sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Vargas Llosa / O preço da paz


Os bons artigos me agradam quase tanto quanto os bons livros. Sei que não são muito frequentes, mas não ocorre o mesmo com os livros? É preciso ler muitos até encontrar, de repente, aquela obra-prima que ficará gravada em nossa memória, onde irá crescendo com o tempo. O artigo que Héctor Abad Faciolince publicou no EL PAÍS em 3 de setembro (Já não me sinto vítima), explicando as razões pelas quais votará “sim” no plebiscito em que os colombianos decidirão se aceitam ou rejeitam o acordo de paz do Governo de Santos com as FARC, é uma dessas raridades que ajudam a ver claro onde tudo parecia borrado. A impressão que me causou me acompanhará por muito tempo.
Abad Faciolince conta uma trágica história familiar. Seu pai foi assassinado pelos paramilitares – ele transformou aquele drama em um livro memorável: El olvido que seremos (o esquecimento que seremos) –, e o marido de sua irmã foi sequestrado duas vezes pelas FARC, para lhe arrancarem dinheiro. Na segunda vez, os compreensivos sequestradores até mesmo lhe permitiram pagar seu resgate em confortáveis parcelas mensais ao longo de três anos. Compreensivelmente, este senhor votará “não” no plebiscito. “Não sou contra a paz”, explicou ele a Héctor, “mas quero que esses sujeitos paguem com pelo menos dois anos na cadeia”. Causa-lhe indignação que o custo da paz seja a impunidade para quem cometeu crimes horrendos dos quais foram vítimas centenas de milhares de famílias colombianas.


Mas Héctor, entretanto, votará “sim”. Acha que, por mais alto que pareça, é preciso pagar esse preço para que, depois de mais de meio século, os colombianos possam enfim viver como pessoas civilizadas, sem continuar matando uns aos outros. Do contrário, a guerra prosseguirá de modo indefinido, ensanguentando o país, corrompendo suas autoridades, semeando a insegurança e a desesperança em todos os lares. Porque, depois de mais de meio século de tentativas, para ele ficou demonstrado que é um sonho acreditar que o Estado pode derrotar de maneira total os insurgentes e levá-los aos tribunais e à prisão. O Governo de Álvaro Uribe fez o impossível para conseguir isso e, embora lograsse reduzir os efetivos das FARC à metade (de 20.000 para 10.000 homens em armas), a guerrilha continua aí, viva e fustigando, assassinando, sequestrando, alimentando-se do e alimentando o narcotráfico, e, sobretudo, frustrando o futuro do país. É preciso acabar com isso de uma vez.
O acordo de paz funcionará? A única maneira de saber é colocando-o em marcha, fazendo todo o possível para que o acordado em Havana, por mais difícil que seja para as vítimas e suas famílias, abra uma era de paz e convivência entre os colombianos. Assim foi feito na Irlanda do Norte, por exemplo, e outrora ferozes inimigos agora, em vez de balas e bombas, trocam argumentos e descobrem que, graças a essa convivência que parecia impossível, a vida é mais vivível e, graças aos acordos de paz entre católicos e protestantes, se iniciou uma era de progresso material para o país, que, infelizmente, o estúpido Brexit ameaça mandar ao diabo. Também se fez do mesmo modo em El Salvador e na Guatemala, e desde então salvadorenhos e guatemaltecos vivem em paz.

A romântica revolução dos barbudos serviu para que milhares de jovens latino-americanos se sacrificassem inutilmente

