sábado, 5 de setembro de 2015

Mais enigmas sobre a morte do poeta espanhol García Lorca


Federico García Lorca

Mais enigmas sobre a morte 

do poeta espanhol García Lorca

Amiga do poeta estava convencida de que os restos haviam sido levados pelo franquismo

Garcia Lorca
Fotografia dos anos 30 de Federico García Lorca. / MARCELLE AUCLAIR
Existem mortes que causam tanto impacto como a vida. É o caso do assassinato de Federico García Lorca (Granada, 1898-1936), o universal autor cujo fuzilamento por parte do franquismo há 79 anos foi recordado na segunda-feira. Marta Osorio, editora do imprescindível livro Miedo, olvido y fantasía: crónica de la investigación de Agustín Penón sobre Federico Garcia Lorca(Comares), publica agora pela mesma editora El enigma de una muerte. Crónica comentada de la correspondencia entre Agustín Penón y Emilia Llanos. Este livro, que analisa as cartas entre o primeiro e exaustivo investigador da vida e da morte de seu adorado autor e sua amiga, é um complemento da primeira obra que joga mais luz sobre o crime e gera mais sombras. A principal: a possibilidade de que o corpo tenha sido levado da fossa indicada pelas testemunhas como o lugar dos disparos.

“Nada foi feito”


Marta Osorio, em sua casa de Granada em 2012.
“Apesar de tudo, Federico viveria para sempre, muito, muito depois de que todos estivéssemos mortos. E se os fatos reais não estão escritos, a fantasia os substituirá. E a fantasia apaixonada pode não ter misericórdia”, escreveu Penón em 1955. Em seu novo livro, Osorio afirma que o investigador “se antecipou ao que ocorreria desde então até os dias de hoje, e que fez com que 78 anos [79 já] depois do assassinato de García Lorca haja tão poucos fatos comprovados sobre a realidade de sua morte e tantas perguntas sobre o que possa ter acontecido.”
A escritora lamenta a situação. “Nada foi feito, e ninguém sabe de nada”, diz ela, defendendo a realização de um plano sério de investigação a partir dos documentos reunidos por Penón, com a abordagem de todas as possibilidades. Ela afirma que, independentemente da descoberta do corpo de Lorca, poderiam ser recuperados restos mortais de dezenas de pessoas executadas no local e que merecem um lugar na memória. Em seu livro, por exemplo, ela destaca o caso uma jovem judia alemã que fugiu da perseguição nazista e foi assassinada no mesmo lugar que Lorca por ser amiga de um arquiteto socialista.
A autora conhece bem as feridas da repressão franquista. De sua residência em El Realejo, é difícil não ver uma casa onde não haja familiares de políticos, intelectuais e professores assassinados pelo franquismo, que deixou em Granada uma sequela de medo, esquecimento e fantasia, como refletiu em seu primeiro livro sobre o investigador.
“Se for seguida a linha correta, poderemos saber de muitas coisas”, diz a jornalista Isabel Reverte, autora do documentário La maleta de Penón, realizado e editado por Miguel Santos. Reverte afirma que o relato deste investigador feito por Osorio é “apaixonante” e considera que seja fundamental para encontrar a verdade. A jornalista é uma das pessoas que mais conhecem a autora de Granada, uma excelente escritora de contos infantis e relatos que se viu compelida a acabar a obra do investigador quando William Layton lhe entregou, antes de morrer, a maleta com os papéis de seu amigo. O capítulo de Lorca está encerrado para Osorio, mas conserva relatos curtos e contos que essa escritora inquieta não descarta publicar.
Penón, um barcelonês de nacionalidade norte-americana, chegou a Granada em 1955 com seu amigo William Layton e sua inseparável primeira edição doRomancero Gitano de Lorca. Apaixonado pelo autor andaluz, encontra-se numa cidade paralisada de medo onde o “nome Federico era proibido”, segundo relata Osorio. Sem ânimo de “remover paixões”, como ele mesmo escreveu, e com a única vontade de estabelecer uma “cronologia de acontecimentos”, realiza durante um ano e meio a mais importante investigação sobre a morte do poeta.
Após entrevistar testemunhas e percorrer palmo a palmo a estrada que liga Alfacar a Víznar e o barranco onde os franquistas executaram centenas de pessoas, Penón coleta informações fundamentais e sugere possíveis localizações do corpo. Mas, pressionado pelo regime do ditador, teme que toda a documentação seja confiscada e parte aliviado rumo a Nova York em 1956, com uma maleta de documentos que acabou nas mãos de Osorio.
Em sua estada conheceu Emilia Llanos, uma íntima amiga do poeta cúmplice das investigações de Penón e com quem ele mantém uma correspondência que agora a escritora de Granada resgata.
Penón chegou a estabelecer a localização da fossa: estaria sob uma oliveira, a 10 metros da estrada e perto da Fonte Grande, no atual parque García Lorca. As cartas evidenciam que ele tinha vontade de comprar o terreno, e Llanos percebeu em março de 1957 que a propriedade havia sido colocada à venda. Dois meses mais tarde, contudo, os dois desistiram da ideia. “Temos que deixar isso no momento, não é oportuno”, escreveu a amiga do poeta. Outros dois meses mais tarde, Llanos revelou a Penón o motivo da cautela: “Quem estava ali já não está. Entende? Há muito tempo se supõe que esteja em Madri com a família. Foi o que me contou uma pessoa informada sobre os fatos.” Penón questionou a confiabilidade da fonte, e Llanos manteve segredo sobre a sua identidade – “uma alta fonte”, responde no tom sigiloso das cartas,marcadas pelo medo de represálias. “Sim, o lugar era nas oliveiras, depois o mudaram de lugar”, concluiu Llanos.
“As cartas trazem mais incerteza”, admite Osorio, lembrando que o corpo de Lorca pode ter sido levado por franquistas para evitar que o lugar se transformasse em centro de peregrinação de democratas, ou pela própria família, mas a outro ponto do caminho. A autora se nega a confirmar qualquer hipótese e a participar do turbilhão gerado em torno da localização dos restos do autor. “As pessoas falam muitas coisas, e algumas têm um ponto de veracidade que só gera mais confusão”, explica. 

