sexta-feira, 28 de junho de 2013

Livia Garcia Roza / A vida

Mujer con jilguero
Ana Legido
Livia Garcia Roza
A VIDA

A vida às vezes é um conto de bruxas.




quinta-feira, 27 de junho de 2013

Livia Garcia Roza / Mundo de luz


Maternidad con pez
Ana Elgido
Livia Garcia Roza
MUNDO DE LUZ

Um recém nascido é um pequeno mundo de luz.






quarta-feira, 26 de junho de 2013

Livia García Roza / Essência

Niña con limones
Ana Elgido
Livia Garcia Roza
 Essência
Ninguém se torna o que não é.




De uma certa forma já somos o que nos tornaremos, semente e fruto.




Todos temos um gigante adormecido.




Essência é tudo.






terça-feira, 25 de junho de 2013

Desafios do tradutor / Macumba, erotismo e a melodia do português

A beleza do mundo
Sambódromo, Rio de Janeiro, 2013
Foto de Triunfo Arciniegas
Desafios do tradutor 
Macumba, erotismo e a melodia do português



Por Suzana Velasco, de Berlim

Há dez anos, Nicolai von Schweder-Schreiner leu um livro que ninguém queria traduzir. Parecia impossível verter “Cidade de Deus” (Companhia das Letras), de Paulo Lins, para o alemão.



— Também não entendi nada, mas quis fazer — conta o filho de alemães nascido em Lisboa, que fez a tradução para a Blumenbar e com Barbara Mesquita traduziu “Desde que o samba é samba” (Planeta), de Lins, que será lançado em setembro pela Droemer Knaur. — Ele escreve sobre macumba, cafetões, cenas de sexo pesadas. Também funciona em alemão, mas uma certa confusão no jeito de escrever precisa ser arrumada.
Já para Michael Kegler, quando a linguagem é sexualizada, ela tem que ser adaptada, pois “fica grosseira” em alemão. O maior desafio, diz ele, é a oralidade.



— É difícil pegar a melodia do livro. A gente fala diferente. Tive esse receio com o Luiz Ruffato, por causa das gírias, do contexto cultural. Gosto de glossário, mas optamos por não usar em “Eles eram muito cavalos”. Um nordestino em São Paulo também não tem glossário. Deixamos o espanto da pessoa que chega — diz Kegler, alfabetizado em Congonhas do Campo, onde viveu dos 4 aos 10 anos.

Para estimular a intimidade com a língua, a Fundação Biblioteca Nacional lançou este ano um programa de residência para 15 tradutores. A alemã Wanda Jakob morou sete semanas no Leme, no Rio, onde conheceu a autora cuja obra traduzia, Ana Paula Maia. Mas, mesmo sem contato direto, os tradutores costumam contar com a boa vontade dos brasileiros para explicar termos e sentidos.

— O livro da Andréa del Fuego trata de um mundo rural, é muito poético. O do Paulo Scott também é difícil. Mas o contato com os dois foi ótimo — diz Marianne Gareis, que nem sempre teve experiências positivas. — Quando tinha dúvidas, Saramago me dizia que eu entenderia quando chegasse à idade dele.

Além do contato com o autor e o próprio português, o mais importante para Maria Hummitzsch é ler muito em alemão — que, no fim das contas, é a língua em que eles escrevem:

— O tom para mim só sai no final. Quando traduzo a primeira versão penso muito na língua portuguesa. Depois preciso trabalhar como dar sentido àquela história em alemão.




segunda-feira, 24 de junho de 2013

O futebol segue o seu caminho

Futbolista
Copacabana, Rio de Janeiro, 2013
Foto de Triunfo Arciniegas
O futebol segue o seu caminho


