domingo, 20 de setembro de 2015

Christopher Hitchens / "O dia em que minha voz falhou"


Christopher Hitchens

 "O dia em que minha voz falhou"


Com a ajuda de morfina e adrenalina, ainda conseguia “projetar” com sucesso minhas falas, até que fiz uma tentativa de chamar um táxi na frente de casa – e nada aconteceu



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Como tantas das experiências da vida, a novidade do diagnóstico de um câncer maligno tende a se dissipar. As coisas começam a ficar tediosas, até mesmo banais. É possível se acostumar ao espectro da morte como um velho entediado e letal, espreitando no corredor no final da noite, esperando uma oportunidade de me abordar. E não me oponho a ele segurar meu casaco daquele modo formal, como que me lembrando que é hora de seguir caminho. Não, é o risinho abafado que me deprime.
Christopher Hitchens
 (1949-2011) foi um jornalista britânico. Colaborador da revista Vanity Fair, do site Slate e colunista de ÉPOCA, consagrou-se como um dos maiores polemistas de seu tempo. Este texto faz parte do livro Últimas palavras (Globo Livros), em que o autor narra sua luta contra um câncer no esôfago
Com demasiada regularidade, a doença me serve um atrativo especial do dia, ou um sabor do mês. Podem ser feridas e úlceras aleatórias, na língua ou na boca. Por que não um toque de neuropatia periférica envolvendo pés dormentes e frios? A existência diária se torna uma coisa de bebê, medida não nas colheres de café do Prufrock de T.S. Elliot, mas em pequenas doses de alimento, acompanhadas de barulhos encorajadores dos espectadores ou de discussões solenes e em tom maternal com estranhos sobre as operações do sistema digestivo. Nos dias menos bons, me sinto como aquele leitão de perna de pau da família sadicamente sentimental, que só consegue comê-lo um pedaço de cada vez. Com a diferença de que o câncer não é tão... atencioso.

O mais desalentador e alarmante, até agora, foi o momento em que minha voz de repente se transformou num agudo guincho infantil (ou talvez suíno). Ela, então, começou a variar bastante, de um sussurro rouco e rascante até um balido frágil e melancólico. Em certos momentos ameaçava, e agora ameaça todos os dias, desaparecer completamente. Eu tinha acabado de voltar de duas palestras na Califórnia, onde, com a ajuda de morfina e adrenalina, ainda conseguira “projetar” com sucesso minhas falas, até que fiz uma tentativa de chamar um táxi na frente de casa – e nada aconteceu. Fiquei de pé, paralisado, como um gato bobo que, de repente, perdeu seu miado. Eu costumava ser capaz de deter um táxi nova-iorquino a trinta passos de distância. Conseguia também, sem microfone, alcançar a última fila e a galeria de uma lotada sala de conferências. Pode não ser algo de que se vangloriar, mas as pessoas me diziam que, mesmo na sala ao lado, com o rádio ou o televisor ligados, elas sempre conseguiam identificar meu tom e saber que eu estava “no ar”.
LUTA Christopher Hitchens  em fevereiro de  2011, dez meses  antes de morrer.  Mesmo sob efeito  da quimioterapia,  ele continuou  a escrever enquanto enfrentava o câncer  (Foto: Brooks Kraft/Corbis)
Como a própria saúde, tal perda não pode ser imaginada até que acontece. Assim como todo mundo, brinquei de versões do jogo juvenil “o que você preferiria?”, no qual normalmente se debatia se o mais opressivo seria a cegueira ou a surdez. Não me lembro de ter especulado muito sobre de repente ficar mudo. A privação da capacidade de falar é mais como um ataque de impotência, ou a amputação de parte da personalidade. Em grande medida, em público e em particular, eu “era” minha voz. Todos os rituais e a etiqueta da conversa – desde pigarrear nos preparativos para contar uma piada longa e exigente até (nos dias de juven-tude) tentar tornar minhas propostas mais persuasivas, enquanto eu estrategicamente baixava o tom em uma oitava de constrangimento – eram inatos e essenciais para mim. Nunca fui capaz de cantar, mas podia recitar poesia e citar prosa, e algumas vezes era até mesmo convidado a fazê-lo. Timing é tudo na fala: há o momento preciso para arrematar uma história, para enfatizar um verso, para produzir riso ou para ridicularizar um oponente. Eu vivia para momentos assim. Agora, quando quero entrar numa conversa, tenho de chamar a atenção de outra forma, e suportar o fato terrível de que as pessoas então me escutarão “com compaixão”. Pelo menos, elas não precisam emprestar sua atenção por muito tempo: não consigo mantê-la e, de qualquer forma, não aguentaria fazê lo.



