segunda-feira, 7 de agosto de 2023

O paraíso perdido / Da desumanização da arte à re humanização da vida

 

Retrato de Luis Buñuel
Salvador Dalí



O paraíso perdido

Da desumanização da arte à re humanização da vida

28 MAIO 2015, 

Introdução

Diante das descobertas da ciência que derrubam antigas crenças, da desagregação de conceitos, de uma sensação de desrealização que acompanha o surgimento das vanguardas, resiste o desejo de que a arte atue no mundo, se não para preencher o vazio deixado pela derrocada da idéia de unidade, pelo menos para retratá lo. E é isso que a chamada Geração de 27 irá fazer ao longo de um conjunto de obras. Tais obras foram consideradas surrealistas e apesar das diferenças que apresentam entre si, possuem semelhanças profundas que nos permite agrupá-las em torno de alguns pontos em comum. Há uma constante na poesia, escrita ou visual, de autores como Lorca, Aleixandre, Cernuda, Alberti e Luis Buñuel: a consciência do vazio e a desumanização do homem.

Ao longo do texto iremos apontar uma obsessão que é constante na obra de quatro poetas da geração de 27 – Cernuda, Aleixandre, Lorca e Alberti – e do realizador Luís Buñuel: o retrato do homem depois de ser expulso do Paraíso. Veremos que, se existe a nostalgia por um Paraíso ou se se visiona profeticamente este lugar, é porque algo mudou nas relações que o homem estabeleceu com o cosmos e consigo mesmo. Para os autores da primeira vaga do surrealismo espanhol, a sociedade alcançara o limite mesmo da amputação do humano. Mas isso não significa, necessariamente, que as teorias orteguianas da desumanização da arte possam ser aplicadas aqui; pelo contrário. Neste caso pode-se dizer que a humanização da arte é inversamente proporcional a degradação do homem.

De uma relação íntima com a natureza (o Paraíso) o homem passa a incompatibilizar com ela, alterando as leis fundamentais que regeram o princípio criador. Há o enfrentamento com a natureza. Como resultado desta subversão ao natural, através dos séculos vem sendo processada uma lenta degradação não somente a do ser pensante como também a da própria natureza. A natureza já não é o refúgio, como o foi perante uma visão neorromântica e neobarroca que subsistia ainda neste período. Escreveu Breton certa vez que “l’homme originellement en possession de certaines clés qui le gardaient en communion étroite avec la nature, les a perdues et, depuis lors, de plus en plus febrilement s’obstine a en essayer d’autres qui ne vont pas”[1].

Se o homem perdeu a chave que o ligava a natureza, Buñuel e seus companheiros de geração irão retratar este facto em sua obra e através dela tentar de novo reencontrar a porta que os levará ao Paraíso, ou ao momento exacto em que homem e natureza eram vasos comunicantes e em que ambos comungavam os mesmos ideais.

Da desumanização da arte à re-humanização do homem: o surrealismo espanhol

O clima vanguardista que se vivia em toda Europa também estava presente em Espanha. Entre os anos 20 e 30, apareceram os primeiros livros de uma nova geração poética. Garcia Lorca, em 1922, lança Libro de poemas, seguido por Gerardo Diego com Imagem, em 1923; Tiempo, de Emilio Prado, sai em 1925; também em 1925, Marinero en tierra, de Alberti; Las islas invitadas, de Manuel Altolaguirre em 1926 e em 1928 Ambito de Vicente Aleixandre e Cántico de Jorge Guillén. Estes autores deram corpo a chamada Geração de 27, também conhecidos como surrealistas espanhóis.

O conceito de Ortega y Gasset sobre desumanização da arte não irá resistir ao surrealismo espanhol. Nunca no século XX a poesia espanhola adquiriu um tão elevado grau de “humanização” - humanização no sentido mais pleno e cabal, já que não se limitou a perceber, recordar ou descrever, senão que pretendeu trabalhar melhor “dans le mystere de la matière et qui veut plus suggerer que décrire”[2]. Sugestões cósmicas e não morais através de uma fusão do homem com a natureza, objetivo único de um longo caminho apenas recordado na memória ancestral e coletiva ou individual, por isso mesmo, inesquecível, por mais que as sombras opostas à verdadeira ideia construam falsos paraísos.

Os poetas que irei analisar, Lorca, Cernuda, Alberti e Aleixandre, pela relação que se nos apresenta com a obra de Buñuel, longe de esquecerem o homem, ou a figura humana, reiteradamente invocam-no e reclamam-no. Permanece em suas obras o pensamento mítico, inseparável também do de toda a imaginação humana, em uma palavra: Paraíso, Paraíso Perdido e retorno até ele. Não significa porém que haja uma identidade ou uniformidade em suas obras. As experiências pessoais, bem como sua própria sensibilidade, traçaram distintos caminhos. Fica, porém, a mesma angústia (pelo homem) e a mesma fé (no homem).

Pode-se afirmar que o que mudou na estética dos finais dos anos 20 – e que se prolongará em alguns artistas da Geração de 27 até mais tarde – foi a consciência. Consciência do que é ser homem; consciência da relação do homem com a natureza e, principalmente, consciência de sua inconsciência. Esta lucidez joga nesta sinfonia estética como contraponto da já assinalada visão mítica. São ambos inseparáveis e complementares. Voltando até as suas origens o homem torna-se dono do seu passado num afã de construir, a partir de seu processo de construção, ou seja, voltar atrás em busca de um tempo perdido e remoto do qual descolou-se há muito tempo.

O Paraíso Perdido

Rafael Alberti invoca o Paraíso Perdido em um poema de Sobre los ángeles (1929), obra que causa algumas controvérsias quanto a sua classificação como surrealista, mas onde é possível encontrar elementos claramente ligados as idéias de Breton:

A través de los siglos,
por la nada del mundo,
yo, sin sueño, buscándote. (…)
żAdónde el Paraíso,
sombra, tú que has estado?
Pregunta con silencio.
Ciudades sin respuesta,
ríos sin habla, cumbres
sin ecos, mares mudos. (…)
Ya en el fin de la Tierra,
sobre el último filo,
resbalando los ojos,
muerta en mí la esperanza,
ese pórtico verde
busco en las negras simas.(…)
!Paraíso perdido!
Perdido por buscarte,
yo, sin luz para siempre.[3]

Apesar de não encontrarmos neste poema de Alberti a supressão da pontuação típica dos poemas surrealistas, detectamos, além do tema em si, o Paraíso Perdido, inumeráveis traços do imaginário surrealista. A saber, logo no primeiro verso, A través de los siglos, deparamo-nos com a indefinição e ao mesmo tempo uma ideia de continuidade temporal que é a marca do tempo surrealista. Além desta marca que atravessa todo o poema, há ainda imagens de degradação, incomunicabilidade, imobilidade, aves cegas, e as sombras que pairam sobre tudo, porque o poeta, impotente, já não alcança o paraíso.

O “Paraíso Perdido” de Alberti remete-nos, por exemplo, ao universo plástico de Max Ernst, em 2 Enfants sont menacés par un rossignol, considerada uma obra capital do artista alemão, datada do mesmo ano do primeiro manifesto do surrealismo. A utilização de uma técnica mista, em que o contraste dos elementos materiais são evidentes, é fundamental para compreender a própria obra: o quadro projeta-se para fora do espaço plástico, fazendo uma ponte entre o interior e exterior do quadro e do pintor, que esboça elementos presentes na mitologia surrealista, como as figuras sem olhos, indo em direções opostas, mas sem de fato sairem do lugar, causando a suspensão do movimento, é um não-movimento ou a impossibilidade da fuga. A ameaça é um pássaro, presença constante no bestiário surrealista. Um pássaro minúsculo que só poderia tornar-se ameaçador no espaço onírico-plástico evocado por Ernst.

Em Ernst, não só na obra citada mas em praticamente todo seu trabalho, as muralhas erguidas, as figuras sem olhos, o espaço vazio povoado por uma sombra suspensa que paira ameaçadora, sem sabermos de onde ela vem, remetem-nos a um objetivo: salvar a infância (o Paraíso Perdido) da ameaça maior da incerteza e do caos que vigiam, muito de perto, o mundo. A ideia de incomunicabilidade, presente em Ernst, eiva o poema de Alberti, e é reiterada através dos mares mudos; cantos petrificados; cumbres sin ecos.

