sábado, 14 de julho de 2018

Vargas Llosa / A ‘espanholita’ e o Príncipe Gurdjieff




A ‘espanholita’ e o Príncipe Gurdjieff

A odisseia de Patricia Aguilar no Peru me causa tristeza e admiração. E se fosse feliz com sua deplorável vida? Respeitar sua vontade seria então o justo


Mario Vargas Llosa
14 Jul 2018

“Espanholita” não por machismo falocrático nem pela paixão dos peruanos pelos diminutivos, mas por carinho, por parecer tão frágil, magrinha e vulnerável, lá no distrito de San Martín de Pangoa, em plena selva amazônica, onde os mosquitos devem tê-la comido viva, com sua bebezinha de um mês nos braços e esses olhões de moça valente, que descobriu a verdade e sabe que este mundo vai desaparecer, mas que ela se salvará com a ajuda do Príncipe Gurdjieff e será a mãe de uma nova humanidade.
Imagino perfeitamente sua história. Patricia Aguilar, de 16 anos, está ali em sua terra natal, Elche (Alicante), sofrendo pela morte de um tio muito querido, navegando na Internet. E de repente aparecem na tela as palavras salvadoras, vindas do outro lado do mundo, o Peru. Primeiro, elas a intrigaram, depois a seduziram e, por fim, a convenceram. Este mundo iria acabar por causa da insensatez e crueldades dos humanos, mas alguns poucos se salvariam, graças ao Príncipe Gurdjieff e sua sabedoria para transpor as aparências e chegar à verdade crua e dura. Com ele sobreviveriam aqueles que escutassem sua mensagem. Que importância tinha para ela que aqueles textos estivessem repletos de erros de ortografia se comunicavam algo que chegava ao seu coração e lhe transmitia uma força desconhecida? Às escondidas de seus pais, Patricia manteve longas conversas com o guru peruano, que a instruía nas verdades gnosiológicas, astrais e esotéricas que possui e dava instruções que a jovem convertida seguia ao pé da letra.



Ao completar dezoito anos e, portanto, maior de idade, disse aos pais que iria jantar na casa de um amigo. Na verdade, desapareceu, levando seis mil euros da família. Aterrissou em Lima, onde conheceu seu mestre, mentor e, desde então, amante. O Príncipe Gurdjieff tinha uma mulher legítima e pelo menos mais duas amantes. E filhos com todas elas. Vivia em um bairro periférico pobríssimo, mas a espanholita estava preparada para todos os sacrifícios. Ficou grávida e, como as outras mulheres do harém do qual agora fazia parte, se tornou vendedora ambulante para alimentar e vestir seu Príncipe e guru. Segundo a vizinhança, da moradia em que ele vivia com seu serralho e parvulário emergiam ruídos violentos, pancadas.
Aqui aparece o herói da história, segundo os jornalistas: Alberto Aguilar Berna, comerciante que fornecia o fermento a todas a padarias de Elche, homem modesto, trabalhador e inatingível pelo desânimo. Começou a mover céus e terra para encontrar a filha desaparecida. Denunciou seu sumiço à polícia de Alicante, mobilizou a opinião pública, conseguiu recursos e, quando soube que Patricia estava no distante Peru, partiu para esse remoto confim. Ali apresentou outra denúncia à polícia local. Ao mesmo tempo, fez investigações e chegou a descobrir o bairro em que vivia o Príncipe Gurdjieff: encheu-o de cartazes oferecendo dez mil soles de recompensa a quem lhe revelasse o paradeiro da moça.



