domingo, 22 de fevereiro de 2015

A doce vida de Federico Fellini / Uma grande incursão felliniana dentro de si



A doce vida de Federico Fellini

Uma grande incursão felliniana dentro de si

22 FEVEREIRO 2015,
MIRIAN NOGUEIRA TAVARES

La Dolce Vita é um rito de passagem na obra do diretor. O excesso passa a ser sua marca, o que fez muitos considerá-lo barroco. Utilizando a linguagem fragmentária tão cara a este apreciador de banda desenhada, ele constrói o filme marco de toda uma geração. Após trinta anos ainda é possível ficar atordoado com La Dolce Vita de Fellini. Um helicóptero levando Cristo de braços abertos sobrevoa a Roma de Fellini, sagrada e profana, abençoando seus vícios e virtudes. Uma cidade fascinante que transforma a vida de um provinciano de Rimini, perdido entre o amor e o desassossego. Crônica fiel de um tempo onde as pessoas já não encontram sentido para viver? Muito mais. A pergunta e o medo do diretor se infiltram em seus espectadores. Quem somos nós? O que faz sentido? Perguntas retóricas? Talvez. Mas profundamente perturbadoras e tratadas com maestria pelo mestre da dúvida.





O filme é uma grande incursão (excursão?) felliniana dentro de si. Um processo que será explicitado ao máximo em 8 1/2. Marcello - o jornalista que vaga pela Via Veneto e por uma Roma profana e sagrada - é o alter-ego do diretor que realiza assim sua viagem na mãe Roma que o acolheu. “Pois, além da dor de crescer, o homem precisa saber enfrentar a dilaceração das despedidas e caminhar com passo sereno em direção ao vasto mundo”. (Kezich, op. cit.:35). Porém La Dolce Vita é mais que uma viagem “interna” - é o instantâneo de uma sociedade perdida entre a noite e o dia em eternas madrugadas orgiásticas que, aparentemente, não tem redenção.

O crítico Walter da Silveira comparou Fellini a Goya que, “olhando o seu tempo o reteve como um triste retrato para sempre”. La Dolce Vita causou muita polêmica porque ali eram identificados traços de uma geração que possuia um desespero tão contemporâneo quanto o de Marcello. Um triste retrato para sempre, mas um retrato fiel em sua absoluta infidelidade pelo real. Até a Via Veneto teve que ser reconstruída, e, para Fellini, a do filme era a verdadeira Via Veneto.




La Dolce Vita fez com que muitos críticos reavaliassem a obra de Fellini e passassem a olhar com outros olhos seus filmes anteriores. Como diria Borges, “todo escritor cria seus próprios precursores”. Vários são os elementos que identificamos como uma constante no universo do diretor: as noites, os excessos, a presença constante da água - em forma de fonte, rio ou mar. Seus personagens ficaram tão típicos que o próprio Fellini brinca com isso em Intervista - pessoas vão procurá-lo porque se acham fellinianas.

É melhor do riso...

Fellini e Rabelais - o que pode existir em comum entre os dois? A carnavalização do mundo, transformar o real em risível - através do riso ambos reutilizam a cultura popular e trazem-nos um universo onde a separação entre vida e representação é uma linha muito tênue, às vezes, inexistente.

“Na verdade o carnaval ignora toda a distinção entre atores e espectadores”. (Bakhtin, 1987: 6). A ambiguidade é a marca do cinema felliniano, diretor e personagens acabam se misturando construindo juntos uma síntese entre cinema/real, o autor se despe e aparece em seus filmes que, por serem grandes mentiras, paradoxalmente conseguem capturar algo da realidade extra-tela. A grande ambiguidade que permeia os filmes de Fellini é entre o grotesco medieval (o que o aproxima de Rabelais) e o grotesco romântico.

Para Yuri Lotman o grande motor do cinema são as tensões[1]: tensão entre a narrativa verbal e icônica; entre o realismo e a criação de outra realidade. Em Fellini, além destas tensões “comuns”, encontro uma entre estes dois momentos do grotesco - e esta tensão está presente, mesmo apenas como potencial, movendo seus filmes.




