sexta-feira, 5 de novembro de 2021

Prémio Booker atribuído ao escritor sul-africano Damon Galgut pelo romance "The Promise"



 

Prémio Booker atribuído ao escritor sul-africano Damon Galgut pelo romance "The Promise"


Damon Galgut conta a história do seu país, no final do apartheid, na qual explora as relações entre os membros de uma família branca em decadência.

03.11.2021 às 21h35

O escritor sul-africano Damon Galgut é o vencedor do Prémio Booker de ficção em língua inglesa, pelo romance "The Promise", anunciou esta quarta-feira o júri, em Londres.

Nomeado pela terceira vez para o prémio, Galgut conquistou-o com uma história do seu país, que decorre no final do apartheid, na qual explora as relações entre os membros de uma família branca em decadência, através da sequência de quatro funerais.

"The Promise" é o nono romance de Galgut e o primeiro em sete anos. O autor, que vive na Cidade do Cabo, foi previamente selecionado para o Booker em 2003, com "The Good Doctor" e, em 2010, com "In a Strange Room". O seu romance de 2005 "The Quarry" foi adaptado ao cinema.

A presidente do júri, a historiadora e académica Maya Jasanoff, disse que "The Promise" surpreendeu desde o início do processo de escolha, por ser "um relato penetrante e incrivelmente bem construído de uma família sul-africana branca entre o final do apartheid e o período que se lhe seguiu.

A cada leitura, sentimos que o livro cresce [em dimensão]. Com economia narrativa, oferece perspetivas comoventes sobre os conflitos geracionais, reflete sobre a vida em pleno e sobre a morte", e não deixa em branco todas as implicações do passado na atual África do Sul, traduzidas na metáfora patente no título, "The Promise" ("A Promessa").

O júri compara a abordagem de Galgut à vida familiar com o estilo de narrativa do escritor norte-americano William Faulkner, Nobel da Literatura em 1949. Para a dimensão interna das personagens e sua caraterização, estabelece paralelo com a escritora britânica Virginia Woolf.

Damon Galgut faz tudo isto "com uma sensibilidade, arte e alcance que são inteiramente seus", prossegue o júri, reconhecendo na obra "uma demonstração espectacular de como o romance pode fazer ver e pensar de novo". Por isso, para o júri, "'The Promise' cumpre".

"Este é um livro sobre legados, aqueles que herdamos e aqueles que deixamos e, ao atribuir-lhe o Prémio Booker deste ano, esperamos que ressoe nos leitores, ao longo das décadas por vir".

Além de Maya Jasanoff, o júri da edição deste ano foi constituído pela editora Horatia Harrod, pela atriz Natascha McElhone, pelo professor e escritor Chigozie Obioma, também já selecionado para o Booker em anteriores edições, e pelo antigo arcebispo da Cantuária Rowan Willians.

Damon Galgut, como vencedor do Booker Prize, recebe 50.000 libras (perto de 59.000 euros).

Nascido em Pretória, em 1963, Galgut escreveu o primeiro romance aos 17 anos, "A Sinless Season". Entre as suas obras contam-se títulos como "Small Circle of Beings" e "The Beautiful Screaming of Pigs".

Em Portugal, estão publicados, com a chancela da Jacarandá, "Verão Ártico", "O Impostor" e "Um Quarto Desconhecido".

A norte-americana Patricia Lockwood, com a sua estreia em ficção, "No One is Talking About This", o autor Anuk Arudpragasam, do Sri Lanka, com "A Passage North", a britânica de origem somali Nadifa Mohamed, com o romance "The Fortune Men", o norte-americano Richard Powers, com "Bewilderment", e a sua compatriota Maggie Shipstead, com "Great Circle", eram os restantes finalistas do Booker Prize de ficção 2021.

Nenhum dos livros finalistas está publicado em Portugal, embora Powers e Shipstead estejam editados com outros títulos, à semelhança de Galgut.

Richard Pawers é o autor de "Generosidade" e "O Eco da Memória", dois títulos publicados pela Bertrand, que também editou "Deslumbra-me", de Maggie Shipstead.

SIC

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

Paulina Chiziane dedica Prémio Camões 2021 às mulheres

Paulina Chiziane


Paulina Chiziane dedica Prémio Camões 2021 às mulheres

O Prémio Camões 2021 serve para valorizar o papel das mulheres numa altura em que o seu trabalho ainda é subvalorizado, disse hoje à Lusa a escritora moçambicana Paulina Chiziane, depois de receber a distinção.

