segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Dark Sky / Manto de estrelas a cobrir Monsaraz

 

Monsaraz, Portugal, o céu perto do Convento da Orada. Fotografia Miguel Claro, 2014


Dark Sky

Manto de estrelas a cobrir Monsaraz

Maria Antónia Jardim
18 AGOSTO 2014

Agosto é o mês da Festa das Estrelas, a Sky Party no Alqueva, Monsaraz; enfim, de um Alentejo místico junto ao Convento da Orada, do Cromeleque do Xerez, onde megatelescópios são instalados para que você possa observar os seus parentes mais próximos: as estrelas.

Quem diz estrelas, diz constelações, diz lua, diz cometas…todos os convidados celestes do país da noite que Sophia de Mello Breyner celebrou no Rapaz de Bronze.


Juromenha, Portugal, a Via Láctea. Fotografia Miguel Claro, 2012


Mas, para além da Party de Agosto, quem fica alojado naquelas paragens pode usufruir desta experiência única de observar este maravilhoso céu nocturno do Alqueva, contactando com Tiago Kalisvaart, que é não só o capitão do barco holandês que parte do Centro Náutico de Monsaraz para uma viagem de uma ou duas horas nas águas verdes do Guadiana e lhe explica o enamoramento das cegonhas, mas que é também o sócio gerente do restaurante e galeria de Arte Sem Fim e Guia dessa maravilhosa viagem na companhia das estrelas, que ocorre na Casa Saramago, também no Telheiro, aldeia situada no sopé do Castelo de Monsaraz.

Mourão, Portugal, a Via Láctea no Monte Faperras. Fotografia Miguel Claro, 2013

Os quatro elementos casam-se na perfeição nesta terra alentejana onde o coelho bravo ainda brinca e o cavalo branco é rei.

Monsaraz é uma terra Templária, é uma terra que alberga frescos fantásticos, cujas personagens são identificadas com juízes corruptos (o juíz bom e o juíz mau convivem no mesmo rosto, com um desdobramento pessoano moderno) no antigo Tribunal de Monsaraz; é uma terra de largadas de touros insólitas em que a morte do mesmo é colectiva e portanto, o apontar do dedo não tem lugar!



Fonte da Telha, Portugal, chuva de estrelas. Fotografia Miguel Claro, 2011


Fonte da Telha, Portugal, observando a lua e o planeta Vénus. Fotografia Miguel Claro, 2011


Monsaraz possui o feitiço da Moura, que outrora ali viveu e deixou lendas vivas numa Horta encantada com sabores e perfumes da terra.

Eu estive lá e provei dos licores afrodisíacos, do vinho aveludado e dos figos que pude colher directamente da figueira. Beijei com os olhos o terreno pôr-do-sol; as cabeleiras verdes das oliveiras, abracei romanzeiras e cheirei o alecrim. Celebrei com a emoção o divino céu onde vivem as estrelas diamante como Vega.


Ilha de São Miguel, Açores, a Via Láctea. Fotografia Miguel Claro, 2014

Um bem haja à organização do Dark Sky Alqueva e à Câmara Municipal de Reguengos de Monsaraz pelo seu alinhamento cósmico, numa época em que as gentes do poder estão mais interessadas em olhar para o chão do que olhar para o céu!

WSI



sábado, 7 de agosto de 2021

Sophia de Mello Breyner Andresen / A sacralidade dos espaços e as viagens fantásticas de Alice e Isabel

 

Sophia de Mello Breyner Andresen


Sophia de Mello Breyner Andresen

A sacralidade dos espaços e as viagens fantásticas de Alice e Isabel

Maria Antónia Jardim
11 JULHO 2014

“O Nosso Mundo situa-se sempre no Centro” ‒ Mircea Eliade, O sagrado e o profano, 1959

Segundo Mircea Eliade, na sua obra O Sagrado e o profano, o homem religioso manifesta o desejo de viver o mais perto possível do centro do Mundo, o que teria como primeira consequência o desejo de situar a sua própria casa no Centro, para a poder identificar com uma imago mundi.

Assim, o Centro será justamente o lugar que se irá tornar sagrado: tanto que, segundo este autor, a profunda nostalgia do homem religioso é de habitar um “mundo divini” e desejar que a sua casa seja idêntica à “Casa dos Deuses”. Tal atitude manifesta uma consciência desiderante (a que Sophia de Mello Breyner, nos seus contos, não é alheia) e uma necessidade de reproduzir indefinidamente os gestos exemplares. Todavia, este desejo de imitatio dei, de no fundo tentar fazer triunfar o Homem dentro do homem, um dos princípios da paideia, aplica-se quer à Isabela, a heroína de A Floresta (um conto de Sophia em que a autora vai privilegiar espaços simbólicos como o jardim e a floresta), quer à Alice do País das Maravilhas de Lewis Carroll. Isabel vai abrir-se de encontro a seres que vivem na Natureza e vai assim despertar a sua experiência individual transformando-a numa compreensão metafísica do mundo. Uma meta-realidade para o leitor. Alice aprende a desaprender. É testemunha e cúmplice do absurdo, do insólito, da surpresa e do inesperado que nos batem à porta todos os dias, no nosso quotidiano. Faz uma adaptação a novas situações e resolve os dilemas fazendo adaptações aos contextos, por mais estapafúrdicos que sejam.