Soleá Morente dá voz aos desaparecidos

“É necessário ir aonde o silêncio está e dar voz às pessoas que foram sepultadas pelo poder.” Com essas palavras, Solá Morente explicou o sentido da homenagem feita nesta segunda-feira em Alfacar (Granada) a García Lorca e a dezenas de vítimas do franquismo enterradas na mesma zona.
Às 21h (16h pelo horário de Brasília), após uma oferenda floral no monólito usado para cerimônias no parque, foi realizado o concerto Fragmento de la mañana, com Morente acompanhada ao piano por J. J. Machuca. A cantora interpretou obras do poeta a partir dos trabalhos de seu pai, incluindo uma versão de Doña Rosita la soltera e Pequeño vals vienés, que integra o discoOmega de Enrique Morente.
Também foram realizadas outras cerimônias ligadas aos lugares onde o poeta passou seus últimos dias, como o ato 5 a las cinco na propriedade de Fuentevaqueros, a polêmica inauguração do Centro Lorca e outros projetos de promoção da rota cultural vinculada à vida e à obra do poeta em Granada.

EL PAÍS



Federico García Lorca / Serenata
Federico García Lorca / Romance sonâmbulo
Federico García Lorca / Alma ausente
Federico García Lorca / A casada infiel
Federico García Lorca / Canção do ginete
Federico García Lorca / De otra maneira

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Federico García Lorca / Romance da lua, lua






ROMANCE DA LUA, LUA 
Federico García Lorca    

A lua chegou à forja
com sua anquinha de nardos.
O menino a mira, mira.
O menino está mirando-a.

Lá no espaço comovido
a lua move seus braços
e exibe, lúbrica e pura,
seus seios de duro estanho.

Foge lua, lua, lua.
Se chegassem os gitanos,
com teu coração fariam
anéis brancos e colares.

Menino, deixa que dance.
Quando os gitanos chegarem,
te acharão sobre a bigorna
com os olhinhos fechados.

Foge lu, lua, lua,
que já ouço seus cavalos.
Jovem, deixa-me, não pises
minha brancura engomada.
 
O ginete se acercava
tocando o tambor do chão.
Dentro da forja o menino
conserva os olhos fechados.
 
Vinham pelo oliveiral
os gitanos, bronze e sonho.
As cabeças levantadas
e os olhos semicerrados.
 
Como canta ali o bufo,
ai, como canta na árvore.
Pelo céu a lua segue
com um menino na mão.
 
