segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

“Quando penso em você…”/ conheça a polêmica de plágio que envolve Cecília Meireles e Raimundo Fagner

Cecìlia Meireles

“Quando penso em você…”: conheça a polêmica de plágio que envolve Cecília Meireles e Raimundo Fagner



fagner
Raimundo Fagner lançou “Canteiros” em 1973, mas só incluiu Cecília Meireles como coautora quatro anos mais tarde
“Quando penso em vocêêêê, fecho os olhos de saudaaaade…” Se você nunca sentiu uma dorzinha de cotovelo ao ouvir Fagner interpretando Canteiros, sorte a sua. Se sentiu, pense duas vezes antes de colocar a culpa no cantor e compositor cearense. É que esse verso (e os seguintes), na verdade, não foi exatamente uma criação dele. A estrofe em questão é inspirada no poema Marcha, escrito por Cecília Meireles. A autora carioca, aliás, estaria completando 113 anos nesta sexta-feira, 07 de novembro.
Explicando: Fagner lançou Canteiros em 1973, como faixa do seu disco de estreia. Este não fez muito sucesso e acabou sendo retirado do comércio. No entanto, com o sucesso posterior da canção Revelação, o LP foi redescoberto e aquela música tornou-se um hit. Pouco antes disso, em 1977, o cantor havia registrado Cecília Meireles como coautora da letra, o que, no entanto, não impediu uma ação judicial movida pelas filhas da poetisa.
Em 06 de novembro de 1979, um dia antes da data de aniversário de Cecília, Fagner admitiu, em juízo, que havia tentado fazer uma adaptação do poema Marcha. Em 1983, as filhas da poetisa venceram a ação judicial, cabendo ao cantor, às Edições Saturno e às gravadoras Polygram, Polystar, Polifar o pagamento de uma indenização de 101 mil cruzeiros, por violação de direitos autorais. A Polygram, entretanto, continuou resistindo e apelou ao Supremo Tribunal Federal.
vida-cecilia
Cecília Meireles
O litígio se arrastou até 1999, quando a gravadora Sony Music fez um acordo com as herdeiras de Cecília Meireles, envolvendo a regravação da música Canteiros, no primeiro álbum ao vivo de Raimundo Fagner, que viria a ser lançado no ano seguinte.

https://www.youtube.com/watch?v=yxWbSk7yGO0
Já que tudo acabou bem, vamos aproveitar a música de Fagner e a lírica de Cecília Meireles, reconhecendo o melhor de cada um. Confira o poema Marcha e o vídeo de Canteiros a seguir.
Quando penso no teu rosto, fecho os olhos de saudade
Tenho visto muita coisa, menos a felicidade
Soltam-se meus dedos tristes
Dos sonhos claros que invento
Nem aquilo que imagino
Já me dá contentamento
.
Gosto da minha palavra pelo sabor que me deste
Mesmo quando é linda, amarga
Como qualquer fruto agreste.
Mesmo assim amarga, é tudo que tenho
Entre o sol e o vento.
Meu vestido, minha música,
Meu sonho, meu alimento


domingo, 17 de dezembro de 2017

Cecília Meireles / Retrato



Cecília Meireles
RETRATO

https://www.youtube.com/watch?v=KUpZbGqrtNQ

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?





Cecília Meireles / Dez fatos e curiosidades sobre sua vida e obra
Cecília Meireles / Retrato
“Quando penso em você…”/ conheça a polêmica de plágio que envolve Cecília Meireles e Raimundo Fagner