Os ares da época já não estão para as aventuras guerrilheiras que, nos anos sessenta, só serviram para encher a América Latina de ditaduras militares sanguinárias e corrompidas até a medula dos ossos. Empenhar-se em imitar o modelo cubano, a romântica revolução dos barbudos, serviu para que milhares de jovens latino-americanos se sacrificassem inutilmente e para que a violência – e a pobreza, claro – se espalhasse e causasse mais estragos do que aquela que os países latino-americanos arrastavam fazia séculos. A lição nos foi educando pouco a pouco, e é por isso que hoje há, de um confim a outro da América Latina, consensos amplos em favor da democracia, da coexistência pacífica e da legalidade, ou seja, uma rejeição quase unânime das ditaduras, das rebeliões armadas e das utopias revolucionárias que mergulham os países na corrupção, na opressão e na ruína (leia-se Venezuela).
A exceção é a Colômbia, onde as FARC demonstraram – creio que, sobretudo, por causa do narcotráfico, fonte inesgotável de recursos para provê-las de armas – uma notável capacidade de sobrevivência. Trata-se de um anacronismo flagrante, pois o modelo revolucionário, o paraíso marxista-leninista, é uma enteléquia na qual ainda acreditam somente grupelhos de obtusos ideológicos, cegos e surdos para os fracassos do coletivismo despótico, como testemunham seus dois últimos tenazes supérstites, Cuba e Coreia do Norte. O surpreendente é que, apesar da violência política, a Colômbia seja um dos países com uma das economias mais prósperas na América Latina e onde a guerra civil não desmantelou o Estado de Direito e a legalidade, pois as instituições civis, ainda que mal, continuam funcionando. E é certo que um incentivo importante para que os acordos de paz se concretizem é o desenvolvimento econômico, que, sem dúvida, trarão consigo, certamente em curto prazo.

O modelo revolucionário é uma enteléquia na qual ainda acreditam somente grupelhos de obtusos ideológicos

Héctor Abad diz que essa perspectiva estimulante justifica que se deixe de olhar para trás e se renuncie a uma justiça retrospectiva, pois, caso contrário, a insegurança e a sangria continuarão sem fim. Basta que se saiba a verdade, que os criminosos reconheçam seus crimes, de modo que o horror do passado não volte a se repetir e fique aí, como um pesadelo que o tempo irá dissolvendo até desaparecer. Não há dúvida de que existe um risco, mas qual é a alternativa? E, ao seu ex-cunhado, faz a seguinte pergunta: “Não é melhor um país onde os seus próprios sequestradores estejam livres fazendo política em vez de um país em que esses mesmos sujeitos estejam perto da sua propriedade, ameaçando os seus filhos, meus sobrinhos, e os filhos dos seus filhos, seus netos?”.
A resposta é sim. Eu não tinha isso tão claro antes de ler o artigo de Héctor Abad Faciolince, e muitas vezes me disse nestas últimas semanas: que sorte não ter que votar nesse plebiscito, pois, de verdade, me sentia sendo repuxado entre o “sim” e o “não”. Mas as razões deste magnífico escritor, que é também um cidadão sensato e íntegro, me convenceram. Se fosse colombiano e pudesse votar, eu também votaria no “sim”.




quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Vargas Llosa / Fernando de Szyszlo


Fernando de Szyszlo

A Vida Sem Dono

Um sopro de liberdade permeia as memórias do grande pintor Fernando de Szyszlo, que ficou no Peru quando Nova York e Paris decidiam os prestígios artísticos

MARIO VARGAS LLOSA
14 / 12 / 2016 - 17:00 COT


As memórias publicadas por Fernando de Szyszlo são tão belas como o título de seu livro: A Vida Sem Dono (sem tradução no Brasil). Um sopro de liberdade permeia, de fato, todas essas páginas em que evoca sua vida, sem eufemismos, desplantes nem censuras, com franqueza, inteligência e lucidez. Sua palavra guia o leitor por uma rica experiência de nove décadas, na qual sua vocação de pintor e a pintura são protagonistas e, com elas, os grandes artistas e intelectuais que conheceu e frequentou na Europa e na América, muitos somente no início, além da cultura e da política peruanas no último século, de sua vida pública e privada, as alegrias e desgraças, as esperanças, as frustrações e os amores apaixonados – três, exatamente – que iluminaram essa longa existência.
Szyszlo é um dos grandes pintores de nosso tempo e teria sido mais conhecido do que é se, como fizeram muitos artistas latino-americanos – Lam, Matta, Botero e outros – tivesse ficado nos Estados Unidos ou na Europa, numa época em que Paris e Nova York decidiam os prestígios artísticos. Mas ele preferiu voltar ao limbo que era então o Peru, culturalmente falando, porque, assim como outro companheiro de sua geração do qual fala com carinho em seu livro, o poeta e dramaturgo Sebastián Salazar Bondy, precisava fisicamente da presença de seu país ao redor, embora fosse só para enfrentar rotineiramente tudo o que estava mal e o irritava em si mesmo. Essa foi sua maneira de viver, de criar, esforçando-se não apenas para atingir cada vez maiores níveis de originalidade e perfeição na sua arte, mas também para tentar tirar a cultura e a vida cívica que o circundavam do subdesenvolvimento, do provincianismo, do isolamento. Antes que Sartre desenvolvesse a ideia do “compromisso”, Szyszlo já era um artista comprometido até a medula. Dedicou-se a essa batalha ao longo de toda a sua vida e, de certa forma, venceu, mas o extraordinário é que continue lutando, incansável, exigindo de si mesmo como se estivesse começando em todas as horas que passa diariamente em seu ateliê – com discos de música clássica ensurdecendo o ambiente – e pronunciando-se sem cessar em cartas, reportagens e artigos sobre todos os grandes temas da atualidade, com uma coerência sem censura a favor da democracia, da liberdade, dos direitos humanos, de uma arte e de uma cultura sem fronteiras nem armadilhas, sem complexos de superioridade nem de inferioridade, demonstrando, com a sua própria obra, que a arte pré-hispânica pode fundir-se com as mais ricas descobertas da modernidade plástica e alcançar a universalidade sem cair no pitoresco ou num costumbrismo que não leve em conta a realidade ao redor.
Fernando de Szyszlo y Vargas Llosa