20:34 - 20/10/21 POR LUSA

CULTURA PRÉMIO CAMÕES

"A

final a mulher tem uma alma grande e tem uma grande mensagem para dar ao mundo. Este prémio serve para despertar as mulheres e fazê-las sentir o poder que têm por dentro", referiu a autora.

Chiziane foi a primeira mulher a publicar um romance em Moçambique, com "Balada de amor ao vento", em 1990.

"Quando eu comecei a escrever, ninguém acreditava naquilo que eu fazia. Porque eram escritos de mulher", referiu, numa alusão à temática do género, um dos fios condutores da sua obra.

Paulina Chiziane, 66 anos, confessou-se confusa com a notícia do prémio.

"Eu nem sequer me lembrava que o prémio Camões existia", porque os confinamentos provocados pela covid-19 deixaram-na "bem fechada em casa, desligada de tudo".

O prémio surgiu como uma surpresa bem-vinda.

"Uma surpresa muito boa para mim, para o meu povo, para a minha gente", que em África escreve "o português, aprendido de Portugal". 

"E eu sempre achei que o meu português não merecia tão alto patamar. Estou emocionada", acrescentou.

O seu último trabalho foi "A voz do cárcere" escrito em conjunto com Dionísio Bahule, lançado este ano, em Maputo, depois de ambos entrarem nas prisões e ouvirem os reclusos - ela a escutar as mulheres, ele, os homens.

"Há tantas ideias", disse à Lusa sobre o futuro, ideias que "nem sempre o corpo consegue realizar".

Mas pode ser que "este prémio seja um motor para eu me sentir um pouco mais de pé, porque às vezes fico cansada", seja pela idade, referiu, ou pelo impacto "da covid, que impede tudo", disse, numa alusão à pandemia. 

Paulina Chiziane disse que o Prémio Camões pode ser "um alento novo", um símbolo que de que a sua caminhada "valeu a pena" e de que "é preciso continuar a lutar". 

A escolha da escritora moçambicana foi feita por unanimidade pelo júri do Prémio Camões 2021, anunciou hoje a ministra portuguesa da Cultura, Graça Fonseca.

A decisão destaca a "vasta produção e receção crítica, bem como o reconhecimento académico e institucional" da obra, segundo nota que anunciou a distinção.

CULTURAAOMINUTO


DE OTROS MUNDOS
Paulina Chiziane / Una feminista africana
Paulina Chiziane, la primera escritora africana que obtiene el Premio Camões
Paulina Chiziane / "Los ángeles de Dios siguen siendo blancos"
El feminismo negro de Paulina Chiziane

PESSOA
Paulina Chiziane / 'Sou uma contadora de histórias'
Escritora Paulina Chiziane venceu o Prémio Camões
Paulina Chiziane dedica Prémio Camões 2021 às mulheres







quarta-feira, 3 de novembro de 2021

Escritora Paulina Chiziane venceu o Prémio Camões

Paulina Chiziane


Escritora Paulina Chiziane venceu o Prémio Camões

A escritora moçambicana Paulina Chiziane é a vencedora do Prémio Camões 2021, numa escolha feita por unanimidade, anunciou hoje a ministra portuguesa da Cultura, Graça Fonseca.

17:18 - 20/10/21 
POR LUSA
CULTURA 
PRÉMIO CAMÕEES

"No seguimento da reunião do júri da 33.ª edição do Prémio Camões, que decorreu no dia 20 de outubro, a ministra da Cultura anuncia que o Prémio Camões 2021 foi atribuído à escritora moçambicana Paulina Chiziane", lê-se na nota informativa hoje divulgada.

"O júri decidiu por unanimidade atribuir o Prémio à escritora moçambicana Paulina Chiziane, destacando a sua vasta produção e receção crítica, bem como o reconhecimento académico e institucional da sua obra. O júri referiu também a importância que dedica nos seus livros aos problemas da mulher moçambicana e africana. O júri sublinhou o seu trabalho recente de aproximação aos jovens, nomeadamente na construção de pontes entre a literatura e outras artes.

Paulina Chiziane é autora de "Balada de Amor ao Vento" e "Ventos do Apocalipse".