Jovem resgatada nega ter sido sequestrada e diz estar contente com a filhinha dela e do xamã

Nessa altura, o bruxo, xamã e vigarista já havia fugido para Junín, várias centenas de quilômetros a leste de Lima, e se refugiara em um povoadinho amazônico, Alto Celendín, onde Patricia e as demais mulheres trabalhavam como garçonetes em um restaurante para lhe dar de comer. Alberto Aguilar Berna chegou lá, com policiais peruanos aos quais teve de pagar a viagem, a comida e a hospedagem, dado o orçamento exíguo da Polícia Nacional. Por fim, deram com ela e essa é a fotografia espalhada pelo mundo: a espanholita em bombachas floridas, de anatomia filiforme, com sua bebezinha nos braços e um olhar fixo e sereno, de quem desafia o mundo porque sabe que a verdade é sua.
A polícia capturou também o Príncipe Gurdjieff, cujo nome verdadeiro é Félix Steven Manrique Gómez. Tem 35 anos e, além de bruxo, guru, sedutor e fabulador, promete a suas sequazes femininas reduzir os seus quadris, se eles forem muito largos, aumentar os seios, se forem pequenos, e afinar o nariz. É dotado de uma vaidade espantosa. Assim que o capturaram pediu um cabeleireiro-barbeiro que lhe cortasse o cabelo e lhe fizesse a barba, para aparecer melhor nas fotografias da imprensa. É técnico eletricista, expulso de uma seita chamada Gnosis por conduta imprópria e, usando nomes e pseudônimos diferentes no Facebook e no YouTube, vinha anunciando fazia tempo o irremediável fim do mundo e sua recriação, graças a ele ser o escolhido.
Até agora tudo tem a aparência de uma história bastante comum, neste mundo de obscurantistas mais ou menos embusteiros e mocinhas crédulas. No entanto, em vez de um final feliz, os problemas de Alberto Aguilar Serna e sua esposa só estão começando. Porque sua filha Patricia, que está sendo “desprogramada” pelos psicólogos da polícia peruana, nega, pelo visto, que tenha sido sequestrada, afirma que está muito feliz com seu destino, com a filhinha que lhe fez o Príncipe Gurdjieff, e se nega a ser “salva”. Não nos esqueçamos que é maior de idade e que, a não ser que esteja irremediavelmente louca, pode fazer com sua vida o que bem quiser. É verdade que, como está vivendo ilegalmente no Peru, poderia ser expulsa para a Espanha, onde, disse sua simpática mãe, esperam “ela e a filhinha com os braços abertos”.



Sem vendedores de disparates e suas vítimas sendo “desprogramadas”, o mundo se despovoaria

Tenho tão pouca simpatia pelo Príncipe Gurdjieff como pelo Gurdjieff verdadeiro, aquele que, segundo Jean-François Revel, era um “verme bêbado” que, na Paris dos anos quarenta, seduzia com suas lorotas espiritualistas senhoras milionárias e intelectuais progressistas (incluindo ele, por um tempo) a fim de que lhe pagassem as bebedeiras. Mas se fossem meter na prisão todos os vendedores de disparates religiosos e nos dedicássemos a “desprogramar” quem acredita no que eles contam, o mundo, temo, ficaria despovoado. E, algo pior, a liberdade desapareceria.
No entanto, embora todos os livros esotéricos me produzam bocejos de crocodilo, sinto grande carinho pela filiforme Patricia, e sua odisseia me causa uma tristeza mesclada de certa admiração. Era feliz, levando a deplorável existência que levava ao lado do Príncipe, servindo-o, como as outras infelizes que também acreditavam nas idiotices com erros de ortografia que ele lhes dizia? Aqueles que a “desprogramam” lhe abrirão o caminho da normalidade? E se a convertem em uma moça bem alimentada, bem vestida, mas sem rumo, infeliz, convencida de que, como pessoa normal, perdeu sua alma e razão de viver?
Não digo que aconteça, mas pode acontecer, e nesse caso, o que é o mais justo? Acho que é deixá-la fazer aquilo em que acredita, o que a faça sentir-se melhor, respeitar o destino que ela escolher para a pequenina que engendrou nos braços daquele Príncipe de araque. A “normalidade” também pode ser temível quando é imposta pela força e consiste em aniquilar a liberdade dos outros, os diferentes, em relação aos quais acreditamos ser normais.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Fotógrafo ‘atropelado’ pela Croácia / “Toda a seleção caiu em cima de mim, mas eu não parei de tirar fotos”