sábado, 16 de dezembro de 2017

Cecília Meireles / Dez fatos e curiosidades sobre sua vida e obra


Cecília Meireles
Dez fatos e curiosidades sobre sua vida e obra
10. Cecília Meireles nasceu em 7 de novembro de 1901, no Rio de Janeiro. Foi a única dos quatro filhos da família que sobreviveu. Aos três meses de idade, perdeu o pai e, aos 3 anos, a mãe. Passou a ser criada, então, pela avó, Jacinta Garcia Benevides. A sucessão de mortes foi contemplada pela autora, como um canal que a aproximou do “efêmero” e do “eterno”.
9. Em 1917, Cecília começou a exercer o magistério, no Rio de Janeiro. Dois anos mais tarde, lançou o seu primeiro livro de poesia, intitulado Espectro.
8. Em 1922, casou-se com o pintor português Fernando Correia Dias. Juntos, tiveram três filhas. Treze anos depois, no entanto, o marido cometeu suicídio. Em 1940, Cecília formalizou um novo relacionamento, com o professor e engenheiro agrônomo Heitor Vinícius da Silveira Grilo.
7. Com forte atuação na defesa da educação, Cecília foi a responsável por organizar a primeira biblioteca infantil do Rio de Janeiro, em 1934. Também apresentou palestras, inclusive no exterior, sobre literatura brasileira, escreveu colunas em jornais, atuou em programas culturais de rádio e ensinou na Universidade do Distrito Federal, então localizada no Rio, e do Texas, nos Estados Unidos. Aposentou-se como diretora de escola, em 1951.
6. Em 1939, graças ao livro Viagem, a autora foi homenageada pela Academia Brasileira de Letras, com o Prêmio de Poesia Olavo Bilac. Outras honrarias recebidas foram a Ordem de Mérito do Chile e os títulos de sócia honorária do Real Gabinete Português de Leitura e do Instituto Vasco da Gama (Índia), além de Doutora Honoris Causa pela Universidade de Délhi.
5. Em 1962, ganhou o Prêmio de Tradução/Teatro, da Associação Paulista de Críticos de Arte. Graças a essa mesma habilidade, no ano seguinte, conquistou o Prêmio Jabuti de Tradução de Obra Literária, pelo livro Poemas de Israel. Tais honrarias devem-se a trabalhos de Cecília Meireles com peças teatrais de Federico Garcia Lorca, Rainer Rilke, Virginia Wolf e Rabindranath Tagore.
4. Na poesia, gênero pelo qual é mais conhecida, Cecília esteve ligada, sobretudo, ao movimento modernista. Entre suas principais obras, está Romanceiro da Inconfidência, coletânea de poemas publicada em 1953, que retrata a história de Minas Gerais, desde a colonização até a Inconfidência Mineira, no século 18. Dos livros voltados ao público infantil, o mais renomado é, provavelmente, Ou isto ou aquilo, lançado em 1964.
3. Romanceiro da Inconfidência foi um dos livros que inspiraram a produção do filme Os Inconfidentes, lançado em 1972, dirigido por Joaquim Pedro de Andrade e estrelado por José Wilker, Luiz Linhares, Paulo César Peréio e Fernando Torres. Na música, Cecília Meireles ganhou espaço, sobretudo, com o cantor e compositor Raimundo Fagner, que adaptou poemas para canções como Motivo Canteiros. Conheça a polêmica envolvendo esta última clicando aqui.
2. Cecília Meireles morreu em 09 de novembro de 1964, no Rio de Janeiro, tendo recebido diversas homenagens desde então. O velório do seu corpo aconteceu no Ministério da Educação e Cultura e, naquele ano, a escritora ainda seria contemplada com o Jabuti de Poesia, pelo livro Solombra. Em 1965, o conjunto da obra rendeu-lhe o Prêmio Machado de Assis, concedido pela Academia Brasileira de Letras.
1. Na lista de odes póstumas, destaque, ainda, para a criação de uma cédula de cem cruzados novos, em 1989, com a efígie de Cecília Meireles, e para a decisão do governo federal de transformar 2001 em “O Ano da Literatura Brasileira”, em homenagem ao centenário da poetisa, de Murilo Mendes e de José Lins do Rego, além do sesquicentenário (150 anos) de Sílvio Romero.
Cecília Meireles / Dez fatos e curiosidades sobre sua vida e obra
Cecília Meireles / Retrato
“Quando penso em você…”/ conheça a polêmica de plágio que envolve Cecília Meireles e Raimundo Fagner



quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Netflix confirma uma temporada final de ‘House of Cards’ sem Kevin Spacey