Ambas as heroínas viajam em círculo. Para além das características do espaço remeterem para uma circularidade, também os percursos que os heróis iniciam são circulares, na medida em que partem de um espaço e a ele regressam. A viagem é, assim, um símbolo iniciático através do qual se tem acesso a um maior conhecimento que permitirá iluminar a consciência que o regresso pressupõe. Desta experiência emerge o Ver, o Pensar, a Memória e a Viagem como propulsores de conhecimento. Não nos esqueçamos de que as Maravilhas estão dentro de nós, o jardim e a floresta crescem connosco.

Segundo Nelson Goodman, não encontramos no mundo senão aquilo que lá tivermos posto, sendo que uma das formas mais elementares de construirmos o mundo se situa ao nível da percepção visual. Logo, a conclusão segundo este autor é que não só o movimento mas também a identidade são construções e não dados. Então, a percepção faz os seus factos: consequentemente, as ficções não poderão distinguir-se dos factos na base do argumento de que umas são “fabricadas” e os outros “descobertos”; uma vez que os factos são construídos tanto quanto as ficções e as ficções podem ser informativas.

Ora, retomando Alice e os conceitos de Goodman, o jardim maravilhoso corresponderá a uma construção de uma “versão-de-mundo”, através do encanto de uma linguagem ecranlizada, onde se aprende a desaprender os medos, os preconceitos e as certezas absolutas.

No fundo, mais uma vez se verifica que todo o texto está ligado a problemas que podemos encontrar noutros textos, embora tratados diferentemente, devido ao seu diferente lugar no interior da sociedade e da história: uma noção que tem que ver com o conceito de semântica de profundidade e com a interpretação enquanto processo psicológico.

Valerá a pena recordar que um dos temas queridos de Sophia, o tema da justiça, é abordado no conto A floresta a propósito do abuso do poder, algo análogo à atitude da Rainha de Copas perante o resto do baralho. Tanto Alice como Isabel tentam inverter as regras do jogo, ajudando terceiros cujas vidas correm risco.

Por último, percebemos com estas heroínas que as coisas extraordinárias e fantásticas também são verdadeiras; que os complementos circunstanciais de lugar influenciam decisivamente a sua acção ‒ o modo de ser e estar-no-mundo do sujeito, o qual por sua vez, e fechando o círculo, se vai metamorfoseando, ganhando outros atributos e modelações, que vão fazer com que outras valências dos mesmos verbos surjam e que outros complementos circunstanciais se acrescentem aos primeiros. Tudo isto leva-nos a reflectir nestas afirmações de Lima de Freitas. Com efeito “o crescimento do lugar (orientação no espaço) e o conhecimento do momento (orientação no tempo) resultam de um único processo complexo de relacionamento, simultaneamente celeste, terrestre e cíclico (…) o lugar onde se está e o momento em que se está são aspectos da mesma realidade e cada lugar como cada momento são, não apenas um todo, mas um todo único”, que procedem de um olhar único. Por conseguinte, o jardim que acontece no interior do jardim (tal como o lindo jardim no País das Maravilhas de Alice), esse espaço terceiro que rompe, é algo de imprevisível, de surpreendente: o que se cria é o que não existe. O virtual instala-se no espaço/tempo e a orientação do sujeito vai no sentido da actualização da memória de um desejo, de uma saudade de futuro, de uma força imaginal criadora de vida, promotora de outros estados de consciência, uma Porta para o núcleo central do eu: o Si Mesmo enquanto Outro.

Sophia está agora nesse espaço/tempo de sacralidade: o Si Mesma enquanto Outra, no Panteão Nacional, nessa morada dos deuses, de interior cupular, exibindo como que uma síntese entre o céu e a terra. Sophia comunga com os deuses e percebemos isso mesmo quando conversamos com a sua obra e assistimos ao sopro de vida que inflige às suas personagens.

Bem hajas Sophia pelas maravilhas que nos deixaste…

WSI


sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Fernando Pessoa / Um coleccionador de Eus

 


Pessoa. Um coleccionador de Eus

Porquê coleccionar?

