Estilista das grifes Chanel e Fendi, é dos últimos de uma geração de criadores em vias de extinção.
Ele faleceu em Paris aos 85 anos
ÁLEX VICENTE París 19 FEV 2019 - 17:57 COT
Karl Lagerfeld costumava dizer que sua missão na moda era fruto de um pacto semelhante ao que Fausto estabeleceu com o diabo, pelo qual o insatisfeito protagonista da lenda alemã trocava sua alma pela sabedoria ilimitada e os gozos do mundano. Esse foi o modus vivendi do grande estilista, morto nesta terça-feira em Paris aos 85 anos, segundo confirmou a Chanel, histórica grife da qual era diretor artístico desde 1983. Não foram revelados os motivos de seu falecimento, ocorrido no Hospital Americano de Neuilly-sur-Seine, a rica localidade vizinha a Paris, em cujo pronto-socorro deu entrada na noite de segunda-feira.
As dúvidas sobre seu estado de saúde vinham crescendo desde meados de janeiro, quando se ausentou do último desfile de alta costura da Chanel. “O senhor Lagerfeld se sentia cansado nesta manhã. Desejamos a ele uma pronta recuperação”, leu na ocasião a voz em off de seu amigo Michel Gaubert, encarregado do desenho musical de todas as suas apresentações. Mas essa melhora nunca ocorreu. Sua morte, somada às do Saint Laurent, Givenchy e Alaïa, representa o desaparecimento quase definitivo de uma geração de estilistas da qual o único sobrevivente agora é Valentino Garavani.
Lagerfeld nasceu em 1933, num bairro residencial da zona oeste de Hamburgo, durante a etapa final da República de Weimar e em plena escalada do nazismo. Com a ascensão de Hitler ao poder, seu pai, Otto Lagerfeld, empresário que tinha feito fortuna com a importação de leite condensado, decidiu se afastar da cidade por medo dos tumultos e instalou a família em um lugar isolado, 40 quilômetros ao norte. Mas o personagem-chave dessa etapa é sua mãe, Elisabeth, que teria vendido lingerie na Berlim do entreguerras, uma mulher inflexível, porém protetora, que nunca hesitou em defender o jovem Karl dos insultos dos outros meninos. Em tempos de estética nazista, Lagerfeld preferia se vestir com excentricidade, ostentando uma longa cabeleira e traje tirolês. Um sinal premonitório: o mítico traje de tweed da Chanel, peça-estrela que passou décadas sendo reinventada, inspirava-se nessa mesma tradição.
Karl Lagerfeld, com Nadja Auermann e Naomi Campbell.LIOBEL CIRONNEAUAP
Aos 19 anos, convicto de que queria trabalhar na moda, Lagerfeld se mudou para Paris disposto a se transformar no mais francês dos franceses. “Não é uma questão de patriotismo, mas sim de estética”, costumava dizer. Em 1954, ganhou um concurso de casacos organizado pela marca de lã Woolmark. Ao mesmo tempo, outro jovem estilista com aspecto de seminarista vencia na categoria mais nobre, a dos vestidos. Seu nome era Yves Saint Laurent. Seria o início de uma longa relação de imitação e rivalidade, que chegou ao auge quando Jacques de Bascher, dândi aristocrata e venenoso, habitué dos clubes homossexuais da noite parisiense, começou a manter relações simultâneas com os dois. Apesar de tudo, Lagerfeld conviveu com De Bascher até sua morte por AIDS em 1989. Desde então, não se soube de nenhum outro relacionamento amoroso desse estilista que se definia como “uma ninfomaníaca do trabalho”.
Lagerfeld fez parte da geração que promoveu a decisiva transição da alta costura para o prêt-à-porter. Formou-se junto com as grifes Balmain e Patou, da qual se tornaria diretor artístico em 1958. Meia década depois, foi contratado pela Chloé como estilista, cargo que conciliou com sua colaboração para a Fendi, marca romana para a qual continuou trabalhando até sua morte. Lagerfeld não tardaria a reinar em Paris, transformando-se no mais culto de todos os frívolos, dono de uma gigantesca biblioteca e apaixonado pela história do século XVIII. O estilista também liderou um clã um pouco mais cosmopolita que o de Saint Laurent, no qual figuravam o ilustrador porto-riquenho Antonio López, a editora italiana Anna Piaggi e a modelo Pat Cleveland, assídua da Factory de Warhol. Lagerfeld chegou a interpretar um pequeno papel em L’Amour, filme experimental que o artista rodou em Paris nos anos setenta.