As imagens de Lorca também estão presentes em Ernst, em Alberti, em Buñuel. Se tomarmos como exemplo “Oda al rey de Harlem”, do livro Poeta en Nueva York, encontramos imagens que são freqüentes na poesia visual de Buñuel:

Con una cuchara,
arrancaba los ojos a los cocodrilos
y golpeaba el trasero de los monos.
Con una cuchara.
Fuego de siempre dormía en los pedernales
y los escarabajos borrachos de anís
olvidaban el musgo de las aldeas. (…)

Con una cuchara… Os olhos do crocodilo eram arrancados, enquanto o olho é cortado por uma navalha em Un chien Andalou. O olho cortado e a lua atravessada pelas nuvens são imagens circulares que reiteram a ideia de uma rima plástica no filme de Buñuel. As formas circulares no filme não possuem apenas o significado imediato, mas revelam a própria construção centrípeta do filme: são círculos em movimento de fuga para dentro de si mesmos. O olho é emblemático em Buñuel – um corte que convida a todos a olhar para dentro. Em Lorca e Buñuel há uma mutilação – do olho. E há a lua, além de um convite para sair-se do cotidiano e enfrentar os demônios inconscientes.

Já para Luis Cernuda: “Solo encuentro apetecible un Éden donde mis ojos vean el mar transparente y la luz radiante de este mundo; donde los cuerpos sean jóvenes, oscuros y ligeros; donde el tiempo se deslice insensiblemente entre las hojas de las palmas y el lánguido aroma de las flores meridionales”. Mais adiante este paraíso é situado: Andaluzia, que para o poeta traduz-se em uma palavra – felicidade.

Como muito bem assinalou José Luis Cano[4], em Cernuda a visão do paraíso oscila entre uma visão edênica de sua terra enquanto paraíso humano e uma visão pagã intimamente helênica. Para Cernuda, a perda do paraíso situa-se num forçado exílio imposto por uma guerra. No momento em que alguém cortó la piedra en flor, sem que esta mesma flor pudesse dar seus frutos prometidos, corta-se toda a possibilidade de continuação da vida. Fica no entanto, como vimos, um lugar, real ou desejado. A luz segue iluminando:

(...) desbordando en la arena
desbordando en las nubes, desbordando en el tiempo,
que dormita sin voz entre las ramas.

Esta visão de um tempo suspenso tem uma importância transcendental: um tempo que transcorre sem transcorrer, antagônico à velocidade imposta pela sociedade moderna. O tempo suspenso de Cernuda remete-nos ao conceito de montagem invisível de Buñuel – a aparente ausência de movimento, não significa que este não esteja presente de uma maneira muito mais sutil, relacionando-se mais aos movimentos internos que aos acontecimentos externos.

Mais amplamente delimita-se o paraíso em Aleixandre e Alberti. A natureza não é, na obra de Aleixandre, uma caixa-de-ressonância, senão partícula de um todo (o cosmos) no qual se inclui o homem. E esta é precisamente a sua visão paradisíaca:

Entre las flores silvestres recogisteis cada mañana
el último, el pálido eco de la postrer estrella.
Bebisteis ese cristalino fulgor
que como una mano purísima
dice adiós a los hombres detrás de la fantástica presencia montañosa.[5]

Em Alberti encontramos a definição do paraíso em “Tres recuerdos del cielo”, poema de Sobre los ángeles:

No habían cumplido años ni la rosa ni el arcángel.
Todo, anterior al balido y al llanto.
Cuando la luz ignoraba todavía
si el mar nacería niño o niña.
Cuando el viento soñaba melenas que peinar
y claveles en fuego que encender y mejillas
y el agua unos labios parados donde beber.
Todo, anterior al cuerpo, al nombre y al tiempo.
Entonces, yo recuerdo que, una vez, en el cielo...[6]

Alberti definiu o paraíso como um estado mais que um lugar. Claro que o lugar – o céu – é designado; no entanto deverá ser entendido como espaço simbólico, como elemento de ascensão e não como topos. Pressentimos neste prólogo um estado pré-natal em que o sexo, o corpo, o nome, em síntese, a forma, todavia não fora criado. Espaço do sonho, tempo mítico que necessita de um histórico una vez (recordemos Cernuda: Hubo un tiempo...) suficientemente ambíguo para mediar uma eternidade e um presente. Mais uma vez aparece a luz presidindo a Criação.

Se em Cernuda, Aleixandre e Alberti encontramos claras visões do paraíso, Éden estabelecido como produto de uma memória, como aspiração e desejo da Edad del oro, em Lorca, como já vimos, este lugar constrói-se em oposição ao mundo degradado que envolve o homem. O Paraíso pode estar em Santiago de Cuba nunca em Nova Iorque. Assim existe uma visão profética mais que uma nostalgia do paraíso. Apesar de que em alguns casos, como o citado poema “Oda al rey de Harlem”, há uma memória ancestral do negro novaiorquino, que para o poeta, aspira a sua velha África. García Lorca forja o paraíso por antítese à New York, cidade que “encarna la forma extrema de la negación de lo especificamente humano, de la libertad y del amor”[7].

São muitas as dificuldades que se colocam ao homem em sua busca do Paraíso Perdido. O silêncio, a incomunicabilidade entre os seres, as barreiras e/ou petrificações que condicionam o movimento, os profundos abismos que magneticamente atraem impedindo a ascensão. Chegamos ao momento da solidão e da angústia que, se bem que manifestada com diferente intensidade nos distintos poetas estudados, encontra eco em todos eles:

ciudades sin respuesta,
ríos sin habla, cumbres
sin ecos, mares mudos.[8]

O tema do Paraíso Perdido (e da consciência da perda) é a tônica das visões poéticas de Alberti, Cernuda, Aleixandre e Lorca, uma obsessão culturalmente entranhada no homem e compartilhada vivamente por estes quatro poetas da geração de 27. Toda consciência obriga à ação e, a partir do momento em que se conhece a perda, passa-se a desejar o perdido e a tentar recuperá-lo.

O Paraiso de Luis Buñuel

Antes de realizar Un Chien Andalou, o filme, Buñuel escreveu um livro de poemas com o mesmo título. O título foi inspiração conjunta dele e de Salvador Dalí, sendo depois escolhido para seu primeiro filme. Além da inspiração para o título do seu primeiro filme, há mais coincidências na obra de Buñuel e de seus companheiros de geração. O cão andaluz não era apenas Lorca, mas era um elemento presente no imaginário comum dos três amigos (Lorca, Dalí e Buñuel), alimentado pelas imagens dos Cantos de Maldoror. Mas, se a imagem de um cão, presente emblematicamente na obra de Dalí, e presente/ausente no primeiro filme de Buñuel, reforça a idéia de ligação entre os que saíram de Espanha (Dalí e Buñuel), ligando-se mais diretamente ao surrealismo francês, e os que permaneceram, como Lorca, sem sequer assumirem-se como surrealistas, encontramos ainda outros elementos que comprovam a existência de um imaginário comum, no qual eles se moviam, e que não está necessariamente conectado com o imaginário francês.

A ideia do Paraíso Perdido não é pertença exclusiva dos surrealistas espanhóis. Podemos dizer, que de um modo geral, todas as vanguardas são utópicas – vivem em função de alcançar um determinado topos que está sempre além. O surrealismo, que sofre influências do romantismo, desloca o conceito de utopia, já que a idéia do romantismo surge, justamente, de um voltar-se para dentro de si mesmo, como se este fosse o único lugar possível de salvação. Conforme Giulio Carlo Argan, “O final da epopéia napoleônica trouxe profundas consequências para a arte. À queda do herói segue-se uma sensação de vazio, o desânimo dos jovens destituídos de seus sonhos de glória (pense-se em Stendhal).” O que faz com que o sentido da arte sofra uma modificação profunda: “Volta-se à ideia da arte como inspiração; mas a inspiração não é intuição do mundo, nem revelação ou profecia de verdades arcanas, e sim, um estado de recolhimento e reflexão”[9] (o sublinhado é meu).