Szyszlo foi o primeiro artista abstrato do Peru, e sua primeira mostra provocou uma explosão de vozes críticas. Quando se tornou famoso internacionalmente, um grupo de empresários peruanos, vendo que havia um museu dedicado a Tamayo no México e que até mesmo Guayasamín tinha seu próprio museu no Equador, quis auspiciar um Museu Szyszlo no Peru. Um manifesto de dezenas de pintores peruanos, que destilava inveja sulfúrica, protestou. Szyszlo recorda aquele episódio, em que abriu mão imediatamente do projeto, com certa pena, só porque, entre os signatários daquele texto, havia um discípulo que apreciava e promovera. É uma pequena história sem importância que ilustra muito bem aquela afirmação do escritor Inca Garcilaso de la Vega, que amava o Peru tanto como Szyszlo, mas chamava sua terra natal de “madrasta dos seus filhos”.
Quem conhece Szyszlo sabe que ele, ao contrário de outros bons pintores, que pintam só com as mãos (e o fazem muito bem), é um homem muito culto, sobretudo em literatura, grande leitor de poesia, e que entre as influências que recebeu, além da de artistas como Hartung, Rothko e Tamayo, ele também menciona Octavio Paz, José María Arguedas e André Breton. Suas leituras incluem Thomas Mann, Paul Valéry e –sobretudo –Proust, a quem costuma citar, com frequência de cor. Sempre se importou com as ideias tanto como os objetos estéticos e, por isso, as perguntas que dedica ao seu trabalho de pintor estão entre as mais sedutoras e originais de seu livro.
Não é frequente que um pintor explique, com tanta pertinência, a maneira como vai forjando cada quadro, o pequeno esquema, traço, linha ou figura que desencadeia o processo, a intensidade de emoções que lhe produz essa aventura cotidiana, a suspeita de que tudo aquilo vem das profundezas do subconsciente, o entusiasmo com que trabalha e, logo em seguida, diz, a derrota inevitável, a comprovação de que o que foi alcançado no quadro terminado está sempre aquém do quadro concebido como ideia, tentando dar-lhe forma todos os dias, sucessivamente, sabendo que é impossível, pois a absoluta perfeição é um demônio acelerado que um criador nunca alcança.

Já era um artista comprometido antes de que Sartre desenvolvesse a ideia do “compromisso”