O fotógrafo da agência France Press durante a comemoração do gol que deu a vitória à seleção da Croácia. MICHAEL REGAN GETTY/FIFA

Fotógrafo ‘atropelado’ pela Croácia: “Toda a seleção caiu em cima de mim, mas eu não parei de tirar fotos”

Yuri Cortez conseguiu imagens de ângulos inusitados depois de ser lançado ao chão durante a comemoração do gol que deu a vitória aos croatas sobre a Inglaterra

DIEGO MANCERA
12 JUL 2018 - 10:12 COT


A seleção da Croácia venceu a Inglaterra na prorrogação e classificou-se para o final da Copa do Mundo da Rússia 2018. O gol da vitória foi de Mario Mandzukic, no minuto 109 do jogo. Os jogadores croatas correram em direção à arquibancada para comemorar com os torcedores, mas tropeçaram na zona de fotógrafos. Ali encontrava-se Yuri Cortez, repórter gráfico da agência de notícias France Press (AFP), com a câmera bem firme na mão direita. Caído no gramado, ele conseguiu um ângulo privilegiado da celebração.

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Futebol / Mandzukic, a máquina goleadora da Croácia



Mandzukic comemora a classificação da Croácia à final da Copa.  


Mandzukic, a máquina goleadora da Croácia

Jogador da Juventus foi premiado por sua luta com um gol histórico para sua seleção



LADISLAO J. MOÑINO
Moscou 11 JUL 2018 - 20:31 COT
Existem poucos centroavantes tão secos e ariscos como Mario Mandzukic. Um homem duro, de caráter forte atribuído às noites em que se escondia debaixo de um colchão quando durante a Guerra dos Balcãs escutava próximos os disparos das tropas sérvio-bósnias. Seu rito é uma ode à raiva permanente. Seus pômulos afilados, seu nariz proeminente e pontudo e o cabelo eriçado lhe dão ares intimidantes de aríete, uma máquina de guerra que era utilizada para derrubar muralhas. 
No vestiário do Atlético de Madrid diziam que quando ele não gostava de alguma coisa, era melhor não o contradizer. Até Diego Pablo Simeone tinha medo dele e muitas vezes não se atreveu a obrigá-lo a jogar preso pelos lados como depois Allegri o escalou na Juventus. Mas todos os seus colegas afirmam que dentro de campo se arrebentava por eles. 
Talvez ninguém represente melhor o sofrimento, o desgaste físico da Croáciapara chegar pela primeira vez à final de uma Copa. Seu gol, surgindo por trás dos zagueiros ingleses, foi um prêmio justo ao seu enorme desgaste. Não existiu partida nessa Copa em que ele não tenha lutado com os zagueiros adversários, que tenha batido e apanhado da mesma forma.
Quando marcou, o treinador croata, Zlatko Dalic, enlouqueceu. O primeiro tempo de sua equipe o deixou deprimido. Fervoroso praticante da religião católica, sua imagem com a mão no bolso para tocar o rosário que leva consigo é um dos tiques que se transformaram em clássicos durante essa Copa. O homem que a fé inquebrantável levou a distribuir bíblias aos seus jogadores repete o ritual sempre que percebe que a Croácia está jogando mal em campo.
O fato de durante todo o primeiro tempo Dalic mal ter tirado a mão direita do bolso de sua calça diagnosticava a partida ruim que seus jogadores faziam. Parado em um dos lados da área técnica, o técnico croata precisou escutar aFootball’s Coming Home, com a qual a organização amplifica os gols da Inglaterra, quando Trippier acertou uma prodigiosa parábola por cima da barreira e Subasic se esticou para aparecer na foto do gol. Paralisado em seu canto do gramado, Dalic via passar diante de si o raio Sterling e contemplava seus jogadores petrificados, encolhidos, como se as prorrogações contra dinamarqueses e russos e a importância da partida tivessem colocado concreto em suas pernas e cabeças. Por um momento pareceu que toda a tradição e a mística do futebol inglês esmagavam a Croácia. Foi um primeiro tempo atípico dos representantes de um país que tem o gene ressabiado e competitivo da escola balcânica.
Surpreendentemente a reação da Croácia começou em Vrsaljko, um jogador pouco confiável emocionalmente, capaz de pedir para sair se perceber que está nervoso. Suas descidas pelo lado direito tiveram um efeito dominó do outro lado do ataque croata. Perisic também se enfureceu e finalizou um bom cruzamento de Vrsaljko. O lateral do Atlético de Madrid também evitou um gol tirando em cima da linha uma cabeçada de Stones no primeiro tempo da prorrogação. E aí, o centroavante Mandzukic esperou para esboçar o maior sorriso de sua carreira com esse gol histórico.