MARIA ANTÓNIA JARDIM
11 MAIO 2014

Ao longo da vida encontramos pessoas que perseguem objectos que reúnem determinadas características relacionadas com os seus interesses pessoais. São objectos que possuem memória afectiva. São símbolos e por isso mesmo adquirem uma enorme importância para quem os colecciona.

Em cada objecto de uma colecção, o coleccionador encontra uma característica, uma peculiaridade, algo distinto e único que se torna ainda mais valioso porque extraído da grande figura de estilo da Vida: a Comparação!

Passamos a nossa vida a comparar coisas e pessoas.

Pessoa, esse Poeta Plural, preferiu incorporar vários tipos de pessoas dentro de si; tornando-se um grande coleccionador de “Eus”, de personalidades humanas, distintas umas das outras e isso fez dele um grande psicólogo com vários chapéus!!! Ele conseguiu pôr-se no lugar dos outros, experimentou os seus desassossegos, as suas paixões, as suas pequenas mortes…

E fez algo que é considerado o exercício básico de toda a Psicologia: o role playing.

Outros há que preferem colecionar pessoas, relações e entrarem num desfile social da moda do casa e descasa!

E ainda há aqueles que preferem andar em busca perpétua daquela peça, daquele objecto, daquele príncipe ou princesa, quais alpinistas insatisfeitos á procura da Terra do Nunca!

Seja como for, a Vida é simbólica e nela tudo é símbolo, como afirmou Pessoa. Logo, não é de estranhar a paixão dos humanos pelas colecções. É tudo uma questão de perspectiva. Os coleccionadores fazem Zoom, afunilam o olhar e detêm-se na presa a conquistar, especializam-se numa determinada caça com os seus olhos de lince!

Pessoa, também ele fez Zoom e se especializou na dupla função dos símbolos: revelar e esconder. Revelou vários “Eus”; toda uma pluralidade de rostos e escondeu-se por detrás de cada um deles, como se por detrás de cada biografia se encontrasse um biombo!

Assim é a Vida: feita de biombos e biografias, de símbolos, colecções e escolhas que constroem e destroem a nossa identidade, a cada passo…

Por isso, o grande lema do conhecimento poderia ser este: “Para conhecer é preciso ler dentro das coisas”!


WSI


terça-feira, 3 de agosto de 2021

Ao Encontro de Mr. Banks / Biblioterapia e Cineterapia num só filme

 


Ao Encontro de Mr. Banks

Biblioterapia e Cineterapia num só filme

MARIA ANTÓNIA JARDIM
11 ABRIL 2014

Ao Encontro de Mr. Banks conta, não uma, não duas mas três histórias. A primeira narra o que esteve por detrás da produção do filme da Disney, Mary Poppins, e que teve a ver com uma promessa de Walt Disney às suas filhas. A segunda e fulcral narrativa deste filme é a verdadeira biografia de P.L. Travers, a autora de Mary Poppins; a terceira e não menos importante é contar visualmente ao espectador a catarse feita pela escritora dos seus próprios conflitos, traumas, dramas de infância, incluindo as suas relações de vinculação especial com o seu pai.

Ao mesmo tempo, assistimos ao desenvolvimento pessoal e ao processo harmónico e equilibrado que vai resultando dessa consciência em P.L. Travers (fantasticamente interpretada por Emma Thompson). Tudo isto se processa através da personagem interpretada por Tom Hanks, Walt Disney, que, cinematograficamente possibilita um desenvolvimento continuum de resolução de conflitos, plasmando assim no écran aquilo a que Paul Ricoeur chamava a pré-estrutura narrativa da própria vida. A heroína vai resolvendo os conflitos inscritos no seu livro, ainda reféns da dor e do luto, aqui resolvidos através da cineterapia, do filme que está a ser produzido e constantemente re-avaliado e re-interpretado.

Assim sendo, neste caso, biblioterapia e cineterapia andam de mãos dadas e Mary Poppins é um caso ilustrativo de biblioterapia enquanto processo terapêutico.

Ao ler e reler a obra de P.L. Travers, Walt Disney vai identificando os seus próprios problemas e avaliando a sua própria vida, resolvendo algumas questões do seu passado manejando esse espelho retrovisor. Enquanto Pamela, através da produção cinematográfica do seu livro, pôde igualmente curar e salvar a sua relação com o pai e com a sua tia Ellie.

Somos contadores de histórias e seja com a palavra, seja com a imagem, o ser humano exprime as suas contradições, desejos, medos…Arte é linguagem!

Aqui, duas Artes cruzam-se na tela deste maravilhoso filme e apoiam-se uma á outra, permitindo ao espectador/leitor ganhar consciência da hetero-ajuda que um livro ou um filme podem oferecer.

