sexta-feira, 12 de abril de 2019

Thiago de Mello / Ninguém me habita


Thiago de Mello

Ninguém me habita 


Ninguém me habita. A não ser o milagre da matéria que me faz capaz de amor, e o mistério da memória que urde o tempo em meus neurônios, para que eu, vivendo agora, possa me rever no outrora. Ninguém me habita. Sozinho resvalo pelos declives onde me esperam, me chamam (meu ser me diz se as atendo) feiúras que me fascinam, belezas que me endoidecem.



quinta-feira, 11 de abril de 2019

Thiago de Mello / Aprendiz do espanto


Thiago de Mello

Aprendiz do espanto


Não deflorei ninguém. A primeira mulher que eu vi desnuda (ela era adulta de alma e de cabelos) foi a primeira a me mostrar os astros, mas não fui o primeiro a quem mostrou. Eu vi o resplendor de suas nádegas de costas para mim, era morena, mas quando se virou ficou dourada. Sorriu porque os seus peitos me assombraram o olhar de adolescente desafeito à glória da beleza corporal. Era manhã na mata, mas estrelas nasciam dos seus braços e subiam pelo pescoço, eu lembro, era o pescoço que me ensinava a soletrar segredos guardados na clavícula.

Pedia já estirada de bruços me chamando, que eu passeasse meus lábios pelas pétalas orvalhadas da nuca, eram lilazes, com as gemas de leve eu alisasse as espáduas de espumas e esmeraldas, queria a minha mão lhe percorrendo, mas indo e vindo, o vale da coluna, cuidadosa de mim, trés doucement. Ela me inaugurou o contentamento inefável de dar felicidade. Tanto conhecimento só podia ser de nascença, hoje eu calculo.

Não era um saber de experiências feito, mas quanta ciência para transmiti-lo. Ela era de outras águas, a fontana de trinta anos, que veio lá do Sena com a sina de me dar a beber na aurora dos seus olhos, nos seus peitos, na boca musical, no mar do ventre, no riso de açucena, na voz densa, nas sobrancelhas e no vão das pernas — o mel antigo da sabedoria de que a libido cresce quando atende, de que a tesão se acende na ternura, que as ante-salas se prolonguem vastas até estar pronto para entrar no céu.


quarta-feira, 10 de abril de 2019

Thiago de Mello / Poema perto do fim


Thiago de Mello

Poema perto do fim


A morte é indolor. O que dói nela é o nada que a vida faz do amor. Sopro a flauta encantada e não dá nenhum som. Levo uma pena leve de não ter sido bom. E no coração, neve.



terça-feira, 9 de abril de 2019

Nova temporada de ‘La Casa de Papel’ já tem data de estreia


https://www.youtube.com/watch?v=BU22bD6l-qE

Nova temporada de ‘La Casa de Papel’ já tem data de estreia

Netflix divulga as primeiras imagens da terceira temporada da série espanhola


MADRID, 1 ABR 2019

"As férias acabam em julho". Assim a Netflix anunciou a data da nova temporada de 'La Casa de Papel': 19 de julho. A série espanhola, nascida no canal Antena 3, converteu-se em um fenômeno mundial ao entrar na Netflix, chegando a ser a série de fala não inglesa mais vista da plataforma. Depois do sucesso, a empresa comprou os direitos para produzir a nova temporada, que contará a história de um novo golpe, com ladrões como protagonistas.
O anúncio da data de estreia veio acompanhado de um trailer em que se vê o Professor, Tóquio, Nairobi, Denver e Rio desfrutando de dias de descanso em um local paradisíaco. Mas essa tranquilidade acabará logo. Pouco se sabe até agora da trama, que foi rodada em locais como Florença, Tailândia, Panamá e Madri.
Os novos capítulos da série, que ganhou um Emmy Internacional em novembro, contam com grande parte do elenco original da série. Úrsula Corberó, Miguel Herran, Álvaro Morte, Jaime Lorente e Alva Flores voltarão a dar vida a seus personagens. Também regressará Pedro Alonso (Berlim na ficção), embora não se saiba em que circunstâncias. Além disso, nomes como Najwa Nimri, Fernando Cayo, Rodrigo da Serna e Hovik Keuchkerian foram incorporados ao elenco.