Bakhtin consegue, via Rabelais, empreender uma viagem pela cultura popular na Idade Média e no Renascimento. Assim, contextualizarei a obra de Fellini nesta passagem entre a festa medieval e o começo da ironia romântica. A festa medieval que buscava o riso. Fellini sempre quis ser comediante - “Eu gostava muito da função de enviado especial e sentia uma forte atração pelos atores cômicos, a quem considero benfeitores da humanidade. Fazer com que as pessoas riam sempre me pareceu a mais privilegiada das vocações, meio parecida com a dos santos”. (Fellini, 1986: 31).

A (s) Festa (s)

Não existem fábulas não cruentas. Todas as fábulas nascem das profundezas do sangue e da angústia... Somente a superfície é diferente... mas o núcleo, a profundidade da nostalgia é sempre a mesma.

 

Kafka

 

O riso felliniano não é alegre e descompromissado, carnavalesco, como o riso medieval. É forte a carga de fábula em seus filmes, uma fábula cruenta que é suavizada pela imensa ternura que ele tem por seus personagens. “O italiano, que parece um desesperançado à primeira vista, nunca nega a luz no final de seus filmes. Mesmo que seja apenas um facho num estúdio vazio (como em Entrevista)”. (Nogueira in Cañizal, 1993: 151). As festas fellinianas são permeadas pela angústia e pelo riso, a angústia de “câmara” e o riso das praças, dos loucos e funâmbulos.



 

No cinema de Fellini somos introduzidos num mundo estranho, não um outro mundo, mas o nosso mesmo que se nos apresenta de modo diverso. “ Na realidade, o grotesco, inclusive o romântico, oferece a possibilidade de um mundo totalmente diferente, de uma ordem mundial distinta, de uma outra estrutura da vida”. (Bakhtin, 1987: 42). Recriar o mundo e permitir a possibilidade de um retorno ao momento orgiástico inicial, a festa absoluta.

Traçar um paralelo entre as duas formas de grotesco que eivam toda a obra felliniana só nos é possível através da comparação com os momentos destacados por Bakhtin. A festa medieval que burlava as fronteiras entre classes também está presente em La Dolce Vita. Marcello é convidado para uma festa de aristocratas onde em certo momento não é mais possível dizer quem é quem. Todos se misturam numa fantasia sem limites que se desfaz quando o dia amanhece e o sino toca chamando todos para a missa[2] .

Na cena da orgia existe também uma tentativa de apagar as diferenças de classe. Marcello começa a ofender todos os participantes, xingando-os (uma atitude tipicamente medieval). Não existe aqui o gozo da festa e, sim, a descoberta de estarem todos juntos num só desespero: o vazio.

Ao sair da orgia Marcello e seus amigos correm para a praia. Lá eles encontram pescadores tirando do mar um ser estranho, morto e disforme. “O peixe-monstro, longe do acabamento e da perfeição das formas “clássicas”, vem expor seu “inacabamento”, suas protuberâncias, sua morte. Confundindo - se com a areia, ele não nega que seja tão antigo quanto a Terra. O peixe, símbolo cristão por excelência, aparece, deformado, morto. Ele também não traz respostas para as dúvidas e incertezas de Marcello”. (Nogueira, 1993:34). Por causa de cenas com esta Fellini foi acusado de ser incapaz de aderir a uma visão positiva.

O não gozo completo deste filme é uma característica do grotesco romântico, um “grotesco de câmara, uma espécie de carnaval que o indivíduo representa na solidão, com a consciência aguda do seu isolamento”. (Bakhtin, 1987:33). Em La Dolce Vita, fugindo da carnavalização do cotidiano, o diretor vai ao encontro de si mesmo através da ironia e de uma ponte de amargura. Mas nem neste momento ele nega a luz aos seus personagens (e ao mundo). O final aponta para uma provável redenção. Ela está bem ali, mas, nem sempre, é fácil agarrá-la.

La Dolce Vita traz as praças e o riso das ruas, mas cerca Marcello de Noites intermináveis, entre festas e pessoas tão perdidas quanto ele. Todos representam cenas, que são, ao mesmo tempo, parte de suas próprias vidas. Marcello segue representando seu carnaval de “câmara”, o seu isolamento é agudizado pela presença das mulheres que apenas passam por ele. Algumas querem ficar, mas nenhuma, de facto, basta. São personagens em seu teatro de solidão - ele, no final, não consegue ouvir a menina-anjo que o chama na praia. A redenção não consegue mais contaminá-lo.