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terça-feira, 2 de novembro de 2021

Paulina Chiziane / 'Sou uma contadora de histórias'

A escritora moçambicana Paulina Chiziane


Paulina Chiziane: 'Sou uma contadora de histórias'


Prêmio Camões de Literatura em 2021, escritora moçambicana explica porque não gosta de ser chamada de romancista e enaltece os escritos de Carolina de Jesus


Márcia Maria Cruz
29/10/2021 04:00

Depois de ser anunciada como a vencedora do Prêmio Camões de Literatura, a moçambicana Paulina Chiziane concedeu uma entrevista em vídeo que viralizou no Brasil. A escritora aparece em casa, sentada ao lado de uma fogueira, e revela como ficou sabendo que havia sido agraciada: "Estava aqui preparando a minha verdura e, de repente, alguém me liga. Eu nem sequer me lembrava que existia o Prêmio Camões. Estava muito tranquila na minha vida camponesa. Então recebo a notícia. Só sei dizer que a verdura que normalmente faço, com aquele gosto, aquele requinte, porque sou eu mesma quem vai comer, acabou queimada", disse, revelando o que deixou queimar: "Folhas de abóbora com amendoim para comer com xima, uma papa de farinha de milho engrossada".


O vídeo revela o jeito de ser da escritora, uma das primeiras mulheres de Moçambique a publicar um romance. Vem dessa maneira de olhar para o mundo uma obra vasta e complexa que não se refere apenas à vida e aos costumes daquele país, mas revela muito mais quando nos aproximamos do universo das mulheres retratadas nos livros: o lugar do feminino na construção de um outro mundo.

 

Paulina nasceu na cidade de Manjacaze, na Província de Gaza, em 4 de junho de 1955. Ela cresceu nos subúrbios da capital, Maputo, e graduou-se em linguística na Universidade Eduardo Mondlane. Na juventude, participou da Frente de Libertação de Moçambique. Atuou na Cruz Vermelha Internacional durante a guerra civil do país, entre 1977 e 1992. Após o fim do conflito, trabalhou no Núcleo das Associações Femininas da Zambézia. Atua como consultora e projetos de ajuda internacional, com foco em conflitos e defesa dos direitos das mulheres.

 

Paulina estreou na literatura há 31 anos, com o romance "Balada de amor ao vento". No entanto, prefere ser chamada de contadora de histórias em vez de escritora. Costuma dizer que as suas histórias vêm do imaginário coletivo do seu país. Confira, a seguir, uma entrevista exclusiva com a autora.

 

No vídeo que viralizou no Brasil, você diz que gosta de ficar ao lado da fogueira, mesmo quando o clima está quente.


É verdade. É uma mania de infância. Venho do campo e nós cozinhávamos com a lenha. Nós ficávamos preparando a refeição. Hoje, já sou mais crescidinha e estou a regressar ao tempo de infância: claro que tenho o carvão disponível, fogão a gás, mas, agora, apetece-me comer com lenha, com aquele fumo. A fogueira acesa tem uma magia que me atrai. Mesmo que faça calor de 40 graus, não fico sem a minha fogueira.

 

Por que prefere ser chamada de contadora de histórias e não de romancista?

Sou de Manjacaze, sou chope (povo do Sul de Moçambique), aqueles que são autores de um dos maiores patrimônios da humanidade, a timbila (instrumento de percussão reconhecido pela Unesco como patrimônio mundial). Venho desse grupo, de uma terra de tantos guerreiros, pioneiros na luta contra os portugueses, na luta pela libertação. Gosto muito da cultura chope, da cultura banto, e gosto muito da cultura portuguesa.

Mas o que é o romance para quem vem de uma cultura banto? A minha língua portuguesa é produto dessas duas misturas. Se eu aceitasse ser romancista, aqueles especialistas do romance, no estilo europeu, eles iriam colocar a autoridade deles sobre a minha vida. Eu disse não. O que eu escrevo é parecido com o português, é parecido com o romance, tem muita proximidade. Mas, por favor, me deixa escrever como eu quero. Não sou romancista. Conto histórias.

 

No livro "As andorinhas", você conta a história do imperador chope. Fico imaginando que nós, aqui no Brasil, nós negros, ficamos sempre buscando nossa origem africana. Tivemos uma interrupção com o processo de escravização. No caso de vocês, em Moçambique, apesar do colonialismo, parece-me não ter havido esse corte com a ancestralidade. Queria que você falasse de sua perspectiva se, de fato, não há esse corte, embora haja todo esse processo de colonização...

Não é fácil dar uma resposta a essa pergunta, mas o que posso dizer é que houve corte, sim, não numa dimensão semelhante à vossa, mas houve. Nos tempos modernos, os africanos, os moçambicanos, que tiveram acesso a grandes formações na Europa, na América, no considerado Primeiro Mundo, alguns deles são os primeiros a negar-se a si mesmos. O projeto colonial fez trabalho muito poderoso de lavagem cerebral.