Nova temporada de ‘La Casa de Papel’ já tem data de estreia



Nova temporada de ‘La Casa de Papel’ já tem data de estreia



Nova temporada de ‘La Casa de Papel’ já tem data de estreia


segunda-feira, 8 de abril de 2019

Maisie Williams / “Ainda não derramei uma lágrima pelo final de ‘Game of Thrones”

Maisie Williams

Maisie Williams: “Ainda não derramei uma lágrima pelo final de ‘Game of Thrones”

Atriz se despede da mítica série e se prepara para um futuro incerto e ambicioso


Irene Crespo
7 abr 2019





Maisie Williams na estreia da última temporada de Jogo de Tronos.
Maisie Williams na estreia da última temporada de Jogo de Tronos.  REUTERS


Maisie Williams (Bristol, Inglaterra, 1997) afirma que ainda não derramou uma lágrima sequer pelo final de Game of Thrones (cuja última temporada começa dia 14 de abril). A filmagem acabou no ano passado. Cada ator foi terminando em dias e locais diferentes. O último dia de Williams, de sua personagem, Arya Stark, foi também o último da filmagem para quase toda a equipe, um dia “especialmente emocionante”, mas ela não chorou. E isso porque a cena era das mais “tranquilas e serenas” das que fez em toda a série.
Maisie chegou ao final, como uma das poucas atrizes que apareceram como protagonistas em cada uma das oito temporadas, “em paz com Arya” e também um pouco cansada. “Esgotei cada meandro de meu personagem”, diz. E nessa última temporada teve ainda mais trabalho. Após 10 anos dedicados quase exclusivamente à Stark mais nova, toda sua adolescência, está preparada para deixá-la ir. “Provavelmente chorarei no tapete vermelho na première”, ri.
Maisie Williams em uma cena de 'Game of Thrones'.Maisie Williams em uma cena de 'Game of Thrones'. HBO


Tinha 11 anos quando a escolheram para representar Arya entre mais de 300 meninas de toda a Inglaterra. Já gostava de atuar, mas ainda não era mais do que um passatempo extraescolar. Acha que ganhou o teste porque se parecia muito com seu personagem. Entrou na seleção com buracos nos joelhos de suas meias-calças. Aos sete anos os professores já lhe diziam no colégio que opinava e queria controlar tudo. “Tinha a mesma cara-de-pau de Arya”, diz. E também suas aspirações e espírito guerreiro. “Por que não posso ser isso ou aquilo por ser menina?”, se perguntava.
Sua Arya queria ser cavaleira e ter uma espada como seus irmãos; Maisie não queria que a julgassem por sua imagem e suas roupas, como não o faziam com seu colegas masculinos do elenco. Ainda assim, tanto ela com sua irmã na série e sua melhor amiga na vida real, Sophie Turner, admitem que começar na indústria em uma série assim, com personagens femininos complexos, é quase como se fossem “malcriadas”.
Após escutar todas as histórias de outras atrizes que saíram no último ano, sabe que tiveram “muita sorte”. Percebeu assim que começou a ler roteiros e nada estava à altura: “A indústria precisa melhorar muitas coisas, mudar, mas pelo menos as mulheres estão se protegendo. É como um curativo, nos ajuda, nos cura, mas resta um longo caminho a percorrer, ainda existem muitas conversas a se abrir”.