Os protestos no Brasil não conseguiram para a Copa das Confederações


José Sámano, Fortaleza 22 JUN 2013 - 05:34 CET



Fortaleza, Brasil / AP
Nada assusta a FIFA, a poderosa organização mundial do futebol. A UEFA, o seu satélite europeu, não suspendeu o calendário em 11 de setembro nem em 11 de maio, e a matriz está muito menos disposta a fazê-lo nesta Copa das Confederações disputada em um Brasil “sem controle”, como anunciou ontem a manchete de O Globo. No início da manhã circulou o a notícia de que a seleção italiana tinha manifestado preocupação com a segurança da partida, que ninguém podia garantir, e obviamente tampouco o governo, superado pelos acontecimentos dos últimos dias com o país incendido que escolheu o futebol como vitrine das suas reivindicações e pôs a FIFA na mira: “Queremos educação no padrão da FIFA” é um dos lemas. O governo brasileiro admitiu que o orçamento da Copa 2014 já alcançou mais de 13 bilhões de dólares (quase 9.900 milhões de euros). Informações locais apontam que, somado aos Jogos de 2016, os gastos públicos chegarão a 25 bilhões de dólares (19.000 milhões de euros). O Brasil, supostamente um gigante em ebulição desejoso de exportar a sua imagem, comprometeu-se com todos os eventos que se possa imaginar. Na sua agenda internacional também se destaca a visita do Papa ao Rio, entre 22 e 28 de julho.
 Não surpreende que os distúrbios dos últimos dias deixem os times, que se vêm na linha de tiro, extremamente inquietos. Muitos jogadores italianos viajaram para a Copa com suas famílias, o que aumenta a sua angústia. A Itália jogará hoje contra o Brasil em Salvador, onde na madrugada de ontem os manifestantes atacaram alguns ônibus da própria FIFA. Na última partida do Brasil, contra o México, cerca de 25.000 pessoas tentaram bloquear o acesso ao estádio Castelão, em Fortaleza, onde desde ontem de manhã a equipe espanhola chegou para passar uma semana, a menos que, imprevisivelmente, não se classifique como primeira do grupo. A Espanha, que domingo enfrenta a Nigéria e deveria jogar na mesma cidade na semifinal na quinta-feira que vem, não está alheia à preocupação geral. Além das revoltas dos últimos dias houve 965 homicídios na cidade entre janeiro e abril, muito superiores aos dados já bastante assustadores do ano de 2012: 1.628, segundo dados de O Globo,
O temor italiano acendeu o estopim. A possibilidade de suspensão do torneio se espalhou por todo o país. Horas antes de o Movimento Passe Livre anunciar a suspensão temporária das manifestações, a FIFA, contra a qual há vários cartazes nas passeatas – um cartaz numa varanda perto do Maracanã dizia “Fuck Cup” – foi obrigada a emitir o seguinte comunicado: “Apoiamos e defendemos o direito à liberdade de expressão e à manifestação pacífica e condenamos toda forma de violência. Estamos em contato permanente com as autoridades locais e confiamos plenamente nas medidas de segurança que vem sendo aplicadas. Acompanharemos de perto o desenvolvimento dos acontecimentos. Em nenhum momento a FIFA, o Comitê Organizador ou o governo federal pensaram ou analisaram a possibilidade de cancelar a Copa. Estamos em contato permanente com todas as partes implicadas, inclusive as seleções, e as mantemos informadas de todas as medidas adotadas. Não recebemos nenhum tipo de pedido que mencionasse a possibilidade de deixar o Brasil.” No início dos distúrbios, Joseph Blatter, presidente da FIFA, disse que entendia “que as pessoas não estejam satisfeitas”, mas lançou uma mensagem condenatória: “Não devem usar o futebol para que ouçam as suas demandas.” Demetrio Albertini, ex-jogador do Milan e do Barcelona e atual vicepresidente da federação italiana, assegurou que a sua delegação estava “tranquila” e de modo algum havia considerado deixar a disputa. Para alguns analistas locais, se a Confederações fosse suspensa por motivos de segurança, o governo de Dilma Rousseff teria de pagar uma indenização.
A seleção espanhola não está imune ao receio generalizado. Seus jogadores tiveram pertences furtados nos quartos do hotel de Recife onde se hospedaram na semana passada e, apesar do nome, Fortaleza engana. Não é precisamente um fortim. Os agentes de turismo recomendam discretamente que os hóspedes não se afastem muito da Avenida Beira Mar, a principal artéria desta cidade, a quinta maior do país, com 2,5 milhões de habitantes. A seleção espanhola, hospedada nesta avenida, terá de se deslocar quase oito quilômetros para treinar nas instalações da universidade. Pelo caminho passarão pelo bairro Aldeota, onde a atriz e modelo Susana Werner, ex-namorada de Ronaldo e atual esposa do zagueiro brasileiro Júlio César, foi assaltada a mão armada na quinta-feira passada.
No último dia 13, 48 horas antes do início desta Copa, a presidente Rousseff anunciou a instalação de seis centros de segurança nas cidades-sede, com um investimento total de 900 milhões de dólares. A iniciativa reúne 30.000 policiais e soldados do exército. Em Fortaleza, a segurança está a cargo de 7.000 policiais. Mas o que ia ser uma blindagem do futebol foi superado pelas rebeliões populares. Antes e depois de os indignados anunciarem uma trégua, a FIFA segue adiante com o futebol.
Una traducción de Cristina Cavalcanti