Quando você fica doente, as pessoas lhe dão CDs. Pela minha experiência, com frequência são de Leonard Cohen. Recentemente aprendi uma canção, intitulada “If it be your will”. É um pouquinho piegas, mas belamente interpretada. Começa assim: “If it be your will/that I speak no more/and my voice be still/as it was before...” (Se for seu desejo/que eu não fale mais/e minha voz ainda seja/como foi antes...). Acho melhor não ouvir isso tarde da noite. Leonard Cohen é inimaginável sem, e indissociável de, sua voz. (Duvido que quisesse, ou suportasse, ouvir essa canção com qualquer outro intérprete.) Digo a mim mesmo que, de certa forma, conseguiria me arrastar, me comunicando apenas por escrito. Mas só por causa de minha idade. Caso tivesse sido privado de minha voz antes, duvido que teria conseguido progredir no papel. Tenho uma enorme dívida para com Simon Hoggart, do Guardian, que, há trinta e cinco anos, me advertiu que um artigo meu era bem concebido mas tedioso – e me aconselhou rispidamente a escrever “mais do modo como você fala”. Na época, fiquei quase sem palavras com a acusação de ser tedioso. Jamais agradeci adequadamente.
Leonard Cohen (Foto: divulgação)
Mais tarde, ao dar minhas aulas de redação, começava dizendo que qualquer um capaz de falar também pode escrever. Depois de animar a turma com essa escada fácil, então a substituía por uma enorme cobra odiosa: “Quantas pessoas nesta turma vocês diriam que sabem falar? Quero dizer, falar de verdade?”. Tinha um efeito deprimente. Eu dizia a eles para ler seus textos em voz alta, preferencialmente para um amigo de confiança. As regras são quase as mesmas: fuja das frases feitas (como da peste, costumava dizer William Safire) e das repetições. Não diga que “quando garoto, sua avó costumava ler para você”, a não ser que, naquele estágio da vida, ela realmente tivesse sido um garoto, circunstância que, de qualquer forma, provavelmente exigiria de você uma introdução melhor. Se algo merece ser escutado, muito provavelmente merece ser lido. Então, descubra sua própria voz.
O cumprimento mais prazeroso que um leitor pode me fazer é dizer que sente que me dirijo a ele. Pense em seus autores preferidos e veja se essa não é uma das coisas que o cativam, sem que você tenha percebido. Uma boa conversa é o único equivalente humano: é quando você percebe que observações decentes são feitas e compreendidas, que há ironia envolvida, e elaboração, que um comentário tedioso ou óbvio seria quase fisicamente doloroso. Foi como a filosofia evoluiu nos simpósios, antes de ser escrita. A poesia começou com a voz como único instrumento de execução, e o ouvido, de registro. Não conheço nenhum escritor realmente bom que fosse surdo. Henry James e Joseph Conrad ditaram seus romances tardios, e Saul Bellow ditou muito de Humboldt’s Gift. Sem nossa correspondente compreensão do idioleto – a marca no modo como alguém fala e, portanto, escreve –, seríamos privados de um mundo de simpatia humana e de seus prazeres em tom menor de imitação e paródias.