WSI





domingo, 1 de agosto de 2021

Biblioterapia / A função terapêutica da literatura

 


Biblioterapia

A função terapêutica da literatura

MARIA ANTÓNIA JARDIM
14 JULHO 2021

Biblioterapia é um termo derivado das palavras latinas para livros e tratamento. Biblio é a raiz etimológica de palavras usadas para designar todo tipo de material bibliográfico ou de leitura, e terapia significa cura ou restabelecimento. A Biblioterapia é vista como um processo interativo, resultando em uma integração bem sucedida de valores e acções. O conceito de leitura empregado neste meaning making process é amplo e inclui todo tipo de material, inclusive os não convencionais.

O uso da leitura com objetivo terapêutico é antigo e muitos registros atestam essa utilização. No antigo Egipto, o Faraó Rammsés II mandou no frontispício de sua biblioteca Remédios para a alma (Alves, 1982), e as bibliotecas egípcias ficavam localizadas em templos denominados de “casas de vida” como locais de conhecimento e espiritualidade (Montet, 1989).

Tesouro dos remédios da alma era a inscrição que havia na biblioteca da Abadia de São Gall, durante a Idade Média (Alves, 1982). Também os gregos fizeram associação de livros como forma de tratamento médico e espiritual, ao conceberem suas bibliotecas como “a medicina da alma” (Marcinko, 1989). O Hospital Al Mansur, em 1272, recomendava leitura de trechos escolhidos do Alcorão como parte do tratamento médico (Marcinko, 1989).

Como é possível perceber, muita gente, em épocas diferentes, já tinha percebido o valor da leitura como um agente de transformação.

A função terapêutica da leitura admite a possibilidade de a literatura proporcionar a pacificação das emoções. Remontando a Aristóteles, observa-se que o filósofo analisa a liberação da emoção resultante da tragédia – a catarse. O acto de excitamento das emoções de piedade e medo proporcionaria alívio e prazer.

A leitura do texto literário, portanto, opera no leitor e no ouvinte o efeito de placidez, e a literatura possui a virtude de ser sedativa e curativa. A relação entre psique humana e literatura não é nova. Foi, inicialmente, alicerçada pelas emblemáticas observações psicanalíticas de Freud sobre a escrita como arte poética desde os gregos até alguns de seus representantes modernos como Shakespeare e Dostoiewski. Posteriormente, recebeu uma análise de Jung, que viu em Goethe, Spitteler, Nietzche, Blake e Dante personalidades criativas e transformadoras do mundo. Enfatizada, também, pela linhagem marxista com Vygostky na psicologia infantil ou com a actividade de Sartre entre a literatura e a filosofia existencial, essa relação foi se confirmando em todo o século XX.

De uma perspectiva narrativa, nós somos histórias, biografias e segundo MacIntyre (1981, p.213), autor com o qual Paul Ricoeur debate o conceito de identidade narrativa, seremos apenas co- autores das nossas próprias narrativas e por conseguinte somos de certeza co-autores das histórias dos nossos contemporâneos.

Roland Barthes (1966) é de opinião que a história da narrativa começa com a história da humanidade, as guerras entre os homens são guerras de linguagem, a conquista do poder e do território começa com a palavra; o que leva a perguntarmo-nos se a utilização das abordagens hermenêuticas poderá ajudar as pessoas e seus respectivos dilemas, no seu quotidiano? Segundo Rorty (1989) e Peavy (1991) a imaginação é a nossa ferramenta para engendrar metáforas, para dizermos as nossas histórias e assim redescrevermos quem somos, qual o nosso contexto e o que se torna significativo para nós, na nossa vida.

As primeiras narrativas eram desenhos, pinturas rupestres, imagens toscas representando um mundo de sobrevivência humana. Mas como olharão os vindouros para os nossos livros encadernados ou para as nossas esculturas?

Note-se que é importante ter em conta que as próprias histórias contêm em si elementos de ordem prospectiva que nos podem ajudar a organizar o nosso futuro e, portanto, a questionar o presente. Daí que o sociólogo David Cooper (1974) proponha que os livros sejam diálogos em que o que se vai passando no livro se torne criação conjunta de todos nós, pois existe um tempo para as mentes, um tempo para abandonar as nossas mentes e um tempo para as recuperar.

Em termos ricoeurianos, poderíamos dizer que há um tempo para nos apropriarmos da “coisa do texto” e um tempo para nos distanciarmos dela para reencontrarmos o nosso próprio sentido das coisas, no nosso contexto, já que escutar-se a si próprio é sempre uma condição prévia para ouvir a mensagem de outrem. Ao lermos ou relermos histórias de vida diferentes da nossa, ainda que animadas por personagens, manifestam-se, em nós, leitores, interrogações, juízos de valor e comparações e perguntas em que o advérbio de comparação surge: Ele faz como eu? Então, em última instância, é a nossa maneira de ver a vida que está em causa. Por isso e como sublinha Ricoeur “a narração nunca é eticamente neutra, mostra-se como o primeiro laboratório do julgamento moral”. Trata-se de uma feliz imagem ricoeuriana, que nos permite perceber que o racional e o sensível se sobrepôem neste processo: o objectivo subjectiviza-se e o subjectivo objectiviza-se, na e pela linguagem.

