domingo, 18 de outubro de 2015

Frida Kahlo / Sempre Frida




'Frida sentada no jardim', parte da exposição 'Frida Kahlo. Mirror, mirror...'. / FLORENCE ARQUIN
Antes mesmo de ser vista, Frida Kahlo (1907-1954) era ouvida. Carlos Fuentes recordava o tilintar dos brincos, braceletes e miçangas que certa noite antecedeu a imponente chegada da pintora ao camarote do Palácio de Belas Artes, na Cidade do México. Ninguém ficava indiferente ao magnetismo irradiado pela mulher do imenso Diego Rivera, 20 anos mais jovem que ele, “uma boneca só no que se refere ao tamanho”, como descreveu o fotógrafo Edward Weston.
Mais de seis décadas depois de sua morte, o fascínio em torno de Frida não só permanece vivo como ainda cresce, deixando de lado a sombra do seu marido. Centenários, biografias, filmes, documentários, óperas e ímãs de geladeira à parte, a popularidade de Kahlo vai além dos mapas e calendários de efemérides: em 2015, ao menos sete exposições ao redor do mundo celebraram diferentes aspectos do seu legado em São Paulo, Londres, Detroit, Cidade do México, Fort Lauderdale e Nova York. Atualmente, as abordagens a Kahlo incluem desde a exposição de algumas cartas dela até a recriação das plantas do seu jardim, passando por uma conferência sobre seus problemas médicos, proferida por uma reumatologista, além de pinturas de sua autoria.

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fridomania parece alcançar um novo apogeu. “Ela move muitas emoções em diferentes setores: a mulher traída, a deficiente, o que havia de aguerrido em sua personalidade apesar dos seus problemas físicos e da sua luta política. E, além disso, através da sua obra todos nos tornamos confidentes da sua vida”, diz por telefone a fotógrafa Cristina Kahlo, sobrinha-neta da artista e curadora da exposição Ecos de tinta e papel.A intimidade de Frida Kahlo. Até novembro, essa mostra reúne correspondências e fotografias no Museu Casa-Ateliê Diego Rivera e Frida Kahlo, na Cidade do México.
Nessas cartas, dirigidas entre outros ao seu querido doutorzinho Leo Eloesser, fica patente a dor física que marcou a vida de Kahlo, assim como a profunda amizade que a uniu à atriz Dolores del Río e ao arquiteto Juan O’Gorman. Kahlo chegou a passar por 30 cirurgias e, depois de uma intervenção na coluna, sua irmã Matilde descreve ao médico como lhe fixaram as vértebras com osso, e o calvário que ela padeceu. Escreve que a dor não podia ser atenuada com morfina, pois Frida não a tolerava.

Exposições

Ecos de tinta y papel. De la intimidad de Frida Kahlo. Museu Casa-Ateliê de Diego Rivera e Frida Kahlo, Cidade do México. Até novembro.
Frida Kahlo. Mirror, Mirror... Galeria Throckmorton Fine Art, Nova York. Até 12 de setembro.
Frida Kahlo. Art, Garden, Life. Jardim Botânico de Nova York. Até 1º. de novembro.
Frida Kahlo - conexões entre mulheres surrealistas no México. Instituto Tomie Ohtake, São Paulo. De 27 de setembro a 10 de janeiro de 2016
Mestra da autoexposição, retratando-se obsessivamente em suas telas, e paradoxalmente também da ocultação –camuflando sob folclóricas saias as sequelas da poliomielite que contraiu quando criança e do terrível acidente que sofreu mais tarde, ao ser esmagada na colisão entre um ônibus e um bonde –, Kahlo passou a vida diante das lentes. Quando morreu, cerca de 4.000 fotografias cuidadosamente arquivadas foram encontradas na sua casa.
Antes do boom dos paparazzi e da explosão dos selfies, a icônica imagem projetada por Kahlo já parecia irresistível. A lista de fotógrafos que a retrataram começa com seu pai, Wilhem Kahlo, e inclui de Cartier-Bresson a Ansel Adams. “É excepcional como encontrou a maneira de evocar diferentes facetas de si mesma diante de cada lente. Refletia o que cada um queria ver”, diz o catedrático Salomon Grimberg, autor do texto que acompanha o catálogo deFrida Kahlo. Mirror, Mirror... (espelho, espelho meu...), exposição da galeria nova-iorquina Throckmorton que, até 12 de setembro, reúne meia centena de flagrantes de Kahlo clicados por Dora Maar, Nickolas Muray e Lucienne Bloch, entre outros. Grimberg argumenta que a fotografia foi a entrada de Frida para o mundo da estética, e se detém nas imagens que Lola Álvarez Bravo registrou da pintora em diferentes espelhos: “É como se o reflexo fosse o próprio sujeito. Mostram sua luta por manter seu sentido do eu”.