domingo, 23 de junho de 2013

O futebol também protesta


Pelé

O futebol também protesta

Pelé pede aos manifestantes que se limitem a apoiar a seleção e saiam das ruas

Romário responde com ironia que “em silêncio, ele é um poeta”


José Sámano / Luis MartinRío de Janeiro 21 JUN 2013 - 01:28 CET


Romário

Um cartaz na entrada do majestoso Maracanã recorda aos fãs de todos os cantos do mundo: “Aqui o Brasil construiu a sua História”. Uma lenda com maiúscula que transcende o futebol. Este esporte, vitrine universal, nos últimos dias se converteu na maior vitrine do mundo para as reivindicações sociais dos brasileiros. Como ressaltaram nesta quinta-feira alguns fãs diante dos portões do templo futebolístico do Brasil, o Maracanã ilustra perfeitamente o que o povo condena. O custo da reforma foi muito maior do que o orçamento inicial e acabou consumindo mais de 300 milhões de euros e de dentro dele pode-se ver vários conjuntos de favelas. Em uma das avenidas que leva até lá há um toldo com cartazes que exibem a mesma reclamação: “Queremos trabalhar.” Nos arredores do Maracanã não houve manifestação antes da partida Espanha-Taiti, como aconteceu em jogos anteriores.
“Não somos contra o futebol, mas contra a corrupção”, podia-se ler na quarta-feira em diversos cartazes espalhados pelo estádio de Fortaleza no jogo Brasil-México. Umas 15 mil pessoas tentaram bloquear o acesso. O futebol e os jogadores sentiram necessidade de intervir e, à exceção de Pelé, sempre perto do poder, a imensa maioria se declarou a favor dos manifestantes. Estes, que viram no futebol um alto-falante perfeito, não só conseguiram visibilidade máxima como também obtiveram o seu melhor cartaz, a adesão dos jogadores mais ilustres.
Horas antes da partida, nas redes sociais circulou a ideia de que os fãs brasileiros deviam dar as costas ao hino no início do jogo. Juninho Pernambucano, ex-jogador Canarinha que está nos Estados Unidos, apoiou a ideia. Os jogadores se mobilizaram rapidamente. Alvez, o jogador do Barcelona, se solidarizou pelo Instagram. “Por um Brasil sem violência, melhor, em paz, educado, com saúde, honesto e feliz.” Hulk, atacante titular, escreveu na rede: “O Brasil tem que melhorar mesmo.” O zagueiro David Luiz também se manifestou: “Acho bom que as pessoas protestem pelos seus direitos.”
Mas ninguém foi tão contundente quanto Neymar, o atual ícone do futebol brasileiro. Na sua conta do Instagram, o novo jogador do Barcelona disse estar “triste” com o que acontece hoje no seu país. “Sempre tive fé de que não seria preciso chegar ao ponto de sair às ruas para exigir melhores condições de transporte, saúde, educação e segurança, principalmente porque isto é obrigação do governo.” “Os meus pais, acrescentou Neymar, “trabalharam muito para oferecer a mim e ao meu irmão um mínimo de qualidade de vida ... Hoje, graças ao êxito que vocês [referindo-se aos fãs] me proporcionaram, poderia parecer demagógico da minha parte – mas não é – levantar a bandeira das manifestações que percorrem todo o Brasil; mas eu sou brasileiro e amo o meu país (...). Quero um Brasil mais justo, mais seguro, mais saudável e mais honesto. Na partida contra o México vou entrar em campo inspirado por estas manifestações. Estamos juntos.” No embate contra o México, antes, durante e no final, Neymar gesticulou mais de uma vez em direção à arquibancada e conversou com muitos seguidores. Isso ocorreu depois dos gritos: “Ô brasileiro, vamos acordar, um professor vale mais que o Neymar.”
Neymar e os seus companheiros da seleção não estavam sós na solidariedade com os indignados brasileiros. Vários ex-jogadores também se lançaram em campo. Na frente, não podia faltar Pelé, que postou um vídeo na rede: “Peço aos brasileiros que não confundam as coisas. Estamos preparando a Copa do Mundo, vamos apoiar a seleção, vamos esquecer a confusão reinante e vamos esquecer os protestos.” Com ironia, Romário, deputado federal pelo Rio, imediatamente disse a Pelé para se calar: “Pelé em silêncio é um poeta.” Romário criticou duramente o “escandaloso” investimento estatal para o Mundial, isso sem contar o que o Brasil terá de gastar com as Olimpíadas de 2016. Dois eventos que ameaçam passar da conta.
Nas redes, as críticas a Pelé foram massivas, levando o Rei, embaixador do Mundial de 2014, cujos investimentos milionários o povo também critica, a se retratar hoje. “Sempre lutei contra a corrupção; depois do milésimo gol falei da importância da educação. Não me entendam mal, só peço que não descarreguem as nossas frustrações na seleção.” Para Rivaldo, “é uma vergonha organizar o Mundial no Brasil com a desigualdade que existe aqui, com gente passando fome”. “Já fui pobre e senti na pele a dificuldade de não ter um bom serviço de saúde. O meu pai foi atropelado e morreu por não ter sido atendido num hospital público de Recife ...” No Brasil, o futebol também protesta.
Traducción de Cristina Cavalcanti