Robin Wright


Netflix confirma uma temporada final de ‘House of Cards’ sem Kevin Spacey

A sexta e última parte terá oito capítulos e Robin Wright será sua protagonista


EL PAÍS
Madri 4 DEZ 2017 - 15:05 COT


Netflix finalmente se pronunciou sobre o futuro de House of Cards, cuja produção tinha sido suspensa indefinidamente depois das denúncias por abusos sexuais contra seu protagonista e produtor executivo, Kevin Spacey. Ted Sarandos, diretor de conteúdos da plataforma online, confirmou que a produção da sexta e última temporada de House of Cards será retomada no início de 2018 e disse que Robin Wright será a protagonista.
A sexta temporada, que será mais curta que o habitual, com apenas 8 capítulos (as temporadas passadas tiveram 13), tentará dar “um fecho à série para os fãs” e devolver ao trabalho as 2.000 pessoas envolvidas de alguma forma em sua realização, como disse Sarandos na Conferência Global de Comunicações e Mídia da UBS em Nova York.
Robin Wright

A produção da série foi suspensa em 31 de outubro, depois que foram divulgadas as primeiras denúncias de abusos sexuais por parte de Spacey. A previsão inicial era que os trabalhos de produção seriam retomados depois do feriado de Ação de Graças (23 de novembro), mas os roteiristas continuam trabalhando nos textos, dos quais terá de desaparecer o personagem vivido por Spacey, Frank Underwood, coprotagonista da história. Ainda não se esclareceu como ocorrerá a saída do personagem da série, embora o final da temporada passada já tenha deixado Claire Underwood, interpretada por Robin Wright, um passo à frente de seu marido. Ela começou inclusive a falar diretamente para a câmera, algo que só Frank Underwood tinha feito.
Entre as acusações divulgadas nas últimas semanas contra Spacey estão as de vários membros da equipe de House of Cards, que o acusaram de criar um ambiente de trabalho “tóxico” e de se comportar como um “predador sexual”.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Hilda Hilst / Contra o medo de nomear o corpo humano da cintura para baixo

Hilda Hilst em sua casa em Campinas


Hilda Hilst, contra o medo de nomear o corpo humano da cintura para baixo

Flip 2018 homenageia a poetisa, que em vida foi considerada uma escritora hermética



São Paulo 
5 DEZ 2017 - 16:27 COT


De Hilda Hilst já se disse que era temperamental. Completamente avessa a refreamentos ou moderações, vivia apetites e paixões sem reservas. Não é necessário mais que um contato breve com sua obra para que se perceba isso. Poetisa, dramaturga, romancista, escreveu incansavelmente sobre amor, morte, loucura, transcendência e sexo. Em vida, foi tachada de autora difícil, hermética. Enxergava os comentários sobre esse suposto hermetismo, contudo, como resultado do fato de que ela não fazia o que se esperava de uma mulher – não escrevia sobre o que se devia e nem vivia como se devia. Colocou a literatura na frente de tudo, não constituiu família, viveu mil amores.