Uma prova disso é o tipo de coisas que eu escrevo, falo de todas as coisas, aquilo que diz respeito ao meu povo e já encontrei pessoas muito importantes a dizer 'por favor, Paulina, não escreva isso, tu estás a escrever coisas tradicionalistas. A literatura da Paulina não é boa, porque fala de coisas tradicionais'. Houve, sim, uma ruptura, até determinado nível. O que posso dizer é que esse prêmio pode vir a resolver alguns problemas, a afirmação de alguns moçambicanos pode começar a surgir. Os meus livros são essa mistura, minhas histórias, do centro, do Norte e do Sul, trazem a nossa visão de mundo, os nossos sonhos, nossas frustrações, nós como africanos, como moçambicanos, como negros.

Acredito que os novos escritores ou aqueles que já escrevem vão começar a perceber que os livros da Paulina se tornaram interessantes porque levam dentro de si a alma de seu povo. Esse prêmio é extremamente importante por causa disso. As minhas histórias, nas aldeias mais recolhidas desse país, serão conhecidas em todo o mundo. 

 

O livro "Niketche," embora trate da questão das mulheres moçambicanas, aborda um tema universal: as relações afetivas e amorosas que nós, mulheres, temos em todos os lugares. Rami é uma mulher que tem uma relação muito forte com Tony, com clareza da situação: o marido tem outras famílias, que essa prática, na verdade, não ocorre somente com ela, quando ela conta que as mulheres ficam ali sozinhas e o marido dela é o único que, esporadicamente, aparece por lá ainda. Ela vive o conflito de conseguir se ver a partir desse amor e entender todos os males que traz para ela e outras mulheres. Pelo menos na minha leitura, não é uma questão tradicionalista, mas uma questão contemporânea. O que a motivou escrever sobre a poligamia?

Não sei. Vou contar como tudo começou. Estava na Zambézia, vivia lá, trabalhava lá, estava sentada na varanda, à tardinha, e, de repente, vejo duas mulheres que pareciam embriagadas, vinham gritando, falando e foram parar na casa que estava à frente do meu prédio e de lá começaram a gritar. De lá saiu uma senhora, a dona da casa, com bebezinho às costas. As duas embriagadas disseram: 'Viemos informar-te que tu não és a única mulher dele. Quando tu estavas grávida foi conosco que ele se realizava'.

Juntou-se um número de pessoas para ver aquela querela. Peguei o telefone e liguei ao marido: é meu vizinho, eu o conheço. 'Regresse, urgentemente, porque a sua casa está a ser assaltada.' 'A minha casa está a ser assaltada?' 'Sim. Venha!' Ele estava bem perto, correu quando percebeu que se tratava de uma confusão. Deu um passo na retaguarda e desapareceu. Então, nós, vizinhos, fomos socorrer aquela mulher, que tinha um bebê pequeno, e ela foi apanhada por loucas e embriagadas. Começou assim.  Passado um tempo, vi-me a escrever os palavrões das duas mulheres embriagadas.

Nos primeiros capítulos, há mulheres que brigam, que rebolam na rua, mais ou menos o que eu vi. Escrevi as duas primeiras páginas, achei interessante e continuei. O editor português (José Zeferino Coelho, da Caminho) me perguntava: 'Então, Paulina, quando terei o próximo livro?'. Eu dizia: 'Calma que já tenho o grosso da história, estou editando, preciso de um tempo para fazer a limpeza, eu escrevi o livro para mim'. Ele pediu para eu enviar o que tinha, eu fiz isso.  Passados três meses, ele me liga e diz: 'Paulina, tens que vir lançar o livro em Portugal.' Eu falei não, que não podia ser daquele jeito. Ele disse: 'O livro está fantástico.



O que tu queres mudar?'. Primeiro, a forma como falo da sexualidade não é moralmente aceitável, não é politicamente correto. Precisava fazer algumas mexidas. Ele afirmou: 'Tenha calma, não se aborreça, vamos experimentar para ver o que dá.' O livro saiu e eu temia porque a gente fala de sexualidade, mas não em público. Foi um best-seller em Portugal. A ousadia trouxe essa novidade para os leitores. Eu confesso que se o doutor Zeferino não tivesse feito isso, eu poderia até ter mutilado as partes mais belas do livro em nome de uma moral social, em nome de uma política, mas foi uma surpresa muito agradável. 

 

Pode explicar o título do livro? 