sábado, 22 de junho de 2013

Faiga Alburquerque / CONFUSÃO



Faiga Albuquerque
CONFUSÃO

SÃO TANTOS HELICÓPTEROS PASSANDO PELA LAGOA. 
TUDO INDICA QUE HÁ CONFUSÃO PELA CIDADE.



sexta-feira, 21 de junho de 2013

Artur Xexéo / Saudades do metrô

Guitarra y vino
Ipanema, Rio de Janeiro, 2013
Foto de Triunfo Arciniegas

Artur Xexéo
Saudades do metrô



Fevereiro de 2013. O ônibus, ao lado da Estação Siqueira Campos, está superlotado. Os passageiros descem e logo formam uma fila para entrar no metrô. Empurra-empurra, chega pra lá, confusão. O esquema que as autoridades organizaram para suprir a falta das estações Cantagalo e General Osório, do precário metrô do Rio, não está dando certo. Dizem que o usuário pode substitutir o trem que pegava nessas estações pelo metrô de superfície, uma maneira irônica com que nossas autoridades costumam chamar os ônibus quando querem fingir que são responsáveis por um sistema de transporte eficiente. Que metrô de superfície é esse que para no sinal fechado e enfrenta, como qualquer outro veículo, as agruras de um engarrafamento no trânsito? 