Assim sendo temos que, o surrealismo constrói uma utopia do espírito – um lugar que precisa ser alcançado para a realização plena de sua arte. No surrealismo espanhol, este lugar está no passado: o Paraíso Perdido, a Edad del Oro, um circuito a ser percorrido pela memória para que ela consiga fazer-nos reencontrar o que foi perdido e que poderá ser recuperado através da arte. O Paraíso dos poetas a que nos referimos, como já foi dito antes, em alguns casos mais que em outros, está também intimamente ligado ao paraíso adâmico. No surrealismo francês a idéia de paraíso está mais próxima de um estado de alma que nos liga ao passado, ao princípio, à infância, do que mesmo ao paraíso revelado pelo Génesis[10].

Na obra de Buñuel, apesar de sua inserção no surrealismo francês, detectamos a presença do paraíso adâmico. Em La mort en ce jardin, a selva envolve a cidade e é através dela que os foragidos podem encontrar a salvação (e também a perdição). Freddy Buache diz:

Así, tanto Robinsonm (sic), confinado en una isla, como el grupo de La mort en ce jardin, caminando por una selva virgen (...), todas estas gentes se han visto impelidas hasta el límite de sí mismas, condenadas a abandonar cualquier disfraz intelectual o moral y a mostrarse sin fingimientos tal como son; es decir, como aquello que, consiguientemente, perfila la razón de ser de las máscaras y los disfraces en nuestra civilización, y en un modo particular la razón de ser de la Máscara de las máscaras: Dios.[11]

Mesmo com seu professado ateísmo, graças a Deus, a presença de elementos ligados à mitologia cristã eivam a obra de Buñuel. Elementos presentes já em L’Âge d’Or. Sabemos que aqui estes elementos aparecem, de um modo geral, em forma de paródia – como no caso de Viridiana, mas são obsessivos, expondo os traços de hispanidad que vão acompanhá-lo sempre. Em La mort en ce jardin, a presença da selva é emblemática. A volta ao paraíso é o caminho da salvação e também da perdição. Em vez de ser uma volta a Deus é um retorno ao homem. Como em Breton, l’homme propose et dispose. Conforme Kyrou, o papel da religião é o autêntico protagonista deste filme: “Se mire como se mire, este filme es un admirable grito de afirmación del hombre y una negación total, absoluta, de la mística religiosa”.[12]

Apesar de condenar vivamente a religião, Buñuel não deixa de encená-la. E mais que a religião, a sua condenação recai sobre a civilização – o homem perde-se a si mesmo quando é domesticado pelos processos civilizatórios. O retorno às origens é a saída possível para curar uma civilização doente, que além de promover processos de mascaramento, aprisiona os homens em atos e gestos que nada significam. Cai-se então no vazio. É importante observarmos que no surrealismo francês há um ataque a um determinado processo civilizatório que levou ao aburguesamento (e consequente embotamento) dos sentidos. Mas as imagens que povoam as obras francesas não possuem o sentido místico e religioso dos espanhóis. O cinema de Buñuel constrói-se então sobre um duplo eixo – fiel ao imaginário espanhol, não deixa de recorrer ao ideário dos franceses.

Quanto aos outros aspectos citados anteriormente: mutilação, as estátuas, e o bestiário que obceca os poetas do surrealismo espanhol, facilmente encontramos correspondentes na obra de Buñuel. A mutilação está presente desde seu primeiro ato: o olho cortado de Un chien andalou[13]. Como em Lorca onde, Con una cuchara, arrancaba los ojos a los cocodrilos, com uma navalha Buñuel corta um olho, tornando este gesto o emblema de toda a sua obra.

As estátuas que em Alberti significam não comunicação, paralisia, morte, estão presentes, por exemplo, em L’Âge d’Or. Buñuel, em sua "Autobiografía" diz:

“Mi infancia transcurrió en una atmósfera casi medieval (…). Creo necesario hacer notar aquí (dado que ello explica en parte la tendencia de la modesta obra que luego realizaría) que los dos sentimientos básicos de mi infancia, que perduraron hasta bien entrada la adolescencia, fueron los de un profundo erotismo, al principio sublimado en una gran fe religiosa, y una permanente conciencia de la muerte”.[14]

Erotismo e morte entrelaçados nas estátuas de L’Âge d’Or, revelando que, apesar da tentativa de imersão total no surrealismo francês, Buñuel permaneceu espanhol.

O surrealismo espanhol não gerou manifestos, chegou mesmo a refutar a ideia de um surrealismo, mas acabou por, efetivamente, ir até mais fundo no desvio proposto pelos franceses. Sánchez Vidal refere-se a Dalí e Buñuel, mas podemos estender esta afirmação para os poetas que deixaram um vasto legado imagético que atravessa todo o século.

A plástica surrealista espraia-se por todas as artes, sendo a mesma tanto na pintura quanto na literatura e no cinema. O cinema de Buñuel realiza plasticamente uma certa literatura, que não é só dos seus compatriotas, mas de sua própria poesia, escrita antes de tornar-se um realizador de cinema. E sua obra, como vimos, reflecte sobre a desumanização progressiva do homem ao afastar-se da natureza e ao ligar-se inexoravelmente a uma cultura castradora e maquínica. Como seus companheiros de geração Buñuel mostrou-nos a sua visão da queda do homem após a sua expulsão do Paraíso. Ortega y Gasset preconizara a desumanização da Arte. Buñuel e seus companheiros de geração buscaram, através da sua arte, a re-humanização da Vida.

Notas

[1] André Breton, Entretiens, Paris, Gallimard, 1952, p. 248.
[2] Gaston Bachelard, La terre et les reveries de la volonté, Galliamard, Paris, 1976, p. 8.
[3] Cito a partir da mencionada edição de Vittorio Bodini, pp. 80 e 82.
[4] José Luis Cano, La poesía de la generación del 27, Madrid, Gredos, 1970.
[5] Vicente Aleixandre, Poesías completas, Madrid, Aguilar, 1960, p. 74.
[6] Cito a partir da mencionada edição de Vittorio Bodini, p. 174.
[7] Emilia de Zuleta, Cinco poetas españoles, Madrid, 1971, p. 253.
[8] Cito a partir da mencionada edição de Vittorio Bodini, p.80.
[9] Giulio Carlo Argan, Arte moderna, p.28. [10] No prefácio ao livro de Breton e Soupault, Les champs magnétiques, Philippe Audoin, na p. 24, afirma: “Sans doute Breton ne pouvait-il que rejeter les présupposés spiritualistes de la théorie de Myers. Mais il reste – en ceci l’analyse de Starobinski est pleinement convaicante – que pour lui, l’inconscient apparaît moins comme un «réservoir de pulsions», un animal honteux enfoui dans les culs-de-basse-fosse de notre mémoire, que comme une sorte de dieu caché. Qu’on s’entende: pour Breton, nulle transcendance n’est concevable, ni même tolérable. A ses yeux, ce que certains tiennent pour le divin, n’est qu’une faculté humaine détournée et mystifiée par les soins des «dresseurs» et en ceci, il se situe pleinement dans la ligne de Rousseau. Il suffit que l’homme «propose et dispose»”.
[11] Freddy Buache apud Augustín Sánchez Vidal, Luis Buñuel - obra cinematografica, Madrid, Ediciones J. C., 1984, p.207.
[12] Ado Kyrou apud Augustín Sánchez Vidal, op. cit., p. 211.
[13] Em La arboleda perdida, livro de memórias de Rafael Alberti, este recorda: “En medio de estos días y de este campo de batalla, no literaria ya, sino veradera, apareció, como un cometa, Luis Buñuel. Venía de París, la cabeza rapada, el rostro aún más fuerte, más redondos y salidos los ojos. Llegaba para mostrar su primera película, hecha en colaboración con Salvador Dalí... El filme impresionó, desconcertando a muchos y estremeciendo a todos aquella imagen de la Luna, partida en dos por una nube, que conduce inmediatamente a la otra, tremenda, del ojo cortado por una navaja de afeitar. Cuando el público, sobrecogido, pidió luego a Buñuel unas palabras explicativas, recuerdo que éste, incorporándose un momento, dijo, más o menos, desde su palco: “Se trata solamente de un desesperado, un apasionado llamamiento al crimen.” (Apud Augustín Sánchez Vidal, Luis Buñuel, pp. 90-1).
[14] Buñuel apud Augustín Sánchez Vidal, “Buñuel and the flesh”, in C. Brian Morris (Ed.), The surrealist adventure in Spain, Ottawa, Dovehouse Editions, 1991, p.206.