Karl Lagerfeld em alguns de seus desfiles.TORU YAMANAKA PATRICK KOVARIK PIERRE VERDYAFP
Em 1982, os irmãos Wertheimer, donos da Chanel, procuram Lagerfeld propondo um contrato de um milhão de dólares anuais, com o objetivo de relançar uma velha grife que só era usada por ministras de centro-direita. Em questão de meses, ele conseguiu transformar sua reputação, vestindo a modelo Inès de la Fressange, que se tornaria sua principal embaixadora, e também Carolina de Mônaco e a atriz Isabelle Adjani, entre outras. Segundo Paloma Picasso, essa contratação representaria “um grande salto adiante e uma punhalada em Yves”, a quem Coco Chanel tinha designado como seu herdeiro natural antes de morrer. Lagerfeld introduziu os jeans e os tênis nas suas coleções e alcançou a equação perfeita ente mudança e continuidade, marca pessoal e respeito ao legado histórico.
Com Lagerfeld, a própria natureza do seu ofício mudou. Um estilista já não é mais apenas um profissional que entende de cortes e padrões, e sim um diretor artístico encarregado de toda a dimensão estética de uma marca. À frente da Chanel, Lagerfeld inventa os desfiles espetaculares, abre-se às coleções-cápsula, conquista as redes sociais e transforma uma marca poeirenta em um império global que fatura mais de 33 milhões de reais por ano. Lagerfeld fez para si uma fantasia sob medida, com seu inalterável uniforme composto de terno negro, camisa branca, rabo-de-cavalo e óculos escuros, graças aos quais conseguia esconder “um olhar de cachorro bonzinho” que nunca quis deixar “à vista do populacho”. Com seu temido desaparecimento, a moda não terá outro remédio senão tornar a se transformar. Mas esse terá sido, afinal de contas, o principal ensinamento de um estilista para quem a mudança foi a forma mais saudável de sobrevivência.
Na ilha houve uma tentativa, uma esperança e uma pretensão que não devem ser esquecidas. Mas o sonho que encarnou a chegada do Fidel Castro ao poder há 60 anos agoniza irremediavelmente
Muitos estrangeiros compraram propriedades em nome de cubanos nos últimos anos em Havana porque ainda não é permitido que façam isso por conta própria. Os preços se multiplicaram. No bairro de Vedado, abundam as mansões e departamentos em restauração. Na zona de Miramar, existem pubs onde os únicos negros que há dentro são os seguranças: tipos grandes e musculosos como os que guardam as discotecas nova-iorquinas ou parisienses. Meses atrás fui a um desses − o Mio & Tuyo − e, quando quis chegar à área onde estavam as mulheres mais admiráveis, um desses porteiros me deteve pondo seu braço em meu ombro: “Daqui para lá é VIP”, disse-me. “Para passar, você precisa comprar uma garrafa de uísque Chivas Regal ou ser sócio do clube”, acrescentou. E eu pensei: terminou a revolução.
Pelo menos 30 movimentos guerrilheiros surgiram na América Latina desde que triunfou a revolução cubana até o fim dos anos oitenta. Hoje não resta nenhum, salvo o ELN da Colômbia, transformado em organização criminosa. A revolução − esse fantasma que hoje parece abandonar o continente − cativou os melhores políticos, artistas e intelectuais de sua época, e uma literatura esplendorosa brotou sob sua sombra. Até o cristianismo participou de seu feitiço justiceiro com a teologia da liberação. Mas essa fé hoje parece encerrar seu reinado. Dela restam, quando muito, discursos vazios, promessas e slogans que, de tanto ser repetidos sem nunca ser realizados, perderam seu sentido.Para esses que sempre combateram a revolução, porque desde o início ela atentou contra seus interesses e os teve como inimigos declarados, sua morte é motivo de celebração. Mas lhes convém manter viva a ideia de sua ameaça, para que assim possam se apresentar como guardiães das maiorias e conservar o poder. Para aqueles que, por outro lado, acreditaram que outro mundo era possível e que a fraternidade poderia vencer o egoísmo, constatar que seus desejos alimentaram a intolerância, o abuso e a pobreza dói e tira a fala. Deve ser por isso que hoje a esquerda honesta está muda.
Os cubanos costumam discutir sobre quando a revolução perdeu seu encanto. Alguns dizem que foi no começo dos anos setenta, depois do caso Padilla, com a sovietização do chamado Quinquênio Cinza, quando até os edifícios foram projetados conforme os planos de Kruschev e se instalou o conceito de “diversionismo ideológico” para todo aquele que pensasse ou desejasse algo fora da norma estabelecida. Segundo outros, foi em 1989, com a Causa Número 1 − que terminou com o fuzilamento do general Ochoa, uma das figuras mais respeitadas da revolução − e a queda da URSS. O que veio depois, o Período Especial, os cubanos não esqueceram mais. O petróleo desapareceu e era tão curto o tempo que tinham luz elétrica que, em lugar de falar de apagões, eles falavam de alumbrones (“acesões”). Até gatos saíam à caça para comer.