Szyszlo é o melhor amigo que tenho, o mais recordado e de quem mais tenho saudade, e eu achava que o conhecia bem, mas suas memórias me revelaram que, sob essa sobriedade tão austera – que ele chama de timidez –, há uma personalidade menos firme do que parecia, mais delicada e vulnerável, na qual as traições e decepções – que, evidentemente, reflete também em seu trabalho – deixam uma pegada profunda, como a mítica paixão frustrada de sua juventude, ocultada sob o pseudônimo de Laura, e que descreve suas memórias com uma elegância que não consegue dissimular que, apesar do decorrer de tantos anos, existe uma ferida que ainda sangra.
A morte de seu filho Lorenzo, em um acidente de avião, afetou-o terrivelmente, dividindo sua vida em um antes e um depois. E, embora todos os que o conhecemos soubéssemos disso, agora, depois das páginas lancinantes com que evoca essa tragédia, sabemos melhor, e também sabemos que nunca haverá cura para essa ausência que o fez conhecer de perto aquela “boca da sombra” que tanto o havia intrigado desde que, pela primeira vez, encontrou-se com essa expressão em um livro, sem saber o que queria dizer e de onde vinha, para descobrir, após dois anos, e em circunstâncias atrozes, que havia sido inventada por Victor Hugo e que era outra das tantas metáforas que os seres humanos fabricam para não chamar a morte pelo nome.
É bom viver os 91 anos que Szyszlo viveu se o fazemos como ele fez, mantendo-se sempre ativo e beligerante, trabalhando sem trégua na busca daquele sonho impossível, do quadro perfeito, fiel sempre a um punhado de princípios – lealdade, amizade, verdade, liberdade, amor – que lhe deram, tanto como seu talento criativo, a autoridade moral de que goza em seu país, assim como o apreço e a admiração de tanta gente. Embora seja de poucas palavras e hesite em remexer em sua intimidade, mesmo que em pequenos grupos seja o mais ameno e divertido, em A Vida Sem Dono revela muitas coisas íntimas – também o faz Lila, sua mulher, numa carta deliciosa presente entre aquelas páginas –, consciente de que um livro de memórias só tem razão de ser se for escrito (ou ditado, como parece ser o caso, pelo menos de parte deste) seriamente, com o mesmo arrojo e audácia com que um genuíno criador escreve um poema, compõe uma sinfonia ou pinta um quadro. Seu livro é lido com prazer e, por vezes, com a mesma nostalgia com que ele evoca tantas coisas que foram e já não são mais, e tantas pessoas que agora aparecem como recordações que os dias vão aos poucos apagando e, também, em cada página, até as mais dolorosas, essa convicção profunda de que a vida, apesar de poder ser tão ingrata, é também a coisa mais maravilhosa que nos aconteceu e, por isso, devemos aproveitá-la até a última gota.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Vargas Llosa: “A história não absolverá Fidel Castro”

Fidel Castro e Raúl Castro

Vargas Llosa: “A história não absolverá Fidel Castro”


Grandes escritores latino-americanos analisam a morte do líder cubano para o EL PAÍS