Nasceu em 1930, em Jaú, no interior de São Paulo, morreu também no interior, em Campinas, em 2004. Nos últimos 13 anos – como prova irônica de que estava certa quando disse que “parece que os críticos adoram escritor morto, você tem que morrer para ser lembrado” –, começou a ganhar destaque contínuo. Agora, será a homenageada do maior festival de literatura do Brasil, a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que acontecerá entre 25 e 29 de julho de 2018. A curadora do evento, Josélia Aguiar, vê, apesar de todas as diferenças evidentes – ele um cronista do social, ela mais existencial –, pontos de contato entre Hilst e o homenageado da última edição da Flip, o escritor carioca Lima Barreto.
Para além do fato de que ambos tiveram reconhecimento limitado em vida – Hilst ironizava dizendo que seus leitores faziam parte de uma organização secreta, como a KGB –, há o fato dos dois terem se entregado completamente à escrita. “O Lima Barreto costumava dizer que ou a literatura o matava ou lhe dava o que ele pedia. A frase serve também para a Hilda”, comenta Aguiar. Além disso, são figuras transgressoras. “Lima, um homem negro, intelectual e com ideias politicamente fora de seu tempo. Hilda, uma mulher livre, que viveu e escreveu como quis”, complementa a curadora.
De sobrenome quatrocentão, Hilda de Almeida Prado Hilst lançou seu primeiro livro de poesias, Presságio, aos 20 anos. Aos 22, formou-se em Direito no Largo São Francisco. Em uma reportagem do jornalista Humberto Werneck, publicada no Jornal do Brasil, em 1990, a escritora Lygia Fagundes Telles descreve assim Hilst, sua amiga mais íntima: “um tipo magrinho, esgalgado, parecendo uma folha de avenca, que chamava a atenção e escandalizava São Paulo, e não apenas por fumar de piteira e esbanjar palavrões”, mas também por ser emancipada e tomar à frente quando o assunto era conquistas amorosas – tudo o que uma moça da sociedade não fazia.
Menos pelo seu comportamento e mais pelo que escrevia, contudo, foi que encontrou dificuldades. “Se Hilda fosse homem já a teriam saudado como um de nossos escritores mais criativos”, dizia a escritora e amiga Heloneida Studart. Some-se a isso o fato de que a temática de seus textos não era usual e o estereótipo de “escritora difícil” está pronto. “Suas influências são interessantes, tem profundo contato com Fernando Pessoa, Rainer Maria Rilke e Saint-John Perse, mas no Brasil encontra pouco paralelo. É algo mais parecido com Cecília Meirelles, que adorava seu trabalho, mas muito diferente de João Cabral de Mello Neto, por exemplo”, diz a curadora da Flip.
Aos sete anos, descobriu que o pai, um fazendeiro com pendores poéticos, era esquizofrênico. A doença paterna perseguiu Hilst e sua escrita. “Sempre me pergunto por que Freud privilegiou Édipo e não Mirra, a incestuosa, que embriagou o pai e engravidou dele, parindo Adônis. Sempre procurei meu pai. Sempre quis ter alguma semelhança com ele”, disse em entrevista ao Jornal do Brasil, em 1989. A relação (ou falta de, já que nunca conviveu com o pai são) também era uma constante em sua literatura, assim como o papel que deveria ocupar na sociedade. “Aflição de ser eu e não ser outra./ Aflição de não ser, amor, aquela/ Que muitas filhas te deu, casou donzela/ E à noite se prepara e se adivinha”, escreveu em 1959, no livro Roteiro do Silêncio.

A Obscena Senhora Silêncio, documentário dirigido por Leandra Lambert e Alexandre Gwaz, no final da vida da escritora, em sua casa em Campinas.

Sua devoção à escrita era total – “a única coisa que não é permitida na literatura é mentir”, disse em mais de uma ocasião –, sua produção febril. São 28 livros. E ainda há coisa inédita. Prova disso é que em 1966, com pouco mais de 30 anos, abandonou o círculo social e cultural de São Paulo e se mudou para a Casa do Sol, sua chácara em Campinas, onde viveu até o fim da vida e onde hoje está todo seu acervo. “O espaço foi desenhado todo como se fosse um convento, com a única intenção de estimular a literatura e a escrita”, diz Aguiar. Lá, Hilst, às vezes com mais de uma dezena de cachorros, levou uma vida afastada dos círculos literários da capital paulista, mas permaneceu de portas abertas para receber amigos e aspirantes a escritores.


No começo dos anos 1990, deu uma guinada e passou a escrever textos que foram tachados, muitas vezes, de pornografia. Críticos que sempre apoiaram seu trabalho, como Leo Gilson Ribeiro – “Hilda é a mais perfeita escritora viva em língua portuguesa”, “Há vários anos representa a mais abissal e deslumbrante prosa poética do Brasil posterior à genialidade de Guimarães Rosa” –, foram pegos de surpresa com a virada. À imprensa ela declarava: “Eu não vou escrever mais nada, a não ser grandes e, espero, adoráveis bandalheiras”. Assim, por exemplo, saiu o satírico Caderno Rosa de Lori Lamby, o diário de uma menina que, com apenas oito anos e incentivada por sua mãe, passa a se prostituir.
“Toda essa discussão sobre nudez na TV e coisas assim parecem coisa vitoriana. Penso sempre em Theodor Schroeder, que diz que não existe um quadro ou livro pornográfico, existe é um olhar diante daquilo. Todo mundo tem medo de nomear o corpo humano da cintura para baixo, isso é um absurdo”, disse em entrevista ao amigo Caio Fernando Abreu ao comentar as críticas que recebeu quando mudou o tom de sua obra. Segundo Aguiar, com Hilda nada é literal e, por isso, esse é o melhor momento do país para que ela seja homenageada. “Com ela, as coisas são complexas, menos delicadas, nunca óbvias, e não trazem respostas prontas”.


