muitas vezes, só resta o silêncio.

Os monstros de Francis Bacon

A obra do pintor irlandês Francis Bacon retrata, de outra maneira, uma visão pessimista e cruel da figura humana e, talvez, da própria ideia de humanidade. Seus quadros reproduzem um horror indizível presentificado nas formas e nas cores com as que compõe suas figuras. Admite que foi influenciado pelo cinema de Fritz Lang e de Sergei Eisenstein que teve oportunidade de ver quando da sua passagem por Berlim nos anos 20. O Couraçado Potemkin deu-lhe a conhecer os rostos estupefactos das pessoas na famosa cena da escadaria. Rostos desumanizados pela dor, pelo desespero, mudos na sua condição de sombra projetada num ecrã e na sua condição de seres anônimos, atravessados por uma batalha que não era deles, mas que os atingia a todos de forma cruel.

Bacon apropria-se da obra de Velázquez, Papa Inocéncio X e atualiza a imagem, sobrepondo-lhe um grito de horror, inspirado numa personagem do filme de Eisenstein. Além do grito, as cores retratam uma ideia muito comum à obra do artista irlandês, a putrefação. Corpos putrefactos ou mutilados, desinvestidos de qualquer indício de beleza ou de equilíbrio povoam o universo de Bacon. Um dos quadros mais significativos do seu período pós II Guerra, Man with dog (1953), reproduz a visão do homem naqueles dias: uma sombra sem rosto ao lado de um animal quase humano, numa rua escura.

O homem é apenas uma sombra, não tem substância, volume, peso. É uma mancha no passeio que se alastra pela parede. O cão tem um rosto humanizado e traduz uma espécie de angústia profunda na sua figura retorcida, levado por uma trela, olha na direção de um bueiro. Mais uma vez a presença do mestre espanhol, Goya, que influenciou a obra de Mušič, aparece aqui como presença reclamada neste quadro de Francis Bacon. O quadro de Goya, El perro, representa um cão, do qual vemos apenas a cabeça já que o resto do corpo está ocultado por uma espécie de monte castanho. Metade da obra é preenchida por um espaço vazio, para onde o cão olha. Muitas são as interpretações que este quadro, da fase das Pinturas Negras, suscitou. O quadro, também conhecido como Perro Semihundido, dá-nos a ver um cão aparentemente semienterrado que olha para o céu mas o que vê é um imenso vazio.

O vazio de um céu que já não tem respostas e nem saída para o cão, ou para a humanidade. A obra de Goya data dos anos 20 do século XIX e a de Bacon da segunda metade do século XX. Numa ou noutra a ideia de vazio é central para a compreensão do conceito por trás do quadro de ambos artistas. O vazio como única resposta para a humanidade que perdeu a fé, por razões diversas, e que se encontra irremediavelmente só.

E no final, o silêncio

Através da pintura ou do desenho, diversos artistas tentaram, se não reproduzir, refletir sobre o que aconteceu à humanidade finda duas guerras mundiais. Será que era ainda possível escrever poesia depois de Auschwitz? Está comprovado que sim, Adorno não tinha razão. Apesar do horror do Holocausto, a arte ainda consegue falar. O que mudou, sem dúvida, foi o seu discurso e a sua forma. Quando os homens deixaram de ser nómadas e assentaram, a arte deixa de ser naturalista e vai, paulatinamente, tornando-se abstrata. Os homens não sabiam como representar o invisível ‒ as forças da natureza com as quais tinham de lidar. Na falta de uma imagem no mundo que pudesse traduzir em formas o indizível, optou-se por seguir o caminho da abstração.

Finda a II Grande Guerra, os artistas perceberam que traduzir tal horror era tarefa impossível. Poderiam representar a ideia do horror. Poderiam falar sobre ela, gritar o seu nome, invocá-la. Mas não conseguiriam dar-lhe um rosto único, porque sabiam das muitas faces do horror. Assim, decidiram optar pelo silêncio. Não por se calarem ou por deixarem de criar. Mas por permitirem que as suas obras refletissem, de forma especular, sobre esta nova forma de vazio, sobre este novo silêncio que se abateu sobre o mundo, mesmo depois de a guerra acabar.