Capa do livro 'Frida Kahlo: The Giséle Freund Photographs'.
A artista desembarca em São Paulo em setembro, com o início da exposição Frida Kahlo - conexões entre mulheres surrealista do México, que acontece entre o dia 27 daquele mês até 10 de janeiro. Ela é o destaque da mostra no Instituto Tomie Ohtake, que reunirá obras icônicas de Frida e de outras artistas mexicanas, como Maria Izquierdo, Remedios Varo e Lenora Carrington.

A lente de Gisèle Freund

Aluna de Theodor Adorno, amiga de Walter Benjamin e integrante da agência MagnumGisèle Freund teve um privilegiado acesso ao entorno de Rivera e Kahlo. Seu trabalho foi exibido em julho no Museu de Arte Moderna do México, e algumas das suas imagens estão incluídas na exposição da galeria Throckmorton. Mas é no livro Frida Kahlo: The Gisèle Freund Photographs(editora Abrams & Chronicle Books, 2015) que melhor se pode apreciar a conexão da fotógrafa com o casal de artistas. “Muitas de suas fotos são naturezas-mortas da casa, uma espécie de retrato de ambiente onde transparece algo genuíno”, diz por telefone Lorraine Audric, especialista em Freund e autora do epílogo do livro. “São imagens que não oferecem respostas, e sim que propõem perguntas, que mostram a arte corriqueira, a magia que os rodeava.” E a cosmopolita Freund se rendeu àquilo. Como escreveu a fotógrafa em um perfil para uma revista, incluído no livro, Frida “fuma, ri, fala com uma voz melodiosa e cálida. Toda sua personalidade irradia uma inteligência viva, uma profunda humanidade e uma exuberante vitalidade. Odeia tudo que é esnobe, qualquer coisa falsa, convencional ou afetada”.
Sua identidade resultou –e possivelmente também se baseou– em um estilo que transbordou a tela e se cristalizou em um rico mundo estético e simbólico. Eis aí seu vistoso armário (fotografado detalhadamente pela japonesa Miyako Ishiuchi, cujas imagens foram expostas neste ano em Londres), claro, mas também seu jardim. E é justamente essa decoração botânica que a exposiçãoFrida Kahlo, Art, Garden, Life (arte, jardim, vida) se propõe a recriar. A mostra no Jardim Botânico de Nova York é a primeira a centrar-se na importância simbólica das plantas na arte da pintora. “Essa faceta da sua criatividade mostra a inteligência profunda da artista, seu diálogo com ideias muito complexas, como a cosmovisão das culturas pré-hispânicas, e o discurso da mestiçagem não só no México, mas também no mundo dos anos quarenta e cinquenta, e sobretudo seu amor pelo México e pela natureza”, diz a curadora Adriana Zavala. Junto à reconstrução de uma parte do jardim da Casa Azul de Kahlo foram reunidas cerca de 20 telas e obras sobre papel, procedentes majoritariamente de coleções privadas, em que as plantas desempenham um papel essencial. “A popularidade de Frida muitas vezes encobre sua arte, e por isso nosso enfoque não é biográfico”, salienta Zavala. “Mas acredito, sim, que foi uma mulher indomável. e isso é muito atraente hoje. E também sua política.”
Foi sobre esse aspecto reivindicativo e lutador que o Instituto de Arte de Detroit se debruçou numa exposição que terminou em julho, após receber quase 180.000 visitantes, abordando a permanência e o trabalho do casal de artistas nessa cidade dos EUA. Em Detroit, Rivera deixou alguns dos seus monumentais murais, enquanto ela pintou a tela Henry Ford Hospital, após sofrer um aborto. Além disso, há poucos meses a exposição intitulada Kahlo, Rivera and the Mexican Modern Art (Kahlo, Rivera e a arte mexicana moderna) explorava as conexões de toda uma geração no Museu NSU, de Fort Lauderdale (Flórida). Já dizia Frida numa carta que mandou de San Francisco para sua mãe, em 1930: “As gringas gostam muito de mim”. E não só elas.
EL PAÍS




sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Exposição de Frida Kahlo em São Paulo retrata seu amor pelas mulheres