FINANCIAMENTO DA FLIP


A última edição da Flip foi marcada por uma diminuição de seu orçamento e, por isso, muita coisa mudou durante o evento. A principal mudança, foi espacial. Antes, as mesas de discussão entre os escritores acontecia em uma tenda externa, criada especialmente para o evento. Desta vez, tudo aconteceu dentro da Igreja da cidade, o que acabou por criar uma aproximação entre autores e público. Agora, a Flip busca novas formas de financiamento e, para isso, criou um Programa de Patronos às pessoas físicas interessadas em contribuir com o evento. 





sábado, 2 de dezembro de 2017

Nathan Englander / O herdeiro rebelde de Philip Roth

O novo livro de contos de Englander e o retrato do autor, no alto.
Quando lhe perguntam como é ser um escritor judeu, ele diz que não vê isso como uma categoria literária
(Foto: Marco Secchi/Corbis e Divulgação)


Nathan Englander 

O herdeiro rebelde de Philip Roth

No último dia 19 de março, o romancista americano Philip Roth fez uma grande festa em comemoração de seus 80 anos. Reuniu 250 pessoas, entre amigos e admiradores, no salão de festas do museu de Newark, em Nova Jersey, cidade onde nasceu e cresceu, que povoa sua obra como a Londres de Dickens ou a Salvador de Jorge Amado. Roth estava de bom humor: sorriu, acenou, partiu um bolo no formato de uma pilha de livros. Foi sua primeira aparição pública desde que anunciou que deixaria a literatura, durante uma entrevista para a revista francesa Les Inrockuptibles, em outubro do ano passado. Ele é um dos maiores escritores americanos do pós-guerra. Herdeiro da geração pioneira de Saul Bellow (1915-2005) e Bernard Malamud (1914-1986), Roth ajudou a forjar a identidade moderna dos judeus americanos. Sua aposentadoria foi recebida pela crítica como o fim de uma era.
Os temas da nova geração (Foto: David Levenson/Getty Images, Anne-Christine Poujoulat/AFP, Steve Bisgrove/AP Images e Fabio Braga/Folhapress)























Um dos convidados para a festa de Roth foi o escritor Nathan Englander, de 43 anos, apontado como um de seus discípulos. Englander é americano, judeu e romancista. É de uma geração que começa a rechaçar um rótulo que une – a seu ver, artificialmente – essas três condições. Como Englander, outros autores jovens formados na cultura judaica tentam dar sua própria resposta aos desafios culturais e pessoais da diáspora (leia o quadro).

A crítica recebeu bem os livros de Englander – um romance e duas coletâneas de contos. Do que a gente fala quando fala de Anne Frank (Companhia das Letras, tradução de Claudio Marcondes, 208 páginas, R$ 39), seu último livro de contos, foi motivado pela pergunta que o perseguiu em 15 anos de carreira. Como é ser escritor judeu? “Não acho que exista essa categoria literária”, disse Englander a ÉPOCA. “Nunca sento para escrever e penso: ‘Esse texto vai ser sobre o judaísmo’.” Ele diz que Roth é uma influência forte. “Lembro de tê-lo lido ainda jovem, mas tenho influências menos óbvias, como George Orwell ou Júlio Verne.”