JUAN CRUZ
JAN MARTÍNEZ AHRENS
JAVIER RODRÍGUEZ MARCOS

Cidade do México 28 NOV 2016 - 08:35 COT

“A história não absolverá Fidel Castro.” O prêmio Nobel Mario Vargas Llosa o diz cheio de surpresa. Conheceu bem Fidel porque acreditou na revolução. Tinha acabado de saber, pelo EL PAÍS, da morte do líder cubano. Eram oito horas da manhã de sábado em Guadalajara (México). O escritor peruano pediu um tempo para refletir sobre o artigo que escreverá para este jornal, mas avançou uma opinião ainda sem ter se recuperado de uma notícia que está no centro de todas as conversas entre escritores e editores presentes à Feira Internacional do Livro de Guadalajara, a mais importante do mundo em espanhol.
Vargas Llosa ainda está usando roupa de ginástica. Fez um pouco de esporte antes de participar da homenagem que será prestada pelos seus 80 anos. “Sou o último sobrevivente do boom da literatura hispano-americana”, ri o escritor antes de tomar um gole de café com um pouco leite e lançar sua primeira reflexão. “Espero que essa morte abra um período de abertura, tolerância, democratização em Cuba. A história fará um balanço destes 55 anos que acabam agora com a morte do ditador cubano. Ele disse que a história o absolverá. E eu tenho certeza que a história não absolverá Fidel”.
Vargas Llosa foi um dos intelectuais latino-americanos que viram na Revolução Cubana uma luz democratizadora. Chegou a fazer parte do grupo de escritores que visitavam Castro, mas logo se decepcionou. A perseguição aos dissidentes o horrorizou. Havia represálias, lembra o Nobel, não apenas pelas ideias políticas, mas também pela orientação sexual: mesmo que fossem partidários do regime, “Castro chamava os homossexuais de enfermitos (doentinhos)”.
Héctor Abad Faciolince. “Sem Fidel, o boom teria tido outras proporções. Alguém poderia hesitar se os escritores eram parasitas da revolução ou se a revolução era parasita dos escritores. Ao contrário, houve uma simbiose que funcionou nos anos sessenta, enquanto intelectuais franceses como Jean-Paul Sartre se aproximaram dessa árvore e dessa sombra”, afirma o escritor colombiano, de 58 anos. “Mas houve uma ruptura e foi quando a revolução pediu que Vargas Llosa doasse o montante do Prêmio Rómulo Gallegos, obtido por A Casa Verde, e prometeu-lhe que seria reembolsado secretamente. Aí se viu a capacidade de corrupção da política. Com Vargas Llosa não funcionou para eles”, conclui o autor de Somos o Esquecimento que Seremos.
Nélida Piñón. “Fidel acabou há muito tempo. Na verdade, foi o fim de uma utopia inatingível”, diz a escritora brasileira, de 79 anos. “Eu o conheci. Ele era um homem que falava, falava e falava, prolongava as histórias sem deixar que o outro dissesse nada”, ri Piñón, para quem o líder cubano está cheio de sombras: “Impôs o terror, perseguiu os gays, encheu as prisões”. E as coisas boas? “Que foi um construtor de utopias, de sonhos. Mas faz muito tempo que sua história terminou. Isso acontece com todos os heróis: não resistem ao seu próprio heroísmo”.
Enrique Krauze. O grande historiador mexicano, de 69 anos, não lamenta absolutamente a morte de Fidel. “Agora o mundo será menos ruim. Foi o ditador mais longevo da história latino-americana e nunca tive sentimentos por ele”, diz. Para o autor de Siglo de Caudillos (Século de Caudilhos), a morte abre a possibilidade de uma abertura, especialmente na área econômica, o grande calcanhar de Aquiles do regime. “Donald Trump verá com bons olhos que Cuba caminhe em direção ao capitalismo, mas para ele dará no mesmo que continue sendo uma ditadura”, conclui.
Sergio Ramírez. Para o escritor e ex-vice-presidente da Nicarágua, a intolerância de Fidel ficou clara quando ele decidiu obrigar o poeta Heberto Padilla a fazer uma autocrítica stalinista para um livro que o regime tinha apontado como indesejável. “Então o terror se manteve, veio a perseguição aos intelectuais, aos homossexuais. Acabou em seguida com a primavera cultural cubana, instaurou a ideia de que se estava com ele ou contra ele”, afirma Ramírez, de 74 anos.
Juan Villoro. Surpresa, mas nenhuma tristeza. Irônico, o escritor e pensador mexicano lembra que Fidel chegou a adquirir a condição de líder eterno. “Nós o considerávamos imortal, mas no final vimos que era humano”. Para Villoro, de 60 anos, a morte de Castro fecha um ciclo que estava esgotado havia muito tempo. “Tenho a idade da Revolução Cubana e envelhecemos juntos. Foi a depositária de muitos ideais de justiça social, mas ela mesma foi traindo esses ideais. As razões são variadas, mas foram decisivos os seus próprios erros e a perseguição aos dissidentes. Minha maior decepção foi o fuzilamento do general Arnaldo Ochoa”, afirma.
Daniel Divinski. “Fidel foi um ponto de inflexão na história da América Latina, mais além dos excessos posteriores... O pior? O avassalamento dos direitos humanos, a perseguição de pessoas que não eram contra a revolução, mas que queriam reformas, e não derrubá-lo”. Para o conhecido editor argentino, de 74 anos, não há herdeiros de Fidel. “Ele acaba em si mesmo. Nos últimos tempos, decepcionou muito. Como dizia Perón de si mesmo, já era um leão herbívoro. Surgirão outros, mas já não haverá uma liderança individual como a sua”.
Julio Ortega. “Fidel construiu um aparato cultural, mas paralisou a cultura. Produziu repressão e exílios, tudo se reduzia a defender a revolução. Ele decretava quem era o bom e o mau. E não houve só um caso Padilla, mas vários. Estamos agora em outra época e as coisas vão melhorar”, diz o crítico peruano.
Claudia Piñeiro. “Com a morte de Fidel, acabou o século XX”, sintetiza a escritora argentina.



domingo, 25 de dezembro de 2016

México utilizou armas químicas contra Emiliano Zapata



México utilizou armas químicas 

contra Emiliano Zapata

Estudo revela a guerra de extermínio que o Governo mexicano, apoiado pelos EUA, disparou há um século contra o revolucionário, com armas químicas, deportações e tortura em larga escala