Maisie Williams vestida de Thom Browne.
Maisie Williams vestida de Thom Browne. GETTY IMAGES


Já foi embaixadora da ONU na campanha #LikeaGirl, seguindo os passos de outras atrizes ativistas como Emma Watson. Nessa última década seu papel em Doctor Who foi o que causou mais repercussão além de Game of Thrones. Tem uma grande produção a estrear, X-Men: Novos Mutantes, uma versão mais aterrorizante dos quadrinhos da Marvel, e continua focada no desenvolvimento de sua rede social artística, Daisie. Agora que recupera completamente sua vida, prefere parar, pensar e escolher papéis interessantes do que trabalhar por inércia.
“Indiretamente nos colocam muita pressão”, diz. “Há tempos que escuto isso de: ‘Quando acabar o contrato de Game of Thrones você terá 21 anos e muitas oportunidades’. Mas até que esse momento realmente chegue você não se pergunta o que quer fazer, como quer levar a vida. Como disse aos meus agentes, preciso descansar. E nesses meses que tive para mim, fui mais criativa do que nunca”.
Williams deixou a escola quando começou a filmagem da série e voltou após as duas primeiras temporadas, mas o assédio que encontrou a fez abandoná-la de novo e nunca mais voltou. Foi uma época “amarga” em sua vida e, novamente, coincidiu com um estado emocional mais sombrio também para Arya. Aos 16 anos se tornou independente de seus pais. Sabe que fez quase tudo muito antes e mais rápido do que qualquer jovem: “Como não conheci outra coisa, não posso comparar, mas cercada de todas essas pessoas tão interessantes, mesmo deixando os estudos muito jovem, aprendi coisas que não te ensinam na escola. Isso me formou”.

E agora se sente, com qualquer jovem de 21 anos, confusa pelo futuro. “Outro dia fui dar uma palestra na Universidade e todos os estudantes me perguntavam o que eu iria fazer. Disse que estávamos no mesmo barco, nessa idade todos passamos pela mesma coisa: eu me formei em Game of Thrones e não sei o que vou fazer. Tenho certeza de que farei grandes coisas em minha vida, ainda que não saiba com que régua irão medir. Isso é o estressante. Mas sei que farei coisas boas”.

sábado, 6 de abril de 2019

Vargas Llosa / Cântico dos Cânticos

Víctor García de la Concha
Fernando Vicente


Mario Vargas Llosa

Cântico dos Cânticos

É justo que se preste uma homenagem a Víctor García de la Concha. Seu último livro é uma edição crítica do Cântico dos Cânticos de Salomão, traduzido do hebraico pelo frei Luis de León


6 abr 2019

Uma oportuna arritmia salvou Víctor García de la Concha da homenagem que iríamos prestar-lhe em Córdoba (Argentina) durante o oitavo Congresso da Língua realizado recentemente na cidade. Tivemos de nos contentar com um bom documentário sobre seus esforços acadêmicos para reforçar o caráter unitário do espanhol, apesar de ser incessantemente irrigado por mais de vinte países no mundo. Mas não se livrará por muito tempo, já que o Instituto Cervantes pretende entregar a ele em Madri a medalha que ficou sem destinatário nessa ocasião. Eu, da minha parte, o homenageei lendo seu último livro: uma edição crítica do Cântico dos Cânticos de Salomão, traduzido do hebraico pelo frei Luis de León, publicado recentemente pela Editora Vaso Roto em sua coleção Esenciales Poesía.
É um livro impecável, lido do início ao fim com imenso prazer; ainda que também com certa indignação, porque, por escrevê-lo e pelas intrigas dos eternos invejosos, o infeliz frei Luis de León ficou vários anos preso em Valladolid e foi torturado pela Inquisição. Além disso, nunca viu editada essa bela tradução publicada somente duzentos anos após sua morte (em 1798). Em sua apresentação, García de la Concha dá todos os dados necessários para se conhecer a história do poema e das vicissitudes dolorosas que significou para o frei Luis de León – incluindo o julgamento interminável a que foi submetido – se arriscar a traduzi-lo do hebraico à língua castelhana.
De acordo com a lenda, o rei Salomão teve setecentas mulheres e trezentas concubinas. Mas nenhuma delas o inspirou como a filha do Faraó, a sulamita, um poema tão profundo e terreno como esse cântico que, apesar de suas ousadas e voluptuosas imagens, se recitava primeiro na Pascoa judaica (ainda que os judeus só pudessem lê-lo após completar quarenta anos) e fazia parte do Antigo Testamento. Nesta edição, cuidadosamente anotada, estão também as Explicações à sua tradução escritas por frei Luis de León e que, pela delicadeza e perfeição de sua prosa, assim como pela sabedoria de suas análises e observações filológicas, são um complemento indispensável do poema. A liberdade das efusões trocadas pelos amantes brilha desde os primeiros versos do poema com a ardente proclamação da Esposa: “Beije-me com beijos de sua boca / porque seus amores são melhores do que o vinho”.