Niketche é uma dança do Norte e centro do país. O nosso país tem a tradição muito forte desse tipo de iniciação, os rapazes e as meninas também. É uma dança muito bonita, muito erótica.

 

Queria que você falasse sobre a mulher negra como escritora. A sua história e o fato de esse prêmio de reconhecimento desse lugar que ocupa não só na cultura de Moçambique, que é muito importante, mas para a cultura de países de língua portuguesa. Você é referência para todos os países de língua portuguesa e para todas as mulheres que querem fazer essa produção simbólica.

No meu entendimento, a arte é feminina. Uma criança acaba de nascer, é um bebê no colo de sua mãe e toda mulher que é mãe dedica uma canção de embalar, um poema para seu filho ou sua filha. Aquele processo de embalar a criança com aquela sonoridade, com aquela cantiga, com aquele poema, com aquela pequena composição que a mãe sabe que vai embalar o seu filho, esse é o primeiro momento da socialização da criança pela arte.

Depois é o momento de o menino e a menina crescerem. Temos a fogueira no entardecer, primeiro espaço de intimidade, onde toda a família se junta, e quem é que conta histórias? Normalmente, a avó, porque está mais perto, o pai foi trabalhar, vai dormir mais cedo, porque está cansado e essa tarefa de socialização das crianças é muito feminina. Temos os grandes cerimoniais da comunidade, casamentos, funerais, festas... quem faz o brilho de uma festa é a mulher. Então, no contexto africano, temos uma mulher absolutamente artista, mas quando surge o mundo moderno, as escolas, a primeira escolha para mandar alguém é o homem. Depois, pronto, o homem vai produzindo arte. Quando chega à altura de produzir um livro, gravar uma música ou entrar no estúdio, quem tem mais facilidade é o homem, porque teve acesso à melhor educação, com muito mais proximidade com o mundo moderno.

Aí a tradição da oralidade é relegada a segundo plano. É complexo, mas precisamos resgatar. A mim, quem me contou histórias foi a minha avó, o meu avô tinha migrado para as minas da África do Sul ou ficava a trabalhar na capital. O mundo moderno que tanto se celebra como detentor da magia para todas as situações é este mundo moderno que retira o lado mais belo, o lugar mais sagrado de uma mulher na sua comunidade. Eu posso estar ofendendo alguém a dizer isso, há quem ache que o mundo moderno é a solução de tudo. Nós, que vivemos na cidade, achamos que somos mais importantes do que as mulheres do campo.



Não é verdade: a mulher da cidade é escrava, mulher do campo é livre, vou explicar o porquê. A mulher da cidade acorda de manhã, pois sai a trabalhar, volta para casa a correr para cozinhar, depois recebe o salário para comprar mais disso e aquilo, o que dá um pouco mais de folga para o homem poder comprar mais cervejinha com outras mulheres lá fora. A mulher do campo, ela sabe, o trabalho está muito bem dividido: casa, faz a sua comida ao entardecer, não faz trabalho duplo. A divisão sexual do trabalho é muito bem definida, a mulher do campo não corre de um lugar para outro. A mulher do campo tem melhor controle da família do que a mulher da cidade.

Parece um bocado confuso esse ponto de vista, mas a mulher do campo é mais livre, tem mais tempo de humanidade, mais tempo de socialização, enquanto a mulher da cidade é quase prisioneira dos modelos sociais – tenho que fazer isso, tenho que fazer aquilo. Ela tem que fazer um milhão de coisas e dar folga aos homens – essa é a parte de que eu não gosto – para poderem beber mais cerveja. Não! Não!

 

Você gosta da sua vida de camponesa, de preparar a verdura, preparar a comida...

Eu gosto. Dá-me alegria regressar à infância, reviver aquele mundo de liberdade.

 

Em uma live recente, Conceição Evaristo defendeu a importância de reconhecer Carolina Maria de Jesus como escritora e que os textos dela não falavam apenas de carência material, do que faltava, mas de questões filosóficas.

Eu mesma acabei recusando os rótulos que a sociedade, por vezes, coloca sobre as pessoas. Pergunto-me, várias vezes, o que é escrever. Alguns leitores meus diziam que eu escrevia mal. Mas o que é escrever? Que importância tem a escrita quando escrevemos, o que é que escrevemos e para quem escrevemos; essas são algumas questões com que me deparo.