Lá dentro da forja choram,
dando gritos, os gitanos.
O ar vela-a, vela, vela.
O ar a está velando.




quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Falemos do novo álbum de Adele, pois sua dieta pouco importa

Adele

Falemos do novo álbum de Adele, 

pois sua dieta pouco importa

Quem já ouviu garante que será um sucesso de vendas sem precedentes


    A cantora Adele, em um show. / CORDON PRESS
    O esperado terceiro trabalho do Adele é o álbum inédito mais importante da indústria fonográfica, apesar de quase nada se saber com certeza sobre esse lançamento. Enquanto nos últimos dias a imprensa especula sobre uma espetacular e pouco provável perda de peso da cantora, ela mantém o mistério sobre seu novo disco, que, após mais de quatro anos de espera, pode ser lançado a qualquer momento. Pode até ser que a britânica tenha mesmo perdido 68 quilos depois de uma milagrosa dieta, mas o comprovado é ela perdeu, de fato, 80 milhões de libras (452 milhões de reais). Aparentemente, para desgosto da sua gravadora e de seus agentes, ela está rejeitando contratos milionários para uma turnê mundial de divulgação do novo disco, pois prefere passar mais tempo com a sua recém-formada família. Quem já escutou o disco garante que será algo grandioso, e talvez falte menos do que esperamos para comprovar se esses bons presságios são realidade ou puro marketing.

    Data de lançamento




    Em princípio, o álbum chegará em novembro, bem a tempo de disputar as vendas milionárias da época natalina. A revista musical Billboardapostou nessa data e, por enquanto, ninguém desmentiu. Os rumores que indicavam o lançamento ainda em 2014 se baseavam em comentários da própria cantora, mas essa teoria foi quase imediatamente desautorizada por sua gravadora, a XL Recordings, o que desta vez não aconteceu. A britânica, cujo enorme sucesso lhe permite ter uma grande capacidade decisória frente à gravadora, flertava com a ideia de lançá-lo de surpresa, como fez Beyoncé com seu último trabalho no ano passado, então não se descarta que as novas canções cheguem aos nossos ouvidos inclusive antes dessa data.

    Título

    Após estrear com 19, aos 19 anos, e se consolidar dois anos mais tarde com 21, é dado como certo que o novo trabalho vai se chamar 25, idade dela ao gestá-lo. Talvez seja só um título provisório, mas Adele em várias ocasiões se referiu dessa forma ao disco novo.

    Promoção e turnê

    Em princípio, nula ou quase nula. A julgar por seu hermético comportamento desde que atingiu o estrelato, parece razoável que Adele prefira ficar em casa com seu marido e o filho de dois anos, Angelo, em vez de se comprometer com uma turnê que destrua suas cordas vocais em 2016. Sua excursão anterior terminou antes do previsto porque a cantora ficou vários meses sem voz em 2011, devido ao estresse. O temor de uma recaída parece ser uma das causas para que ainda não haja shows programados e que ela praticamente não tenha mais cantado seus sucessos ao vivo desde então, para não falar no enorme pânico cênico que a artista já admitiu em várias entrevistas – a ponto de vomitar de ansiedade antes de entrar no palco. Parece evidente que sua vida familiar está em primeiro plano, e essa é a razão pela qual Pharrell Williams quase não conseguiu se reunir com a artista na hora de concretizar sua colaboração para esse misterioso disco. “A atitude de Adele é tipo: ‘Bom, rapazes, lhes dou 20 minutos do meu tempo’, e depois desses minutos ela desaparece com seu precioso bebê. É assim o tempo todo”, disse Williams ao popular apresentador de televisão norte-americano Ryan Seacrest.


    Adele ao receber seus Grammys em 2012. / GETTY

    Expectativa de vendas

    Poucos cantores conseguem repetir vendas multimilionárias depois de passar cinco anos em silêncio, como se viu com Dido após vender 20 milhões de cópias de Life for Rent. No caso de Adele, porém, o mistério que a rodeia depois de bombar no Grammy e de levar um Oscar pela canção Skyfall parecem jogar a seu favor. Mesmo antes de o disco começar a ser gravado, a Amazon já havia recebido 100.000 encomendas antecipadas.
    Mas, mesmo que venda apenas um terço dos 27 milhões de cópias acumuladas de 21, Adele conseguiria ser a campeã de vendas do ano, superando Taylor Swift, Sam Smith e Ed Sheeran, o trio de artistas que compete atualmente por esse posto honorífico. O próprio Sheeran é uma das poucas pessoas a se manifestarem de forma clara sobre o álbum de Adele. Foi há algumas semanas, na emissora de rádio britânica Capital Radio, onde contou que todos os seus conhecidos que estavam trabalhando no projeto apostavam em que será o disco do ano.