Março de 1979. Eu não conseguia esconder a empolgação. Depois de anos vendo trechos do Centro do Rio escondidos por tapumes, estava ali, na Estação Cinelândia, numa pequena fila, aguardando para comprar o meu bilhete do metrô. Não me lembro do preço. Mas me lembro do trajeto. Saí da Cinelândia e fui até a Estação Presidente Vargas. Ali, mudei de lado e retornei. Deslumbrado. Tudo era bonito. Mármore nas estações, trens limpinhos, confortáveis, espaço para todo mundo, boa sinalização. Não era para levar muito a sério. Servia só como passeio mesmo. O metrô, velho sonho da cidade, foi inaugurado com apenas cinco estações: além da Cinelândia e da Presidente Vargas, podíamos usar as da Praça Onze, da Central e da Glória. Só funcionava das nove da manhã às três da tarde. Tinha quatro trens que chegavam a cada oito minutos. Transportava 60 mil pessoas por dia. 

Naquela primeira viagem de 34 anos atrás, acreditei, como toda a população, que o Metrô tinha futuro. Hoje, são duas linhas, 35 estações e 640 mil passageiros por dia. E o caos. O ar refrigerado não funciona. Os trens vivem abarrotados. A limpeza dos primeiros anos transformou-se num mafuá onde se vende de tudo. As escadas rolantes não rolam. Os elevadores não se mexem. E a extensão, convenhamos, é ridícula. Tenho vergonha quando me dou conta de que nosso metrô cobre uma área menor que a do metrô de Brasília. Comparando com o de São Paulo, então, é bom nem falar. 

Um sistema de transporte eficiente que integrasse toda a cidade ficou no sonho. O metrô carioca parece uma minhoca que se estende infinitamente. Era óbvio que não se encontraria uma alternativa para o o fechamento das duas última estações da Zona Sul. As linhas não se cruzam e as estações são muito distantes uma da outra. Perdendo-se uma estação, o usuário tem que apelar para outro tipo de transporte. 

Quem está chegando agora pode pensar que foi sempre assim. Não é verdade. Durante quase 20 anos, a extensão de nosso metrô cresceu e a limpeza e eficiência continuaram funcionando. O caos se implantou a partir da concessão para uma empresa privada em 1998. O carioca nunca foi conhecido por cuidar de sua cidade. O metrô era uma exceção. Tornou-se exemplo de civilidade. Ninguém tinha coragem de jogar um papel de bala no chão. Com ele, aprendemos que, quando o serviço é bom, o usuário cuida e respeita. Hoje, o usuário trata mal o metrô. A culpa é do serviço. Ninguém gosta de pagar caro — e o metrô é caro à beça — por um produto medíocre.


http://oglobo.globo.com/cultura/xexeo/?a=916&periodo=201303



quinta-feira, 20 de junho de 2013

Artur Xexéo / Em busca da felicidade

Sillas
Ipanema, Rio de Janeiro, 2013
Foto de Triunfo Arciniegas
Artur Xexéo
Em busca da felicidade


Nos últimos dias, tenho vivido uma experiência diferente. Ao acordar, antes até de sair da cama, digo pra mim mesmo: “Sou feliz!”. Totalmente influenciado pela pesquisa que O GLOBO vem publicando que associa morar no Rio à felicidade, encho o peito e repito: “Sou carioca! Sou feliz!” 


Minha determinação não dura muito tempo. Ao sair de casa, o porteiro me entrega a correspondência. Como acontece uma vez por mês, recebo mais uma carta de um cartão de crédito que já tenho. Ele me oferece as vantagens de me tornar associado. Como não preciso de dois cartões de crédito da mesma bandeira, rasgo a correspondência e procuro uma lixeira para livrar-me dela. Perto da minha casa existem três. E todos os dias me pergunto como, às 8 da manhã, já estão todas abarrotadas de lixo. Nelas não cabe nem minha carta rasgada. Pior: na calçada, no espaço em torno das lixeiras, o carioca joga fora caixas de papelão, sacos de plásticos, garrafas vazias... O Rio é sujo. Dá pra ser feliz em meio à sujeira? 