Carolina Maria de Jesus escreveu uma coisa tão profunda que vinha da alma, portanto, ela com a sua capacidade de escrita transmitiu sonhos e pensamentos através das gerações. Ela escreve de uma forma que me move e me emociona. Carolina Maria de Jesus é uma mulher sublime, muito acima de muitas daquelas pessoas, homens e mulheres, que se julgam escritores porque amontoaram palavras e fizeram um bom volume para não dizer nada.

 

Na estante

Obras de Paulina Chiziane

 

Capa do livro 'Niketche %u2013 Uma história de poligamia'
(foto: Reprodução)

"Niketche – Uma 

história de poligamia"

Companhia de Bolso

R$ 23,69

296 páginas

 

"O alegre canto da Perdiz"

Dublinense

336 páginas

R$ 69,90

 

"Balada de amor ao vento"

Editorial Caminho

176 páginas

Fora de catálogo

 

Capa do livro 'O sétimo juramento'
(foto: Reprodução)

"O sétimo juramento"

Editorial Caminho

288 páginas

R$ 520

 

"Tenta!"

Nandyala

120 páginas

R$ 29,90

"As andorinhas"

Nandyala

96 páginas

R$ 36



Sobre o Prêmio Camões

O Prêmio Camões é a mais importante condecoração literária mundial de língua portuguesa. Foi instituído pelos governos de Portugal e do Brasil em 1988, com o objetivo de consagrar autores de língua portuguesa que, pelo conjunto da obra, tenham engrandecido o patrimônio literário lusófono. Contempla autores da Comunidade de Língua Portuguesa.

 

Entre os brasileiros, receberam a láurea Chico Buarque (2019), Raduan Nassar (2016), Alberto da Costa e Silva (2014), Dalton Trevisan (2012), Ferreira Gullar (2010),  João Ubaldo Ribeiro (2008), Lygia Fagundes Telles (2005), Rubem Fonseca (2003), Autran Dourado (2000), Antonio Candido de Melo e Sousa (1998), Jorge Amado (1994), Rachel de Queiroz (1993) e João Cabral de Melo Neto (1990). Paulina foi a primeira mulher africana a receber a premiação. O conterrâneo Mia Couto foi homenageado em 2013. Em 1995, o agraciado foi o português José Saramago. A escolha de Paulina ocorreu por unanimidade e destacou "a vasta produção e recepção crítica, bem como o reconhecimento acadêmico e institucional da sua obra".  


ESTADO DE MINAS


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domingo, 31 de outubro de 2021

Francesca Scorsese / “Senti um grande alívio ao saber que não consegui meu primeiro papel pelo sobrenome”

 

Francesca Scorsese
Foto de PAOLA KUDACKI

Francesca Scorsese: “Senti um grande alívio ao saber que não consegui meu primeiro papel pelo sobrenome”


A filha de Martin Scorsese triunfa em ‘We are who we are’ como intérprete, mas sua verdadeira ambição é ser diretora. Por trás de um sobrenome tão intimidador, esconde-se uma jovem que atua com a mesma naturalidade com que abre a porta para Leonardo DiCaprio



Beatriz García
17 Abr 2021


É meio-dia em Nova York e Francesca Scorsese (21 anos) conversa animadamente pelo Zoom sobre sua vida, que define como “muito normal”, e seus primeiros projetos como atriz e diretora. “Minha infância também foi como a de qualquer outra criança, mas com muitas babás. Com meu pai sempre rodando fora e minha mãe sofrendo de mal de Parkinson, tinha que ser assim”, explica, enquanto brinca com seu cachorro. Francesca é a filha mais nova do diretor de cinema Martin Scorsese e da editora da Random House Helen S. Morris, a quinta mulher do criador de algumas obras-primas como Taxi driver, O aviador e O lobo de Wall Street. Pode ser que essa infância a que se refere tenha sido relativamente comum para os padrões de uma pessoa criada no ecossistema de Hollywood, mas, à medida que a conversa avança, fica claro que para o restante dos mortais a vida de Francesca Scorsese é, no mínimo, extraordinária.


Pergunta. Como era um desses dias normais na casa dos Scorseses quando você era pequena?


Resposta. Como família, todos os sábados assistíamos a um filme antigo juntos. Meu pai sempre quis garantir que eu tivesse uma grande cultura cinematográfica. Escolhia esses filmes com muito carinho, levando em consideração minha idade ou as coisas que eu estava experimentando na vida. Claro, começamos com Fantasia e Cinderela, mas logo entramos em Hitchcock e ele sempre escolhia algum título histórico relacionado ao que eu estava estudando na escola. O cinema sempre esteve presente na nossa casa, em nosso universo, e eu achava normal conhecer as estrelas, mas também houve vezes em que disse: “Nossa, que incrível.” Principalmente quando as meninas da minha turma me imploravam para que as apresentasse a este ou aquele ator.