    Colaborações

    Pharell Williams é um nome que quase certamente aparecerá nos créditos do novo disco. Outros que soam com força são o do sueco Danger Mouse, do compositor de pop Max Martin, também sueco, e do cantor e compositor canadense Tobias Jesso Jr., a quem ela já dedicou demonstrações públicas de apreço. Como verdadeira diva que é, Adele não usa sobrenome nem se expõe em excesso nas redes sociais. Uma das poucas mensagens escritas por ela no Twitter foi para recomendar How Could You Babe, de Jesso, o que fez disparar o número de execuções desse clipe no YouTube.
    Ryan Tedder, líder do One Republic, já foi parceiro de composição e produtor dela em um de seus sucessos anteriores, Rumor Has It, e por isso é muito cotado para repetir a colaboração. De fato, o músico afirma já ter escutado grande parte das canções que compõem o trabalho: “Com a quantidade de faixas que você precisa escolher, vai ser uma loucura de disco. Ela poderia até rejeitar algum hit, e continuaria sendo um disco incrível”, antecipa.
    Já Phil Collins está marcado por um desentendimento com ela. O gênio do pop oitentista contou à imprensa musical do seu país que a britânica entrou em contato com ele oferecendo parceria em algumas músicas. Quando Colins, há tempos semiaposentado, soube quem era Adele, topou na hora. Ela então enviou uma canção para que ele completasse. “Parece que fui reprovado na seleção, porque desde então estou esperando a resposta”, lamentou o autor de Easy Lover,Sussudio e Two Hearts. A desculpa inicial para adiar de forma indefinida sua colaboração foi, novamente, o tempo dedicado à família, com uma mudança e um recém-nascido em seu horizonte imediato. Quanto a duetos, a julgar pelas redes sociais, existiram encontros com Lady Gaga e Katy Perry, que assim encabeçam os bolões de aposta.

    Que estilo seguirá?

    A norte-americana Kelly Clarkson também oferece um pouco de informação acerca do disco mais esperado, após apontar a possibilidade de que Adele abrace os sons do country em seu novo trabalho. Enquanto seus dois álbuns anteriores se apoiavam nos desenganos amorosos, uma tendência que seu compatriota Sam Smith imitou com sucesso em In the Lonely Hour, a feliz situação familiar atual de Adele a obriga a uma mudança de sonoridade, já que ela se mantém fiel a um autoimposto estilo biográfico em suas composições.



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    quarta-feira, 2 de setembro de 2015

    Adele volta com 68 quilos a menos

    Adele

    Adele volta com 68 quilos a menos

    Cantora britânica preparanovo disco desde 2011. Mudança atende a um pedido médico

    Adele
    Imagem da Adele em 2011 e em 2014. / CORDON PRESS / INSTAGRAM
    A cantora Adele voltou a ser notícia. Se, em 2008, deixou meio mundo boquiaberto com a sua voz depois de uma inesquecível apresentação no Saturday Night Live, nos Estados Unidos, agora ela o faz por causa da mudança em seu corpo. Uma mudança que vem acontecendo desde 2013. Foi em uma capa da revista Vogue USA que ela se mostrou pela primeira vez desde que mudou o seu estilo de vida. Adele virou vegetariana e parou de fumar.