MEER



sábado, 5 de agosto de 2023

Manuel Baptista / Desenhos

 



Manuel Baptista

Desenhos

4 OUTUBRO 2014, 

O espaço em branco à volta dos desenhos é o outro lado. O lado onde a gente entra. Leonilson

Manuel Baptista nasceu em Faro, o que faz dele um artista local (coisa que ele nunca foi). Trabalhou em França e na Alemanha, entre os anos 60 e 70, sem deixar, no entanto, de participar da vida artística do seu país. A arte não pode ser localizada num espaço específico, ela não é fruto apenas da origem do seu autor, mas é um compósito de experiências, de vivências e de trocas. É fruto ainda do seu tempo, das exigências que este faz ao artista ao confrontá-lo com a História, que fica para trás, mas que pode permanecer como uma referência e como um ponto de partida. Como disse o filósofo espanhol Ortega y Gasset, eu sou eu e as minhas circunstâncias. A arte não vive fora do mundo, mas é parte essencial da sua própria composição e artistas como Manuel Baptista, que buscaram sempre estar adiante do seu próprio tempo, trazem, como marca, o símbolo da constante inquietação, que é uma das principais características da arte contemporânea.

Manuel Baptista experimentou formas, técnicas, suportes, linguagens. Experimentou movimentos e experimentou também não ostentar rótulos. Experimentou, de alguma forma, a solidão. E esta inquietude é visível nos desenhos que expõe agora: a mão do artista não para, desliza na superfície criando formas, sugerindo imagens, plasmando sombras. A sua obra, e sobretudo os seus desenhos, podem ser caracterizados pela ideia de desconstrução e de recomposição das superfícies. Há um cruzamento entre uma paisagem apenas sugerida e uma forte tendência ornamental. O ornamento, para o artista, não deve ser reprimido porque o tempo assim o exige. Há um lado solar, mesmo nas obras a preto e branco, que Manuel Baptista não pretende ocultar.

Alguns artistas fazem do vazio uma arte, tornando vívido o que não é visível. Os desenhos de Manuel Baptista jogam com as entrelinhas, como os espaços em branco. Mas no seu caso, não é o espaço em branco que determina a imagem. É a presença das linhas, ora robustas, ora delicadas, que preenchem o espaço em branco com as suas inquietações.


MEER


quinta-feira, 3 de agosto de 2023

Edgar Massul / #Other free Works

 

Edgar Massul *das tuas margens, algumas plantas espremidas, 2014 (séries)



Edgar Massul

#Other free Works

22 JULHO 2014, 

“Para entrar em estado de árvore é preciso partir de um torpor animal de lagarto às 3 horas da tarde, no mês de agosto. Em 2 anos a inércia e o mato vão crescer em nossa boca. Hoje eu desenho o cheiro das árvores”. ‒ Manoel de Barros

T’avonde, no dialeto algarvio, significa basta. O termo deriva do latim abundare. A nova exposição do artista Edgar Massul, #Other free Works, é concebida a partir do espaço que atualmente o rodeia, o Algarve. E neste espaço ele tenta penetrar nos subtextos que abundam na região. A sua obra é um processo de constante desvelamento: nada está feito, as obras necessitam de tempo e são constituídas por tempo e espaço, mais do que de qualquer outra matéria. Nas paredes de uma ruína, à beira da Ria Formosa, o artista planeou escrever t’avonde. A obra não realizada concretiza-se na imagem do cartaz da exposição. Ao apropriar-se de um termo arcaico, da mesma maneira que os algarvios se apropriaram do latim, Massul assina um manifesto sutil mas efetivo: basta. Basta de ruínas que a contemporaneidade produz e descarta. Ruínas de um património material e imaterial, natural e construído.

A exposição integra três núcleos de obras, que se dividem entre a Galeria TREM e o Museu Municipal de Faro. O primeiro núcleo, na galeria, é composto pela instalação Teu espelho (2013) ‒ um tanque construído com areia e água da Ria Formosa. Água e areia são elementos que se movem, que se adequam ao espaço, que se absorvem. Todo o processo será fotografado e o resultado afixado nas paredes da galeria que se convertem numa time line. O espelho de Massul é reflexivo na medida em que o artista permite à matéria que se ajuste, que se adapte, que assuma a sua impermanência. Não é um reflexo cego, mas uma atitude pensada.

No Museu Municipal, que outrora foi uma fábrica de cortiça, Massul vai instalar uma peça no centro do claustro, thermal body (mother), (2013). A matéria aqui é a cortiça queimada de S. Brás ‒ restos que sobreviveram ao incêndio que devastou a serra algarvia e que destruiu parte de uma cultura secular, a dos sobreiros. À volta desta peça, que funciona como um totem ancestral, ainda informe, o artista expõe os seus desenhos, feitos de matéria orgânica ‒ lama, folhas e frutos esmagados sobre o papel. De tuas margens algumas plantas espremidas (2014) é um conjunto de desenhos, em técnica mista, que revelam e escondem a sua origem natural. No papel pressentimos os rastos, mas o que vemos é o resultado de uma organização trabalhada do e no espaço. Se a matéria é orgânica e se o processo revela o caos presente na natureza indomada, o resultado é domesticado pelo artista que concebe e experimenta texturas, traços, cores e manchas.

A obra de Edgar Massul necessita de tempo. Para ser feita, para ser apreciada, para existir. As peças que ele compôs, ao longo da sua vasta carreira, não são demasiadas. Porque o artista não tem pressa em produzir. Ele negoceia com os objetos que lhe vão ditando formas, maneiras, modos. É uma obra sobretudo matérica: cada objeto diz, na sua textura específica, de onde procede. Não diz para onde vai, porque aponta sempre para o infinito da multiplicidade de sentidos que as coisas simples possuem. E a simplicidade não é fácil. É preciso estar atento para que a obra, na sua delicadeza, se revele.

Para fechar o ciclo, ou para reiniciá-lo, o artista apresenta-nos um livro, Formosa, a love story book, (2014). Técnica mista sobre papel, encadernado de maneira artesanal. Como na peça que expôs no Centro de Artes de Sines, em 2010, onde o artista escrevia e ocultava um poema de Al Berto com a terra vermelha da região, o seu livro também esconde e revela uma história por trás das muitas histórias que ele decide contar: as histórias de uma ria, de suas margens que ora aprisionam, ora se expandem em busca do mar ao fundo. O caminho da ria é no fundo uma deambulação pelas terras, é um adiamento da chegada ao mar. A ria é um compósito de matérias, de formas, de percursos. E está tão presente que se torna, muitas vezes, invisível. E a arte de Massul tem esta função: revelar o invisível ou ajudar-nos a voltar a ver. Entre a impermanência da matéria orgânica e a permanência da memória das coisas, o seu trabalho dialoga com a arte mais contemporânea e com a natureza ancestral.

T’avonde significa basta. Mas significa também que já nada é necessário, porque já se tem o suficiente. Na arte nunca se tem o suficiente, quer-se sempre mais. #Other free Works é uma exposição que dá continuidade ao projeto de curadoria da Galeria Trem, realizado pela licenciatura em Artes Visuais da UALg, em parceria com a Câmara Municipal de Faro. Com este trabalho completam-se dois anos de colaboração intensa e profícua. O convite ao artista Edgar Massul foi feito no sentido de celebrar o fim de um ciclo e o princípio de um novo ano de parceria. Porque a sua obra, como disse no começo, é um processo que não para, que se expande, que se reinventa e que volta, ciclicamente, ao começo.