JAN MARTÍNEZ AHRENS
Cidade do México 23 DEZ 2016 - 18:04 COT


Reza a lenda que Emiliano Zapata não morreu. É isso que a história demonstra todo dia. Quase 100 anos depois de seu assassinato, a figura do revolucionário, general comandante do Exército Libertador do Sul, continua a incendiar a imaginação dos mexicanos. Proletário, rebelde e muitas vezes visionário, Zapata (1879-1919) encarna como ninguém os ideais de uma época conturbada. Seus anos de luta e de glória são os de um país em guerra consigo mesmo. Uma época cruel, sobre a qual o México erigiu sua estrutura atual e da qual nem mesmo Zapata conseguiu escapar. Longe da visão adoçada deixada pela iconografia oficial, uma minuciosa pesquisa do historiador Francisco Pineda mostra como Zapata, um mito ainda quando vivo, foi perseguido ferozmente pelo regime de Venustiano Carranza (1859- 1920). Evidencia também como, para derrotá-lo, o Governo constitucionalista não hesitou em lançar uma guerra de extermínio. Armas químicas, torturas indiscriminadas e até a escravização de prisioneiros foram empregadas para dobrar um homem que nunca se pôs de joelhos.

“A Revolução Mexicana foi paradoxal e complexa. E há uma tentativa de certos setores de recuperar a obra de Carranza e tornar a Constituição, que completa 100 anos em 5 de fevereiro, símbolo de continuidade e estabilidade, o que não é verdade: o México é uma nação em permanente conflito, traumática e fascinante. Essa é a lição de Zapata”, explica o professor Carlos Marichal, pesquisador do Colégio do México.
A guerra de extermínio, sobre a qual poucas informações eram conhecidas, ilustra um dos momentos mais obscuros da Revolução Mexicana. Em 26 de setembro de 1915, já derrotado o general Victoriano Huerta, mas com o país em chamas, Carranza ordenou a um de seus homens de confiança, o general Pablo González, esmagar a Revolução do Sul, o movimento camponês de libertação liderado por Zapata.
Antes agricultor e cavalariço militar, o revolucionário tinha entrado na arena da história depois de liderar protestos agrários em Morelos e de se unir em 1910 ao levante de Francisco I. Madero, que começou a Revolução. Mas, lograda a vitória e tendo sido exilado o ditador Porfírio Díaz, Zapata traçou seu próprio rumo e se recusou a desmobilizar sua tropa. Para ele, a guerra tinha outro objetivo. Conseguir a coletivização das grandes fazendas e libertar milhares de camponeses de séculos de opressão latifundiária. E não só isso.

Com uma visão muito mais avançada que Pancho Villa e outros senhores da guerra, o sulista defendeu o direito de greve, o reconhecimento dos povos indígenas e a emancipação da mulher. Mas sua força não tinha raízes somente num programa político capaz de mandar pelos ares as convenções burguesas. Aquele camponês transformado em revolucionário tinha de um lado um exército disposto a morrer sob suas ordens e de outro milhares de agricultores aos quais tinha devolvido o pão e o orgulho. Não demorou muito para que fosse visto como o grande inimigo a ser batido pelo poder carrancista. A ofensiva foi implacável. “Para isso o Governo contou com a ajuda dos Estados Unidos. Carranza, em dezembro de 1914, dispunha de apenas 1.700 fuzis; em menos de um ano Washington lhe forneceu mais de 53.000”, destaca Pineda.

Com esse apoio Carranza e seu general puseram mãos à obra, e já em fevereiro de 1916 começaram a fabricar, com equipamento importado dos Estados Unidos, as granadas para o gás asfixiante com o qual queriam aniquilar os zapatistas. “É possível que tenham usado fosgênio, um veneno incolor e com cheiro de milho verde, cujos sintomas não são imediatos”, explica Pineda. Junto com o arsenal químico, os carrancistas esboçaram um plano de guerra seguindo os passos das sangrentas campanhas cubanas do general espanhol Valeriano Weyler. E ainda protegeram o Distrito Federal com uma linha de trincheiras de mais de 100 quilômetros e coletaram dados de inteligência, mediante o uso generalizado da tortura, para saber milimetricamente a localização e os movimentos do inimigo.
Em 12 de março de 1916 teve início a invasão. A máquina do terror foi liberada. Povoados foram incendiados, e as plantações, destruídas. Centenas de camponeses foram executados sumariamente, e milhares foram concentrados e deportados. “O objetivo era obrigar que os zapatistas cuidassem mais de sobreviver que de combater. Isso facilitava as ações de extermínio”, diz Pineda.
O primeiro golpe teve êxito. A estratégia de terra arrasada fez os zapatistas recuarem e devastou a população civil. Imensas colunas de mulheres, crianças e idosos percorriam os descampados em busca de comida. Quando não morriam de fome, eram mortos a balas. O terror os perseguia.