Deste modo, a arte literária afigura-se, por excelência, como palco laboratorial para experiências de pensamento onde variações imaginativas proliferam. São essas experiências de pensamento, suscitadas pela ficção, com todas as implicações éticas, que contribuem para o exame de si mesmo no quotidiano; assumindo uma função terapêutica.

Deste modo, estética e ética tornam-se indissociáveis na arte de narrar, que é uma arte que corresponde a uma troca de experiências em que a condição humana e os seus dilemas são equacionados. Compreender interpretando e interpretar compreendendo é deixar-se orientar por um horizonte, pelo modo possível de estar no mundo, aberto e descoberto pelo texto para o intérprete. Será tudo isto que confere ao sujeito uma nova capacidade de se compreender a si mesmo, de se reconstruir, de se re-imaginar.

É o encontro de horizontes, o do texto e o do leitor, o verdadeiro fio condutor, pois o sujeito que interpreta o texto, é por sua vez, por ele interpretado. A apropriação ou leitura implicada, modifica o leitor, obriga-o a desapropriar-se de si e a receber do texto uma nova proposta.

Assim sendo, podemos concluir que as histórias ajudarão os leitores a equacionarem os seus dilemas, os seus problemas e perguntas e respostas relativas à sua vida, e por isso poderemos dizer que os sujeitos leitores se tornam objectos e experiência de linguagem.

WSI




sábado, 31 de julho de 2021

Caixinhas de música / A magia sem tempo de tesouros encantados

 


Caixinhas de música

A magia sem tempo de tesouros encantados

Maria Antónia Jardim
11 MARÇO 2014


O nascimento oficial das caixas de música dá-se em 1796, quando o relojoeiro suíço Antoine Favre teve a ideia de integrar este tipo de mecanismo musical dentro dos relógios. Este é o berço da caixinha de música: um relógio musical!

E de facto, se pararmos um pouco para pensar, percebemos que a música está associada ao Tempo da melhor maneira possível: faz dele nosso aliado! Ao ouvirmos música, neste caso uma caixinha de música, seja ela qual for, parece que o Tempo parou e nós humanos, regressamos á nossa infância, ao Tempo em que a nossa Humanidade está mais desperta, mais livre, mais entusiasmada com o mundo e com a vida, porque quer descobrir coisas, tesouros, mistérios! Quer apaixonar-se! De volta ao Cupido, o romance dá lugar ao enlace ao som de All You Need is Love!

Ontem, como Hoje, as caixinhas de música são um motor de arranque para viajarmos no tempo. A magia da música suave e macia, cristalina, aguada, vai deslizando sobre a nossa memória que persiste em ficar lá nos lados do Tempo em que os serões se passavam a contar histórias á lareira, convívio e tertúlia bem regada e sobretudo carinho, mimo e paixão! Hoje o trono do Tempo está situado em cima de tabuadas, contas de multiplicar e subtrair, mágoas e angústias existenciais que fazem do dia a dia um Hipermercado de interesses, vaidades e obrigações recheadas como um Perú, de tabus, preconceitos e medos!

Vamos mudar isto! Um pequeno objecto, mágico, poderá fazer a diferença! Em vez de roupa, dinheiro, jóias, ofereçam caixinhas de música, ofereçam pedaços de alegria musical, de memória feliz, de romance!

A vida é um abrir e fechar de olhos, um breve "Olá" e "Adeus", sempre á procura de tesouros encantados. Onde, onde, onde? No Porto, numa loja de caixinhas mágicas. Símbolos de encantamento, maravilha, espanto.

Meu amor, meu bem, caixinhas de música quem as não tem?

WSI



Project Room / A memória na obra de Manu Menezes

Project Room
Manu Menezes


Project Room

A memória na obra de Manu Menezes

31 JULHO 2021, 

 

Recuerdo (creo) sus manos afiladas de trenzado. Recuerdo cerca de esas manos un mate, con las armas de la Banda Oriental; recuerdo en la ventana de la casa una estera amarilla, con un vago paisaje lacustre. Recuerdo claramente su voz; la voz pausada, resentida y nasal del orillero antiguo, sin los silbidos italianos de ahora (…).