MEER


terça-feira, 1 de agosto de 2023

Do público ao privado / As vias e os desvios de Nuno Viegas

 



Nuno Viegas, uma imagem da exposição *Privado*, Convento de St. António, Loulé, 2014


Do público ao privado

As vias e os desvios de Nuno Viegas

22 MAIO 2014, 

“Pensé en un laberinto de laberintos, en un sinuoso laberinto creciente que abarcara el pasado y el porvenir y que implicara de algún modo los astros”. - Jorge Luís Borges

O percurso do artista Nuno Viegas começou nas ruas da sua cidade natal, Quarteira, no Algarve, Portugal. A Arte Urbana, sobretudo o Graffiti, é uma influência ainda visível na sua obra contemporaneamente. Após acabar a licenciatura em Artes Visuais na Universidade do Algarve, ele decidiu continuar o seu percurso como artista e investigador avançando para um mestrado que culminou numa exposição que ele intitulou, ironicamente, Privado. O que, a partida, parecia uma negação às raízes da sua arte, reconhecidamente pública tornou-se, nesta exposição, um gesto estudado de desvendamento. Nuno Viegas revela o outro lado das ruas, não apenas as reais, palmilháveis, por onde circulamos quotidianamente, mas as virtuais que se configuram como infovias e que nos conectam ao mundo todo sem que tenhamos de sair de casa.

Através de suportes diversos, o artista trata no fundo de uma questão: o limite entre o público e o privado. Entre aquilo que se revela e aquilo que se oculta. Na arte, este limite é estabelecido de formas variadas, por exemplo, a moldura dos quadros ou o ecrã funcionam como a zona de corte, o lugar exato em que o artista permite que se entre na sua obra. O resto fica de fora. Os trabalhos de Nuno Viegas são janelas fechadas sobre si mesmas. Revelam apenas vislumbres daquilo que poderia estar do lado de dentro. Como a janela pintada de preto de Marcel Duchamp que assume que a arte não está limitada ao enquadramento mas que pode ser, ela mesma, um enquadramento, suas obras mostram o que não está lá. Porque as ruas, e o mundo que elas constituem, já estão superpovoados de imagens e mensagens que provocam um estado de cegueira – não vemos de tanto ver.

Estamos na era da superinformação. Um tempo que corrobora as palavras de Santo Agostinho: “Apesar do homem se inquietar em vão ele caminha na imagem”. Caminhamos nas imagens que nos rodeiam quotidianamente e somos também convertidos em imagem, através das câmaras de videovigilância que se espalham por todos os lugares. Torna-se cada dia mais difícil traçar uma linha divisória entre o espaço público e o privado, já que a nossa imagem, a partida um bem privado, torna-se pública e pode ser captada mesmo quando não estamos à espera. O trabalho de Nuno Viegas incide sobre uma questão premente na contemporaneidade: como é que os artistas são afetados pela acelerada produção e difusão de imagens e como é que as imagens produzidas por estes dispositivos, caso das câmaras de videovigilância, podem ser usadas num contexto artístico.

Privado foi, ao mesmo tempo, uma exposição e um projeto de investigação que fez parte das preocupações do artista desde que concluiu a sua licenciatura. Nuno Viegas questiona, com o seu trabalho, o papel da imagem na vida quotidiana, a banalização dos corpos - pela presença constante das câmaras e o direito à imagem privada que nos é roubado cada vez que saímos à rua. Por outro lado, utiliza como recurso estético as imagens que são produzidas por estes dispositivos de videovigilância, subvertendo a própria lógica destas imagens que não são produzidas para serem exibidas e muito menos para serem exibidas como arte.

A contemporaneidade é marcada pelo excesso de exposição, de produção de distribuição de imagens e de significações. Os pensadores da pós-modernidade sustentam que a época em que estamos deixou a humanidade numa grande encruzilhada, cada dia mais presa ao “tédio radical”. Cada vez mais a angústia do vazio absoluto se instaura, e as pessoas, perdem, paulatinamente, os seus referenciais e o contato pleno com a realidade, criando assim os seus próprios labirintos. As cidades foram convertidas em labirintos híper vigiados - ninguém está a salvo do controle do olhar. O panótico de Foucault reaparece como o modelo da sociedade em que vivemos: uma construção de onde podemos divisar todo o resto a partir do centro. É este modelo panótico e vigiado que a obra de Nuno Viegas questiona. Não apenas através de metáforas, mas, de maneira ousada, através da criação de dispositivos que simulam, e evidenciam, a nossa situação. A arte, neste caso, é um instrumento contundente e perturbador que põe em causa o processo de “naturalização” dos dispositivos de vigilância e questiona, ainda, a legitimidade da arte que se apodera dos mesmos dispositivos e os converte em novas formas artísticas.

MEER



sexta-feira, 28 de julho de 2023

‘Barbie’ (que não é um filme para crianças) pretende ser algo mais do que é

 


Crítica - ‘Barbie’ (que não é um filme para crianças) pretende ser algo mais do que é. E fica no meio do caminho

Cotação: duas estrelas

Por TOM LEÃO
Publicado em 21/07/2023 às 10:55
Alterado em 21/07/2023 às 10:55


‘Barbie’, de Greta Gerwig (roteirizado por ela e por seu marido, o cineasta Noah Baumbach, de ‘Frances Ha’), é uma ‘cinebio’ da boneca da Mattel; na verdade, uma ‘crítica’ a tudo o que ela representa (a mulher linda, de corpo impossível, embora fútil), mas sem pegar muito pesado (afinal, não podem falar mal do produto, ficam bem em cima do muro). Na trama, de um dia para o outro, Barbie (Margo Robbie, como a Barbie básica, a mais estereotipada - existem outras no filme) entra numa crise existencial e passa a pensar em coisas como morte e sobre o que existe além de seu lindo e perfeito Barbieworld.

Daí ela dá defeito e, para consertar, precisa vir ao nosso mundo descobrir onde aconteceu a falha (geralmente, é alguém que já brincou com a boneca de forma diferente). Então, após uma primeira parte muito divertida e multicolorida, entra em cena a jornada da boneca em busca de seu ‘eu’ -- numa Los Angeles estranhamente cinza e escura, onde as pessoas só usam preto. O empoderamento feminino entra na pauta e o mundo masculino é questionado. Ok. Mas, na parte final, a diretora perde o pé e vira chororô chato e antiquado, com direito a discurso da criadora da boneca, Ruth Handler, com sua criatura (supostamente inspirada em sua filha, Barbara).

Já se esperava que Gerwig (que até agora dirigiu filmes apenas ok, como ‘Ladybird’ e ‘Adoráveis mulheres’) não fosse fazer algo banal. Tanto que não é ‘censura’ livre, para crianças. Ela expõe questões um pouco mais adultas (ma non tropo) no roteiro e sugere certas coisas nas entrelinhas. Mas Gerwig perdeu a chance de fazer algo muito mais legal, usando dos mesmos expedientes, como já vimos em outros filmes que tocam no tema criador vs criatura. O terço final é bem entediante (números musicais bastante longos e chatos com os Kens, cujo Ken principal é feito por Ryan Gosling), e dá a impressão de que o filme condena a felicidade. Afinal, Barbie (que, vale lembrar, é apenas uma boneca, fruto de sua época, mas se atualizou com outros modelos) é feliz por viver num mundo onde nada do que nos preocupa, ‘do lado de cá’, interessa. Não era preciso faze-la virar ‘uma de nós’ e acabar com a sua felicidade. Ela era feliz. E sabia.

Mas as mulheres (sobretudo, adolescentes) vão adorar. E, no fim, a Mattel, também, pelo mega comercial gratuito da boneca.

JORNAL DO BRASIL

quinta-feira, 27 de julho de 2023

Cantora Sinéad O’Connor, dona do hit ‘Nothing Compares 2 U’, morre aos 56 anos

 



Cantora Sinéad O’Connor, dona do hit ‘Nothing Compares 2 U’, morre aos 56 anos

Irlandesa havia perdido o filho adolescente no início do ano passado


Por Gabriel Mansur
Publicado em 26/07/2023 às 17:35
Alterado em 26/07/2023 às 17:45

A cantora irlandesa Sinéad O’Connor, intérprete do hit 'Nothing Compares 2 U', morreu nesta quarta-feira, aos 56 anos. A informação foi confirmada pela família, mas a causa da morte ainda não foi revelada.

"É com muita tristeza que comunicamos o falecimento de nossa querida Sinéad. Família e amigos estão devastados e pediram privacidade neste momento tão difícil", disse a família da artista, em nota.

O’Connor, que alcançou a fama a partir de 1990, falava abertamente - e por décadas - sobre a luta que travava contra doenças mentais, probrema agravado em 2022, após o suicídio de seu filho Shane, de 17 anos. Ela disse se culpar pela morte do adolescente, que estava internado em um centro de tratamento para saúde mental. O jovem fugiu do hospital em que estava sob observação justamente para evitar que atentasse contra a própria vida.