Referências Bibliográficas

ARGULLOL, Rafael. El fin del mundo como obra de arte. Barcelona, Acantilado, 2007
BOZAL, Valeriano. El tiempo del estupor. Madrid, Siruela, 2003
DEBRAY, Régis. Vida e morte da imagem: uma história do olhar no ocidente. Petrópolis, Vozes, 1993
HUYGUE, René. O poder da imagem. Lisboa, Edições 70, 1998

MEER


quarta-feira, 19 de julho de 2023

Hilda Hilst / XXIX






Hilda Hilst
XXIX


Te sei. Em vida
Provei teu gosto.
Perda, partidas
Memória, pó

Com a boca viva provei
Teu gosto, teu sumo grosso.
En vida, morte, te sei.



terça-feira, 18 de julho de 2023

Hilda Hilst / XVI

 


Hilda Hilst, 1977


Hilda Hilst
XVI
Cavalo, búfalo, cavalinha,
Te amo, amiga, morte minha,
Se te aproximas, salto
Como quem quer e não quer
Ver a colina, o prado, o outeiro
Do outro lado, como quem quer
E não ousa
Tocar teu pelo, o ouro
O coruscante vermelho do teu couro
Como quem não quer.

sábado, 15 de julho de 2023

Hilda Hilst / XIV

 

Brown Suga


Hilda Hilst
XIV

Hilda Hilst / XIV


Porque é feita de pregunta
De poeira

Articulada, coesa
Persigo tua cara e carne imatéria.

Porque é disjunta
Rompida
Geometral se faz dupla
Persigo tua cara e carne
Resoluta.

Porque finge que flanqueia
Vestíbulo, espaço e casa
Se sobrepondo de cascas
Gaiolas, grades

Máscara tripla
Persigo tua cara e carne.

Comigo serrote e faca.


sexta-feira, 14 de julho de 2023

Cinema e Psicanálise / Uma aproximação

Cena mítica de "Um cão andaluz" (dirigido por Buñuel em parceria com Dalí em 1929), considerado o maior representante do cinema surrealista


Cinema e Psicanálise

Uma aproximação

28 JANEIRO 2017, 

Luís Buñuel, cineasta e surrealista, disse um dia:

bastaria à branca pupila da tela do cinema poder refletir a luz que lhe é própria para fazer explodir o universo.

O que é o cinema? (Pode parecer uma questão demasiado óbvia). De que maneira nos relacionamos com um dos textos mais poderosos do Século XX? E do XXI também. (Já não é tão óbvio assim). Pois mesmo que tenha perdido o estatuto de ser o ecrã para onde todos os olhos se voltavam, hoje a TV, o DVD e os ecrãs do computador ocupam mais espaço, alcançou outro estatuto. Deixa de ser o centro fornecedor de imagens, e converte-se ele mesmo, numa grande fonte referencial. É nele que os outros se alimentam ou se alimentaram. Como ele um dia, se alimentou do real. Assim, o cinema, neste instante, chega mesmo a ocupar o lugar do real na produção da iconografia contemporânea.

Cinema e psicanálise surgem, praticamente, ao mesmo tempo: em 1895, quando os irmãos Lumière traziam à luz o seu invento, (ou melhor, uma versão aperfeiçoada do aparelho de Edson), Freud publicava, com Breuer, os Estudos Sobre a Histeria. É interessante notar que Freud nunca se ocupou desta nova arte, apesar de ter feito analogias entre o aparelho psíquico e alguns aparelhos óticos. Foi Lou Andreas Salomé que em 1913 disse:

“a técnica cinematográfica é a única que permite uma rápida sucessão de imagens e que corresponde mais ou menos às nossas faculdades de representação.”

E continua: “O futuro do filme poderá contribuir muito para a nossa constituição psíquica”. É interessante observar o percurso de aproximação que estes dois textos, a psicanálise e o cinema, tão fundamentais no século XX, ao longo da história. E mais ainda é interessante perceber que tanto um como o outro, colocam em evidência o sujeito e é através dele que vão se constituir enquanto instrumento de compreensão ou de sedução da mente humana. O sujeito passa a se reconhecer como lugar originário do sentido. Os aparelhos óticos, quando surgem, servem para tirar o sujeito deste centro, é só pensarmos na era de Galileu e no fim do geocentrismo. Mas são também os aparelhos óticos que recolocam o homem no centro da produção imagética ocidental. Através da câmara obscura, o Renascimento reorganiza o espaço privilegiando o olho do homem, elemento central, princípio da coerência e da ordem.

O espaço geometrizado do Renascimento subverte as hierarquias da imagética medieval e o aparente caos é substituído por uma nova ordem. Se os artistas da renascença alimentaram pretensões demiúrgicas, de competir com Deus na criação do universo, (aliás é nesta altura que o artista passa a ser chamado CRIADOR), concretizam suas pretensões na criação de um universo imagético mais que perfeito, hiper-real, criando, ao mesmo tempo, a ilusão de que estavam apenas a reproduzir O REAL. E este olhar é incorporado pela câmara, o homem volta a ter um lugar na iconografia ocidental, depois de ter sido violentamente banido pelas vanguardas que tenderam de uma maneira ou de outra, para a abstração e dissolução do sujeito. E a câmara, como um olho aperfeiçoado, passeia pelo corpo do homem, reconstruindo, metafórica e metonimicamente o sujeito.