O petróleo e a comida voltaram a Cuba com a chegada de Hugo Chávez à presidência da Venezuela. Chávez viu em Fidel a figura de um pai, de um modelo, de um guia. Quis seguir seus passos e reviver à sua maneira o sonho de revolução que agonizava adicionando a ele o sobrenome “bolivariana”. Comprou Governos em toda a América Latina enquanto o preço do petróleo estava nas nuvens e os somou ao chamado socialismo do século XXI, quando o certo é que o capitalismo já tinha triunfado e o dele não era nada mais que a triste caricatura de um fato histórico que se apagava. A revolução já não tinha artistas, nem intelectuais, nem poesia, nem fé.
Se em Cuba houve gerações que romperam as mãos cortando cana de açúcar, na Venezuela se pregava com maços de notas nas mãos. Se Chávez viu em Fidelum pai legitimador, Fidel encontrou em Chávez um filho como o que muitos cubanos têm no exterior, de onde lhes mandam dinheiro para sobreviver. Por mais duro que seja reconhecer isso, o sonho de socialismo e de dignidade de Cuba sempre foi financiado por outros.
Barbearia no bairro de Vedado.MICHAEL CHRISTOPHER BROWN
Mas se a revolução cubana perpetuou no poder esse grupo que o conquistou no final da década de 1950, dando lugar a uma gerontocracia imune às mudanças, não gerou uma elite de milionários, como o chavismo. No início foram chamados de boliburgueses e hoje são conhecidos como enchufados (“conectados”). Comercializando petróleo, drogas, ouro e diamantes nacionais, acumularam fortunas imensuráveis, ao mesmo tempo em que vociferavam contra os ricos e a favor do povo. Hoje são eles os principais clientes dos poucos restaurantes de luxo que restam em Caracas, enquanto se multiplicam os refeitórios solidários (panelas comuns) para combater a desnutrição. As caixas de mantimentos CLAP (do Comitê Local de Abastecimento e Produção) que o Governo distribui para aliviar a crise alimentar, “são como o período, porque chegam uma vez por mês e duram uma semana”, brincam aqueles que as recebem. A pobreza e a desigualdade aumentaram notoriamente sob o Governo de Nicolás Maduro.
A Igreja revolucionária cubana está repleta de sacerdotes profissionais que já perderam a fé e de gestos que, desprovidos de significado, hoje parecem momices. Ninguém vive lá nem do cartão de abastecimento mensal nem do salário que o Estado paga. Alguns resumem assim: “Aqui uns fingem que trabalham e outros fingem que lhes pagam”. Com um salário oficial equivalente a 109 reais mensais, morrem de fome. A maior parte da economia nacional se desenvolve fora dessa estrutura socialista. Quem trabalha para uma empresa estatal faz isso principalmente para ter acesso aos bens que passam por ali: os caminhoneiros ao petróleo, os padeiros à farinha, os pedreiros ao cimento… e aí os roubam como formigas e os vendem no mercado negro. É um costume adquirido, de modo que nenhum cubano julga o outro por fazer isso. Se eu fosse descrever o grosso do funcionamento da economia cubana, diria que se trata de um capitalismo selvagem, desregulado e livre de impostos.
O processo de degradação não é novo, mas agora está em uma fase terminal. Ninguém fala de socialismo. É notório o renascer de uma nova burguesia. Embora as condições de vida da imensa maioria continuem sendo muito precárias, esse pequeno grupo que está protagonizando as mudanças viaja, tem Internet em suas casas (há empresas piratas que a instalam) e serve de fachada para dinheiro vindo de fora.
A esta altura, é um regime político em que ninguém acredita. Foi morto por seu orgulho, seu autoritarismo, sua burocracia. O iluminismo, a arrogância, o controle. Queria ser o mundo novo e se tornou um mundo velho. Faz tempo que seu objetivo não é a justiça, e sim a sobrevivência. Não saem em sua defesa os espíritos ousados e desrespeitosos. Aquilo que os barbudos de Sierra Maestra encarnaram alguma vez, hoje aponta o dedo contra eles e os condena. Um rastafári me disse o seguinte no parque Céspedes de Santiago de Cuba: “Como esses velhos podem continuar falando de revolução se lutam dia e noite para que nada mude?”.
Apesar de tudo, em Cuba houve uma tentativa, uma atrevimento, uma esperança e uma pretensão que deve voltar a nos encarar mais cedo do que tarde, porque o ser humano pode renascer depois do fracasso, mas a renúncia a toda a ilusão o mata para sempre. A tarefa de manter vivo o espírito de uma comunidade, de fazer com que cada homem também seja responsável pelos outros e assegurar que a liberdade de cada indivíduo não seja inimiga da liberdade de outros, ainda está de pé. Para torná-la crível, é indispensável se atrever a pensar de novo. Deixar para trás sem complexos aquela esquerda fracassada e pervertida. Acabar com esse matrimônio envenenado, para poder se apaixonar autenticamente outra vez.
Patricio Fernández é fundador e diretor do semanário chileno ‘The Clinic’. Seu último livro, ‘Cuba − Viaje al Fin de la Revolución’, foi lançado no Chile em 24 de janeiro pela editora Debate.