De modo mais solene: “Tudo o que tenho é uma voz”, escreveu W.H. Auden em “September 1, 1939”, sua tentativa agoniada de compreender o – e se opor ao – triunfo do mal radical. “Quem pode alcançar o surdo?”, perguntou ele, desesperadamente. “Quem pode falar pelo mudo?” Mais ou menos na mesma época, a judia alemã Nelly Sachs, futura ganhadora do Nobel, descobriu que o surgimento de Hitler a deixara literalmente sem fala: roubara dela sua voz pela total negação de todos os valores. Nosso próprio idioma cotidiano preserva a ideia, embora amenizada: quando uma figura pública morre, os obituários com frequência dizem que ela foi “uma voz” para os não ouvidos.
Da garganta humana também podem emergir terríveis venenos: pranto, monotonia, queixumes, gritos, incitação (“o lixo militante mais vazio”, como Auden definiu no mesmo poema) e mesmo risinhos abafados. É a chance de erguer pequenas vozes serenas contra essa torrente de falatório e ruído, as vozes de perspicácia e contenção. Todas as melhores lembranças de sabedoria e amizade, da Apologia de Sócrates, por Platão, ao Life of Johnson, de James Boswell, vibram com os momentos não ditos, não programados, de interrelação, razão e especulação. É em embates como esse, competindo e se comparando a outros, que se pode esperar descobrir o fugidio e mágico mot juste, a palavra certa. Para mim, lembrar amizade é lembrar conversas que parecia um pecado interromper, aquelas que transformavam o sacrifício do dia seguinte em algo banal. Foi o modo pelo qual Calímaco escolheu lembrar seu amado Heráclito: “Eles me contaram, Heráclito; eles me contaram que você estava morto. Eles me levaram notícias amargas de ouvir, e lágrimas amargas a derramar. Chorei quando lembrei com que frequência você e eu havíamos cansado o sol conversando”. Ele sustenta a imortalidade do amigo na doçura de seus tons: “Ainda estão tuas vozes agradáveis, teus rouxinóis despertos; pois a Morte leva tudo, mas elas, não pode levar.” Talvez meio exaltado demais no verso final...


Na literatura médica, a corda vocal é uma mera “prega”, um pedaço de cartilagem que se esforça para se esticar e tocar sua gêmea, criando efeitos sonoros. Mas sinto que tem de haver uma relação profunda com a palavra “corda”: a vibração ressoante que pode despertar lembranças, produzir música, evocar amor, gerar lágrimas, conduzir multidões à piedade e turbas à paixão. Podemos não ser, como costumávamos nos vangloriar, os únicos animais capazes de falar. Mas somos os únicos que podem usar a comunicação verbal por prazer e diversão, combinando isso com razão e humor para produzir sínteses mais elevadas. Perder essa habilidade é ser privado de uma gama de capacidades: certamente é morrer mais que um pouco.
Meu maior consolo neste ano vivendo moribundo tem sido a presença de amigos. Já não consigo comer ou beber por prazer, então, quando eles se oferecem para vir, é só pela abençoada oportunidade de conversar. Alguns desses camaradas podem facilmente encher um auditório de pagantes ávidos para ouvi-los. São falantes com quem é um privilégio simplesmente estar. Agora eu, pelo menos, posso escutar de graça. Eles podem vir e me ver? Sim, mas só eles falam, eu escuto. Então, agora, todo dia vou para uma sala de espera e vejo as notícias terríveis sobre o Japão na TV a cabo (frequentemente em closed caption, apenas para me torturar), e espero impaciente que uma grande dose de prótons seja disparada para dentro do meu corpo a dois terços da velocidade da luz. O que espero? Se não uma cura, uma remissão. E o que quero de volta? Na mais bela composição de duas das palavras mais simples do idioma, freedom of speech*.
* Liberdade de expressão (literalmente, liberdade de fala)



sábado, 19 de setembro de 2015

Christopher Hitchens / A vida na "Tumorlândia"



Christopher Hitchens

A vida na “Tumorlândia”


O grande polemista Christopher Hitchens conta, com a inteligência e a ironia que marcaram a sua obra, como é a vida no mundo novo e muito peculiar no qual são lançadas as pessoas a partir do diagnóstico de um câncer

Por ELIANE BRUM

Eliane Brum, jornalista, escritora e documentarista (Foto: ÉPOCA)