Falar de cinema é também fazer uma opção por um modelo que melhor se adeque aquilo que queremos sublinhar. Assim, quando falo de cinema neste momento, falo do Modo de Representação Institucional, conforme Noel Burch, termo que substitui e aprofunda um conceito, o de cinema clássico, produto de Hollywood. E porque nos interessamos particularmente por este? Por ser exatamente o modelo que mais vai ser explorado por todos àqueles que se aproximaram do objeto cinema como espaço de investigação utilizando o instrumental analítico da psicanálise.

Em 1916 Hugo Munsterberg escreve aquela que é considerada a primeira teoria do cinema, The photoplay: a psychological study. Nesta obra defendia, já a partida, que o cinema que realmente interessava era o narrativo. Numa altura em que o cinema descobria a sua gramática e se organizava enquanto linguagem, Munsterberg já vaticinava qual deveria ser a vocação do cinema: contar histórias através das imagens. E vai analisar de que modo o cinema se organiza enquanto dispositivo de representação e, neste processo, encontra imensas similitudes entre o cinema e o funcionamento da mente humana. Para Musnterberg era óbvio que as propriedades cinemáticas eram também propriedades mentais, e que o cinema não acontece no ecrã, onde é projetado, mas é a nossa mente, que organiza o relato, da mesma maneira que organiza também o mundo que a circunda. Tomemos, por exemplo, o mecanismo da atenção. A mente não vive apenas num mundo em movimento, ela organiza esse mundo através da propriedade da atenção. Somos capazes de hierarquizar aquilo que nos rodeia e construir o nosso próprio percurso no real. O cinema utiliza este mesmo mecanismo só que de uma maneira bastante perversa. Ele manipula a nossa atenção, obrigando-nos a ver apenas aquilo que o olho da câmara capta. Além daquela imagem ali plasmada, só há o escuro da sala que nos circunda.

E o escuro da sala que nos circunda, além da manipulação do nosso olhar, é um tema que vai gerar os mais profícuos estudos na área do cinema produzidos, como já disse, com instrumental da psicanálise. É através da compreensão de uma situação cinema que teóricos como Mauerhofer, Christian Metz, Jean-Louis Baudry, Oudart, Barthes e Emile Benveniste, dentre muitos outros, vão penetrar nos mecanismos ideológicos deste texto cultural que é, ao mesmo tempo, instituição, dispositivo e linguagem.

Nietzsche, em O Nascimento da Tragédia, diz:

“ver a si mesmo metamorfoseado diante de si e agir agora como se tivesse entrado em outro corpo, em outra pessoa”.

Fala-nos aqui da identificação, necessária para o gozo e catarse diante do texto que se desenrola perante os nossos olhos. E ao falarmos do cinema, esta sua afirmação torna-se ainda mais precisa, pois, conforme Baudry, o cinema é um aparelho de simulação que não se contenta em fabricar imagens simulacros, percebidas como representação da realidade, mas, dirige-se ao espectador, como sujeito psíquico, provocando o “efeito-cinema”, o retorno a um narcisismo relativo, a uma forma de realidade envolvente onde os limites do próprio corpo e a sua relação com o exterior não são muito precisos.

O corpo se expande através do olhar. “Os acontecimentos, diz Emile Benveniste, são dispostos como se estivessem se produzindo à medida que aparecem no horizonte da história. Ninguém fala aqui. Os acontecimentos parecem se narrar a eles próprios.” Daí a preferência de alguns estudiosos pelo Modo de Representação Institucional, pois é ele que necessita, mais do que qualquer outro, de ser desvendado. Desmascarado. O cinema clássico escamoteia o discurso, ou melhor, escamoteia a sua condição de discurso, provocando, no sujeito, uma identificação maior do que em qualquer outra arte do espetáculo. A análise da situação-cinema é apenas uma das vertentes de aproximação da psicanálise ao cinema. Mas, para mim é, sem dúvida, uma das mais interessantes.