Procuro não pensar nisso, pego um táxi e... fico preso dez minutos num engarrafamento dentro do Túnel Velho. Alguém pode me dizer que, no Rio, até engarrafamentos são felizes. Imagine estar engarrafado na Lagoa. Não dá para reclamar da paisagem em volta. Não tenho muito tempo para raciocinar sobre isso. Após me livrar do engarrafamento no túnel, fico engarrafado em frente ao Cemitério São João Batista e, admirando jazigos perpétuos, tenho vontade de perguntar ao motorista do carro ao lado: “Tá rindo de quê?” 

Desisto da felicidade inerente a minha condição de morador do Rio e procuro alguém que seja pessimista como eu. Dizem que no Morro da Mangueira mora um carioca infeliz. Desempregado, descrente da UPP e arrasado porque, após a última chuva, as águas invadiram seu barraco e levaram toda a cozinha, ele contraria as pesquisas. Um vizinho, felicíssimo, lembra ao morador desiludido que no Rio tem carnaval. Foi o bastante para nosso infeliz personagem cair no choro, lembrando-se que a Mangueira ficou em oitavo lugar no último desfile de escolas de samba. 

Não sei quando começou essa moda de associar felicidade a regiões geográficas. Talvez seja uma invenção do rei do Butão que, nos anos 70 do século passado, criou o índice de Felicidade Interna Bruta para compensar o péssimo PIB de seu país. No Butão, o budismo leva à felicidade. O Brasil também anda com o PIB lá embaixo. Só nos resta a felicidade. 

Felicidade, hoje, é lazer barato, oportunidade de emprego, paisagem bonita. Sou do tempo em que felicidade era algo mais abstrato. Lembro-me de uma telenovela, das primeiras a serem produzidas pela televisão brasileira lá pela década de 60, que chamava-se “Em busca da felicidade”. Na trama, Carlos Zara mantinha duas esposas, Lolita Rodrigues e Odete Lara. Uma não sabia da existência da outra. Ele era feliz com as duas. Na mesma década, um filme francês escandalizou o país. Chamava-se “Le bonheur” e, além de nos ensinar que, em francês, felicidade é um substantivo masculino, contava a história de um homem feliz no casamento, que arranjava uma amante, com quem também era feliz. No Brasil, ganhou o título de “As duas faces da felicidade” e uma frase publicitária que mexeu com a cabeça dos espectadores: “Pode um homem amar duas mulheres ao mesmo tempo?” 

Na novela, quando uma esposa descobre que existe a outra, a felicidade de Carlos Zara vai pro brejo. No filme, o triângulo amoroso é desfeito pelo suicídio de um dos vértices. Resumindo: nos anos 60, felicidade era ser bígamo. Resumindo de novo: a felicidade dura pouco. 

A poesia já nos ensinou isso há muito tempo. Vinícius de Moraes disse que “a felicidade é como a gota de orvalho numa pétala de flor”. E concluiu: “Tristeza não tem fim, felicidade, sim.” 

A minha felicidade, aquela felicidade estimulada por ser carioca, dura pouquíssimo. Dura o tempo de ler o jornal. Esta semana mesmo, enquanto saboreava a pesquisa do GLOBO, ao mesmo, ficava perplexo com a tragédia do incêndio do Leblon. Trancado por uma porta blindada com quatro fechaduras (ué, o carioca não vive uma maior sensação de segurança?), um casal encontra a morte jogando-se do quarto andar para fugir do fogo. O incêndio se apaga sozinho, após consumir todo o apartamento. Os bombeiros chegaram meia hora depois, não tinham escada Magirus, não havia água no hidrante da rua. É esse o Rio feliz? 

A pesquisa diz que a felicidade do carioca está também associada ao otimismo. Temos lixo, engarrafamentos, enchentes, incêndios, mas tudo vai melhorar porque estamos nos preparando para os grandes eventos. Em outras palavras: se a gente já é feliz agora, imagina na Copa!


http://oglobo.globo.com/cultura/xexeo/?a=916&periodo=201303






quarta-feira, 19 de junho de 2013

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Kristin Asbjørnsen Ensemble / Live in Concert