Li o último (e aqui o último tem um sentido maior) livro do britânico Christopher Hitchens durante um voo de Porto Alegre para São Paulo, na semana passada. Quando acabou, a experiência da leitura tinha dado ao voo curto uma extensão inusitada. Sentada na janela, esperando os outros passageiros desembarcarem, eu me sentia de luto por alguém que nunca vi. Como disse Graydon Carter, editor da Vanity Fair, revista americana na qual Hitchens travou alguns de seus mais ardorosos embates, a capacidade de produzir a certeza de que ele escrevia diretamente para cada um de nós era um de seus trunfos. Em seus artigos, Hitchens ofertava-se por inteiro, com o ímpeto desassombrado e feroz que provocou amores e ódios, fez amigos e inimigos. Sempre parecendo estar muito satisfeito pela chance de enveredar por alguma polêmica cabeluda, ao atacar personagens tão diversos quanto Henry Kissinger e Madre Tereza de Calcutá. Tão destemido para escrever quanto era para beber e fumar. Não é diferente neste Últimas palavras (Globo), livro no qual Hitchens espeta seu olhar afiado na convivência com o câncer que acabaria por matá-lo, aos 62 anos, em 15 de dezembro de 2011. Ao desembarcar do avião e do livro, descobri que estava dolorida. Não apenas pelo que ele tinha vivido, não apenas porque ele tinha morrido, mas por uma razão bem egoísta: já não haveria textos de Christopher Hitchens para ler. 
Provocar essa sensação no leitor ao final de um livro no qual narra o fim da própria vida mostra o enorme poder de Christopher Hitchens como escritor. O mais provável, neste tema, seria evocar pena, compaixão e lágrimas. Ou, no caso de seus numerosos opositores, uma sensação de vingança saciada pelo sofrimento ao qual foi submetido – seguido pela morte da qual não pôde escapar. 
Hitchens, porém, não permite nem piedade, nem vingança. Ele termina sua vida por escrito com uma inteligência e uma honestidade intelectual tão luminosas que só conseguimos lamentar nossa orfandade de suas letras. Em suas últimas palavras, ele consegue escrever sobre si mesmo com o olhar agudo de quem escreve olhando para um outro – mas sem apartar-se de si. Olha de fora e de dentro – ao mesmo tempo.
Há quem possa se chocar quando ele trata o câncer, talvez a palavra mais intoxicada de sentidos do nosso tempo, com tanta sem-cerimônia. Mas não é desrespeito pela dor, nem a sua nem a do outro. Pelo contrário. Vale a pena perceber o quanto é importante que alguém possa olhar para o câncer que o consome também com ironia, até mesmo com humor – não porque é uma experiência menor, mas justamente porque é grande. E poucos seriam capazes dessa ousadia além de Christopher Hitchens.
Nos 19 meses entre o diagnóstico de câncer no esôfago e a sua morte, muitas foram as apostas sobre quantos dias ou semanas ele demoraria antes de capitular e sucumbir à religião – ele, que foi um dos mais dedicados defensores do ateísmo. Contra todos os prognósticos, Hitchens morreu sem perder a coerência. Como ele mesmo diz, diante da expectativa explícita de seus adversários: “Imaginar que eu descarte os princípios que sustentei por toda a vida na esperança de conseguir favores no último minuto? Espero e confio que nenhuma pessoa séria ficaria impressionada com tal escolha barata. O deus que iria recompensar covardia e desonestidade e punir dúvida irreconciliável está entre os muitos deuses em que não acredito”.
Até o fim, um tipo de cristão – mais comum do que todos nós, religiosos e não religiosos, gostaríamos – atacou-o com ódio. Como nesta “contribuição” pinçada por Hitchens na internet, entre tantas: “Quem mais acha que Christopher Hitchens ter câncer de garganta terminal (sic) foi a vingança de Deus por ele usar sua voz para blasfemá-lo? Ateus gostam de ignorar FATOS. Gostam de agir como se tudo fosse uma ‘coincidência’. Verdade? É apenas ‘coincidência’ (que) de todas as partes do seu corpo Christopher Hitchens tenha conseguido um câncer na única parte de seu corpo que usou para blasfemar? Tá, continuem acreditando nisso, ateus. Ele vai se contorcer de agonia e dor e se reduzir a nada, e depois ter uma horrível morte agonizante, e ENTÃO vem a parte realmente divertida, quando ele é mandado para sempre para o FOGO DO INFERNO, para ser torturado e queimado”.
Hitchens escuta e responde mesmo a estas demonstrações de ódio – para além de qualquer mágoa que pudesse sentir por um outro ser humano desejar-lhe tanta dor pelo simples fato de não compartilhar de suas crenças. Como fará durante todo o livro, ele desnuda cada argumento. A começar por esclarecer o crente vingativo de que blasfemou também com outras partes do seu corpo, não atingidas pelo câncer. Entre várias observações, aponta: “Por que não lançar um raio sobre mim, ou algo similarmente assombroso? A divindade vingativa tem um arsenal tristemente pobre se a única coisa em que consegue pensar é exatamente o câncer que minha idade e ‘estilo de vida’ sugeriam que eu pudesse ter”. 
Se Hitchens tivesse abdicado de suas convicções no percurso do morrer, nenhum de nós deveria julgá-lo. Do mesmo modo que jamais devemos julgar alguém que tenha delatado seus companheiros durante uma sessão de tortura. A tortura e a doença letal têm causas e implicações diversas, mas compartilham de uma premissa: são dois momentos cuja dimensão e intensidade só são alcançadas por quem os experimenta – e ninguém pode garantir qual será o seu comportamento antes de ter vivido um ou outro. Podemos apenas desejar manter-nos fiéis aos nossos princípios, mas garantir jamais. 
Fico contente, porém, que Hitchens tenha conseguido viver até o fim com tudo o que era. Sua coerência deu vigor a suas últimas palavras. E por causa dela ele tornou-se capaz de escrever sobre a vida no que chamou de “Tumorlândia” – como nomeou o mundo novo e muito peculiar no qual são lançadas as pessoas que descobrem um câncer. Importa menos concordar ou discordar de suas ideias – e importa mais a lucidez com que ele tratou o momento possivelmente mais difícil da vida de um homem. Suas últimas palavras constituem um ensaio valioso sobre o morrer – de câncer, no Ocidente, no início do século 21. 
Selecionei aqui algumas de suas observações mais provocativas, para nos ajudar a pensar sobre como lidamos com a doença e a morte:

1 - Manual de etiqueta do câncer
Numa sessão de autógrafos, Hitchens foi abordado por uma mulher com “estilo maternal”. Ela multiplicou o tempo de espera de quem estava atrás na fila ao lhe contar uma história escabrosa, arrematada por um “entendo exatamente o que você está passando”. A partir do episódio, Hitchens começou a pensar na conveniência de um pequeno “Manual de Etiqueta do Câncer”. A obra seria destinada “aos doentes e também aos simpatizantes”.

Hitchens explica: “Meu manual teria de impor deveres a mim, bem como àqueles que falam demais, ou de menos, na tentativa de disfarçar o inevitável constrangimento nas relações diplomáticas entre Tumorlândia e seus vizinhos”. Ele gostaria de lembrar às pessoas, em geral, que não circulava por aí com um enorme broche de lapela no qual estava escrito: “PERGUNTE-ME SOBRE CÂNCER DE ESÔFAGO EM METÁSTASE NO QUARTO ESTÁGIO E APENAS SOBRE ISSO”.  
No manual, as pessoas seriam orientadas a contar sua história com mais parcimônia, tenha ela um final triste ou feliz, e a permanecer atentas à possibilidade de a plateia não estar interessada. Na posição de “doente de câncer”, ele também se compromete a não desfiar a série de misérias cotidianas que passaram a fazer parte da sua vida diante de um corriqueiro “como vai?”. A melhor resposta para esta pergunta tão educada quanto banal não seria discorrer longamente sobre o funcionamento bipolar do seu intestino. Para conhecidos e estranhos, ele sugere: “Ainda é cedo para saber”. Para a equipe médica: “Pareço ter um câncer hoje”. 
Hitchens também sugere aos muito, muito íntimos, que não se precipitem na abordagem da morte, dizendo coisas como esta: “Imagino que chegue uma hora em que você precisa considerar que tem de partir”. Ao escutar isso de alguém, ele ficou chocado. Estava pensando nisso, sabia disso, mas preferia ser ele a dizer, e não um outro, por mais próximo que fosse. A estas pessoas, ele diz: “Eu me preocupo em encarar os fatos difíceis, obrigado”.  
2 - Se conselho fosse bom...
Ao ser assolado por todo tipo de conselho bem-intencionado, Hitchens lembrou de um ensaio no qual a crítica de cinema Pauline Kael descreveu Hollywood como “um lugar onde se pode morrer de encorajamento”. E completa: “Na cidade do tumor você às vezes sente que poderia expirar apenas por conselhos”. 
Hitchens foi aconselhado, entre outras coisas, a ingerir essência granulada de caroço de pêssego (“ou seria damasco?”), tomar grandes doses de testosterona, abrir seus chacras para adotar um “estado mental receptivo”, adotar dietas macrobióticas e vegetarianas, congelar-se por criogenia.
Com a ironia habitual, ele apreciou apenas o conselho de uma amiga cheyenne-arapaho, que rabiscou num bilhete algo assim: “Todos os meus conhecidos que apelaram para remédios tribais morreram quase que instantaneamente. Se te oferecerem qualquer remédio nativo americano, mova-se o mais rápido possível na direção oposta”.  
3 - Ah, os eufemismos...
Hitchens aponta a tendência da medicina moderna de usar eufemismos ao lidar com pessoas com câncer, dando destaque para a palavra “desconforto”: “Como estamos indo hoje? Algumdesconforto?”. Diz ainda que “uma avenida de eufemismos” foi aberta pela abordagem empresarial: “Já se encontrou com nossa equipe de ‘gestão da dor’?”.
Sobre os eufemismos, ele afirma: “Assim que você ouve isso da forma errada, pode parecer um eco da prática do torturador de mostrar à vítima os instrumentos que serão usados nela, ou descrever a gama de técnicas e deixar que essas ameaças façam a maior parte do trabalho. (Galileu Galilei teria sido exposto a isso enquanto passava pela pressão gradual que acabou convencendo-o a se retratar)”.
Como jornalista, Hitchens submetera-se à tortura do waterboarding (“afogamento simulado”). No pós-11 de Setembro, comprovou-se que a CIA estava usando esse “método de interrogatório” em suspeitos de terrorismo. Diante da reação chocada de parte dos americanos, o governo de George W. Bush convocou especialistas para afirmar que não se tratava de tortura. Ao assumir a presidência, Barack Obama baniu o “procedimento”.