Nos anos 60 Mauerhofer vai analisar o que leva um sujeito a se entregar, desarmado, quase sempre, a esta relação com o cinema. Ele nos fala da entrada na sala escura, do corte com a realidade exterior que seria ainda mais perfeito numa sala de cinema ideal, completamente às escuras. E neste escuro, que para Barthes, cria a mesma sensação do devaneio crepuscular, que coloca o sujeito num estado pré-hipnótico, surgem também outras condições que desempenham papéis decisivos na situação cinema, tais como: sensação alterada de tempo e espaço, tédio incipiente e exacerbação da atividade da imaginação. Além disso, Baudry acrescenta mais alguns aspetos fundamentais para se compreender a situação do espectador. Utilizando o mito da caverna platónica, Baudry vê o espectador do cinema numa situação similar: ele está ali “amarrado” à cadeira, numa caverna escura (uterina, segundo Barthes), onde só tem acesso ás sombras projetadas no ecrã. Imobilidade em uma sala escura provoca o retorno a um estado antigo do psiquismo, a uma regressão, da pessoa que dorme. O dispositivo fílmico é vizinho ao dispositivo do sonho. (Por isso os surrealistas se interessaram tanto pelo cinema e por isso acreditavam verdadeiramente na sua capacidade transgressora).

Imaginemos agora o sujeito na situação cinema, diante de um filme narrativo clássico, cujo tema central quase sempre recai no herói que sai de casa, para depois de cumprir a sua tarefa, regressar. Maria Rita Kehl, psicanalista brasileira, faz uma análise interessante deste cinema do eterno retorno. Para ela, o cinema americano típico está sempre a mostrar o herói a romper com a ordem para, logo de seguida, restabelecê-la. Ele sai de casa numa situação marginal, periférica, passa por provas que o reconstroem e o fortalecem (mito do herói) e voltam para ocupar um lugar central, o lugar do pai. Recriando assim o mito descrito em Totem e Tabu, onde se torna necessário matar o pai primitivo para voltar e inscrever o mito na linguagem. E, como disse Lacan, o inconsciente é estruturado como uma linguagem, e a linguagem do cinema vai ajudando a construir e reorganizar o real, também ele partícipe ativo deste jogo que estabelecemos quotidianamente na tentativa de instaurar e inscrever novos sentidos. Lou Andreas Salomé tinha razão quando afirmou, em 1913, a importância do cinema em relação á nossa constituição psíquica.

Além da situação cinema, há que se ressaltar outra relação importante que o cinema mantém com o nosso psiquismo. A pulsão escópica. A relação, na pulsão escópica, repousa na ausência do objeto percebido, daí o carácter imaginário do seu significante, que se torna uma miragem percetiva. O cinema pode ser visto como um encontro fracassado, conforme Christian Metz, entre um voyeur, o espectador e um exibicionista, o ator. E, ao mesmo tempo, é estabelecido um jogo da identificação, que pode ser, no caso do cinema, primária, “eu vivo” e secundária, “eu vejo”. E é no espaço entre, ou seja, não no que efetivamente vejo, mas naquilo que o cinema me faz ver, que nos deixamos dominar pelo filme. O filme que opera, em todos os níveis, provocando tensões.

Por exemplo, tensão entre o fluxo narrativo e o close up, matéria cara às teóricas da teoria feminista do cinema, que analisam assim a erotização do rosto feminino no cinema clássico de Hollywood. O rosto, destacado do fluxo narrativo, provoca stasis e cria uma retórica do não-movimento, uma pequena morte, um instante de prazer. Que justifica o impulso à escopofilia e reitera o ponto de vista marcadamente masculino deste tipo de cinema. A femme fatale revela e oculta. Seu rosto, despido no ecrã, ainda esconde segredos. Segredos que irão aguçar o desejo do desvelamento, imbricação de epistemofilia com escopofilia: desejo de conhecer e de ver, mas ao mesmo tempo reconhecer que o visível não está ao alcance da mão, mas está ou esteve ali. Porque é antes de mais nada fotografia em movimento, com carácter ontológico que nos relembra uma presença, agora ausente. O isso foi do Barthes. Na foto, como no filme, a presença fica impressa pela luz, no fotograma. E esta presença emana provocando o desejo. Desejo que nem sempre deve ser explicitado, daí a necessidade de sublimação ou recalque. Ele está ali, só que não deve ser presentificado ou exposto. Se o cinema serve como mecanismo de recalque ou sublimação, serve também para revelar o não-dito. Para mostrar o que o espaço das paredes, entre as janelas, esconde. Para algumas vezes, deixar que o fora de campo invada o cenário e dialogue com ele abertamente. Mas isso, no cinema do entretenimento, no cinema do M.R.I., no tipo de cinema que triunfou, acontece muito pouco. E é por isso que Buñuel, que havia celebrado o poder transgressor do cinema, acaba por dizer: “Mas, por ora, podemos dormir em paz, porque a luz cinematográfica encontra-se devidamente dosada e aprisionada.”


MEER



terça-feira, 11 de julho de 2023

O que é mesmo literatura? / Entre tentativas de resumi-la e acepções plurais

 



O que é mesmo literatura?