“Uma qualidade importante do riso na festa popular é que escarnece dos próprios burladores. O povo não se exclui do mundo em evolução. Também ele se sente incompleto; também ele renasce e se renova com a morte”. (Bakhtin, 1987: 10-11). Fellini participa da festa que ele promove na tela. Como poucos cineastas ele se permite desnudar e penetra no mundo que sempre em movimento e ebulição, engole a todos. Os que riem e o objeto do riso. Marcello (o Mastroianni e o da tela) é seu alter-ego, em La Dolce Vita ele não é um personagem passivo, é o narrador que costura toda a trama, que afinal, não poderá, de facto, atingi-lo.

Vários são os elementos do grotesco que podemos encontrar no espírito surrealista. A ambiguidade, a incompletude, o excesso. Um universo em processo, em mudança, num estágio constante de revolução - a revolução, que, segundo Breton, é a única capaz de criar luz. Os elementos presentes na obra de Fellini são facilmente detetados, por exemplo, na obra de Buñuel. Mas não de forma especular - as distorções do aragonês não são semelhantes as do italiano. Existem diferenças, que porém, não invalidam o diálogo.

Os mutilados de Buñuel estão presentes no peixe-monstro que jaz na areia da praia em La Dolce Vita. A blasfêmia é também a marca de um diretor sufocado pelo catolicismo espanhol. As festas em Buñuel são momentos de alteridade e de descoberta do absurdo da vida (vide a Santa Ceia de Viridiana). Temos um longo caminho a percorrer no universo dos dois diretores, mas acreditamos que o espírito surrealista que eiva sua obra é um elo indiscutível, e a presença do grotesco/carnavalização é mais uma prova de que a sensibilidade surrealista não foi traída por nenhum dos dois.

O teatro de câmara de Fellini acontece diante de nós, espectadores ávidos por imagens-signo que preencham o lugar de alguém, talvez do grande outro lacaniano, ou de todas as alteridades que nos parecem indecifráveis.

Guattari afirma que o cinema é o divã do pobre - “Pagamos um lugar no divã para nos fazermos invadir pela presença silenciosa de um outro, se possível alguém distinto, alguém que tenha um estatuto nitidamente superior ao nosso - e pagamos um lugar no cinema para nos fazermos invadir por uma qualquer pessoa, e para nos deixarmos levar numa qualquer aventura, durante encontros que, em princípio, não têm amanhã”. (1984:21). O cinema é o grande outro da contemporaneidade - ocupando um espaço na vida daqueles que se deixam invadir quando consegue instaurar a tensão entre os dois espaços tela/extra-tela. Alguns cineastas agudizam a ambiguidade deste outro que tentamos decifrar. Fellini é um deles.

Referências Bibliográficas

BAKHTIN, M.1987. A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento - o Contexto de François Rabelais. São Paulo, Hucitec.
CAÑIZAL, E. P. (ORG.). 1993. Um Jato na Contramão - Buñuel no México. São Paulo, Perspectiva.
ECO, U. 1989. Sobre os Espelhos. Rio de Janeiro, Nova Fronteira.
FELLINI, F. 1986. Fellini - Entrevista Sobre Cinema. Rio de janeiro, Civilização Brasileira.
GUATTARI, F. et alii.1984. Psicanálise e Cinema. Lisboa, Relógio D’Água.
KEZICH, T.1992. Fellini. Rio de Janeiro, Nova Fronteira.
LOTMAN, Y. M.1979. Estética y Semiótica del Filme. Barcelona, Gustavo Gilli.
LYOTARD, J.-F.1994. Heidegger e os Judeus. Petrópolis, Vozes.
NOGUEIRA, M. 1993. Da Crítica de Cinema. São Paulo, PUC (Dissertação de Mestrado), mimeo.
SILVEIRA, W. 1966. Fronteiras do Cinema. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro.