(Jorge Luis Borges)

Em Funes, el Memorioso, Borges conta-nos a história do magnífico e inimitável Ireneo Funes, um jovem que, ao sofrer uma queda que o deixou imobilizado, foi ao mesmo tempo presenteado com uma memória miraculosa. Funes era capaz de se lembrar de cada minuto do dia, “(…) el presente era casi intolerable de tan rico y tan nítido, y también las memorias más antiguas y más triviales.” Aos 19 anos, a sua vida transformou-se num processo de rememoração infinito, passou a habitar as memórias do visível e, num certo sentido, passou a viver de trás para frente. “Pensó que en la hora de la muerte no habría acabado aún de clasificar todos los recuerdos de la niñez”. A memória é um tema que sempre interessou ao escritor argentino – esta capacidade que temos de reviver momentos que já cá não estão, mas que, ao mesmo tempo, podem impedir de vermos o que temos no preciso instante diante de nós. É um paradoxo, que a arte, nas suas diversas modalidades e aceções, tem tentado resolver ao longo dos séculos. Regis Debray afirma que a criação das imagens é fruto do desejo humano de permanecer: sabendo que nossa memória não é infinita, como a de Funes, as imagens existem para nos ajudar a reviver o passado, a torná-lo presente e visitável.



Manu Menezes (em exposição na Associação 289) é uma jovem artista que faz da memória o fio condutor da sua obra. Esse fio não é apenas metafórico, mas é a matéria a que recorre para construir objetos, frutos de suas vivências, das memórias transmitidas por gerações de mulheres, que, antes dela, fizeram do bordado uma ocupação, muitas vezes uma obrigação – uma função feminina de entre as muitas que a mulher foi obrigada a ocupar ao longo dos anos. Enquanto Ulisses navegava em mares bravios e desbravava o desconhecido, Penélope esperava e tecia. A tessitura da vida está também nas mãos de três mulheres, as Moiras ou Parcas, que decidem quando esticar ou cortar o fio que nos sustenta neste mundo. Tecer, bordar e coser são ações associadas ao mundo feminino.






Mesmo na arte, muitas são as mulheres que usaram os fios como ferramenta e matéria para construir discursos plásticos. Também alguns homens, como o artista brasileiro Leonilson, recorreram ao bordado para dar vida ao gesto artístico. No seu caso, bordava palavras e construía novos sentidos, desviando os tecidos e as rendas do lugar mais doméstico e expondo com eles, e através deles, as suas mais íntimas (e por isso universais) feridas. É esta tessitura desvirtuada, feita em croché, que respira na falsa delicadeza das peças de Manu Menezes – objetos desviados da sua função doméstica e convocados como discurso artístico. Cadeiras, molduras, mesas de canto. Lugares de memória e também espaço de ausências. O croché é feito de pontos que se compõem de cheios e de vazios e este vazio é acentuado, pela artista, quando deixa a peça incompleta, com a linha à espera, de algo ou de alguém que componha o retrato, que preencha os vazios, que reconduza o fio ao princípio, onde tudo começou. Uma lata de biscoitos que a avó guardava no armário, que todas as avós guardavam nos armários que habitam as casas dos avós, é recoberta com um naperon, ou uma teia, que uma aranha laboriosa teceu à volta. Um sinal do tempo, uma marca da resistência dos objetos, mesmo os mais inúteis, como essa lata de biscoitos, que se fixam na nossa memória e fazem parte de nós.



Retrato de Família, O vazio que não vi chegar, O espelho das gerações passadas são nomes das obras que, interligadas entre si, compõem um cenário íntimo e acolhedor, mas profundamente nostálgico. Seria a nostalgia, palavra tão pesada quanto bela, possível numa artista tão jovem? É tão possível que uma das obras se chama Talvez lembrar seja pesado demais. Para combater esse peso, Manu Menezes atua com leveza – as peças de croché, ora penduradas, ora encaixadas noutras peças, são ligeiras e aconchegantes. Funcionam como um catalisador de lembranças, contam-nos histórias – e, com as suas histórias insinuadas, a artista pretende que o espectador entre na obra, convocando memórias próprias. É inegável a presença do elemento dialógico que nos remete, invariavelmente, para uma amplificação do conceito criado por Nicolas Bourriaud da estética relacional: a arte só funciona quando habitada e vivenciada.



Entro no universo de Manu Menezes como entrava, nas tardes quentes de Verão, na sala da casa dos avós que só era aberta às visitas. Resguardada por cortinas espessas, portas fechadas e silêncio. Aquela sala que, em criança, ia espreitar enquanto todos dormiam a sesta. Tanto calor, a casa parecia vazia, pé ante pé, andava por ali, sem fazer barulho. E tudo parecia diferente, novo. Outra casa na mesma casa, desabitada àquela hora do dia. Não me comovo com facilidade, mas a obra de Manu Menezes toca-me no lugar mais sensível – o das ausências. Aquele lugar que a só arte é capaz, muitas vezes, de preencher.