Entre tentativas de resumi-la e acepções plurais

2 JUNHO 2023, 

Invariavelmente, em aulas e palestras, me fazem perguntas como estas: o que faz com que um texto escrito seja considerado literário? O que distingue um texto literário de um não literário? Por que obras de Flaubert, Dostoiévski, Machado de Assis, Guimarães Rosa e Clarice Lispector são consideradas literárias e livros de Paulo Coelho, Dan Brown e John Grismann não? Essas perguntas podem ser resumidas numa só: mas o que é mesmo literatura?

Essa é uma daquelas perguntas que não são fáceis de responder, pois a conceituação do que é literário varia muito, até mesmo entre estudiosos do tema. A professora Leyla Perrone-Moysés, na apresentação de seu livro Mutações da literatura no século XXI, é clara nesse sentido, ao afirmar que:

Fala-se em literatura como se todos soubessem do que se trata. Mas na verdade não existe um conceito de literatura, mas acepções que variam de uma época a outra.

Não há uma resposta simples e objetiva para aquelas indagações, pois não há um único critério que permita classificar um texto como literatura. O que faz com que um texto seja considerado literário não são aspectos apenas imanentes, isto é, relativos apenas a obra em si mesma. Existem também fatores institucionais que se levam em conta na classificação de uma obra como sendo literatura. Por esse critério, considera-se literário aquilo que é legitimado e proclamado como tal pela crítica, pela universidade, pelos intelectuais, pela escola. Como o conceito de literário varia de época para época e de sociedade para sociedade, o que é hoje legitimado por essas instâncias como literário não significa que sempre tenha sido assim. Autores como Edgar Allan Poe, Flaubert e Balzac, hoje expoentes da literatura ocidental, tiveram, cada um em sua época, sua obra depreciada e não reconhecida como literária.

Para orientar aos que me perguntam, tenho preferido discutir os critérios que se usam para alçar uma obra à categoria do literário e, por extensão, excluir outras, além de apelar para o bom senso e bom gosto daqueles que me perguntam.

Numa perspectiva que leva em conta a imanência do texto, foca-se na obra em si mesma e abstraem-se aspectos exteriores a ela, aquilo transcende a obra, como autor, época, gênero, etc. Aqueles que adotam o critério imanentista postulam que textos literários se caracterizam pela literariedade, ou seja, que existiriam certas características, especialmente linguísticas, que permitiriam classificar um texto como literário.

Consideram que a literatura apresenta uma linguagem especial, que se afasta da chamada linguagem ordinária. A linguagem literária seria, por assim dizer, uma linguagem que vai além do conteúdo informacional, aquilo que se diz, voltando-se para a forma como se diz, explorando seus aspectos sensíveis como a sonoridade e a forma de se combinarem palavras e frases. Em síntese: a linguagem literária seria uma linguagem que se volta para si mesma, que enfatiza a expressão, ou seja, o como se diz.

O linguista Roman Jakobson, num texto que se tornou clássico, Linguística e poética, chamou esse uso da linguagem de função poética. Como o próprio nome indica, ela é mais facilmente identificada na poesia, pois nesse gênero de texto a expressão é bastante enfatizada mediante recursos sonoros e rítmicos, como nestes versos de Fernando Pessoa:

Mas em torno à tarde se entorna
A atordoar o ar que arde
Que a eterna tarde já não torna!

Embora menos frequente, recursos sonoros são também explorados em textos em prosa como nessa passagem de Clarice Lispector:

A vigília da barata era vida vivendo, a minha própria vida vigilante se vivendo.

A função poética, apesar do nome, não é exclusiva de textos literários, podendo ser observada em outra esferas, como na publicidade, em canções e ditados populares que também exploram a sonoridade da expressão linguística. Evidentemente, não podemos reduzir a linguagem literária apenas a aspectos relativos à sonoridade da expressão linguística, pois ela explora também aspectos sintáticos e semânticos, combinando palavras de maneiras diferentes do usual e explorando novos significados para as palavras, ou seja, a linguagem literária faz uso também das chamadas figuras de retórica. Quando Machado de Assis, em Dom Casmurro, diz que na missa:

Havia homens e mulheres, velhos e moços, sedas e chitas, e provavelmente olhos feios e belos, mas eu não vi uns nem outros, as palavras sedas e chitas ganham novos significados, revelando que entre as pessoas presentes havia ricos e pobres.

Assim como o destaque à sonoridade dos textos, as formas inusuais de combinar palavras e de explorar novos sentidos para elas, não são monopólio da literatura. Isso revela que classificar um texto como literário apenas a partir do uso especial da linguagem não é critério suficiente para afirmar que um texto pertence à literatura, o que nos obriga a não ficar restrito a um único critério.