Notas

[1] Y. Lotman ressalta em diversas passagens de seu livro Estética y Semiótica del Cine (1989: passim), que a tensão é o motor do cinema. Tensão entre a narrativa verbal e icônica, entre o realismo e a criação de outra realidade, entre o plano e extra-plano ... Fellini utiliza o tempo inteiro as tensões que servem como motor de seus filmes , e vão pontuando as passagens entre cenas e/ou sequências. A aurora é uma personificação de tensões, representando sempre uma transição.
[2] Fellini é também o cineasta das noites. Os noturnos fellinianos alimentaram críticas ao seu respeito até hoje. “Notemos ainda uma outra particularidade do grotesco romântico: ele tem predileção pela noite ( As Rondas Noturnas de Bonaventura, os Noturnos de Hoffman), é a obscuridade e não a luz que o caracteriza”. (Bakhtin, 1987:36). La Dolce Vita é um filme noturno. Marcello vive da e para a noite, seu contato com o dia nem sempre é feliz.


WSI





Vargas Llosa / A felicidade, rá, rá, rá



Mario Vargas Llosa

A felicidade, rá, rá, rá

Na Dinamarca, um dos países mais civilizados do mundo, a segurança agora é precária, e ninguém está a salvo de ser assassinado pela onda de fanatismo que se espalha pelo mundo


FERNANDO VICENTE
Li em algum lugar que uma enquete feita no mundo inteiro tinha estabelecido que a Dinamarca era o país mais feliz da Terra e me dispunha a escrever, tomando emprestado o título de um livro de contos de meu amigo Alfredo Bryce que caía como uma luva para o que queria — zombar daquela enquete —, quando ocorreu em Copenhague o duplo atentado jihadista que custou a vida de dois dinamarqueses — um cineasta e o guardião judeu de uma sinagoga — e feriu gravemente três agentes.
Que melhor demonstração de que não há nem houve nem nunca haverá "países felizes"? A felicidade não é coletiva, mas individual e privada — o que faz feliz uma pessoa pode fazer infelizes muitas outras, e vice-versa — e a história recente está infestada de exemplos que demonstram que todas as tentativas de criar sociedades felizes — trazendo o paraíso à Terra — criaram verdadeiros infernos. Os Governos devem estabelecer como objetivo assegurar a liberdade e a justiça, a educação e a saúde, criar igualdade de oportunidades, mobilidade social, reduzir ao mínimo a corrupção, mas não se imiscuir em temas como a felicidade, a vocação, o amor, a salvação e as crenças, que pertencem à esfera privada e nos quais se manifesta a feliz diversidade humana. Esta deve ser respeitada, porque toda tentativa de regulamentá-la sempre foi fonte de infortúnio e frustração.
A Dinamarca é um dos países mais civilizados do mundo pelo funcionamento exemplar de sua democracia — basta ver a magnífica série de TV Borgen para ter a comprovação —, por sua prosperidade, por sua cultura, porque a distância que separa os que têm muito dos que têm pouco não é vertiginosa como, digamos, na Espanha e no Peru, e porque, até agora pelo menos, sua política em relação aos imigrantes, esforçando-se para integrá-los e ao mesmo tempo respeitar seus costumes e crenças, é uma das mais avançadas, embora, infelizmente, tão pouco bem-sucedida quanto as de outros países europeus. Mas a felicidade ou infelicidade dos dinamarqueses está fora do alcance das medições superficiais e genéricas das estatísticas; seria preciso cavoucar cada lugar desse belo país, e provavelmente o resultado dessa exploração impertinente da intimidade dinamarquesa seria que a dose de felicidade, satisfação, frustração e desespero nessa sociedade varia tanto e tem matizes tão diferentes que toda generalização a seu respeito é arbitrária e falaciosa. Por outro lado, basta ver as manifestações de dor, perplexidade, angústia e confusão em que o povo dinamarquês mergulhou depois do último atentado terrorista para perceber que, como em todos os países da Terra, dos mais ricos aos mais pobres, dos mais livres aos mais tiranizados, também na Dinamarca a segurança agora é precária, e ninguém lá está a salvo de ser assassinado — ou decapitado — pela onda de fanatismo que continua se espalhando pelo mundo, como as pestes que na Idade Média pareciam cair sobre os homens como castigos divinos.