Englander cresceu numa comunidade tradicional de judeus em West Hempstead, em Nova York. Frequentou colégios onde praticamente todos os alunos eram judeus. Jovem, morou por cinco anos em Israel. Hoje, vive com a mulher e o cachorro no Brooklyn, em Nova York. No conto que dá título a seu novo livro, dois casais de judeus, um secular e outro religioso, se embriagam e passam a brincar do jogo do “Gentio Justo”: qual de seus vizinhos não judeus os esconderia no caso de um novo Holocausto? “Estou escrevendo histórias sobre pessoas. É sobre pertencer a uma determinada cultura, a uma memória”, diz Englander. “Quando abro em Nova York um livro de Jorge Amado e leio sobre a Bahia, entro em contato com um mundo estranho e maravilhoso. Ao mesmo tempo, um brasileiro na Bahia pode abrir o mesmo livro e se encantar. Só depende de uma boa história.”








Vargas Llosa / Bananeiras

RAFAEL TRUJILLO
Fernando Vicente


Bananeiras

Investigação do historiador Tony Raful conclui que ditador dominicano Rafael Trujillo assassinou o coronel guatemalteco Carlos Castillo Arma em 1957


MARIO VARGAS LLOSA
2 DEZ 2017 - 18:00 COT

Como o Cid Campeador, o Generalíssimo Rafael Leónidas Trujillo, ditador da República Dominicana por 31 anos (1930-1961), continua realizando proezas depois de morto. Não são atos patrióticos, mas assassinatos internacionais, como afirma o historiador e jornalista dominicano Tony Raful no recém-publicado La Rapsodia del Crimen. Trujillo vs Castillo Armas (Grijalbo).