Quando nos apoiamos em fatores institucionais para legitimar uma obra como literária, o critério é da ordem da transcendência, pois levamos em conta fatores exteriores a ela, ou seja, saímos do texto, mas sem desconsiderá-lo, recorrendo a elementos contextuais. Com base nesse critério, consideramos literatura aquilo que as fontes legitimadoras definem como tal. Mas quem são essas fontes que têm autoridade e legitimidade para dizer que uma obra é ou não literária? São, basicamente, a academia, a crítica literária e a intelectualidade. A escola, embora não seja propriamente uma fonte legitimadora, tem papel relevante em legitimar o que é literário, pois afiança e reverbera a legitimação, exercendo papel importante na formação de leitores literários e na divulgação e preservação de um cânone.

Há ainda quem procure resolver a questão do que é literatura afirmando que ela é do domínio da arte, que o texto literário se diferencia dos demais por ser um texto artístico, que, portanto, tem por finalidade a fruição, o prazer estético. Essa definição, no entanto, nos leva a uma discussão mais ampla: mas o que, afinal, é arte?

MEER




sábado, 8 de julho de 2023

O conto, um gênero narrativo / "Limitado" à sua estrutura, o conto inaugura diversas possibilidades de fruição

 


O conto, um gênero narrativo

"Limitado" à sua estrutura, o conto inaugura diversas possibilidades de fruição

2 MAIO 2023, 

As narrativas começam com a própria história da humanidade e fazem parte de todas as civilizações e apresentam-se sob os mais variados gêneros: mito, lenda, fábula, conto, novela, romance, histórias em quadrinhos, cinema, etc.

Roland Barthes, no texto Introdução à análise estrutural da narrativa afirma que:

não há em parte alguma povo algum sem narrativa; todas as classes, todos os grupos humanos têm suas narrativas…

Sobre o papel das narrativas, o escritor austríaco Robert Musil (1880 – 1942), em sua obra mais conhecida, o romance O homem sem qualidades, afirma que

no relacionamento básico com si mesmo, a maioria dos homens são contadores de histórias.

As narrativas materializam-se em textos, eles sejam verbais orais ou escritos, não verbais e mistos, aqueles que misturam linguagens diferentes, como as histórias em quadrinhos. As reflexões sobre a narrativa que apresento neste artigo restringem-se a textos exclusivamente verbais.

Dispomos de uma competência narrativa. Isso significa que conseguimos distinguir textos que contam uma história dos que não contam. Somos também capazes de reconhecer versões diferentes de uma mesma história, de resumi-la, de contá-la para outros e de reconhecer quem é o narrador. As narrativas podem se referir a um fato real ou imaginário. O fato narrado em geral é uma ação atribuída a agente humano ou antropomorfizado (como nas fábulas). A principal característica das narrativas literárias é o fato de serem ficcionais. Suas formas mais comuns na atualidade são o conto, o romance e a novela. Como adiantei no título, neste artigo trato apenas do conto.

O Conto

O conto é um gênero narrativo que costuma ter sido definido pela sua extensão, o que determina que possua, quanto à sua estrutura, características especiais, que o diferenciam de outras formas narrativas em prosa (novela e romance). Não há propriamente uma definição de conto, o melhor seria dizer que há teorias do conto, enquadradas numa teoria mais ampla, a narratologia, que é o estudo das formas narrativas literárias e não literárias.

Mário de Andrade (1893 – 1945), para quem conto é aquilo que seu autor batizou de conto, já chamava a atenção para esse fato ao iniciar seu conto Vestida de negro com a seguinte afirmação:

Tanto andam agora preocupados em definir o conto que não sei bem se o que vou contar é conto ou não, sei que é verdade.

O conto, assim como os outros gêneros, se manifesta de formas diferentes dependendo do autor e da época. Isso é visível quando se compara um conto recolhido pelos irmãos Grimm a contos de Cortázar, Hemingway, Borges, Dalton Trevisan, Clarice Lispector, por exemplo. Por isso não apresento uma definição de conto. Prefiro, apoiado em alguns autores e teorias sobre o conto, apresentar as características desse gênero literário, por meio de analogias a outras formas narrativas, particularmente o romance.

O conto é uma narrativa condensada (em inglês é denominado short-story), que apresenta um número pequeno de personagens, unidade de tempo restrito, normalmente centrado em um único evento, abdicando de análises minuciosas, digressões e descrições pormenorizadas. Se o romance é um gênero ligado à tradição escrita, o conto tem, como assinalei, suas origens na tradição oral, no ato de contar histórias, que eram passadas de geração a geração.