O cartunista Lars Vilks não queria ofender a crença de ninguém, e sim exercer uma liberdade
O terrorista Omar Abdel Hamid El Hussein, um jovem de 22 anos,de origem palestina, mas nascido e educado na Dinamarca, não era, segundo o testemunho de professores e colegas, um pária semianalfabeto cheio de rancor em relação à sociedade da qual se sentia excluído, e sim — algo que não é pouco frequente entre os últimos jihadistas europeus — inteligente, estudioso, cordial e "com vontade de ajudar os demais", segundo define um de seus conhecidos. Mas fez parte de gangues e esteve na prisão por assaltos e violência. Em algum momento essa "boa pessoa" se tornou um delinquente e um fanático. Antes de cometer seus crimes baixou vídeos de propaganda do Estado Islâmico — provavelmente nos mesmos dias em que esse Estado decapitava na Líbia 21 cristãos coptas somente pelo crime de não serem muçulmanos e filmava semelhante façanha com perversa riqueza de detalhes — e disparava ferozes arengas antissemitas. Tudo indica que sem o valente Dan Uzan, que impediu sua entrada, oferendando deste modo sua vida, o terrorista teria perpetrado uma matança descomunal na sinagoga, onde se realizava um bar mitzvah.
Seu objetivo primário, quando atacou o centro cultural onde foi impedido pelos três guardas que ficaram gravemente feridos, era Lars Vilks, o cartunista e caricaturista sueco — a Suécia é, como a Dinamarca, outro dos países mais civilizados, democráticos e prósperos do mundo —, a quem os fanáticos islâmicos perseguem com sanha desde que, em 2007, fez uma exposição de seus trabalhos nos quais Maomé aparecia com o corpo de um cachorro. Homem calmo, nada provocador, Lars Vilks explicou que fez aquilo não com a intenção de ofender a crença religiosa de ninguém, mas para exercer uma liberdade que considera a irreverência e o humor cáustico direitos irrenunciáveis. Pagou caro; já foi vítima de dois atentados, queimaram sua casa, precisa andar protegido por uma escolta do Governo sueco 24 horas por dia, e a Al Qaeda oferece um prêmio de 100.000 dólares para quem o matar (e 50.000 para quem "degolar" Ulf Johansson, o editor que publicou suas caricaturas).
O caso de Lars Vilks é interessante porque mostra as ambições ecumênicas do fanatismo islâmico: não busca apenas restaurar o fundamentalismo primitivo de sua religião entre os crentes, mas também intervir nos espaços onde o islã não existe ou é minoritário, para submetê-los às mesmas proibições e tabus obscurantistas. O Ocidente democrático e liberal, que deixou de considerar a mulher um ser inferior e um objeto nas mãos do homem, que separou a religião do Estado, que respeita a crítica e a divergência e pratica a tolerância e a coexistência na diversidade, é seu inimigo e um objetivo cada vez mais frequente de suas operações sanguinárias.

Os europeus enfrentam o desafio do terror e lutam para salvar a humanidade da barbárie
É óbvio que essa ameaça não vai ter êxito nem destruir o Ocidente. O perigo é que, por prudência ou até por convicção, alguns Governos ocidentais comecem a fazer concessões, autoimpondo-se limitações no campo da liberdade de expressão e de crítica, com o argumento multiculturalista de que os costumes e as crenças do outro devem ser respeitados (ainda que à custa de ter que renunciar aos próprios?). Se este critério prevalecer, os fanáticos islâmicos terão vencido o jogo, e a cultura da liberdade terá entrado num processo que poderá culminar em seu desaparecimento. Por esse caminho, todas as grandes conquistas da democracia, desde o pluralismo político e a igualdade entre homens e mulheres até o direito de crítica, que inclui obviamente o da irreverência, terão selado sua sentença de morte. Já em alguns lugares da Europa se admite o uso do véu islâmico, símbolo flagrante da humilhação e discriminação de que é vítima a mulher em alguns países muçulmanos, e a existência de piscinas públicas separadas por sexo, com argumentos que poderiam chegar à loucura de tolerar os casamentos acertados pelos pais e até a castração ritual das adolescentes para garantir sua virtude. Qualquer concessão nesse campo não se presta a aplacar a sede dos fanáticos; pelo contrário, os encoraja e convence de que o inimigo está recuando, que tem medo e já se sabe derrotado.
A primeira-ministra dinamarquesa, Helle Thorning-Schmidt, na homenagem que prestou a seus compatriotas assassinados pelo jihadista dinamarquês, lembrou que as maiores vítimas do fanatismo islâmico são os próprios muçulmanos, que os fanáticos assassinam e torturam aos milhares no Oriente Médio e na África. É preciso ter isso em mente e saber, portanto, que os europeus como o cartunista Lars Vilks, que enfrentam com coragem o desafio do terror, lutam para salvar da barbárie não apenas a Europa e o Ocidente, mas a humanidade inteira.