Kristin Asbjørnsen Ensemble
LIVE IN CONCERT
Victoria Teater, Oslo
2nd April 2011


Kristin Asbjørnsen Ensemble

Run All the Way






Kristin Asbjørnsen Ensemble  
I Wainted So Long



Kristin Asbjørnsen Ensemble 
Don´t Hide Your Face From Me



domingo, 16 de junho de 2013

Tom Sharpe / O Legado de Wilt

Tom Sharpe
O Legado de Wilt

Mais um episódio da divertida saga de Henry Wilt, um personagem que se não conhece tem mesmo de descobrir. O britânico Sharpe criou este professor de literatura em 1976 e desde então as suas aventuras até na televisão surgiram. “O mais divertido escritor da actualidade”, segundo o Observer, que mais uma vez não poupa nos elogios, dizendo ser este “mais um clássico do mestre da farsa e da sátira social”.





sábado, 15 de junho de 2013

Saúde / Dormir pouco, um dos grandes males modernos


Dormir pouco, um dos grandes males modernos

  • Falta de sono é tema de série de artigos especiais publicada pela revista “Nature” desta semana

Cesar Baima
O Globo, 25/05/2013



Exposição à luz após o anoitecer desregula relógio biológico e provoca problemas ainda pouco conhecidos à saúde humana
Foto: Camilla Maia

Exposição à luz após o anoitecer desregula relógio biológico e provoca problemas ainda pouco conhecidos à saúde humana Camilla Maia

RIO - O advento e popularização da luz elétrica a partir do século XIX fez a Humanidade dormir cada vez menos. A iluminação artificial e a contante exposição à luz após o anoitecer provocam alterações em nossos relógios biológicos cujos mecanismos apenas começamos a entender, assim como os males trazidos pela falta de sono. Em uma série de artigos especiais publicados na sua edição desta semana, a revista “Nature” traz algumas das mais recentes descobertas sobre o assunto, que alguns especialistas já consideram uma das grandes doenças da modernidade.
Apontado como uma das maiores autoridades mundiais em estudos do sono, Charles Czeisler, da Escola de Medicina de Harvard, defende mais pesquisas para investigar os impactos biológicos da iluminação artificial, além de tecnologias que diminuam o problema. Ele explica que, ao longo de milênios, estruturas nos olhos e cérebros trabalharam em conjunto para regular nossos relógios biológicos, cujos “despertadores” são paradoxalmente mais ativos no fim do dia do que no começo. Historicamente, tal característica fornecia uma dose extra de energia para aguentarmos de pé até o anoitecer, mas a exposição à luz depois do pôr do sol proporcionada pela iluminação artificial acaba por enviar sinais contraditórios ao sistema nervoso central, que assim adia seu “alarme” tardio e o início da produção de melatonina, o hormônio do sono.
“Como resultado, muitas pessoas ainda estão checando seus e-mails, fazendo deveres de casa ou assistindo TV à meia-noite, sem a mínima percepção de que já está no meio da noite solar”, escreve. “A tecnologia conseguiu efetivamente nos desconectar do dia natural de 24 horas para o qual nossos corpos evoluíram, levando-nos para a cama mais tarde. E usamos cafeína de manhã para levantar tão cedo quanto sempre levantamos, espremendo o sono”. Segundo Czeisler, hoje 30% dos americanos empregados dormem menos de seis horas por noite, contra menos de 3% apenas 50 anos atrás. Mas não são só os adultos que sofrem. As crianças estão dormindo em média 1,2 hora a menos do que há um século, e como elas reagem à falta de sono ficando hiperativas e com dificuldades de concentração, muitas vezes acabam erroneamente diagnosticadas como sofrendo de Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH).
Czeisler alerta ainda que a determinação de alguns governos de proibir a venda de lâmpadas incandescentes em prol de outras mais energeticamente eficientes e a proliferação de TVs e telas de computador planas, tablets e outros aparelhos eletrônicos estão nos expondo cada vez mais aos chamados diodos emissores de luz (LEDs). E estas fontes são mais ricas em luz azul, cujo comprimento de onda mais curto causa perturbações maiores em nossos ciclos circadianos de sono e despertar.