Durante a controvérsia, Hitchens foi afogado em segredo por membros das Forças Especiais, nas montanhas da Carolina do Norte, por vontade própria. Ele queria provar aos leitores da Vanity Fair que não era uma simulação, mas afogamento de fato. A experiência de ser torturado lhe deixou sequelas e, sempre que aspirava algum tipo de umidade, corria o risco de um ataque de pânico. Ao longo do tratamento do câncer, mostrou-se difícil para ele receber alimentação líquida através de um tubo, ou mesmo ser banhado.
Em seu livro, ele diz: “Há práticas médicas e hospitalares cotidianas banais que lembram às pessoas da tortura praticada pelo Estado. (... ) Mesmo a ideia de algumas aplicações malfeitas de água ou gás, com a intenção de hidratar e nebulizar, para combater problemas respiratórios, são mais do que suficientes para me deixar gravemente doente”.
4 - O Cristo crucificado pode não ser uma visão tranquilizadora
A exibição de crucifixos na parede dos quartos de hospital tem sua desaprovação, com base no que chama de “associações sadomasoquistas pregressas”. Hitchens lembra que os condenados nas guerras religiosas e na Inquisição eram submetidos à visão compulsória da cruz até a morte. “Em algumas das pinturas fervorosas dos grandes autos de fé, não excluindo, acho, alguns dos queimados vivos pintados por Goya na Plaza Mayor, vemos a chama e a fumaça se erguendo perto da vítima, e a própria cruz suspensa sinistramente diante de seus olhos fechados.”
5 - “O que não me mata (NÃO) me fortalece”
Hitchens discorda da frase famosa, atribuída ao filósofo alemão Friedrich Nietzsche. Na sua experiência com o câncer, descobriu que aquilo que não o mata o enfraquece – e a fraqueza em geral é cumulativa e tem um final previsível. A partir dessa constatação, ele passou a refletir sobre a obstinação terapêutica dos médicos ou o que tem sido chamado aqui de “tratamentos fúteis”. E faz observações muito interessantes sobre este, que é um dos dilemas contemporâneos: se o avanço tecnológico assegurou vários benefícios à saúde e ampliou as possibilidades da medicina, teve como efeito colateral o prolongamento doloroso e inútil da vida.  
Entre os exemplos trazidos por ele, há a extraordinária história do filósofo Sidney Hook, que morreu em 1989, mas gostaria de ter morrido antes. Depois de um angiograma ter provocado nele um derrame, numa experiência extremamente dolorosa, ele descobriu-se “na meca médica de Stanford, na Califórnia” e às voltas com o seguinte paradoxo: tinha à disposição um nível de cuidados sem precedentes na história e, ao mesmo tempo, era exposto a um grau de sofrimento que as gerações anteriores poderiam não ser capazes de suportar. 
O filósofo pediu ao médico que suspendesse os mecanismos de sustentação da vida, com base em três argumentos: outro derrame doloroso poderia atingi-lo, obrigando-o a sofrer tudo de novo; sua família estava sendo obrigada a passar por uma experiência infernal; recursos estavam sendo investidos à toa. O médico recusou sua reivindicação, usando a seguinte frase: “Algum dia você perceberá a falta de sentido do seu pedido”. O filósofo cunhou então uma expressão poderosa para explicitar a situação a que a medicina condenava pessoas como ele: viver em “túmulos de colchão”.  
Hitchens descobriu que algumas pessoas tinham não mais o desejo de morrer com dignidade, mas o desejo de já ter morrido.
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Estas são algumas das observações feitas por Christopher Hitchens sobre viver com câncer. Progressivamente, escrever foi se tornando uma conquista arrancada com muita dificuldade dos dias e das dores. A certa altura, ele viu sua poderosa voz, com a qual travou debates inesquecíveis, ir minguando, calada à força pelo tumor. Descobriu então – e este é um dos momentos mais belos do livro – que não tinha uma voz, era uma voz. Assim como não possuía um corpo, era um corpo. Do mesmo modo que não somente escrevia, mas era palavra escrita. “Escrever não é a apenas a minha forma de vida e de ganhar a vida, mas minha própria vida. (...) Sinto minha personalidade e minha identidade se dissolvendo enquanto contemplo mãos mortas e a perda das correias de transmissão que me ligam à escrita e ao pensamento.”
Christopher Hitchens morreu sendo por inteiro, mesmo que literalmente estivesse aos pedaços. A prova é que, como último ato de vida, ele escolheu pensar sobre a morte. 
Eliane Brum escreve às segundas-feiras.