EL PAÍS




PESSOA


sábado, 21 de fevereiro de 2015

Oliver Sacks se despede após anunciar um câncer terminal



Oliver Sacks se despede 

após anunciar um câncer terminal

Escritor relata doença em artigo no 'The NY Times': "Foi um privilégio e uma aventura"





Oliver Sacks, em 2002. / TOMAS MUSCIONICO (CONTACTO)
Com um artigo simples, emotivo e direto, paradoxalmente cheio de otimismo, o escritor e neurologista Oliver Sacks anunciou na quarta-feira, no The New York Times, que sofre de um câncer terminal e que tem apenas mais algumas semanas de vida. "Acima de tudo, fui um ser com sentidos, um animal pensante, neste maravilhoso planeta, e isso, em si, foi um enorme privilégio e uma aventura", escreveu o autor, cujos livros sobre os subterfúgios da mente humana, comoTempo de Despertar e O Homem que Confundiu sua Mulher com um Chapéu, foram adaptados para o cinema e venderam milhões de exemplares no mundo inteiro.
Oliver Sacks, que tem 81 anos, recebeu a má notícia há algumas semanas, quando foi informando que sofre de metástase múltipla no fígado, procedente de um tumor original no olho detectado há oito anos. Ele afirmou que os médicos podem atrasar o avanço, mas não detê-lo.
Intitulada Minha Própria Vida, em homenagem à autobiografia escrita pelo filósofo David Hume quando também soube que sofria de uma doença sem cura, sua despedida é cheia de otimismo: "Estou intensamente vivo e quero e espero que o tempo que me resta por viver me permita aprofundar minhas amizades, me despedir daqueles que amo, escrever mais, viajar se tiver a força suficiente, alcançar novos níveis de conhecimento e compreensão. Isso incluirá audácia, clareza e falar com franqueza; vou tratar de acertar minhas contas com o mundo. Mas também terei tempo para me divertir (inclusive para fazer alguma estupidez)".
Sacks explica que publicará em abril suas memórias, e que tem vários outros livros a ponto de serem concluídos. O escritor confessa que não pensa em se dedicar a nada que não considere essencial, que não quer perder tempo. "Não posso dizer que não tenho medo. Mas meu sentimento predominante é a gratidão. Amei e fui amado; dei muito e me deram muitas coisas; li, viajei e escrevi".
Nascido em Londres em 1933, Sacks vive em Nova York desde os anos 1960. Ao longo dos anos, foi reunindo em seus livros as experiências pelas quais passou. Um Antropólogo em Marte, Enxaqueca, Com uma Perna Só, A Ilha dos Daltônicos, O Homem que Confundiu sua Mulher com um Chapéu, O Tio Tungstênio: Memórias de uma Infância Química, Vendo Vozes: Uma Viagem ao Mundo dos Surdos, Tempo de Despertar e Alucinações Musicais são suas obras mais conhecidas.
Em uma entrevista a este jornal em 1996, realizada por ocasião da publicação de Um Antropólogo em Marte, Sacks falou justamente sobre a relação dos pacientes com as doenças. "Para mim é fundamental a relação que se estabelece entre doença e identidade, e a forma como a pessoa reconstrói seu mundo e sua vida a partir dessa doença", disse. "Todos os casos que exponho neste livro descobriram uma vida positiva que surgia após uma doença. O pintor que depois de perder a visão da cor não deseja recuperá-la. O cego de nascimento que recupera a visão na metade de sua vida e não consegue suportá-la. A mulher autista que encontra no autismo uma parte de sua identidade... Mas não quero parecer sentimental perante a doença. Não estou recomendando que se tenha que ser cego, autista ou sofrer da síndrome de Tourette, de forma alguma, mas em cada caso surgiu uma identidade positiva após algo calamitoso. Algumas vezes a doença pode nos ensinar o que a vida tem de valioso e nos permitir a vivê-la mais intensamente".
Há alguns meses, Sacks publicou um artigo maravilhoso no The New York Review of Books sobre as memórias e a ficção intitulado Fala, memória. No texto, ele relatava como, enquanto envelhecia, iam surgindo relatos cada vez mais claros de sua infância; recordava, por exemplo, dois episódios em que bombas nazistas caíram perto de sua casa em Londres quando era criança durante a Segunda Guerra Mundial. No entanto, seu irmão mais velho disse a ele que o primeiro incidente ele havia vivido, mas que o segundo tinha sido contado para ele, porque naquele momento já não estava mais em Londres.
Este episódio serve para Sacks fazer uma longa dissertação sobre a importância da ficção na vida, porque, no fim, o que lemos e nos impressiona acaba sendo tão importante como o que vivemos. "Nós, como seres humanos, desenvolvemos sistemas de memória que têm falhas, fragilidades e imperfeições", escreveu. "A indiferença sobre as fontes nos permite assimilar o que lemos, o que nos contam, o que outros dizem, e pensam, escrevem e pintam, de uma forma tão rica e tão intensa como se fossem experiências primárias. Nos permite ver e escutar com os olhos e ouvidos dos outros, entrar na mente dos demais, assimilar a arte e a ciência e a religião de toda uma cultura".
Esse texto é uma mostra da forma de escrever e pensar de Sacks e, por sua vez, da imensa influência de seus escritos sobre a maneira como vemos o mundo em que vivemos. A tranquila lucidez com a qual enfrenta a notícia de seu câncer sem volta é mais uma prova de sua sabedoria.




sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Cinema / Quanto custa ganhar um Oscar



Quanto custa ganhar um Oscar?

Os méritos dos indicados já foram cantados, e o que conta são os prêmios acumulados

Uma cena de “Birdman”. / ATSUSHI NISHIJIMA (AP)
Chegado este momento na disputa pelos Oscar, tudo se traduz em números. A 87ª edição dessa estatueta tão valorizada não é diferente. Cantados os méritos de todos os indicados, na reta final o que conta são os prêmios acumulados. E, nesse quesito, Birdman ou a Inesperada Virtude da Ignorância tem o suficiente para ganhar. Não apenas por ter sido indicado em mais categorias – nove, empatado com O Grande Hotel Budapeste --, mas pelos prêmios já recebidos. Tanto o Sindicato de Atores quanto a associação dos Produtores e o sindicato de Diretores optaram pelo filme de Alejandro González Iñárritu.



Desde 2007, todos os filmes que receberam o prêmio dos produtores levaram o ouro nos Oscar. E, em 67 anos de história, o escolhido do sindicato de diretores levou a cobiçada estatueta. Diante disso, e com a certeza de J.K. Simmons, Julianne Moore e Patricia Arquette são vencedores certeiros dos Oscar de melhor ator coadjuvante, melhor atriz e melhor atriz coadjuvante, respectivamente, Neal Patrick Harris terá que se desdobrar como apresentador para manter o interesse pela retransmissão de uma cerimônia prevista para arrecadar em torno de 83,8 milhões de euros (270 milhões de reais) em publicidade, numa média de 1,6 milhão de euros por um anúncio de 30 segundos. Pelo menos uma dúvida continua: como ficará a disputa entre Eddie Redmayne e Michael Keaton.
Mas, como dizia o roteirista William Goldman, em Hollywood ninguém sabe de nada. A admiração que cerca Boyhood – Da Infância à Juventude e seu diretor, Richard Linklater, é grande demais para que se descarte um filme criado ao longo de 12 anos e com atores agora indicados que cobraram o pagamento mínimo de 4,5 euros (14,5 reais) por hora. É uma história americana demais para que os membros da Academia a deixem passar em branco, e que, além disso, levou o troféu principal dos BAFTA, os prêmios britânicos que nos últimos seis anos acertaram o vencedor do Oscar. Isso se Sniper Americano não sair beneficiado pelas opiniões dividas.