Na ocasião, pelo Twitter, a cantora declarou que Shane "decidiu encerrar sua luta terrena" e ameaçou processar o hospital. Shane é filho da cantora com o ex-marido, o cantor folk Donal Lunny. Na ocasião, ela cancelou todos os shows do ano por causa da perda.

Esta não foi a única tragédia que a cantora enfrentou durante a vida. No livro Rememberings, de 2021, ela falou sobre a infância traumática e violenta, com episódios de abusos sexuais cometidos pela mãe. De acordo com a revista People, após os pais se divorciarem quando criança, a mãe dela Marie “não estava bem” e a espancava diariamente, por vezes no abdômen.

“Minha mãe tinha essa obsessão de destruir meu útero”, disse a cantora à publicação.

O’Connor ainda era conhecida como uma militante pelos direitos das mulheres e crítica a abusos religiosos, como a pressão pela proibição do aborto.

Carreira

Sinead O’Connor nasceu em Dublin, na Irlanda, em 1966. A cantora começou a carreira musical em 1987, com o álbum The Lion and the Cobra, tendo se apresentado, nessa época, em diversos países da Europa, ganhando visibilidade e alguma notoriedade.

Foi seu segundo trabalho, o disco I Do Not Want What I Haven’t Got, de 1990, que garantiu à cantora uma carreira internacional. É nele que está seu maior hit, Nothing Compares 2 U, composta por Prince. A canção fez com que o álbum atingisse a primeira posição entre os mais vendidos em inúmeros países. E o vídeo da música no YouTube tem quase 400 milhões de visualizações.

Em 1992, ela lançou o terceiro álbum de estúdio, intitulado "Am I Not Your Girl?”. Foi neste mesmo ano que a carreira ficou marcada por uma polêmica. O’Connor rasgou uma foto do papa João Paulo II durante uma apresentação no Saturday Night Live, em que cantou a música War, que critica preconceitos e desigualdades sociais.

A cantora, que já tinha relatado professar a fé católica, disse ter rasgado a foto do papa em protesto contra as denúncias de abuso sexual a clérigos da Igreja. Na época, a instituição passava por uma crise, com bispos e membros do alto escalão do Vaticano sendo denunciados.

Macaque in the trees
Irlandesa raspava o cabelo como 'protesto' desde o início da carreira (Foto: Reprodução/Facebook)

Sua carreira musical ainda inclui o álbum Universal Mother, lançado em 1994, que contém a faixa Fire On Babylon, que fala sobre abuso sexual infantil. Em seguida, veio o EP Gospel Oak, que tem seis músicas dedicadas aos povos de Ruanda, Israel e Irlanda.

Depois de uma pausa na carreira, em 2000, lançou ao disco Faith and Courage, dois anos mais tarde, foi a vez de Sean-Nós Nua, que traz canções folclóricas irlandesas. Em 2003, lançou She Who Dwells in the Secret Place of the Most High Shall Abide Under the Shadow of the Almighty, um disco duplo coletânea com um registro ao vivo e outro com faixas raras e covers.

O'Connor recebeu o prêmio inaugural de Álbum Irlandês Clássico no RTÉ Choice Music Awards no início deste ano. Segundo o Irish Times, na ocasião, ela foi aplaudida de pé ao dedicar o prêmio, por "I do not want what I haven't got", a “todo e qualquer membro da comunidade de refugiados da Irlanda”.

No total, ela tem dez álbuns de estúdio gravados e planejava lançar um novo trabalho em breve. Ela também faria uma turnê por Oceania, Europa e Estados Unidos a partir do ano que vem.

Mais polêmicas religiosas

A polêmica com o papa não foi a única vez em que a artista se envolveu com uma crise na Igreja Católica. Em 1999, ela foi nomeada sacerdotisa da Igreja Independente Católica, na França. A cantora foi excomungada e sua ordenação revogada, já que a Igreja Católica não permite que mulheres seja sacerdotisas.

Em 2018, a cantora se converteu ao Islamismo e também revelou ter mudado de nome, passando a chamar-se Shuhada’ Davitt. No mesmo ano criou mais polêmica ao dizer que não queria mais estar perto de pessoas brancas. “Em momento nenhum, por nenhuma razão. São nojentas”, disse em uma publicação no Twitter. No ano seguinte, ela chegou a acusar Prince de ter tentado agredi-la.

O corte de cabelo

Na adolescência, Sinead estava trabalhando no disco "The Lion and the Cobra", seu álbum de estreia lançado em 1987, quando foi convidada pelo Nigel Grainge, um executivo de sua gravadora, para almoçar. Ele pediu que ela deixasse o cabelo curto crescer e se vestisse mais como uma menina. A jovem que estava começando na música foi até o cabeleireiro e raspou a cabeça. Corte que ela manteve por muitos anos.

Em 2011, ela voltou ao noticiário internacional por aparecer com um visual diferente. Durante um show que fez no Manchester International Festival, na cidade inglesa, Sinéad apareceu com as madeixas curtas. Entretanto, o corte raspado voltou a ser sua preferência e se manteve até o fim de sua vida.

JORNAL DO BRASIL


quarta-feira, 26 de julho de 2023

Mick Jagger 80 anos / Veja as músicas mais tocadas no Brasil

Mick Jagger


Mick Jagger 80 anos: veja as músicas mais tocadas no Brasil

O astro da banda Rolling Stones completa oito décadas de vida; confira as músicas da banda de Mick Jagger que foram mais tocadas no Brasil

Isabel Prado

Jul. 26, 2023


Mick Jagger completa 80 anos de idade nesta quarta-feira, dia 26 de julho. O fundador, cantor e compositor da banda britânica Rolling Stones é referência no rock mundial.

Em sua homenagem, o Ecad (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição) fez um estudo de quais as músicas que os brasileiros mais consumiram de Mick Jagger na última década. Faixas como “Satisfaction (I can't get no)”, “Miss you” e “Start me up” compõem o top 3 das obras mais tocadas no Brasil. 

Mick Jagger: lista de músicas mais tocadas no Brasil na última década

Confira abaixo as cinco músicas mais tocadas de Mick Jagger juntamente com o Rolling Stones na última década no país.

Satisfaction (I Can't Get No)

O hit é fruto da parceria Mick Jagger com Keith Richards, guitarrista e amigo da banda. A música foi a mais tocada de Rolling Stones no Brasil entre os anos de 2013 e 2023. 

Miss You

A segunda canção foi um dos grandes sucessos de Rolling Stones. Lançada em 1978, "Miss You" debutou em primeiro lugar na Billboard Hot 100.

Start me Up 

A faixa foi abertura do álbum "Tattoo You" e foi o último single da banda a aparecer no top 10 britânico.

Bitter Sweet Symphony

A música envolve uma polêmica entre os Rolling Stones e a banda The Verve, que envolvia direitos autorais da obra. No entanto, após 22 anos de discussão, Mick Jagger e Keith Richards devolveram o direito do hit para o The Verve. 

"Sympathy for the Devil"

A obra tem um carinho especial dos brasileiros, pois Mick Jagger se inspirou no samba ao compor a canção. 


O POVO



segunda-feira, 24 de julho de 2023

Pedro Cabral Santo / Incondicionalmente artista

 

Pedro Cabral Santo, *Homage a Victor Pinto de Fonseca*, 2014, cabeça de gesso, almofada.
Cortesia Colégio das Artes, Coimbra


Pedro Cabral Santo

Incondicionalmente artista

22 ABRIL 2014, 

Pedro Cabral Santo é um artista que vem, ao longo dos anos, demonstrando uma inegável capacidade de fundir os gestos mais delicados com as ideias mais duras, ou vice-versa. As suas obras, que podem ser consideradas de cariz conceptual, necessitam de espaço para serem vistas e vivenciadas. E necessitam, sobretudo, de um espectador que possua múltiplas referências e que (re)conheça o seu próprio tempo. Não é um artista de consumo fácil, porque o espírito de contenção que emana das suas obras só se revela, plenamente, aos iniciados. O vir-a-ser da obra torna-se real quando experienciado. Ver as obras de Pedro Cabral Santo é como ir ao encontro de alguém que se deseja muito conhecer e, como no poema de Donne, “ela é um livro místico e a poucos, a quem tal graça se consente, é dado lê-la”. Os poucos, a que tal graça se consente, são os que não desistem no primeiro encontro. São os que persistem em penetrar aos poucos nas camadas que cada obra possui. O que não quer dizer (de modo algum!) que suas obras sejam demasiado complexas. Pelo contrário, muitas delas são de uma simplicidade desarmante. São despidas de artifícios e o excesso só aparece quando convocado, o que raramente acontece. A sua última exposição, Unconditionally foi pensada para o espaço que a alberga. Todas as peças foram concebidas para significar em conjunto, sem que deixem de funcionar individualmente. Unconditionally é composta por sete peças que incluem instalação, vídeo-instalação, escultura e pintura instalada: Turn left, Turn left (Tru Thougths)Red and Blue (Just waiting)Ícaro II (Up, up into the sky)SelfishNONPonto cego e Impressionism.

