quinta-feira, 6 de setembro de 2018
quarta-feira, 5 de setembro de 2018
Luci Collin / Dos poemas
Luci Collin
DOS POEMAS
ONTIVO
Nos encontraremos e eu estarei atarefada
e você estará imerecível
e eu estarei cansada para o cafezinho
e você estará exausto para um cinema
e eu estarei amorfa
e você palimpsesto
e eu estarei rendida às evidências mais ocultas
e você descompassado às vivências absolutas
e eu estarei com pressa
e você naquela hora imprevisível
e eu estarei naquela hora portentosa
e você estará naquele momento incrível
e eu estarei naquela manhã chuvosa
e você estará naquela noite audível
e eu retrocederei até auroras
e você avançará aos ocidentes
e eu compreenderei infinitudes
e você desvestirá os contratempos
e eu deslizo pela superfície e vou embora
e você mergulha mar adentro e refloresce
UMA TARDE QUE CAI
Quando o vemos está sentado no banco da praça
Ela está em casa presa à trama silenciosa
Na praça pássaros e flores são sinceros
Na janela pássaros são fantasmagóricos
Com o lenço do bolso ele seca o suor da testa
Ela enxuga os olhos com a manga
Ele rosna mas só por dentro
Ela supura mas nunca aos domingos
Ele lastima porque o pão é azul
Ela suspira e a tarde muda se avelhanta
Ele pergunta se as janelas são sinceras
Ela pensa em se atirar nalguma água
São fantasmagóricos os azuis que saem dos olhos
A gangrena e a borra são absolutos
Quando o vemos está em frente à TV imaterial
Ela está de costas de bruços de borco
Ele está palitando os dentes à espera
Ela vazia
Ele está entardecente e flama
Ela boia sobre a água azulíssima
Ele tosse cospe resmunga lanceia vage
Ela fez as unhas e o bolo simples
A previsão do tempo anuncia chuva
Ela toca a pedra friíssima
Ele se ofende
Ela se ofélia
terça-feira, 4 de setembro de 2018
Beckett / Esperando Godot
ESPERANDO GODOT
Samuel Beckett
Adaptação*
Angela Victoriano
Angélica Mahfuz
Guilherme Oliveira
João David
Márcio Cabral
Angélica Mahfuz
Guilherme Oliveira
João David
Márcio Cabral
Florianópolis, 06 de junho de 2011
PERSONAGENS
VLADIMIR
ESTRAGON
MENINO
ESTRAGON
MENINO
ATO I
Uma estrada de terra. Uma árvore. Entardecer.
ESTRAGON
Nada a ser feito.
Uma estrada de terra. Uma árvore. Entardecer.
ESTRAGON
Nada a ser feito.
VLADIMIR (avançando em passos duros e curtos, com as pernas bem separadas)
Estou começando a concordar com essa opinião. Por toda a minha vida tentei me manter
distante dela, dizendo-me, Vladimir, seja razoável, você ainda não tentou de tudo. E recomeçava a luta.
Então aí está você de novo.
Estou começando a concordar com essa opinião. Por toda a minha vida tentei me manter
distante dela, dizendo-me, Vladimir, seja razoável, você ainda não tentou de tudo. E recomeçava a luta.
Então aí está você de novo.
ESTRAGON
Estou?
Estou?
VLADIMIR
Estou feliz em vê-lo de volta. Pensei que tivesse ido para sempre.
Estou feliz em vê-lo de volta. Pensei que tivesse ido para sempre.
ESTRAGON
Eu também.
Eu também.
VLADIMIR (ofendido, frio)
Pode-se perguntar onde você passou a noite?
Pode-se perguntar onde você passou a noite?
ESTRAGON
Em uma vala.
Em uma vala.
VLADIMIR (admirado)
Uma vala! Onde?
Uma vala! Onde?
ESTRAGON (sem gestos)
Por aí.
Por aí.
segunda-feira, 3 de setembro de 2018
O poeta Ivan Goll e a tradução do Ulisses, de James Joyce, à língua alemã
O poeta Ivan Goll e a tradução do Ulisses, de James Joyce, à língua alemã
Maria Aparecida Barbosa[1]
Quando se mudou para a Suíça, a fim de burlar o serviço militar na Alemanha de Wilhelm II, que acabara de entrar na recém-deflagrada Primeira Guerra Mundial, o poeta Ivan Goll participa de um grupo internacional de escritores pacifistas, entre os quais se encontravam Stefan Zweig, Romain Rolland e James Joyce. Com Joyce entabula amizade duradoura, até a morte do irlandês em 1941.