Uma cena de “Boyhood”.
Por enquanto, o filme de Clint Eastwood já está ganhando outro tipo de ouro: o das bilheterias. Sniper Americano está prestes a se converter na maior estreia de 2014, com uma arrecadação que, quando as estatuetas forem entregas, pode superar nos Estados Unidos o sucesso de Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1 eGuardiões da Galáxia.
Na hora dos Oscar, não são tanto os votos que decidem o destino das estatuetas, e não é necessariamente quem tem mais votos que ganha. Qualquer dos oito indicados a melhor filme não precisou sequer de 600 votos para garantir seu lugar nessa categoria, e, segundo os cálculos feitos por The Wrap, mais de um pode ter recebido pouco mais de 300. Nas categorias menores, onde apenas os membros do setor correspondente da Academia escolheram seus candidatos, foram muito menos votos ainda. Por exemplo, na categoria de figurino, composta por 113 membros, qualquer dos indicados, desde Maléfica até Caminhos da Floresta, passando porO Grande Hotel BudapesteMr. Turner ou Vício Inerente, pode ter sido indicado com apenas 19 votos. Apenas nas cinco categorias principais é que se exigem pelo menos 100 votos a favor para uma indicação.

Neal Patrick Harris terá que manter o interesse em uma cerimônia com arrecadação publicitária estimada em 83,8 milhões de euros
Na reta final, todos votam em tudo: os 6.124 membros da Academia votam nas 24 categorias. Mas a Academia nunca revela quantos membros realmente se dão ao trabalho de votar. Em 23 das categorias ganha o candidato que recebe mais votos, mas na categoria de melhor filme o voto é preferencial, há anos. Isso significa que os membros da Academia precisam atribuir um número, de 1 a 8, aos filmes candidatos.
Teoricamente, seria possível definir o vencedor no primeiro turno, mas, considerando que a Academia não quer que um filme vença por mais de 12% dos votos emitidos, a firma PwC, encarregada da contagem, assegura que isso nunca acontece. O que o primeiro turno fará é eliminar o filme menos votado, e as cédulas que escolheram o filme perdedor são redistribuídas entre os outros filmes candidatos, sendo dadas à segunda escolha do acadêmico. Assim, quando a contagem for concluída, Boyhood poderá vencer mesmo que não seja o filme que recebeu mais votos inicialmente.



quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Dod Procter

Little Sister


Dod Procter 

1890-1972 


Dod Procter RA (born Doris Margaret Shaw, 1890–1972) was an English artist, and wife of artist Ernest Procter. Through the 1920s she specialised in painting the figure, usually single female figures, sometimes nude, others in softly draped clothes. One of these paintings, ‘Morning’, was bought by the Daily Mail for the Tate Gallery collections, which made Dod Procter a household name of the day she went on to become perhaps the most famous female artist of her day. 

Born 21 April 1892 in London. She studied art under Stanhope Forbes at Newlyn c. 1907–8 and at the Atelier Colarossi, Paris. Married the artist Ernest Procter in 1912; they held a joint exhibition of watercolours at the Fine Art Society 1913 and also exhibited at the Leicester Galleries. Exhibited with the International Society from 1918 and at the R.A. from 1922. Member of the N.E.A.C. 1929; A.R.A. 1934, R.A. 1942. She helped her husband on the decorations of the Kokine Palace, Rangoon, 1920. Procter and her husband attended art schools in England and in Paris together, where they were both influenced by Impressionism and Post-Impressionism especially Renoir and Cezanne 

The style of Dod Procter’s later works changed considerably, as did the subject matter, which included landscapes, paintings of children and still-life. She died aged 80, thirty-seven years after her husband. 


She was a member of the Newlyn School and became President of St Ives Society of Artists (STISA) in 1966. Her work was exhibited at the Royal Academy on many occasions.

TATHA GALLERY

The Tall Girl
Dinah Reading

Kitchen at Myrtle Cottage

Morning

The Orchard




Ancilla With An Orange

Burmese Children On The Irawaddy

Head Of A Boy

Jamaican Child

  
Portrait Of A Boy

St. Lucian Girl


The Little Girl

Young Girl Wearing A Lace Bonnet

Young Roman