terça-feira, 10 de julho de 2018

Resenha / "O Trânsito de Vênus" de Shirley Hazzard

RESENHA: Livro "O Trânsito de Vênus" de Shirley Hazzard



Olá crianças! Tudo bem? Hoje é dia de resenha e o livro da vez virou definitivamente um dos meus xodós! Acho que foi dado com tanto amor que rendeu uma leitura adorável. Vem conferir...
A impressão de vida predestinada é o tema profundo deste que é o livro mais aplaudido de Shirley Hazzard. Caroline e Grace Bell são duas jovens irmãs que deixam a Austrália e vão para a Grã-Bretanha em busca de um recomeço. Órfãs desde muito cedo, elas anseiam por uma vida nova, enquanto a Europa começa a acordar do pesadelo da Segunda Guerra Mundial.

O título se refere a um raro mas constante fenômeno astronômico, que só se repete um par de vezes por século, em datas pré-determinadas. Nas suas poucas horas de duração, o planeta Vênus pode ser visto da Terra como uma pequena mancha preta atravessando o disco solar. Paralelos aos movimentos celestes, os personagens de Hazzard parecem atraídos por diferentes fatalidades. Seus destinos nunca deixam de se entrelaçar com as turbulências e os absurdos da história da segunda metade do século xx, num romance que começa na Inglaterra rural, retorna à Sidney da memória e aos fronts do trauma de guerra, viaja a Nova York e continua seu curso até Estocolmo. Um retrato pungente dos torneios do amor e do deslocamento geográfico e social, tema tão caro à narrativa australiana. 

O Trânsito de Vênus é um livro do gênero drama narrado em terceira pessoa. Assim como já cita na sinopse, o título é apenas uma referência à essência do livro. Ou seja, não é uma história sobre ficção científica ou astrologia. Shirley Hazzard é uma autora Australiana muito premiada com suas obras, inclusive esta citada. A edição lida por mim foi lançada pela editora Companhia das Letras e possui 476 páginas.


A trama acompanha a vida das irmãs Caroline e Grace tentando se restabelecer na Inglaterra após deixar sua terra natal, a Austrália. Num cenário de Pós II Guerra, quando o mundo ainda está tomando os eixos, o país ainda parece um pouco confuso e agitado, fazendo com que seus habitantes vejam tudo com mais cuidado. É assim que as jovens irmãs se posicionam em meio as dificuldades e surpresas que a vida lhe oferecem.

Ainda jovem, Grace tem a sorte de encontrar em Christian Thrale um relacionamento amoroso sólido e um tanto tradicional com todas as imperfeiçoes que se tem direito. Das irmãs, ela tem a descrição de ser a mais bonita e a menos atraente. Christian, seu futuro marido é filho de um influente astrônomo, que abriga em seu castelo as irmãs posteriormente.

Caroline, frequentemente chamada de Caro, é a principal personagem da história. Possui uma beleza exótica e é tão esperta quanto todos os personagens que a julgam menos que isso. Toda as aventuras amorosas e riscos que sua irmã não viveria foi para ela. Sendo a mais velha das duas, Caro terá um destino incerto, totalmente o oposto da vida previsível e confortável de Grace.

Ainda no Castelo da família de Christian, Caro conhecerá dois dos personagens mais constantes e contraditórios entre si que virá a ser na vida da moça. Ted Tice, um jovem astrônomo convidado pelo patriarca da família, que se apaixonará plena e perdidamente por ela e Paul Ivory, um lindo rapaz no início de sua carreira como escritor de peças de teatro, noivo de uma pomposa (e nojenta) moça, chamada Tertia.