Goll se revela um leitor sensível à literatura universal e inovadora. Para o romance Ulisses, por exemplo, livro que Joyce escreve entre 1914 e 1921 e publica na Paris de 1922, ele reivindica um lugar de destaque dentro da literatura europeia. Vê com bons olhos a divulgação dessa obra em língua alemã, o que seria fundamental para calar definitivamente discussões entre estilos irrelevantes e querelas atinentes ao Expressionismo.[2]
De fato, o Ulisses é traduzido por Georg Goyert e publicado em 1927. No combativo jornal Die Weltbühne, o jornalista Kurt Tucholski (sob o pseudônimo Peter Panter) se pronuncia com ceticismo sobre o trabalho do autor e do tradutor: “Quando 1585 páginas despencam de uma hora para outra, então é preciso antes de tudo fazer respeitoso silêncio. Nada de maravilhoso ou assombroso.”[3]
Ao ver questionado tanto o valor da obra de Joyce como da respectiva tradução ao alemão, Goll volta a se pronunciar a respeito do assunto, dessa vez com uma réplica no periódico de Tucholski. Referindo-se à leitura superficial e ao precipitado julgamento do jornalista e poeta (“justo ele, um malabarista das palavras”), lamenta que o leitor e o crítico de seu tempo tenham livros triviais como parâmetro de leitura, o que chama de “livros presenteados no Natal”. Com bons olhos, prevê que o leitor do futuro se debruçará sobre complexas obras da literatura mundial, semelhantes ao modelo joyceano, a fim de estudá-las. Pois o Ulisses exigiria decifração semelhante à Cabala, mesmo sendo divertido como Rabelais e hermético feito um tratado jesuítico.
[…] é preciso lê-lo, para libertar a alma. O Ulisses não é comparável a outra obra da literatura mundial: é único e original. Essa prosa é a linguagem e o ritmo da poesia vindoura. Uma arquitetura lógica e geométrica, suas transgressões não fogem à regra métrica e rítmica, mas sim às marcas intrínsecas da palavra e da gramática. […] construído com as pedras da lógica, mas iluminado sob a luz da poesia.[4]
Quando Joyce morre em 1941, Goll lhe rende a homenagem póstuma, evocando uma lembrança do aniversário de 1939 do poeta irlandês. Embora adoentado, conta Goll, Joyce estava alegre como um menino por ter recebido de presente do editor o Finnegans Wake impresso.[5]
[1] O texto é um excerto do artigo BARBOSA, Maria Aparecida. “Les Cinq Continents, a antologia de Goll – apelo (po)ético cosmopolita”. In: Alea vol.13 no.2 Rio de Janeiro July/Dec. 2011.
[2] GOLL, Ivan. “Homer unserer Zeit – über James Joyce” (Homero de nosso tempo – sobre James Joyce). In: Die Literarische Welt, 3º, ano 24, 1927: 1-2.
[3] Tucholski, Kurt. “Ulisses”. In: Die Weltbühne, 47, 1927: 788. Disponível on-line em 28/11/2011: http://www.textlog.de/tucholsky-ulysses-joyce.html
[4] GOLL. “Ulisses: sub specie aeternitatis”. In: Die Weltbühne, 52, 1927: 960. Disponível on-line em 28/11/2011: http://www.archive.org/stream/DieWeltbhne2321927#page/n971/mode/thumb
[5] GOLL, Ivan. “Odysseus Joyce”.
In: Aufbau – das jüdische Monatsmagazin, n. 3, 1941: 5.
domingo, 2 de setembro de 2018
sábado, 1 de setembro de 2018
Sérgio Medeiros / A música sagrada de John Coltrane
Sérgio Medeiros
A MÚSICA SAGRADA
DE JOHN COLTRANE
O som exultante e hipnótico criado por John Coltrane (1926-1967) no seu álbum mais famoso, A Love Supreme (Um amor divino), de 1965, espraia-se pelos longos solos do saxofonista, os quais, segundo Ashley Kahn, autor de um livro sobre essa obra-prima da música do século XX, vão da meditação sussurrada aos gritos selvagens e, às vezes, meio sufocados, sugerindo o ritmo de um pregador de domingo. Por isso, foi classificado como “jazz espiritual”.