P. Sua lista de histórias com grandes estrelas de Hollywood deve ser infinita...

R. Lembro-me de que quando criança eu era muito tímida. Leo DiCaprio sempre queria brincar comigo quando vinha em casa e eu o odiava porque não queria ser o centro das atenções, por isso, eu me escondia debaixo da mesa. Adoro o Leo, é uma pessoa maravilhosa, mas quando eu tinha quatro anos não queria que ninguém me desse beijos e abraços, nem mesmo o Leonardo DiCaprio.

P. Pelo que fiquei sabendo, Robert de Niro é seu padrinho.

R. Sim, é ele. É uma pessoa muito querida. Quando recebi o roteiro do meu último trabalho, ele me disse que queria lê-lo antes de eu aceitar. Então nos encontramos, só nós, e tivemos uma longa conversa sobre o tema. Foi muito especial. Ele é meu mentor. Queria ter certeza de que eu sabia o que tinha pela frente. Seu conselho é muito valioso para mim porque muitas vezes há coisas sobre as quais você não quer falar com seu pai.

A atriz veste capa de seda preta (2.680 euros, 17.900 reais), colar de corrente e couro (c. p.v.) e cinto (1.820 euros, 12.200 reais), tudo da Chanel; camiseta básica preta e jeans, ambos vintage, e tênis esportivo de Alexander McQueen (580 euros, 3.880 reais).
A atriz veste capa de seda preta (2.680 euros, 17.900 reais), colar de corrente e couro (c. p.v.) e cinto (1.820 euros, 12.200 reais), tudo da Chanel; camiseta básica preta e jeans, ambos vintage, e tênis esportivo de Alexander McQueen (580 euros, 3.880 reais).PAOLA KUDACKI / ESTILISMO: ANDREW MUKAMAL


[Quando fala de seu último trabalho, Francesca Scorsese se refere a seu papel na série da HBO We are who we are, sob as ordens do diretor italiano Luca Guadagnino (Me chame pelo seu nome). Nela, Francesca dá vida a Britney, uma adolescente —que mora em uma base militar norte-americana na Itália— e que, com o resto de sua turma, vivencia os primeiros capítulos do despertar sexual, se entrega às festas de sua vida e navega pelos primeiros anos da juventude com a sensação de estar perdida, mas ao mesmo tempo sabendo bem o que não quer. Uma viagem em que o espectador inevitavelmente também retorna à sua adolescência. Um projeto filmado pouco antes da pandemia e que ela conseguiu conciliar com seus estudos na Academia de Cinema de Nova York].

P. Quando se deu conta de que queria se dedicar ao cinema?

R. Não me lembro de um momento específico. Cresci em sets de gravação e acho que inevitavelmente estava claro que eu me dedicaria a isso. Não sou uma pessoa muito brilhante em matemática ou ciência. Sempre tive um perfil mais artístico. Agora estou muito focada em atuar, mas ao mesmo tempo muito tocada pelos projetos que também tenho atrás das câmeras. Aos poucos verei aonde minha carreira me leva.

P. Como foi trabalhar com Luca Guadagnino em seu primeiro grande papel como atriz?

R. Foi interessante ver como ele trabalhava com um grupo de garotos jovens e inexperientes. Ele nos deu muita liberdade e muita improvisação, e acabou fazendo parte da galera, uma espécie de espírito divertido ao nosso redor para que tudo fluísse.

P. É verdade que Guadagnino não sabia o seu sobrenome quando te escalou para o papel?

R. Sim, pelo menos foi o que ele me disse. A princípio, ficava triste pensar que o único motivo pelo qual tinha conseguido o trabalho fosse o meu sobrenome. Mas Luca me contou que não fazia ideia de que eu era filha de Martin Scorsese. Aparentemente, ele me escolheu e mais tarde perguntou à equipe o meu nome e sobrenome, e disse: ‘Epa, mas ela tem algum parentesco com Scorsese?’. Senti um grande alívio quando me falou isso.

A série trata da transexualidade com muita naturalidade. É surpreendente como tudo é simples na ficção e como o debate tem sido complicado na sociedade e no plano político.