Alguém ainda se lembra do coronel Carlos Castillo Armas? A CIA, o presidente Eisenhower e seu secretário de Estado, John Foster Dulles, puseram-no à frente de um golpe de Estado organizado em 1954 contra o Governo progressista de Jacobo Arbenz, na Guatemala, que se atrevera a fazer uma reforma agrária no país e cobrar impostos da todo-poderosa United Fruit. Três anos mais tarde, em 26 de julho de 1957, o coronel foi misteriosamente assassinado a tiros em um palácio de Governo que, de maneira muito oportuna, ficou sem guarda-costas e sem funcionários naquela noite. Ninguém acreditou que o assassino fosse o solitário soldadinho a quem se incriminou. Teceu-se todo tipo de conjecturas e fantasias sobre o crime, logo esquecido nos incessantes turbilhões políticos do que se chamava, na época, de repúblicas de bananas da América Central.
Segundo Tony Raful, quem mandou matá-lo foi ninguém menos que Trujillo. As razões que apresenta são bastante convincentes. O Generalíssimo, que se gabava de ser o inimigo número um do comunismo na América, colaborou com a CIA, assim como outro tirano, Somoza, na preparação do golpe e deu dinheiro e enviou armamento a Castillo Armas. Quando já estava no poder, pediu a ele que entregasse o general Miguel Angel Ramírez Alcántara, líder de uma fracassada invasão antitrujillo, que o convidasse à Guatemala e que o condecorasse com a Ordem do Quetzal. O ingrato Castillo Armas não fez nenhuma das três coisas que havia prometido e, além disso, permitiu-se debochar de Trujillo e sua família em uma recepção. O homem forte dominicano foi imediatamente informado.
Então, Trujillo mandou à Guatemala seu assassino e torturador favorito, Johnny Abbes García, um obscuro jornalista hípico que ele transformou em coronel e chefe do temido SIM (Serviço de Inteligência Militar). Abbes havia sido informante secreto entre os exilados dominicanos do México e cometido numerosas maldades a serviço do Generalíssimo, de modo que sua aterrissagem na Guatemala, como adido militar da representação diplomática dominicana, era um prenúncio de sangue. Para chegar a Castillo Armas, Abbes García se serviu da mais fascinante personagem do livro de Tony Raful, Gloria Bolaños, uma jovem que havia sido miss e que, àquela altura, era amante do ditadorzinho guatemalteco. O encontro dos três é antológico: Abbes García explicou a Castillo Armas que Trujillo o enviara para dizer que havia uma conspiração para matá-lo, tramada pelos dois ex-presidentes progressistas, Juan José Arévalo e Jacobo Arbenz, e que, se Castillo Armas o autorizasse, ele se encarregaria de mandar aquele par de “comunistas” para o além num piscar de olhos. Segundo Gloria Bolaños, informante de Raful, Castillo Armas agradeceu a oferta, mas recusou: isso teria selado sua sorte. Trujillo deu ordens de eliminar o coronel. Desta vez Johnny Abbes García fez bem seu trabalho (diferentemente de quando tentou matar o presidente da Venezuela, Rómulo Betancourt, pois a bomba que ele plantou, também por ordem de Trujillo, só lhe chamuscou as mãos).
Johnny Abbes deixou tudo perfeitamente preparado e saiu do país antes do atentado, para apagar os rastros. A partir dali, toda a conspiração adota as surpresas e reviravoltas de um verdadeiro vaudeville. Depois do assassinato de Castillo Armas, quem os militares e amigos procuram? Gloria Bolaños! Estavam convencidos de que a jovem amante fora peça-chave da emboscada. Quem salva Gloria Bolaños da caçada? Johnny Abbes García! Para isso, recorre a outro assassino profissional, o pistoleiro cubano Carlos Garcel, que tira a moça de automóvel pela fronteira com El Salvador, onde Abbes García está esperando; ali ambos embarcam num avião particular que os leva à Cidade Trujillo, como se chamava a capital dominicana na época.
A partir desse momento, Gloria Bolaños substitui o infeliz Castillo Armas, e até Johnny Abbes García, como protagonista do livro de Tony Raful. Torna-se uma jornalista combativa que, a partir da poderosa emissora trujillista La Voz Dominicana, acusa diariamente os amigos “liberacionistas” de Castillo Armas de tê-lo assassinado e de inventar a história do “soldadinho comunista” para encobrir as pistas. Ao mesmo tempo, protagoniza um episódio tragicômico quando Héctor Trujillo, apelidado el Negro, irmão do Generalíssimo e presidente-fantoche da República, a convoca ao seu gabinete e lhe entrega um cheque em branco, assinado por ele: “Ponha você a quantia”, diz, “para se deitar comigo”. A ex-miss salta sobre ele, e teria lhe arrancado uma orelha se os guarda-costas não chegassem a tempo de salvar o libidinoso mandatário da fera guatemalteca.
É um mistério como não aconteceu nada com Gloria Bolaños depois de perpetrar aquele quase magnicídio a dentadas e como ela chegou a Miami, onde ainda vive, em um bairro elegante e numa casa cheia de flores de plástico em que há uma foto – ocupa toda uma parede – do coronel Carlos Castillo Armas e uma chama votiva aos seus pés. Também há fotos de Trujillo e da dona de casa com três gerações da família Bush: os dois ex-presidentes e Jeff, que foi governador da Flórida, abraçando-a. Há ainda uma foto dela com Ronald Reagan e muitas outras dela sozinha, quando era Miss Guatemala.
Trabalhou dona Gloria Bolaños para a CIA desde muito jovem, e foi graças a isso que conseguiu entrar sem dificuldade nos EUA e obter residência? É outra das perguntas que ficam pairando na mente do leitor quando termina essa encantadora investigação, La Rapsodia del Crimen. Em todo caso, o fato é que essa senhora sabe muito mais do que diz, e algumas das coisas que diz não poderiam ser mais surpreendentes. Por exemplo, que a notícia oficial da morte de Johnny Abbes García no Haiti, em 30 de maio de 1967, assassinado pelos tonton macoutes (havia traído o tirano Duvalier, para quem trabalhava) é falsa. Que foi uma invenção da CIA, para a qual Abbes também trabalhava havia vários anos, e dele mesmo, a fim de despistar seus muitos inimigos. Na verdade, teria fugido para os EUA, onde, depois de fazer uma plástica que mudou seu rosto – mas não a voz – , ainda vive, tranquilo e feliz, perto de completar 90 anos. Ela o viu? Sim, uma só vez, há poucos anos. Bateram à sua porta de madrugada, e quando abriu viu um homem envolto em um grande casaco e um cachecol grosso. Identificou imediatamente a música de sua voz: “Não me reconhece, Glorita?”. Ela tem certeza de que, a qualquer momento, aquele “completo cavalheiro” voltará a aparecer.