Frida Kahlo no hotel Barbizon Plaza, de Nova York, em 1931. LUCIENNE BLOCH (COURTESY THE GELMAN COLLECTION)

Exposição de Frida Kahlo em SP retrata seu amor pelas mulheres

Mostra no Instituto Tomie Ohtake traz 20 das 143 telas produzidas pela artista mexicana

O destaque é para o feminino, no entrelaçamento com outras pintoras surrealistas



Frida Kahlo foi, por um lado, uma esposa apaixonada pelo marido – o muralista mexicano Diego Rivera –, além de devota ao (conturbado) casamento dos dois, como poucas pessoas encontrariam forças para ser. Foi, por outro, uma mulher que amava outras mulheres, sua natureza de sensibilidade aguçada e inesgotável fonte de energia. Também teve relações físicas e sentimentais com elas, já que era bissexual, e usou todas essas facetas de sua personalidade como inspiração na pintura, em obras que falam, através de sua história, sobre o poder feminino. Por tudo isso, as mulheres amavam a pintora mexicana – por quem a admiração mundial só aumenta – e a continuam amando.
Da admiração de pintoras surrealistas por Frida (1907-1954) e também da influência artística da mexicana sobre elas trata a exposição Frida Kahlo – Conexões entre Mulheres Surrealistas no México, que abre suas portas neste domingo, 27 de setembro, no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, onde fica até 10 de janeiro de 2016. Com curadoria da pesquisadora mexicana Teresa Arcq, a mostra foi criada especialmente para o Brasil, por encomenda da casa que a abriga, e reúne 100 obras produzidas no México por 15 artistas mexicanas e estrangeiras – a grande maioria delas inédita aqui. Delas, 20 são pinturas e 13, desenhos de Frida – representação razoável de alguém que produziu em vida apenas 143 telas. Junto com manequins com os trajes típicos que ela usava e fotografias feitas por Nickolas Murray (que foi seu amante e responsável por seus retratos mais famosos), Bernard Silberstein, Martin Munkácsi e Héctor García, essa seleção pictórica faz um belo repasso pela intimidade da artista.

Frida Kahlo, 'Diego en mi pensamiento', 1943. © 2015 Banco de México/Diego Rivera & Frida Kahlo Museums Trust. /GERARDO SUTER
E Frida, em uma palavra, era isso: intimidade. Expunha as passagens mais dramáticas de sua vida marcada por uma poliomielite na infância, um acidente de carro na adolescência e as traições de Rivera e um aborto quando adulta em pinturas que, paradoxalmente, exalam beleza e alegria de viver. Para representar isso, estão lá no Tomie Ohtake as telas El abrazo de amor del universo, la tierra (México), Diego, yo y el senõr Xóloti(1933) e Diego em mi pensamiento(1943), além de uma litografia,Frida y el aborto (1932). Aparecem também os autorretratos – são 10 os de Frida, dos 55 que ela chegou a pintar –, que exploram a identidade jogando com mitos pessoais, indo muito além da fronteira de uma autofotografia. “A questão do autorretrato é interessante, porque podemos perceber que, enquanto os homens se representam em estúdios ou em seus ambientes de trabalho, as mulheres, quando se pintam, colocam-se em situações de empoderamento. Usam adornos e elaboram o discurso de uma mulher poderosa”, explica Teresa, que se especializou na história das surrealistas.
As diferenças entre a arte de homens e mulheres não é uma pauta da mostra, mas é possível percorrê-la buscando particularidades do universo feminino. Na única peça de autoria de Diego Rivera incluída na exposição – um desenho chamado Desnudo (Frida Kahlo) – o pintor representa sua esposa nua, sentada numa cama, sem nenhuma imperfeição e em uma pose erótica. Sabe-se que Frida tinha, por exemplo, as pernas finas (e uma diferente da outra) por conta da poliomielite. “No surrealismo, os homens erotizavam o corpo feminino”, explica a curadora. Sem deixar de se empoderar, Frida fazia o contrário: jamais tratava de ocultar sua verdade.
Surrealista, eu?
Apesar de que Frida Kahlo nunca tenha se considerado uma surrealista, é inegável a passagem do surrealismo pela sua arte, graças à amizade com o escritor francês André Breton, o grande teórico do surrealismo. Foi ele quem fomentou sua carreira internacional, primeiro apoiando uma exposição de Frida em Nova York e depois organizando sua famosa mostra individual em Paris. Foi nessa ocasião que a mexicana lançou a várias pintoras europeias desanimadas com os anos cinzentos que a Europa vivia então o convite para que se exilassem no México.
Muitas aceitaram e lá ficaram, outras passaram apenas uma temporada descobrindo a cultura popular mexicana, de quem Frida e Diego eram grandes difusores, mas todas se renderam ao discurso dela, especialmente. Ao lado de criadoras como a inglesa Leonora Carrington, a espanhola Remedios Varo, as mexicanas María Izquierdo e Lola Álvarez Bravo e a francesa Alice Rahon, a obra de Frida ganha potência. A relação entre elas – umas mais radicais, outras menos, mas todas ícones do feminismo – foi dada pelos temas que Frida tratou em sua obra, como o autorretrato, a natureza morta, o corpo e o fascínio por magia e crenças populares, assim como pela carga surrealista da artista. Tudo carregado de erotismo, emoção e, especialmente, empoderamento.