Acho que se uma pessoa se sente infeliz por ter nascido em um corpo que não lhe corresponde, deve fazer todo o possível para mudá-lo. Acontece com esse tema que muitos adultos cresceram em um mundo completamente diferente, onde isso não era normalizado. Respeito muito os adultos que se educam e mudam de opinião. Eu fiz isso em muitas coisas. É algo muito saudável. É fácil para minha geração entender porque crescemos em uma época de grandes mudanças e com mentes abertas. Mas algumas pessoas mais velhas, infelizmente, não captam tão facilmente.

P. O personagem Britney é uma garota muito segura de si mesma e de seu corpo. Você compartilha alguma dessas qualidades dela?

R. Esta é uma pergunta muito complicada. Claro que adoro os corpos naturais de todos os tamanhos e acredito na diversidade 100%. Mas eu sofro enfrentando meus próprios complexos. Todas essas inseguranças ficam ainda maiores quando recebo muita atenção, por exemplo, com a promoção da série. Acho que no final estamos todos cheios de inseguranças. Algo que tenho feito ultimamente para aumentar minha autoestima é limpar meu Instagram e meu Tik Tok para seguir pessoas que não se encaixam no físico padrão perfeito de uma modelo. Acho que está contribuindo muito para minha segurança.

Francesca veste blazer de lã, top branco de rede com bordados de bijuteria (670 euros, 4.500 reais) e colar (240 euros, 1.600 reais), tudo da Armani.
Francesca veste blazer de lã, top branco de rede com bordados de bijuteria (670 euros, 4.500 reais) e colar (240 euros, 1.600 reais), tudo da Armani.PAOLA KUDACKI / EL PAÍS
P. Fraser, um dos protagonistas da série, é fã de moda. É algo que te interessa também?

R. Não, de modo algum. Nunca fui uma pessoa de estilo. Você sempre vai me encontrar com uma camiseta larga, calça confortável e tênis. Toda a paixão que não coloco na moda, uso para maquiagem e cuidados com a pele. Aí, sim, ponho muita energia e carinho.

[Embora Francesca Scorsese queira trilhar seu próprio caminho à margem do sucesso de seu pai, ela não faz nenhum esforço para esconder que é muito próxima dos pais e que ambos são o farol de sua vida. Em suas redes sociais, marcadas pela naturalidade, fala sobre seus sentimentos e lhes professa carinho e admiração em partes iguais. De fato, os três são muito unidos e estão preparando um projeto sobre o qual ainda não pode falar, mas que será uma “experiência muito gratificante para a família”]

P. Em sua conta no Instagram, você fala abertamente sobre como é difícil conviver com a doença de sua mãe e como vocês são próximas.

R. O que mais me parte o coração é que ela é uma mulher incrível com uma mente absolutamente privilegiada. Seu Parkinson é a coisa mais horrível que já me aconteceu. Durante muito tempo me perguntei por que coisas tão ruins acontecem a pessoas boas. Me entristece muito ver vídeos do passado e vê-la tão ativa, tão viva, tão intensa ... Gostaria de ter sabido o quão cruel esta doença ia ser para que pudesse ter desfrutado dela ainda mais quando ainda estava bem. Não dar como certo que você pode ouvir sua mãe dizer que te ama porque chegará um dia em que você não poderá. Acho que nunca vou conhecer alguém que admiro mais do que ela.

P. Fran Lebowitz é outra de suas referências…

R. Ela é tão engraçada, rio muito com ela ... O que realmente me inspira nela é que não liga de modo algum para o que as outras pessoas pensam. Eu adoraria ter essa confiança em mim mesma. Costumamos passar a virada de ano juntas na casa dos meus pais, assistimos a um filme antigo, e o comentamos, Fran faz piadas muito engraçadas, vemos a bola da Times Square baixar e bebemos champanhe. É a alma de nossas festas.

P. Além de todos os projetos que tem como atriz e diretora [que evita especificar com o argumento de que está “em plena negociação”], também dá uma mão a seu pai, como community manager.

R. Vejo que não é mais segredo (risos). Demorei um pouco para convencê-lo a entrar no Instagram e mostrar seu lado mais desconhecido. As pessoas têm uma ideia dele como uma celebridade com muito dinheiro, com o glamour de Hollywood, mas ninguém realmente via o outro lado de Martin Scorsese: o homem que tem sua mulher doente com mal de Parkinson, o ser humano que adora os cachorros, esse homem que chora e se preocupa com seus entes queridos. Ele é uma estrela, claro, mas também é uma pessoa muito divertida e cheia de amor pela família e pelos amigos. Achei que seria muito bonito que mostrasse isso ao mundo.