As experiências vividas por Caro, mendigando o amor de um e ignorando o do outro trará muito pano pra manga pra essa história. Mas o livro traz momentos interessantíssimos de todos os personagens, cada um com seu teto de vidro, seu passado e seus segredos. Há uma mudança de ambiente na trama que fica entre Estados Unidos e a Inglaterra, criticando um pouco o estilo  dos americanos, talvez por influência indireta, ou não da autora.


Nos primeiros capítulos não senti nenhuma atração pelo livro, achei arrastado e político demais. Mas logo o interesse veio com tudo, me dei conta que tive uma visão prévia errada da obra. É um livro adulto, um romance adulto, com pessoas adultas vivendo uma vida difícil e adulta. Nada de draminhas ou cenas hot para apimentar a parte romântica. Existem dramas familiares, políticos, tragédias e amores não correspondidos. 
Só de pensar que quase abandonei essa leitura chega dá um aperto no coração rsrs. O livro é totalmente envolvente, os personagens são singulares e as reviravoltas na vida de Caro e envolvidos são um prato cheio! Uma leitura madura e rica para minha experiência literária. A narrativa é elegante e sagaz ao mesmo tempo, faz o leitor suspirar quando vê que a vida não deixa as coisas darem certo e faz suspirar mais forte ainda quando você vê que dá certo sim! 










segunda-feira, 9 de julho de 2018

Shirley Hazzard / O Trânsito de Vênus

Shirley Hazzard

Shirley Hazzard
O Trânsito de Vênus

POR EULER DE FRANÇA BELÉM

Shirley Hazzard sugere, em romance notável, que acaso decide a vida das pessoas



Como em certos romances de Henry James, “O Trânsito de Vênus” exibe personagens ambivalentes, limítrofes entre o bem e o mal, mas a leveza da australiana a diferencia do autor de “A Taça de Ouro”
“O Trânsito de Vênus” (Companhia das Le­tras, 476 páginas, tradução de Sonia Coutinho), da escritora australiana Shirley Hazzard (1931-2016), é uma obra-prima — dessas que, se ficar atento apenas às modas, o leitor deixa passar batido. O romance parece despretensioso e, aqui e ali, é mesmo parecido com algumas das ficções do americano Henry James, como “A Taça de Ouro”, “As Asas da Pomba” e “Retrato de uma Senhora”, sobretudo na questão da trama intrincada, com pistas plantadas (às vezes, de maneira enganadora; uma delas sobre o suicídio de Ted Tice. O leitor precisa ficar atento à ideia de vidas entrelaçadas, por exemplo as de Paul Ivory, Ted Tice e Caro Bell) para iluminar mas que, no geral, confundem e, até, iludem o leitor. Outra aproximação é a ambiguidade das personagens — nem sempre inteiramente boas, nem sempre inteiramente más; entretanto, sempre complexas, flertando com várias possibilidades. Há personagens que são boas, querem fazer o bem, mas submetem-se às pressões do mal, ainda que não sucumbam e não sejam totalmente omissas. “A verdade tem vida própria” — é o que se diz. “Nossos melhores instintos não são mais confiáveis do que a lei, nem mais consistentes. Quando vivemos essencialmente dentro da sociedade, há ocasiões em que preferimos depender da fórmula social — e descobrimos que, de alguma forma, arruinamos a possibilidade de agir conforme nosso próprio juízo. Nós nos desqualificamos por julgar os outros segundo as regras sociais”, anota Ted Tice, uma das vítimas da história, se se pode dizer assim — talvez não seja possível, porque, no romance, os indivíduos são sujeitos (mais do que seres passivos) de seus sucessos e desgraças. Como Henry James, Shirley Hazzard tem um olho clínico para os detalhes, realçando como uma roupa ou uma caneta diferentes, “novas”, começam a mudar o tempo, a moldar um novo tempo.
O que diferencia os dois autores é a leveza de Shirley Hazzard, que conta histórias terríveis, de um trágico exacerbado (as cenas sobre relações sexuais são imaginativas. O erotismo corre e escorre pelas palavras e frases, sem excessos, o que não é o mesmo que pura contenção ou moralismo disfarçado — é refinamento da linguagem. Ted Tice sublinha: “Beleza é a palavra proibida de nosso tempo, como sexo era para os vitorianos. Mas sem o mesmo poder de se reafirmar”), como se estivesse apenas expondo, sem condenar personagens. É provável que, como Machado de Assis, deixe os julgamentos, sobretudo os morais, para os leitores, até para que se sintam responsáveis por alguma coisa. O dramaturgo Paul Ivory é um grande personagem — ao estilo de Raskólnikov, de Fiódor Dostoiévski —, de caráter maligno e superficial (nos relacionamentos), mas cativante. Porém, a história não o põe na porta de uma delegacia ou à frente de um juiz. A doença de um filho talvez seja a única condenação. Se é.