WSI





quinta-feira, 29 de julho de 2021

Jack LaMotta / Gallery

 

Vikki y Jake LaMotta


Jake LaMotta

GALERÍA


Jack LaMotta


Robert De Niro y Jack LaMotta


Jack LaMotta y Robert De Niro


Robert De Niro y Jack La Motta

sexta-feira, 23 de julho de 2021

Dylan Penn, a filha rebelde de Sean Penn e Robin Wright, surpreende em Cannes


Sean Penn dirige a filha Dylan no drama 'Flag day'.
Sean Penn dirige a filha Dylan no drama 'Flag day

Dylan Penn, a filha rebelde de Sean Penn e Robin Wright, surpreende em Cannes

Nascida do casamento dos dois atores, ela deixa para trás uma história pessoal conturbada e aos 30 anos brilha na competição de cinema sob a direção do pai. Nasce uma estrela?


Carlos Megía
16 Jul 2021

Existe um trabalho mais complicado em Hollywood do que ser uma estrela de sucesso, milionária e adorada em todo o mundo e não morrer tentando: ser filho da estrela em questão. São numerosos os casos de superfilhos nascidos entre vivas e ostentação, privados de uma infância normal e que depois mergulharam numa espiral autodestrutiva que tingiu de escândalo e vulgaridade seu sobrenome ilustre. Como Chet Hanks, filho de Tom Hanks, acusado de maus-tratos e vinculado a movimentos de extrema direita; Cameron Douglas, filho de Michael Douglas, viciado em drogas e condenado a vários anos de prisão; ou Weston Cage, filho de Nicolas Cage, preso por causar um acidente de trânsito e depois fugir. A anos-luz da gravidade dos fatos recém-mencionados, os episódios vividos por Dylan Penn, filha de Sean Penn e Robin Wright, também não foram de fácil digestão. Mas esta primogênita duplamente ilustre, que por muito tempo parecia destinada a ser a próxima ovelha desgarrada da meca do cinema, de repente surpreendeu e se tornou a próxima grande estrela das colinas de Los Angeles. E com o tapete vermelho de Cannes como catapulta.

Porque o boulevard da Croissette, prolífico berço de estrelas como Jodie Foster ou Robert de Niro, pôs os olhos nesta californiana de 30 anos que, pelas mãos de seu pai, apresenta no festival o papel mais importante de sua recente carreira. Flag day, dirigido e coestrelado por Sean Penn, adapta as memórias da jornalista Jennifer Vogel, filha de um vigarista e assaltante de bancos que conta no livro a complexa reconciliação com seu pai ausente. Sua estreia em Cannes teve uma recepção ambígua entre a crítica que, no entanto, é unânime quando se trata de elogiar o debut da jovem num papel de calibre festivaleiro. “Sua interpretação é fantástica. Revela que pode ser uma grande atriz”, diz a Variety. “Dylan é natural, equilibrada e cativante. Parece uma veterana”, acrescenta The Washington Post. Pete Hammond, do Deadline, acredita que Dylan herdou as habilidades artísticas dos pais. “Ela cumpre as expectativas com um papel multidimensional que a posiciona de forma decisiva como uma estrela em formação”, acrescenta.

A californiana deslumbrou no tapete vermelho do festival francês.

A californiana deslumbrou no tapete vermelho do festival francês.VITTORIO ZUNINO CELOTTO / GETTY IMAGES FOR KERING

Com apenas um punhado de trabalhos no currículo, ela mesma tornou pública sua preocupação de que assumir o papel principal em Flag day fosse visto como um ato descarado de nepotismo. “Aterrorizada” porque as pessoas poderiam pensar que ela conseguiu o papel só porque seu pai era o diretor, a até agora modelo lhe pediu que adiasse o projeto para que antes ela fizesse mais alguns filmes e, assim, sentisse que o estava “conquistando”. No entanto, a imprensa especializada valoriza a química que a dupla exibe na tela e Dylan revela que enriqueceu essa dinâmica com sua própria experiência paternal: “Temos uma relação complexa. Nós dois somos alfa e às vezes colidimos”.

Fotograma de ‘Flag day’, que disputa a Palma de Ouro em Cannes.
Fotograma de ‘Flag day’, que disputa a Palma de Ouro em Cannes.


Imagem de empresas como Ralph Lauren, Gap, Rag & Bone e Stuart Weitzman e espectadora recorrente nas semanas da moda de Paris ou Nova York, há anos argumenta que seu trabalho como modelo era mais uma forma de ganhar a vida do que uma paixão profissional. Depois de trabalhar como editora de roteiro e desenhista de storyboard (criação de roteiros gráficos), seu futuro parecia destinado ser atrás das câmeras e não o de seguir os passos de seus célebres pais. Mas foram eles que a convenceram a dar uma chance à profissão, quando confessou que seu sonho era se sentar na cadeira de diretora. “Os dois me disseram, em separado: você não vai ser uma boa diretora se não souber o que é estar no lugar do ator”, disse ela na entrevista coletiva de apresentação do filme.