Vargas Llosa / Menino morto na praia





Menino morto na praia

É bom que os países mais ricos e livres do mundo tomem consciência da encruzilhada moral representada pelas migrações maciças e espontâneas. Mas uma solução real e duradoura depende dos países de origem


19 SEP 2015

A fotografia de Aylan Kurdi, um menino sírio de três anos de idade morto em uma praia da Turquia quando sua família tentava emigrar para a Europa, comoveu o mundo inteiro. E serviu para que vários países europeus –nem todos, registre-se– aumentassem a sua cota de refugiados e para que a opinião pública internacional tomasse consciência da dimensão do problema representado pelas centenas de milhares, talvez alguns milhões, de famílias que buscam fugir da África e do Oriente Médio em direção ao mundo ocidental, onde acreditam que encontrarão trabalho, segurança e, em suma, a vida digna e decente que seus países não podem lhes oferecer.
Aylan Kurdi 
Foto de Nilufer Demir 

É bom que haja, agora, nos países mais ricos e livres do mundo, uma consciência ampla da encruzilhada moral representada pelo problema dessas migrações maciças e espontâneas, mas seria necessário que, por mais positivo que seja o esforço realizado pelos países avançados para receber mais refugiados em seu território, estes não se iludissem achando que, com isso, o problema estará solucionado. Nada mais falso. Mesmo que os países ocidentais adotassem a política de fronteiras abertas que os liberais radicais defendem –defendemos–, jamais haveria neles infraestrutura e trabalho suficientes para todos os que quisessem escapar da miséria e da violência que assolam algumas regiões do mundo. O problema está nelas, e só nelas mesmas é que se poderá encontrar uma solução real e duradoura. Lamentavelmente, tal como se apresentam as coisas na África e no Oriente Médio, isso ainda levará algum tempo. Mas os países desenvolvidos poderiam abreviar o processo se orientassem os seus esforços nessa direção, sem se deixar desviar por paliativos momentâneos de eficácia duvidosa.
A raiz do problema está na pobreza e na insegurança terríveis em que vive a maioria das populações africanas e do Oriente Médio, seja por responsabilidade de regimes despóticos, ineptos e corruptos, seja pelos fanatismos religiosos e políticos –por exemplo, o Estado Islâmico ou a Al Qaeda—gerados por guerras como as da Síria e do Iêmen, seja pelo terrorismo que acaba com vidas humanas diariamente, destrói moradias e submete milhões de pessoas a uma situação de pânico, desemprego e fome, como ocorre no Iraque, um país que vem se desintegrando lentamente. Não se trata de países pobres, pois, hoje em dia, qualquer país, mesmo sendo carente em termos de recursos naturais, pode prosperar, como demonstram os casos extraordinários de Hong Kong e Cingapura, mas sim de países empobrecidos pela cobiça suicida de pequenas elites dominantes que exploram com cinismo e brutalidade essas massas populacionais que antes se resignavam à sua sorte.
Isso já não é mais assim, graças à globalização e, sobretudo, à grande revolução das comunicações, que abre os olhos dos mais desvalidos e marginalizados para aquilo que acontece no restante do planeta. Essas multidões exploradas e sem esperança sabem agora que em outras regiões do mundo existe paz, coexistência pacífica, níveis de qualidade de vida elevados, seguridade social, liberdade, legalidade, oportunidades de trabalho e de progresso. E, com toda razão, dispõem-se a fazer todos os sacrifícios, inclusive o de arriscar a vida, para tentar chegar a esses países. Essa emigração jamais será contida à base de muros ou cercas de arame farpado, como as que foram ingenuamente erguidas ou se pretendem erguer na Hungria e em outras nações. Ela passará por baixo ou por cima destes e sempre encontrará máfias que facilitem a passagem, mesmo que estas às vezes enganem os migrantes e os levem não ao paraíso, e sim à morte, como no caso dos 71 infelizes que morreram semanas atrás asfixiados em um caminhão frigorífico nas estradas da Áustria.