Traje de Tehuana. © Coleção Collection of Comisión Nacional para el Desarrollo de los Pueblos Indígenas. / FRANCISCO KOCHEN
Essa força feminina fica evidente, ao final, com os figurinos de indígena tehuana que Frida adotou a certa altura da vida, inspirada pelo fato das tehuanas serem a única sociedade matriarcal do México (e uma das raras no mundo). Não são as roupas dela, mas peças similares selecionadas de um acervo doMuseu de Arte Popular do México, que ela ajudou a fundar. Isso, porque, explica Teresa, “por determinação expressa de Rivera, nada que pertenceu a Frida pode sair da Casa Azul”, onde ela viveu, no hoje bairro de Coyoacán, reduto de artistas da Cidade do México. A famosa casa, que era azul porque os mexicanos acreditam que essa cor espanta os maus espíritos, pode ser vista em um dos documentários (A vida e os tempos de Frida Kahlo – para a curadora, o melhor material de vídeo existente sobre a artista, com imagens de arquivo) que fazem parte de uma pequena mostra cinematográfica que faz parte da exposição. Na segunda semana de visitação, haverá também uma instalação sobre o lugar, La Casa Azul, com o objetivo de aproximar as crianças do repertório da artista.
Segundo Teresa, não foi fácil reunir de museus mexicanos e também de coleções privadas tantas obras de Frida para esta exposição (que em 2016 viajará ao Rio de Janeiro e a Brasília), mas valeu a pena, pois os brasileiros andam cada vez mais apaixonados por ela. A curadora corrige a afirmação da repórter e diz logo que o boom ao redor de Frida é mundial. “Frida Kahlo pintava o que via e sentia, e sua obra fala muito de emoções e sensações. Todos nos rendemos a isso”, decreta.




terça-feira, 13 de outubro de 2015

Xavi Ayén / Um soco no boom


Xavi Ayén

Um soco no boom

Um livro revive a história do fenômeno literário em Barcelona



Gabo e Vargas Llosa, no prêmio Biblioteca Breve de 1970. / J.M.CASTELLET
"Como era um senhor da América do Sul, naquela época, soava suspeito para meu pai, por isso pedimos garantias e a própria Carmen Balcells acabou sendo a avalista", lembra hoje Javier Canals, proprietário do apartamento da rua Osi, 50, em Barcelona, e filho de Miguel, que alugou, por intermédio da futura superagente literária, o apartamento para Mario Vargas Llosa, onde o também futuro prêmio Nobel viveu com sua família entre 1972 e 1974. Não foi ali que escreveu Pantaleão e as visitadoras, pois dizia que não podia se concentrar pelo barulho, e sim em uma das três oficinas brancas que havia no último andar, graças às irregularidades urbanísticas da época e que ainda são bem visíveis da rua. “Da mesma forma, é preciso agradecer ao prefeito Porcioles por uma das maiores obras literárias", brinca um dos jornalistas que rodeiam o colega Xavi Ayén, que passeia por cenários míticos da Barcelona dos anos 60 e 70 quando convergiram aí o melhor das letras sul-americanas e que ele refletiu no livro Aquellos años del boom (RBA).
Osi, 50 fica quase na esquina com a também silenciosa rua Caponata, 6 onde nos primeiros andares Gabriel García Márquez escrevia, nesta época,O outono do patriarca; Gabo havia chegado pouco tempo antes, em 1967, com sua família. Essa confluência de ruas foi a capital do boom. Por aí passaram todos. "Mario batia com os dedos na parede e pouco depois aparecia Gabo, com seu mítico macacão azul de mecânico, que vestia para escrever", Ayén lembra a brincadeira com que eles impressionavam Juanjo Armas Marcelo em 1972. Não eram apartamentos contíguos, mas estavam muito próximos. “Você comia na casa de um deles e tomava café na do outro", conta o escritor Alfredo Bryce Echenique no livro. A proximidade tinha sido propiciada por Balcells: “Ela os instalava em Sarrià, porque isso dava uma boa imagem; Carmen servia de banco 24 horas deles e solucionava desde problemas de liquidez aos mais domésticos, como as férias familiares ou as compras", explica o jornalista. E constata: “Sendo ambos de origem humilde, colocou-os na região rica da cidade, e Sergio Pitol, que era de classe alta, vivia no Raval, na rua Escudellers”.