Turn left, turn left propõe uma viagem sobre a obra do artista – um comboio anda em círculos e podemos adivinhar um fim trágico, o encontro com o abismo. A viagem não se completa porque não é possível voltar ao princípio, que é também o fim. Chegar e partir são sempre dois lados de uma mesma viagem e o artista convida a despenharmo-nos com ele num abismo possível, previsível, antevisto porque não seguimos a indicação de virar à esquerda. Mas não nos enganemos, a mensagem é, aparentemente, óbvia. Até porque o óbvio nem sempre é visível. Como disse, as peças do artista são compostas por camadas de significação e é a significação o material que as compõe. A matéria é apenas o suporte, que pode ser mais ou menos sólido, mais ou menos nobre. O que torna cada peça um objeto único não é a sua condição de objeto, mas a sua condição de arte: a sua incondicional condição de objeto artístico, que não se confunde, no caso deste autor, com quadros, esculturas, vídeos ou quaisquer objetos que identifiquemos, imediatamente, como tal. A sua obra é composta de significação e de espaço – dum espaço que se converte em tempo, pela presença sempiterna do devir. Cada obra é um vir-a-ser que se realiza na experiência instalada no espaço que a circunda.

Red and Blue (Just waiting) remete-nos para o universo cinematográfico que é o universo do espaço-tempo, do eterno presente, que pode alçar-nos no futuro ou promover uma visita ao passado sem perder, jamais, a sua condição de presente/presença, daquilo que se desvela ante os nossos sentidos enquanto vemos/vivenciamos, que cria memórias partilhadas por muitos, como as memórias de uma espada de luz e de um filme que nos fala do mito do herói.

E aparece-nos um herói, não o do filme mas um herói mítico que tentou roubar a luz aos deuses e que se perdeu neste intento: Ícaro. (Up, up into the sky) é um totem, objeto fundador de uma cultura cuja lógica não obedece à linearidade do tempo histórico mas repete, infinitamente, o mesmo percurso circular – o herói parte para cumprir sua jornada e retorna para ocupar o lugar do pai. O Ícaro II é um boneco de plástico, herói de novas jornadas e fruto de uma cultura flutuante e permeável. O artista fala-nos do herói de cada um de nós, de cada época, de cada circunstância. Eu sou eu e minha circunstância disse o filósofo espanhol. E esta circunstância do eu aqui e agora é que determina os símbolos que a representam. Cada época tem seu Ícaro, tem sua luz própria. E estamos na era do simulacro da luz – da sua reinvenção nos laboratórios de efeitos especiais.

Do espaço partimos para um mergulho num aquário de peixes tropicais: Selfish. Isto não é um aquário, seria uma legenda possível para esta vídeo-instalação. É um simulacro de aquário autorreflexivo, como o título indica: selfish. Criaturas marinhas que refletem sobre si mesmas, imagem que se reflete sobre si mesma. Obra que reflete sobre si mesma e sobre a sua condição de arte.

NON pode dizer-nos o que não é. Ou sobre o que não quer falar. NON é uma palavra composta de letras que estão sobre uma mesa de trabalho. Uma proposta de jogo, uma brincadeira de criança – como o comboio, o Pokemon, a espada de Star Wars. Schiller acreditava que a arte era um jogo entre a forma sensível e o conteúdo que poderia ser mais impenetrável mas que, quando conjugado com a forma, se tornava passível de ser percebido e vivenciado. Um jogo entre a dureza e a permeabilidade, entre a seriedade e a leveza, entre a delicadeza e a resistência dos materiais. O jogo, na arte de Cabral Santo, é de origem schilleriana – é um impulso demasiado humano e inevitável. A melhor, e talvez a única maneira, segundo o filósofo alemão, de se evadir do quotidiano.

Ponto Cego é aquele ponto específico em que não vemos nada – único ponto em que o espelho não consegue penetrar. Os automóveis trafegam pelas autopistas e pelas ruas e os motoristas tentam não pensar que há um ponto do retrovisor que funciona como um buraco negro – as imagens não aparecem e só se ouve o barulho de um carro que se aproxima perigosamente de nós. O que deixamos de ver para além dos carros que o retrovisor não reflete? E o que vemos afinal? E o que é que ouvimos/vemos? Como no final de Blow Up do Antonioni, o que vemos ou ouvimos depende da nossa disponibilidade para ver e ouvir, depende da nossa vontade de entrar no jogo e de nos deixarmos envolver pelos sons e pelas imagens, que, muitas vezes, não estão lá.

Impressionism, um conjunto de pinturas, fecha o ciclo que se iniciou com um comboio a despenhar-se. Pinturas que se insinuam, que nos abstraem e que nos absorvem – trinta telas pintadas de vermelho. Trinta telas vermelhas maculadas por manchas amarelas. Trinta telas que poderiam ser bandeiras, que poderiam ser simbólicas, que poderiam ter apenas um significado. Mas que funcionam, como o restante das obras, como um espaço de significação, para além do óbvio ou para aquém da superfície.

Virar à esquerda não é, no caso do artista, uma indicação de sentido. É o caminho que ele escolheu percorrer. Como disse Drummond “quando nasci, um anjo torto, desses que vivem na sombra disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida”. Pedro Cabral Santo decidiu que seria, incondicionalmente, como artista, gauche na vida. Porque a sua obra é a sua verdadeira existência, a sua linguagem, o seu lugar da significação. Não acredito que se possa dizer o que o artista, ou a sua obra, quis dizer. As palavras apenas roçam os sentidos, insinuam as imagens, reverberam os sons. A obra, acredito, fala por si. Mas é preciso, nalguns casos, conhecer bem a sua língua, perceber as suas nuances, os seus ditos e não-ditos. A arte não é um lugar que se visita inocentemente e de onde se sai incólume. Pelo menos não esta arte, não a arte deste artista incondicionalmente engajado, comprometido naquilo que faz. E aquilo que faz também faz dele aquilo que ele é. Um artista. Incondicionalmente.

MEER



sexta-feira, 21 de julho de 2023

Arte contemporânea no Mediterrâneo / Um olhar sobre a Turquia

 

Vahap Avṣar_Özgürlük ve macera_1992


Arte contemporânea no Mediterrâneo

Um olhar sobre a Turquia

22 MARÇO 2014, 


"The driving force behind my works is my tradition. If it wasn’t for Damascus, I wouldn’t have that heritage; I wouldn’t be me. Of course, the question remains: do you have to be a traveller in order to be a cosmopolitan?". ‒ Marwan

Giulio Carlo Argan, há uns anos, ao falar do Romantismo e do Neoclassicismo, dizia que o Romantismo só poderia ser fruto do norte da Europa e que o Neoclassicismo só poderia ser mediterrânico. Porque, para o urbanista e teórico italiano, a relação que o homem mantém com a natureza determina, de alguma maneira, a relação que ele manterá com a arte. A natureza sombria, impenetrável e misteriosa do norte da Europa é refletida numa arte ensimesmada que beira sempre o abismo, onde o homem busca, sobretudo, o desvendamento. Busca dificultada pelo entorno que o envolve e que não facilita o seu percurso. Já a luz aberta e franca que permeia a arte neoclássica, mostra um homem que dominou já a natureza à sua volta, que esta já foi convertida em cultura e em espaço da representação. A natureza é amena e aprazível, penetrável, não necessita de desvendamentos, apresenta-se como espaço a ser ocupado, não dificulta o caminho. Aliás, o Mediterrâneo é o mar, por excelência, dos caminhos, da fundação da civilização que redundará, séculos depois, na civilização europeia.