O conto popular distingue-se do conto literário na forma de transmissão e, consequentemente, na de recepção. No primeiro, a transmissão é oral e a recepção se dá em tempo real. A narrativa é dirigida a um auditor. No segundo, a transmissão é escrita e a recepção se dá a posteriori. A narrativa é dirigida a um leitor. Essas diferenças trazem consigo outras, como a mudança da linguagem e, no caso do conto literário, a expansão do público receptor, que passa a ser mais heterogêneo, uma vez que a circulação dos textos passa a não se restringir apenas à comunidade sociocultural para quem as histórias são narradas.

Outra distinção entre o conto popular e o conto literário reside na autoria, enquanto os primeiros são anônimos, os segundos possuem autoria definida. Os contos populares têm servido de matéria-prima para a elaboração de obras literárias, por isso é comum encontrar ecos ou referências diretas ou indiretas a eles em contos e romances modernos. A personagem Oskar do romance O tambor, do escritor alemão Günther Grass, é inspirado no Pequeno Polegar. Guimarães Rosa inicia seu conto Conversa de bois fazendo referência aos contos maravilhosos:

Que já houve um tempo em que eles conversavam, entre si e com os homens é certo e indiscutível, pois que bem comprovado nos livros das fadas carochas.

Nos contos do escritor moçambicano Mia Couto, em que realidade e fantasia se fundem, ressoam vozes de histórias da tradição oral africana.

O romance é cumulativo, ou seja, nele há uma sucessão de eventos que se encadeiam em direção ao clímax e, posteriormente, ao desfecho. O conto, por ser limitado em sua extensão, procura captar um momento, um instantâneo.

O contista e teórico do conto Júlio Cortázar (1914 – 1984) compara o romance a um filme enquanto o conto é comparado a uma fotografia. Para esse autor, o romance realiza uma abordagem horizontal; o conto, uma vertical. Por ser uma narrativa condensada, o conto elimina tudo o que é acessório, centrando-se naquilo que é essencial à trama, evitando intrigas acessórias. Uma frase de Cortázar ilustra bem a diferença entre o conto e romance:

o romance ganha sempre por pontos, enquanto o conto deve ganhar por nocaute.

Para um outro grande contista e também teórico do conto, Edgar Allan Poe, a extensão é requisito fundamental do conto, já que esse gênero literário deve buscar uma unidade de efeito, enganar, aterrorizar, encantar ou deslumbrar, e essa só pode ser conseguida se o texto for possível de ler numa assentada, de meia a duas horas.

MEER




quinta-feira, 6 de julho de 2023

Uma breve história do conto / Uma não estrutura que o governa e multiplica

 


Uma breve história do conto

Uma não estrutura que o governa e multiplica

2 JULHO 2023, 

O conto é um gênero narrativo presente em diversas culturas cujas origens se perdem no tempo, por isso é praticamente impossível se escrever uma história do conto. Sabe-se que suas primeiras manifestações se deram na forma oral. Pessoas se reuniam em torno de uma fogueira e alguém narrava histórias que encantavam a todos. A autoria dessas narrativas transmitidas de geração em geração era desconhecida. Não se pode falar que essas primeiras manifestações do conto tivessem um narrador como conhecemos hoje. Aquele que contava o conto não era seu autor, sequer organizava a narrativa. Ele apenas era um intérprete do texto.

Estudos recentes desenvolvidos pelo antropólogo Jamie Tehrani, da Universidade de Durham, que trabalhou com a pesquisadora de folclore Sara Graça da Silva, da Universidade Nova de Lisboa, publicados na revista científica Royal Society Open Science, afirmam que alguns contos populares remontam à pré-história e não aos séculos 16 e 17, como se acreditava. Segundo a pesquisa, a origem do conto João e o pé de feijão remonta há mais de 5 mil anos. Os contos A bela e a fera e O anão saltador têm cerca de 4 mil anos de idade.

Esse ancestral do conto moderno tinha suas raízes na cultura popular e veiculava temas ligados a essa cultura. Do ponto de vista de sua estrutura, eram narrativas bem simples, centradas num único episódio, com uma sequência temporal, em que os acontecimentos sucediam na linha do tempo. Muitas delas apresentavam o elemento maravilhoso, integrado normalmente na narrativa.

Sabemos da existência desses contos, porque muitos deles foram posteriormente copilados para a forma escrita. Essas narrativas, agora na forma escrita, continuaram a ser passadas de geração em geração e chegaram a povos diferentes. Mesmo escritas, não perderam seu caráter de oralidade, já que muitos povos, em diversas culturas, têm o hábito de contar histórias, sobretudo para crianças que ainda não foram alfabetizadas.