A música luminosa e experimental de Coltrane, que veio depois do free jazz de Ornette Coleman e Charles Mingus, poderia ser descrita, grosso modo, como de vanguarda, porém a sua agressividade não impediu que, nos círculos jazzísticos dos anos 1960, o álbum A Love Supreme se tornasse instantaneamente um recordista de vendas. Nas quatro partes dessa suíte, forma e energia (a mesma energia do bebop e do gospel) interagem harmoniosamente, conforme avaliou Ashley Kahn. Numerosos músicos já declararam publicamente sua admiração por A Love Supreme, cuja linguagem e concepção, segundo os estudiosos, não envelheceram. O que pouca gente sabe é que John Coltrane foi canonizado no século passado pela Igreja Ortodoxa Africana e hoje é o padroeiro da Saint John Coltrane Church, ou seja, a Igreja de São John Coltrane, localizada em São Francisco, Califórnia.
Em fevereiro deste ano, a igreja completou 49 anos de existência. Assisti a dois rituais, ou “missas”, celebrados nela, em dois domingos consecutivos, durante o mês de aniversário de sua fundação. Na segunda missa, a pastora Wanika Stephens, atualmente a sua principal pregadora, declarou que, desde a sua origem, a igreja vem sendo visitada e frequentada por fãs de John Coltrane de todos os continentes, mas que os brasileiros são os mais numerosos e assíduos entre os estrangeiros. Havia nessa ocasião, entre uns poucos fiéis norte-americanos, visitantes franceses e mexicanos, além, é claro, de três brasileiros: Dirce Waltrick do Amarante, eu e o nosso filho de 15 anos, admirador do santo do jazz. Fomos convidados a dar um depoimento ou a tocar um instrumento de nossa preferência, antes ou depois do sermão do dia.
Quem chega cedo pode assistir à curiosa transformação de um dos templos da Igreja Ortodoxa Africana em Igreja de São John Coltrane, ambas sempre envolvidas em forte aroma de incenso. Jesus e os santos pintados nas paredes que rodeiam o altar da Igreja de São Cipriano são todos de pele escura. Entram então no recinto os simpáticos e esfuziantes fundadores da igreja do santo saxofonista, o senhor e a senhora King, com sua família (filhos, netos e bisnetos), portando diferentes imagens de John Coltrane, que expõem diante das fileiras de bancos: numa delas, o santo está segurando um sax que emite chamas; noutra, seu rosto se alterna com o de Billie Holiday, reproduzido várias vezes. Mais importante do que os ícones são os instrumentos musicais, que vão sendo trazidos para perto do altar pelos Kings (são músicos) e pelos artistas que frequentam a missa. A bispa, que é filha dos fundadores, é contrabaixista e o seu instrumento está posicionado ao lado do piano da Igreja de São Cipriano. A bateria vem a seguir. No primeiro domingo de fevereiro, o baterista, um dos netos dos fundadores, se atrasou. Na verdade, nesse dia a missa consistiu basicamente na audição de olhos fechados de A Love Supreme, no qual Coltrane canta várias vezes o título do álbum. Os presentes foram convidados a cantar junto com ele esse “mantra”, que ostenta uma eloquente inversão poética, à maneira de Walt Whitman, que escreveu “forest primeval” em lugar de “primeval forest”.
A jam session pode vir antes ou depois do sermão. No segundo domingo de fevereiro, ela veio antes: os músicos que iam chegando (entre eles, um pianista que havia sido indicado ao Grammy), começaram a tocar imediatamente, sem nenhum ensaio prévio, junto com a família King. Foi uma improvisação entusiástica, entremeada de cantos e, sobretudo, da repetição do refrão criado por John Coltrane no seu álbum clássico. Os fiéis e visitantes receberam pandeiros e maracas e foram solicitados a fazer muito ruído ao longo do ritual. De vez em quando, todos gritavam “Aleluia” e “Amém”. A atmosfera era tão festiva que, nesse dia, não houve meditação, só cantos e danças, mas a bispa não abriu mão do sermão. Citando o Evangelho de Mateus, comentou a história do mendigo de Jericó, que não era capaz de ver, mas sabia ouvir. Na Igreja de São John Coltrane, todos são “cegos” que ouvem bem (ouve-se todo o álbum do mestre de olhos fechados); ou músicos, dançarinos e cantores bem despertos, quando a jam session irrompe primeiro e a música de A Love Supreme é recriada livremente no recinto sagrado.
Não saberia dizer qual dos dois tipos de missa é o mais interessante num domingo ao meio-dia. São formas diferentes de louvar o Divino, sem trair as palavras da oração que John Coltrane escreveu: “Deus, obrigado. […] É tão bonito. Deus, obrigado.”
*Sérgio Medeiros é poeta, dramaturgo e tradutor. É autor, entre outros, dos livros A idolatria poética ou a febre de imagens (2017) e Trio pagão (no prelo).
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