Falar de arte no Mediterrâneo é falar de uma parte da arte europeia. Uma parte apenas, porque a Europa, anos mais tarde, tratou de expurgar aquilo que era considerado bárbaro, ou menos europeu. Expurgou, ou tentou fazê-lo, a arte mais oriental. Decidiu que o caminho europeu era aquele que representava melhor a ideia que tinham de cultura e civilização e chamou a todo o resto de Outros. Criou a alteridade que distancia culturas e povos, que fecha os caminhos abertos pelo mar. O outro é aquele que não sou eu, é aquele que não entendo. É aquele tão impenetrável quanto uma floresta do norte da Europa, mesmo que esteja banhado, como nós mesmos, de sol.

Vários são os motivos que levaram a este progressivo afastamento entre povos alimentados pela mesma bacia e que navegaram as mesmas águas. Durante vários séculos o padrão greco-romano, convertido em cânon, dominou a arte europeia e de alguma maneira, determinou a História da Arte como nós a conhecemos. Heinrich Wölfflin fala de períodos clássicos e barrocos na História da Arte, como um ciclo que se repetiu por muito tempo e que se encerra no limiar do século XX. Esta alternância entre o clássico e o barroco era, no fundo, a alternância entre o cânon e os seus opositores. Entre a regra e àqueles que a ousaram quebrar. Os historiadores, geralmente, estavam a favor do cânon, da regra.

O berço da arte canónica produziu seu último grande ciclo em meados do século XVIII ‒ o movimento Neoclássico foi o estertor final de um modelo de representação do mundo. Um modelo excludente e que pretendeu ser o modelo. O Romantismo instaura, no seio da arte, o delírio. O sentimento de pertença não a um continente simbólico, mas sim a uma nação mais pequena. A uma nação que precisava ter uma voz própria que se sobrepusesse a que fora imposta durante tanto tempo. O sentimento do Romantismo sai do sítio onde nasceu e floresce um pouco por todo o lado, aliado ao sentimento e a necessidade crescentes de uma arte que queria ter também ela a sua própria voz.

É interessante percebermos que durante o século XIX, o papel que a Itália ocupou na História da Arte ocidental sofre um declínio. A Itália transforma-se num espaço museológico a ser visitado, e admirado, por aqueles que queriam ainda perpetuar o modelo. Os outros, distantes deste apelo canónico, decidiam olhar para outro lado ou para diversos lados ao mesmo tempo e daí surgem as vanguardas. A Itália volta a aparecer neste cenário com o Futurismo, dos movimentos de vanguarda o que mais apontou para o futuro e que mais ardentemente quis romper com o passado. De qualquer forma, por mais diversificada e diversa, a vanguarda europeia continua a ser a vanguarda europeia. Os outros continuam a ser os outros, frequentando, algumas vezes, como convidados bem comportados, algumas obras de alguns artistas.

Duas guerras depois, a arte, que faz parte da vida, intrinsecamente, e que não é uma atividade outra ou marginal, incorpora todas as mudanças que o mundo passou num século tão conturbado. E finalmente vê os discursos alheios ao seu próprio umbigo atravessarem os seus próprios discursos. E de repente se dá conta que existe outra arte. Que existem outras artes e outras maneiras de se ver e representar o mundo.

A arte na contemporaneidade é uma arte múltipla e pluridiscursiva. São várias as vozes que a compõem, são vários os discursos. Não é possível falarmos de um modelo ou cânon. Talvez a falta de cânon seja o modelo. Mas há algo que une, ou que pelo menos, põe em diálogo tudo que se fez ou se faz desde a segunda metade do século XX: com tantos caminhos abertos, vias, redes, reais e virtuais, com o esboroamento das fronteiras, físicas e simbólicas, parece que ainda não conseguimos falar a mesma língua. Que estamos todos juntos e muito próximos mas, simultaneamente, terrivelmente distantes. E a arte reflete sobre isto. Primeiro como um espelho e depois como alguém que pensa e questiona e coloca o dedo na ferida. Nas feridas. Há uma questão que é fulcral para a arte nos tempos que correm e que diz respeito a um sentimento de pertença: se eu não sou nem sou o outro, quem sou eu afinal? E o espaço é o território onde esta questão se expande. O espaço, já não apenas geográfico e mapeado, é o lugar que define quem sou, o que em mim é meu e o que é fruto de um sentimento comum. O que me liga aos outros? O que me difere? O que me faz ser eu?

Desta maneira o Mediterrâneo volta a fazer parte das discussões. Volta a ser um lugar de navegações e trocas, de encontros. Nicolas Bourriaud disse certa vez que a arte contemporânea não é um objeto em si, é a maneira nova de habitar velhos espaços. E são estes velhos e conhecidos espaços que foram se distanciando que devem ser novamente visitados. E re-habitados. Por isso a importância de se pensar hoje numa arte do e no Mediterrâneo. Uma arte com semelhanças e diferenças, com consensos e dissensões, mas uma arte que precisa dialogar mais e absorver melhor o outro, que nunca deixou de ser, apesar da distância, uma outra face de nós mesmos. E há que se buscar a completude.

A arte contemporânea do Mediterrâneo mais a oriente, como a Turquia, apresenta as mesmas características da arte europeia "modelar" ‒ entre os novos e os velhos media, entre as novas e as velhas técnicas, os artistas visuais procuram re-habitar um espaço aparentemente conhecido e visitado. E procuram, com a sua arte, estabelecer diálogo entre culturas diversas, entre diversidades dentro da sua própria cultura, entre modos diferentes de se habitar o mundo. Não há um modelo preestabelecido, não há uma fórmula única, nem um projeto comum. O que os une entre si, e entre os artistas do lado de cá do Mediterrâneo, é a afirmação de uma identidade, é a exploração de feridas que foram ocultadas, é, sobretudo, o desejo de ter uma voz.

Haluk Akakçe, artista turco que vive e trabalha em New York, utiliza ícones de várias culturas para falar da relação entre o homem e a tecnologia. Mas, não apenas para fazer uma reflexão sobre o tema, como muitos outros o fazem, a sua ideia é promover uma autêntica fusão dialógica que produza novos significados. A sua arte é apenas uma das muitas representantes de uma contemporaneidade que já percebeu o papel que cabe a arte, e aos artistas, nos tempos que correm: promover, uma vez mais, o diálogo entre distintas culturas, entre meios diversos, entre lógicas que aparentemente se repelem, mas que necessitam de alguém, ou algo, que construa uma ponte.

A obra de Gunes Terkol, outra artista turca, que pertence ao Ha Za Vu Zu artist group, é uma fusão entre técnicas diversas utilizadas para falar da identidade, ou das identidades sexuais. Entre um fundo abstrato e a colagem de objetos retirados do quotidiano, ela se considera uma contadora de histórias. E com suas histórias pretende que o espectador entre na sua obra através de suas próprias memórias. A identidade não é apenas do artista, mas daqueles que o veem e que com ele se identificam. Mais uma vez a presença do elemento dialógico que nos remete, invariavelmente, para uma amplificação do conceito criado por Bourriaud da estética relacional: a arte só funciona quando habitada e vivenciada.

Há artistas, como Vahap Avṣar, cujo trabalho político o obrigou a procurar refúgio fora da Turquia, refletem outra instância de criação da obra dos eternos Outros. Por mais diversos que sejam os trabalhos e as técnicas, todos caminham numa direção: o possível diálogo. O possível entendimento que não é a aceitação passiva e pacífica do outro, mas a fusão de ideias e a desejada confusão de identidades e espaços. Navegar já não é preciso. Mesmo sendo necessário. Navegar pode ser a possibilidade de perder-se no e com o outro, em outras terras, em outros espaços. Navegar em ir em direção a. Em direção ao outro, simultaneamente ao passado e ao futuro. Simultaneamente ao ocidente e ao oriente. O Mediterrâneo, como já disse, sempre foi um caminho. Talvez seja preciso voltar a percorrê-lo. E desta vez, deixar-nos perder um pouco naquilo que não conhecemos e experimentarmos o outro, que faz, mesmo que não queiramos, parte de nós.


MEER