Vargas Llosa bateu em Gabo por revelar um assunto de saias para sua mulher, sustenta o jornalista Xavi Ayén
Ayén conta centenas de detalhes como esse em seu livro, nascido da vontade de saber mais sobre os escritores que se mudaram para a cidade, coincidência astral que até essa data só tinha uma bíblia: as memórias de outro ilustre morador, José Donoso. "Queria fazer uma biografia coletiva centrando sobretudo em Barcelona, mas não podia explicar só a partir daí, e a coisa foi crescendo". Tanto que, no final, levou 10 anos de trabalho e, depois de alguns cortes, 876 páginas, com as quais obteve o prêmio Gaziel de Biografias e Memórias. Agora já é um livro de referência obrigatória.
“Não, qualquer um, não: queria de 120 gramas de gramatura", recita com voz cansada Jorge, o dono da papelaria-quiosque de madeiras verdes de uma rua mais abaixo, à qual, duas vezes por semana, no mínimo, Gabo ia comprar pacotes de folhas de papel, que tinha que pedir exclusivamente para ele pela gramatura. Acabaram travando certa amizade: os filhos do escritor o ajudaram a montar prateleiras no local e ele terminou escutando música no potente toca-discos de García Márquez, cujo apartamento tinha isolamento acústico.
Carlos Barral, Carlos Fuentes, Josep Maria Castellet, os irmãos Goytisolo, Guillermo Cabrera Infante, Julio Cortázar, Rosa Regàs… São alguns nomes míticos que mais aparecem no estudo de Ayén, que consultou mais de 300 livros e arquivos (“no de Vargas Llosa não permitem o acesso às pastas de Julia Urquidi, a 'Tia Júlia') e entrevistou familiares, amigos e viúvas. Muitos coincidiam, nessa geografia barcelonesa (no volume há três mapas detalhando residências, lugares de ócio, editoriais e livrarias), na gauchedivinista Bocaccio: Gabo foi algumas vezes, mas não muitas, e Vargas Llosa, só uma, eram muito disciplinados trabalhando", sustenta Ayén sobre os pilares de um grupo que "criou pela primeira vez um mercado global literário espanhol e que não tinham uma estética comum, mas atuavam coletivamente... E isso os editores encontraram já pronto".
A coisa, para o estudioso, acabou por diversos motivos: “Pararam de morar juntos em 1974-1975, se dividiram por suas posturas frente à revolução cubana e o caso Padilla e uns começaram a ter muito sucesso, enquanto outros continuaram sendo só autores de culto”. Mas a razão mais espetacular tem data e cenário: dia 12 de fevereiro de 1976, no Palácio de Bellas Artes do México, na pré-estreia do filme Os Sobreviventes dos Andes, Gabo vai até Vargas Llosa e este lhe dá um soco de direita, que o derruba, enquanto gritava: "Isto, pelo que você fez à Patricia em Barcelona”. São só 30 páginas do livro, mas serão as mais consultadas e as que colocaram a edição em certo aperto.
Segundo a versão de Ayén, a origem está em uma crise matrimonial de Mario e Patricia Vargas Llosa, por causa de uma aventura extramatrimonial dele. Patricia visitará Barcelona entre maio e junho de 1975 para recolher suas coisas e resolver as últimas questões. Uma noite ela sai para jantar com Balcells, Edward e Gabo. Beberam um pouco e Patricia tinha que pegar o avião de volta para Lima muito cedo. Gabo se ofereceu para levá-la e, segundo Edwards, Patricia perdeu o avião, porque Gabo se perdeu. Segundo o chileno, Mario sempre pensou que foi porque queria levá-la a um hotel. Ayén se inclina, tacitamente, para a explicação de que, no clima de grande amizade entre Gabo e Patricia, o carro se converteu em uma espécie de confessionário, e o autor de Cem anos de solidão “cometeu uma indiscrição maiúscula, ao revelar a Patricia Llosa alguma aventura de seu marido, cometida nos anos de Barcelona”. Vargas Llosa sentiu que “Gabo havia corrompido a amizade ao dar com a línguas nos dentes”.
Pode acontecer com um grande narrador.



sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Os agentes literários Carmen Balcells e Andrew Wylie criam uma “superagência”

Andrew Wylie
Os agentes literários Carmen Balcells 

e Andrew Wylie criam uma “superagência”

O acordo de intenções foi assinado entre os dois no último dia 27

O nome da nova superagência literária é Balcells&Wylie

WINSTON MANRIQUE SABOGAL Madri 29 MAI 2014 - 14:25 BRT


A agente Carmen Balcells em seu escritório. / CARMEN SECANELLA (EL PAIS)
Carmen Balcells e Andrew Wylie deram o primeiro passo para se tornarem a agência internacional mais poderosa e com os autores mais cobiçados do mundo: de V. S. Naipaul a Philip Roth ou Milan Kundera, até os autores do boom latino-americano, como Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa. Em 27 de maio os dois agentes firmaram uma carta de intenções a fim de criar uma agência internacional chamada Balcells & Wylie.
“Temos acompanhado e admirado um ao outro durante anos, e desejamos trabalhar de maneira próxima a partir de hoje. Nosso objetivo é dar mais força, alcance e duração à representação dos clientes, e estamos entusiasmados e totalmente comprometidos com as oportunidades que nos foram apresentadas”, declararam em um comunicado Balcells (83 anos) e Wylie (67 anos), conhecido como El chacal.
Com esse abalo sísmico no ecossistema do livro, frágil no momento atual, as reações do setor não tardaram. Enquanto alguns consideram uma ação necessária para sobreviver em plena mudança de paradigma, outros acreditam que é a confirmação do tratamento cada vez mais impessoal entre autor e agente.
“É um movimento muito inteligente por parte das duas agências”, garante Claudio López de Lamadrid, diretor literário da Penguin Random House. Os dois agentes, acrescenta, garantem sua receita e a consolidação em novos espaços: “De um lado, Wylie entra no mundo de língua hispânica, enquanto Balcells garante a continuidade da agência e seus autores ganham”.
Rumores sobre a criação dessa superagência literária já circulavam há meses. Dois agentes que apostaram em escritores, consolidaram outros, vasculharam o panorama internacional em busca de talentos e influenciaram o setor literário e editorial. Essa união, com o nome de Balcells à frente, responde à reorganização do mundo editorial, movimento de peças no tabuleiro, em momentos de transformação diante do surgimento de grandes grupos globais como Amazon, Google e Apple em várias partes da cadeia de valor do livro e da própria crise econômica mundial. As alianças e as fusões são a norma para encarar o novo mundo editorial e literário que enfrenta desafios novos tanto na área analógica como digital, enquanto as vendas de livros caem e os hábitos de leitura mudam.
Para Sigrid Kraus, editora da Salamandra, a criação de uma agência forte é positiva porque as duas sofreram a crise: “É sempre bom que haja agentes que trabalhem da forma mais profissional possível”.
Uma opinião que o escritor Alberto Manguel põe em dúvida. Ele teme o desaparecimento real do agente e de suas funções clássicas, e “tudo é mais impessoal, exceto se você for um prêmio Nobel, por exemplo”, acrescenta. Mesmo assim, adverte Manguel, “não seria estranho que o agente se tornasse em uma multinacional na qual prevalecesse a quantidade acima da qualidade”. Uma tendência que lhe parece triste e ao mesmo tempo inevitável. Álvaro Pombo teme os monopólios e que os autores menos importantes fiquem em desvantagem.
A Balcells & Wylie tomaria forma com um catálogo invejável que inclui autores clássicos do século XX como Vladimir Nabokov, Yasunari Kawabata, Jorge Luis Borges ou Italo Calvino; prêmios Nobel como García Márquez, Orhan Pamuk, Kenzaburo Oé, Czeslaw Milosz, Mario Vargas Llosa ou Mo Yan; autores fundamentais do momento como Philip Roth, Milan Kundera, Roberto Calasso, Antonio Muñoz Molina, Javier Cercas, Juan Marsé, Salman Rushdie, Roberto Bolaño, Isabel Allende, Amos Oz, Claudio Magris; e nomes de grande potencial como Colum McCann, Teju Cole, Helen Oyeyemi ou Chimamanda Adichie, Taiye Selasi, Paolo Giordano e uma longa lista de autores hispânicos.



quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Carmen Balcells / Morre a grande agente literária de García Márquez e Vargas Llosa


Gabriel García Márquez e Carmen Balcells
Carmen Balcells

Morre a grande agente literária 

de García Márquez e Vargas Llosa

Ela foi uma figura essencial do chamado ‘boom’ da literatura latino-americana

  • Os agentes literários Carmen Balcells e Andrew Wylie criam uma “superagência”

A grande agente literária Carmen Balcells morreu hoje em Barcelona aos 85 anos. Balcells, nascida em 1930 em Santa Fe de Segarra, gozava de enorme prestígio internacional havia décadas e deixa como legado sua empresa, a agência literária que leva seu nome, sediada em Barcelona.
Conhecida como La Mamá Grande por um relato de Gabriel García Márquez, Balcells foi para seus autores muito mais que uma agente literária. Não era só uma pessoa que negociava os contratos com as editoras, as traduções e os prêmios literários, mas também uma confidente e conselheira que sempre esteve disponível. Em alguns casos, chegou a oferecer dinheiro adiantado para que eles pudessem escrever tranquilos.

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Carmen Balcells fundou sua agência literária em 1956, em pleno franquismo, mas justo no momento em que uma nova geração de escritores em espanhol despontava nos dois lados do Atlântico. De Manuel Vázquez Montalbán a García Márquez – um dos numerosos prêmios Nobel que integram seu catálogo –, Balcells soube nutrir enormes talentos literários com enormes sucessos de vendas, uma combinação que a transformou numa das figuras mais poderosas do mundo da literatura em castelhano, inclusive depois de se aposentar.
A lista de autores cujos direitos gerenciou é simplesmente impressionante: Pablo Neruda, Vicente Aleixandre, Camilo José Cela, Rafael Alberti, Gonzalo Torrente Ballester, Miguel Delibes, Vázquez Montalbán, Ana María Matute, Jaime Gil de Biedma, Juan Goytisolo, Juan Marsé, Jaime Gil de Biedma, Eduardo Mendoza, Javier Cercas e Rosa Montero. Entre os latino-americanos, estavam Carlos Fuentes, Julio Cortázar, Alfredo Bryce Echenique e Isabel Allende. Por sua agência passaram várias gerações de escritores. Sem seu trabalho, é difícil entender a literatura em espanhol do século XX. Balcells também passa à história como grande promotora do boom da literatura latino-americana.
Em 2014, ela causou enorme surpresa ao anunciar uma fusão com outro grande agente literário mundial, Andrew Wylie. Até o The New York Times dedicou-lhe um grande artigo em que Balcells dizia: “Quero as coisas claras e bem passadas”. Aquele acordo, que um ano depois ainda não se concretizou, garantia o futuro da agência e reunia o maior catálogo literário que se possa conceber (além da lista acima, figuravam autores como Italo Calvino, Jorge Luis Borges, Guillermo Cabrero Infante, Vladímir Nabokov e Milan Kundera).
Como todos os bons agentes, Balcells e Wylie se mostraram muito reservados para explicar detalhes do seu pacto, mas ele basicamente consistia na criação de uma superagência, com autores de primeira linha em todas as línguas possíveis, capaz de fazer frente a um mercado editorial cheio de gigantes como a editora Random House Mondadori e o distribuidor Amazon.
A revolução das novas tecnologias não afetou a fé de Balcells no futuro da literatura e do livro. “O livro nunca morrerá”, afirmou numa entrevista a este jornal em 2009. E foi mais longe: “A televisão não acabou com o rádio nem com o cinema, e a internet não acabará com nada. O mundo do desenvolvimento tecnológico é fascinante, chegará às aldeias, fará mais leitores, e todo mundo sairá beneficiado.”

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