    Adele
    Capa da 'Vogue' em 2013.
    Agora, dois anos depois, ela volta a estar na boca de todos. Em uma entrevista à People, a cantora britânica admitiu ter perdido, desde então, 68 quilos. A intérprete afirma que abandonou os refrigerantes, a carne, os doces e os alimentos industrializados. “Passei e me sentir cada vez melhor, tanto física como espiritualmente”, declarou. Ela confessou, também, que, para obter a sua mudança de imagem, submeteu-se a uma dieta vegetariana, ingerindo somente verduras, carboidratos, frutas, amêndoas, produtos lácteos, legumes e vitamina batida.
    Disse, também, que parou de fumar e deixou de lado o sedentarismo. Seu companheiro, Simon Konecki, também fez a mesma dieta, o que lhe serviu de estímulo: “Perdemos peso juntos, e isso foi benéfico. Fazer essa transição junto com outra pessoa tornou-a mais fácil”, admitiu. Como parte complementar de seu plano, Adele adotou um rigoroso programa de pilates e um tratamento com hipnose para mitigar a ansiedade quando abandonou o cigarro. “Nunca quis ficar parecida com as modelos de capas de revistas. Eu represento a maioria das mulheres e sinto muito orgulho disso. Se decidi mudar meu corpo, foi unicamente por razões de saúde”, explica Adele.
    A nova imagem da cantora vem acompanhada de uma grande notícia para os seus fãs. Segundo a revista Billboard, Adele, de 27 anos, prepara, para novembro, o lançamento de seu terceiro álbum. O último disco, 21, foi lançado há quatro anos e a consagrou, na indústria da música, em nível internacional.



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    terça-feira, 1 de setembro de 2015

    Amálgama / A volta de Rubem Fonseca ao mundo embrutecido






    A volta de Rubem Fonseca 
    ao mundo embrutecido
    BIOGRAFIA
    Posted by
    Fernando do Valle
    Dezembro 6, 2013