Algumas dessas narrativas são bem conhecidas, na forma tradicional, ou em adaptações feitas especialmente para crianças. As histórias do Livro das mil e uma noites é um bom exemplo de contos que se perdem no tempo. Simbad, o navegante, Ali Babá e os quarenta ladrões e Aladim e a lâmpada mágica são exemplos de narrativas que circulam em diferentes culturas e em semióticas diversas, animações, filmes, novelas gráficas, etc.

Na Idade Média, aparece o Decameron, de Giovanni Boccaccio, cujas histórias foram escritas entre 1349 e 1351 (ou 1353), logo após a peste negra que assolou a Europa. Trata-se de uma obra de qualidades artísticas inegáveis, com uma estrutura bem mais complexa do que as narrativas toscanas da tradição oral. Em 1386, surgem na Inglaterra os Contos de Canterbury, de Geoffrey Chaucer, cuja estrutura é inspirada no Decameron, de Boccaccio. Em 1613, aparece na Espanha o livro Novelas exemplares, de Miguel de Cervantes. Nele, o autor de Dom Quixote apresenta histórias sobre temas diversos.

Na história do conto, Charles Perrault (1628 – 1703), considerado o pai da literatura infantil, ocupa lugar de destaque, por ter dado tratamento literário a um gênero de grande aceitação, o conto de fadas. Entre os contos mais conhecidos desse gênero estão Chapeuzinho vermelhoA bela adormecidaO pequeno polegarO gato de botas.

O que chamamos hoje de conto moderno surge no século XIX com o norte-americano Edgar Allan Poe (1809 – 1949), um grande contista e teórico do conto. Pode-se afirmar que foi Poe quem criou o conto policial com Os mistérios da rua Morgue. O século XIX vê surgirem ainda dois dos maiores contistas da literatura ocidental, o russo Anton Tchekhov (1860 – 1904) e o francês Guy de Maupassant (1850 – 1893). Esses dois autores serão considerados modelos para os contistas que vêm depois deles. De certa forma, a produção do conto clássico ou se prende a Maupassant ou a Tchekhov. Isso significa que qualquer pessoa que queira conhecer um pouco mais profundamente esse gênero obrigatoriamente terá de ler contos desses dois autores.

Tchekhov é um mestre do conto cuja matéria é um incidente do cotidiano. Acontecimentos banais, na mão de Tchekhov, se transformam. No conto Pamonha, por exemplo, uma simples cena de um patrão acertando as contas com a governanta de seus filhos transforma-se num conto que traz à tona o tema da exploração e da humilhação do pobre pelo rico.

Os contos de Maupassant trazem um viés de crítica social e abordagem psicológica. Bola de sebo é um conto magistral que nos mostra como, em decorrência da situação, uma pessoa pode ser vista como boa ou má. A personagem que dá título ao conto é uma prostituta que viaja durante a guerra da França com a Prússia em uma carruagem acompanhada por pessoas “de bem”, representantes de diversas classes sociais e que desprezam e marginalizam a prostituta, mas uma mudança dos acontecimentos faz com que passam a depender dela, o que altera o modo de agir em relação a ela.

Para os brasileiros, o século XIX também é o século da consolidação do conto literário com a publicação das obras do nosso maior contista, Machado de Assis. Seus contos não deixam nada a dever a seus romances, sendo muitos deles verdadeiras obras-primas como O espelhoA cartomanteO enfermeiro e A causa secreta.

O século XX é aquele em que mais uma vez se vê uma mudança no gênero. O conto passa a incorporar o elemento fantástico, há uma ruptura no modo tradicional de narrar e o psicológico passa a se sobrepor sobre o cronológico. Sem dúvida, Franz Kafka (1883 – 1924) é um dos maiores representantes do que se pode chamar de conto moderno e serviu de influência para muitos outros contistas do século XX e XXI. No Brasil, há que se destacar ainda a importância de Guimarães Rosa pela riqueza temática e pela forma com que rompe com uma linguagem tradicional.


MEER


domingo, 2 de julho de 2023

Torbjørn Rødland

 

Torbjørn Rødland
Red Pump, 2014 - 2015
chromogenic print
29 15/16 x 23 5/8 inches
(76 x 60 cm)
Edition of 3, with 1 AP

Torbjørn Rødland
(1970)






Torbjørn Rødland
Narrative Stasis (Studio 798), 2008 - 2016
chromogenic print
55 1/16 x 43 3/8 inches
(139.9 x 110.2 cm)
Edition of 3, with 1 AP




Torbjørn Rødland
In a Norwegian Landscape 18, 1995
chromogenic print
20 1/2 x 26 3/8 inches
(52.1 x 67 cm)
Edition of 3, with 1 AP