Shirley Hazzard
Shirley Hazzard, que faleceu em dezembro, aos 85 anos, constrói personagens e histórias fascinantes, que mudam o seu tempo e são mudadas
por seu tempo, numa espécie de jogo dialético

Há personagens de primeira linha no romance, mas os centrais são Caroline Bell, a Caro, e Edmund Tice, o Ted. Este, um cientista celebrado (pobre que vence pelo talento), às vezes ecoa Shirley Hazzard e fica maior no final, de maneira surpreendente — assim como o fecho (se há uma conclusão) da história de Paul Ivory, de complexa vida dupla, deixa o leitor estupefato. Há uma notável reviravolta, que sugere que as vidas das pessoas ficaram inteiramente “ajustadas”, se o romance fosse prosaico, tradicional, o que não é. “Talvez o elemento da coincidência seja pouco enfatizado na literatura porque parece um engodo, ou porque não se consegue torná-lo verossímil. Mas a vida, em si, não precisa ser justa nem convincente”, afirma Ted Tice, como se sintetizasse a história ou as histórias do romance.
Há um enredo básico, que o narrador — às vezes suspeito — vai destrinchando aos poucos, confrontando e conectando as personagens e suas vidas. O leitor perceberá que há sempre um livro na história, nas mãos das pessoas (as notas sobre escritores e poemas da excelente tradutora são seminais). Há o livro dentro do livro, discussão sobre a literatura (há quem culpe a literatura por sua desventura). Thomas Hardy, Yeats e Keats são mencionados, ou melhor, sua arte. Há uma celebração da alta literaturam, mas sem pedanteria.





O trânsito de Vênus
Um romance brilhante precisa de personagens notáveis, como Ted Tice e Caro Bell, mas é a forma como a australiana Shirley Hazzard conta a história, notando a falta de linearidade da vida, seu caráter imprevisível, que torna “O Trânsito de Vênus” uma obra-prima