    Em Amálgama, novo livro de contos de Rubem Fonseca, o freak show é composto por uma vasta galeria de figuras perturbadas: mãe que joga o bebê aleijado no lixo, o assassino profissional que poupa anões, outro que tem medo de anões, homem feio apreciador de bocetas,  o matador de gatos, um que tira a vida de corretores de imóveis e, por aí vai.
    No último livro, José, de 2011, Fonseca deixou um pouco de lado a violência e a revolta ao relembrar sua infância em uma capital carioca idílica. 
    No didático Brasil urgente do Rubão, o leitor depara-se com um festival de torpezas e vilezas, acorda entorpecido, enxuga as remelas e, no mínimo, reflete “como podemos melhorar esse negócio de sociedade”. Ou não. A escolha é só nossa.
    Nos 34 contos curtos de Amálgama, Rubem Fonseca expõe um festival de perversões e insanidade. Ninguém escapa, muito menos eu e você:
    sei que ninguém é inocente, todo mundo cometeu alguma transgressão, alguma maldade, ou crueldade,: se eu fosse religioso diria cometeu algum, ou vários, dos pecados capitais: avareza, gula, inveja, ira, luxúria, orgulho e preguiça.
    Rubem Fonseca
    Todos são culpados para Rubem Fonseca
    A violência e os problemas sociais apresentados em seus parágrafos não são criações do artista, e sim parte de seu mundo, de seu universo criativo, servindo-lhe de “inspiração”. Se são feios os seus quadros , a culpa não é dele, mas de todos nós, da sociedade que não soube ainda se liberar de suas mazelas.
    O cobrador versão bike
    No conto O Ciclista, Rubem Fonseca recicla um de seus textos mais conhecidos, O Cobrador (do livro homônimo, de 1979). No conto anterior, o narrador vinga-se dos exploradores bem integrados ao mercado.
    Segundo ele,  estão lhe “devendo comida, boceta, cobertor, sapato, casa, automóvel, relógio, dentes … Odeio dentistas, comerciantes, advogados, industriais, funcionários, médicos, executivos, essa canalha inteira. Todos eles estão me devendo muito”.
    Na nova versão, o ciclista atropela os que identifica como maus: “todo dia fico procurando em cima da minha bicicleta alguma pessoa má para punir”.
    O trio sexo, violência e miséria (humana e social) permeia boa parte da obra do escritor. Isso não quer dizer que ele as aprove ou desaprove. O autor utiliza sua sensibilidade aguçada para testemunhar e descrever o cenário de maneira particular.
    O mundo exterior apresenta-se a cada dia mais cruel e violento e a cidade desumana, o homem (in)comum (ou os Josés, nome de vários protagonistas dos contos de Amálgama) é representado por Fonseca em seu convívio diário com o caos.
    Ao agir desta forma, Fonseca joga para a sociedade a culpa pela brutalização do mundo. Uma vez que ele não a criou, ela faz parte do mundo e das relações humanas, cabe a ele, o papel de captá-lo sem máscaras, devolvê-lo na sua forma original: violento e desumano.
    O próprio escritor explica em uma de suas raríssimas entrevistas para o Jornal da Tarde em 12 de setembro de 1970 como enxerga seu ofício:
    O escritor não é um intelectual, é um historiador da condição humana… é um cara que está aí, vendo, testemunhando as coisas. Acho muito chato o cara que é escritor ditar regras. Ele não precisa disto.
    Para Rubem Fonseca: "o escritor não é um intelectual"
    Para Rubem Fonseca: “o escritor não é um intelectual”
    Inovador da linguagem ao adotar uma forma de contar histórias unindo dimensões da linguagem como a jornalística e a cinematográfica, podemos encontrar em muitos de seus contos uma relação direta com um roteiro de cinema. Na entrevista ao JT, afirmou: “antes de aprender a ler, eu já ia muito ao cinema e já fazia filmes na cabeça. A sintaxe cinematográfica, usada na literatura, permite muitos macetes. Quando eu bolo uma história, ao mesmo tempo ela já se realiza na minha cabeça”.
    Apesar de sua proximidade como o cinema, a literatura de Rubem Fonseca foi pouco aproveitada pelo cinema. O destaque vai para a adaptação de A Grande Arte pelo jovem diretor Walter Salles Jr, em 1991. Rubem Fonseca adaptou o livro O Matador, de sua amiga e escritora Patrícia Melo, para o cinema. O longa, de 2003, contou com a direção de seu filho, José Henrique Fonseca.
    Já na televisão, o romance Agosto, ambientado no fatídico agosto de 1954 em que Vargas mete uma bala na cabeça,  virou minissérie na Rede Globo. Na pele do protagonista, o inspetor Mattos, atua o canastrão José Mayer. Impagável está Toni Tornado como chefe da guarda pessoal de Getúlio Vargas, Gregório Fortunato. A HBO produziu recentemente a série Mandrake baseada em dois livros do escritor: A Grande Arte e Mandrake, a Bíblia e a Bengala.
    Cinco décadas de literatura
    O ano é 1963 (há exatos 50 anos): um executivo da Light de 38 anos lança no Rio de Janeiro seu primeiro livro de contos, Os Prisioneiros. Aparentemente, fica difícil acreditar que este episódio iria revolucionar a temática e a narrativa da literatura brasileira da época.
    Mas Rubem Fonseca chegou carregando uma visão particular do cotidiano das cidades e demonstrando através de uma escrita sem rodeios o homem desesperado inserido em um modo de vida selvagem.
    Arredio com a imprensa brasileira, Rubem tem participado de eventos literários no exterior, esse foi em Lima, no Peru:
    As cidades em todas as suas contradições sofrem uma dissecação em suas mãos. O escritor Ítalo Calvino, em seu livro As Cidades Invisíveis, nos ajuda a entender a literatura de Fonseca: “as cidades como os sonhos, são construídas por desejos e medos, ainda que o fio condutor de seu discurso seja secreto, que suas regras sejam absurdas, as suas perspectivas enganosas, e que todas as coisas escondam outra coisa”.
    José Rubem Fonseca nasceu em Juiz de Fora, em 1925. Residente no Rio de Janeiro e formado em Direito e Administração, talvez tenha nessa sua distância dos meios acadêmicos, literários e jornalísticos, a origem de sua escolha por uma visão particular e pragmática da função literária.
    Fugindo do isolamento, Rubem Fonseca saiu da toca no Rio de Janeiro  e discursou com veemência para um grupo de operários na inauguração de uma biblioteca no início de outubro: 
    O crítico Antônio Cândido apelidou a literatura do autor de “Realismo Feroz”. Para Cândido, o realismo de Fonseca realiza-se com mais facilidade na narrativa em primeira pessoa, ou seja, a situação é transmitida pela brutalidade de seu agente, que se identifica com o narrador descartando qualquer interrupção ou contraste crítico entre narrador e matéria narrada.
    A literatura de Rubem Fonseca é um testemunho de vida e não virtuosismo literário. Propondo-se ao papel de historiador da condição humana, Fonseca é um arguto observador do cotidiano. Seu papel é documentar,registrar a vida em todo a sua magnitude. Quando recusa “os guaranis” e”os sertões”, deixa bem claro que é na cidade, nas suas luzes e burburinho frequente dos carros, que a vida acontece. Essa é a sua condição e é daí que nasce a sua literatura.