A emigração jamais será contida à base de muros como os da Hungria

A capacidade de um país desenvolvido de receber refugiados possui um limite que não se deve ultrapassar, pois isso pode se tornar contraproducente e, em vez de resolver um problema, gerar outro, qual seja, reforçar movimentos xenófobos e racistas, como a Frente Nacional na França. Isso está ocorrendo inclusive em países mais avançados, como a Suécia, onde uma recente pesquisa de opinião aponta um partido anti-imigrantes como o mais popular. Não há nenhuma dúvida de que a imigração é algo indispensável para os países desenvolvidos, os quais, sem ela, não conseguiriam jamais manter no futuro os seus elevados níveis de qualidade de vida. Mas, para ser eficaz, essa imigração precisa ser organizada e orientada a partir de uma política comum inteligente e realista, como a que propõe a chanceler Angela Merkel, a qual, nesse caso, merece ser parabenizada pela lucidez e energia com que tem enfrentado o problema.
Na verdade, porém, este só poderá ser resolvido ali onde nasceu, ou seja, na África e no Oriente Médio. E isso não é impossível. Há duas regiões do mundo que antes eram, como essas agora, grandes geradoras de emigrações clandestinas para o Ocidente: boa parte da Ásia e a América Latina. Essa corrente migratória se reduziu visivelmente nas duas áreas à medida que a democracia e políticas econômicas sensatas abriam caminho, que Estados de Direito substituíam ditaduras, e suas economias começavam a crescer e a criar novas oportunidades e trabalho para a população local.
A maneira mais efetiva com a qual o Ocidente pode contribuir para diminuir a imigração ilegal é colaborando com aqueles que, nos países africanos e no Oriente Médio, lutam para acabar com as satrapias que os governam e instituir regimes representativos, democráticos e modernos, que criem condições favoráveis ao investimento e atraiam os capitais (bastante fartos) que circulam pelo mundo buscando lugares para fincar raízes.




Essas massas que vêm a Europa rendem, sem o saber, uma homenagem à cultura da liberdade

Quando eu era estudante universitário, lembro de ter lido, no Peru, uma pesquisa que me fez entender por que milhões de famílias indígenas migravam do campo para a cidade. Questionava-se que tipo de atração poderia ser exercida sobre elas a ponto de levá-las a deixar aquelas aldeias andinas tão glorificadas pelo indigenismo literário e artístico para viver na promiscuidade insalubre das favelas marginalizadas de Lima. A resposta era clara: por mais triste e imunda que a vida fosse nessas favelas, aqueles camponeses viviam ali melhor do que no campo, onde o isolamento, a pobreza e a insegurança pareciam inescapáveis. A cidade, ao menos, lhes oferecia uma esperança.
Qual pessoa, sofrendo a ditadura assassina de um Robert Mugabe no Zimbábue ou o inferno das bombas e do machismo patológico dos talibãs do Afeganistão, ou o horror cotidiano que eu mesmo presenciei no Congo, não tentaria fugir dali, atravessando florestas, montanhas, mares, expondo-se a todos os perigos, para chegar a um lugar onde pelo menos seja possível alguma esperança? Essas massas que afluem à Europa, denotando um heroísmo extraordinário, prestam, na maioria dos casos sem saber, uma grande homenagem à cultura da liberdade, dos direitos humanos e da coexistência na diversidade, que tem trazido desenvolvimento e prosperidade ao Ocidente. Quando essa cultura se expandir também –como já começou a acontecer na América Latina e na Ásia— para a África e o Oriente Médio, o problema da imigração clandestina acabará aos poucos se diluindo, até atingir níveis controláveis.
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