Caro e Grace Bell são irmãs. Os pais morreram num naufrágio, na Austrália. Quando crescem, vão para Londres, em companhia da mal humorada e trágica Dora. Na Inglaterra, conhecem a família Thrale. Christian Thrale apaixona-se por Grace. Caro, mais independente, aprecia mas não ama Ted Tice. Este, conversando com ela, admite: “Nada é menos atraente do que amor não desejado”. Quem interessa à belíssima e enigmática Caro, uma rebelde que não parece rebelde — porque é rebelde nas ações, não na fala —, é outro jovem, Paul Ivory, um homem bonito e inteligente, filho de um poeta, Rex Ivory, e que parece não amar nenhuma outra pessoa. No final do romance, quando decide transformar Caro numa espécie de (psic)analista, admite: “É poder falar que levanta a pessoa. Ou acaba com ela”. Adiante, Caro lhe diz: “À medida que o tempo vai passando a pessoa se revela, muitas vezes deliberadamente”.
Paul Ivory “prefere” não amar Caro, mas gosta de ficar ao seu lado e os dois se dão bem. Mas, entre a plebeia de espírito nobre, Caro, e a nobre de espírito mundano, Tertia Drage, o ambicioso Paul Ivory (que esconde duas coisas — uma sobre sua sexualidade e outra sobre um crime) escolhe as convenções. Caro, ao contrário, ama Paul Ivory, que a abandona.
Solitária, trabalhando numa repartição pública modorrenta (lá, um dia, a funcionária Valda Fenchurch se recusa “a preparar chá ou providenciar sanduíches” para os homens. O chefe, o sr. Leadbetter, questiona Caro, que diz: “As pessoas em geral precisam que lhes mostrem que uma coisa é inadequada. No início só uma pessoa costuma fazê-lo”), Caro conhece o viúvo Adam Vail, um homem rico e defensor de perseguidos políticos de um país da América do Sul. Ao visitar o país, Caro encanta-se com a vida e a poesia de um poeta que, preso e torturado, acaba morrendo nos calabouços da ditadura. Ela se torna tradutora de sua poesia. O poeta lhe disse certa vez: “Em qualquer grupo, há chefes e seguidores. Mesmo o lado certo não gosta de um homem que permanece sozinho”.
Adam Vail morre e Caro volta a ficar só mais uma vez, e permanece amada por Ted Tice. Há encontros e desencontros e a morte permeia as histórias. Grace, que não é dada à filosofia, diz para Caro, a irmã querida e tão diferente (uma, Caro, experimenta mais a diversidade da vida): “Primeiro há alguma coisa que você espera da vida. Mais tarde há o que a vida espera de você. Quando percebemos que as duas são a mesma coisa, talvez seja tarde demais para expectativas” (seu casamento com o maçante Christian, se não é dos piores, porque há amor, é conformista; ela gosta de um médico, mas não se atreve a ficar com ele, que a ama). O narrador espicha: “O que somos, não o que seremos. São a mesma coisa”. O narrador, que nem sempre tem o controle do que o romance conta, dada a vitalidade da voz das personagens, assinala: “A morte podia, muito facilmente, tornar os vivos errados, por mais certos que estivessem”. A mestria poética de Shirley Hazzard aparece num trecho como este: “A dor tinha um olho de pintor, atribuindo significados arbitrários ao acaso — como Deus”.





Shirley Hazzard
Shirley Hazzard, no início da vida de escritora

Escrever bem é uma obrigação de todo escritor. Mas o segredo de Shirley Hazzard não é apenas escrever bem, ser artífice de frases perfeitas, ser capaz de escrever uma história não (exatamente) linear, mas, ainda assim, com começo, meio e fim. Seu segredo é a mestria como relata as histórias, como as conecta, mas deixando espaços vazios, porque a vida, como assinala, não é exata, não é planejável nos mínimos detalhes. Aos indivíduos cabem escolhas, podem e devem traçar certos caminhos, mas há o imprevisível, o acaso. Os “fatos” dependem deles, mas não inteiramente (controle é quase uma fantasia). Caro Bell e Ted Tice (“reais e fictícios”), grandes figuras, fizeram escolhas, levaram suas vidas para determinados sendeiros, mas também foram jogados de um lado para o outro pelas contradições do verdadeiro terremoto que é a realidade, a vida. O final — ou finais — do romance “engana” o leitor. Há uma beleza na prosa de Shirley Hazzard que, de tão perspicaz e bem elaborada, aturde. Finalmente, outra diferença em relação a Henry James: a autora australiana é, quem sabe, mais filosófica. Só não parece porque não é “didática”, quer dizer, professoral. Sua prosa filosófica soa natural, como se fizesse, e faz, parte da vida. Há um mix de ceticismo e otimismo saudáveis. (O Ian McEwan do romance “Reparação” talvez tenha bebido em Shirley Hazzard.)
Há uma frase, à página 295, que parece um recado para o presidente Donald Trump: “Nosso grande medo secreto é que os Estados Unidos se revelem um fenômeno em vez de uma civilização”. O texto é da personagem Adam Vail, um milionário altruísta. O romance é de 1980.

Trechos-frases de “O Trânsito de Vênus”