Seu rosto apareceu nas capas pela primeira vez em 2013, quando a mídia a apontou como culpada pelo traumático e midiático rompimento traumático entre Kristen Stewart e Robert Pattinson, um relacionamento que ela desmentiu. Pouco depois, Dylan Penn optou por estrelar uma reportagem fotográfica picante na revista Treats, para grande desgosto dos pais, que ela não avisou sobre o lançamento. “Meu pai me disse: ‘Ok, você atingiu seu limite. É melhor não ir mais longe”, embora reconhecesse na Vanity Fair: “Para ser sincera, se pudesse voltar, não teria tirado tanta roupa. Era um pouco ingênua”.

Dylan Penn foi qualificada pela mídia especializada em moda como uma ‘it girl’.
Dylan Penn foi qualificada pela mídia especializada em moda como uma ‘it girl’.

Mas seu desembarque neste verão na terra prometida de Hollywood é significativo não só por causa do peso de sua procedência, mas pela história pessoal controversa que mostrou até agora, o que a torna mais propensa a engrossar as páginas da crônica sensacionalista da TMZ do que as cinematográficas da Variety. De acordo com o site Radar, Dylan foi presa algumas vezes por dirigir sob o efeito do álcool e, em 2017, se internou em um centro de desintoxicação. Sua complicada maturidade foi retratada por algumas fotos que vieram à tona naquele ano e que mostravam Sean Penn tendo, em plena rua, uma acalorada discussão com o namorado dela na época, Jimmy Giannopoulos. Com uma Robin Wright como testemunha e incapaz de conter as lágrimas, o irado vencedor do Oscar repreende o genro por alguma coisa enquanto mostra uma foto na tela de seu celular. O segundo filho do casal, Hopper, que tem um papel coadjuvante em Flag day, também divulgou publicamente seu vício em metanfetaminas e foi preso em 2018 por porte de drogas.

A semelhança física entre mãe e filha salta à vista. Conseguirá Dylan Penn replicar também sua aclamada carreira?
A semelhança física entre mãe e filha salta à vista. Conseguirá Dylan Penn replicar também sua aclamada carreira?JOHN SHEARER / WIREIMAGE

Robin Wright e Sean Penn terminaram seu casamento de 14 anos em 2010. A atriz de House of Cards reconstruiu sua vida com o executivo francês da Yves Saint Laurent, Clement Giraudet, e Sean Penn se casou em meados do ano passado, e por meio de uma videochamada do Zoom, com sua namorada dos últimos cinco anos, Leila George. Embora fisicamente a semelhança com sua mãe seja mais do que evidente, Dylan afirma que sua personalidade é mais parecida com a do pai. “Nós dois temos muito ego. Somos muito cabeçudos e, não sei, às vezes temos tanta confiança que isso até pode ser um problema. Mas percebemos que precisamos relaxar. Ele demorou um pouco mais do que eu.”

Os jovens Robin Wright e Sean Penn brincam com a pequena Dylan.
Os jovens Robin Wright e Sean Penn brincam com a pequena Dylan. DONALDSON COLLECTION / GETTY IMAGES



Ser filha de duas das maiores estrelas de cinema de nosso tempo a levou a crescer entre estúdios, a pular de escola em escola, acompanhando as filmagens dos pais (ela se lembra com especial emoção dos meses em uma escola aborígine australiana enquanto Sean Penn estava filmando Além da linha vermelha) e de cumprimentar figuras como Fidel Castro. “Eu o conheci quando tinha 14 anos e ele me impressionou demais”, disse sobre o comandante cubano. No entanto, a jovem admite ter vivido uma vida com os pés fincados no chão graças à influência dos pais. Um exemplo: quando decidiu deixar um curso de fotografia na Universidade do Sul da Califórnia, depois de um semestre, eles pararam de lhe mandar dinheiro e ela começou a trabalhar como entregadora de pizza. “Quando me perguntaram umas três vezes se eu era a stripper, eu disse: ‘Tenho que parar com isso’, declarou ao NY Post. Depois de evitar ao longo de toda a adolescência a oportunidade de ficar na frente das câmeras, pela “timidez” e porque todos os papéis que lhe ofereciam eram de “de loiras bobas sem arco narrativo”, Flag day representa um antes e um depois para ela e, quem sabe, a tão esperada continuação de uma das mais ilustres linhagens da meca do cinema.

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