O alto comando carrancista afiou a foice. Ordenou deportações em massa para Yucatán e escravizou povoados inteiros em campos de trabalho. Quem tentava fugir era executado sem demora. O mesmo era feito com quem chegasse a menos de 60 metros de uma ferrovia ou andasse sem salvo-conduto por caminhos e trilhas ou simplesmente fosse suspeito de servir ao zapatismo. Não havia perdão para o inimigo.
Depois do recuo inicial, os zapatistas conseguiram reagrupar forças e desencadearam em julho sua contraofensiva. O espírito de uma revolução e o gênio militar de Zapata lhes abriram caminho. Os rebeldes se multiplicaram diante de tropas perplexas e excessivamente confiantes. O movimento se deu em todas as frentes. Caíram Tepoztlán e Santa Catarina. O general Pablo González respondeu endurecendo a repressão. O castigo sobre a população civil disparou. As garantias constitucionais foram suspensas em todo o território revolucionário. Morelos, Puebla, Guerrero, o Estado do México, Tlaxcala e parte de Hidalgo sentiram o jugo de Carranza. Mas nada disso bastou.
No início de 1917, Zapata conseguira expulsar de seu território o invasor. Começou então um período curto e intenso da insurreição zapatista. Em março, o líder proclamou “o governo do povo pelo povo”. Raivosamente antioligárquico, reabriu escolas, deu luz a novas formas de administração e reorganizou o Exército Libertador do Sul. Embora limitado aos confins meridionais, seu ideário era pura nitroglicerina: “Quando o camponês puder gritar ‘sou um homem livre, não tenho senhores, não dependo de mais do que meu trabalho’, então diremos os revolucionários que nossa missão foi concluída, então se poderá afirmar que todos os mexicanos têm pátria”, deixou escrito.
Como tantas coisas naqueles dias, sua declaração foi um marco e uma miragem. Os carrancistas, decididos a esmagar a revolta camponesa, logo voltaram à carga. No final de 1918 lançaram a segunda invasão. E dessa vez miraram em Zapata.
O coronel carrancista Jesús Guajardo foi enviado para matá-lo. Primeiro fez saber aos zapatistas que estava disposto a desertar e depois, como prova de confiança antes de se encontrar com o líder revolucionário, fuzilou 50 soldados federais.

Ambos combinaram de se reunir em 10 de abril de 1919 na Fazenda Chinameca, em Morelos. Quando Zapata cruzou a entrada, a traição se abateu sobre ele. Embora tenha conseguido sacar seu revólver, não pôde apertar o gatilho. Sete balas acabaram antes com ele. Seu cadáver foi levado no mesmo dia para o general Pablo González e exibido em público. O traidor Guajardo foi promovido. Com o tempo caiu no esquecimento. Zapata, enterrado e pranteado como poucos no México, continua vivo desde então.

TUDO SOBRE O REVOLUCIONÁRIO

A figura de Emiliano Zapata nunca descansa. Carismático e revolucionário, sua imagem faz parte da iconografia do México. E também do debate. Antecessor das insurreições que ao longo do século 20 sacudiram o país, Zapata é objeto de atenção por parte dos historiadores. Seu estudo tem a participação decidida do Colégio do México (Colmex), uma das instituições universitárias de elite da América Latina. Em novembro, o Colmex organizou uma exposição sobre Zapata e intensas jornadas de revisão, nas quais se tratou desde a validade de seu legado até a pouco conhecida ofensiva carrancista. Esse esforço se uniu à criação de um site interativo, chamado Rostos do Zapatismo, no qual se pode ter acesso direto ao seu arquivo digitalizado e aos registros sonoros de testemunhas da revolução.