Víctor García de la Concha foi um excepcional crítico da poesia mística espanhola

Fiel à tradição, frei Luis lembra de tempos em tempos em suas Explicações que, na verdade, o Cântico dos Cânticos é uma alegoria, ou seja, uma paixão figurada que narra a inquebrantável união de Deus e da Igreja e que, portanto, os galanteios e carícias desenfreadas dos esposos ao longo do poema não são carnais e sim espirituais e simbólicos. Temo que ninguém que o leia em nossos incrédulos tempos engula semelhante teoria. Mas, talvez, não seja tão absurdo o contrário; ou seja, que a maestria artística com que é descrita essa paixão ardente que possui os amantes a carrega de espiritualidade e lhe confere uma dimensão que transcende a vida meramente vivida, desejada e consumada e a enriquece com uma projeção religiosa e ultraterrena.
O autor do poema e, seja como for, seu tradutor ao espanhol, conheciam o amor, a atração da mulher, os jogos da sedução, os segredos do desejo, e haviam imaginado (e talvez vivido) a felicidade e o gozo físico que o texto evoca com tanto refinamento e delicadeza. Os amantes se observam, se examinam, se excitam, se despem e fazem amor. Também brincam, disfarçados de pastorinhos, correm pelos campos, se escondem entre as árvores e em meio aos rebanhos de cabras, simulam se perder e, então, a Esposa perde a razão e, correndo todos os riscos, durante a noite se lança pelas ruas de Jerusalém à procura de seu Amado. Tudo aquilo é um ingrediente do jogo teatral que fez parte da paixão dos casais ao longo dos séculos; e, entretanto, a poesia do Cântico dos Cânticos o transforma em uma experiência singular, excepcional e única. Era talvez a isso que se referia Jorge Guillén quando chamou o poema de um “cântico prodigioso”. Não resta a menor dúvida de que o é e, para os leitores deste tempo, como é maravilhoso, como é atual, como nos fala diretamente de um amor que conhecemos, como parece extraordinariamente próximo à poesia experimental e de vanguarda, graças ao atrevimento de suas metáforas e ao deslocamento de sua sintaxe, à liberdade exercida por seu autor a cada verso. Na grande poesia há sempre algo superlativo e inefável, que nos fascina ao mesmo tempo em que nos assusta, pois nos abre as portas – ou as frestas – desse “outro lado” que a vida também tem e que somente a grande arte – a poesia e a música – são capazes de nos fazer entrever. Há muito tempo não tinha tanto prazer lendo um poema que não havia relido desde meus tempos de estudante.


O autor do poema e, seja como for, seu tradutor ao espanhol, conheciam o amor, a atração da mulher, os jogos da sedução, os segredos do desejo

É justo que se preste uma homenagem a Víctor García de la Concha. Foi um excepcional crítico da poesia mística espanhola, e poucos analistas descreveram com a fluência e elegância com que ele o fez, no livro fundamental que é Al Aire de Su Vuelo, a poesia de santa Teresa, de são João da Cruz e do próprio frei Luis de León. A poesia mística é algo mais do que poesia, o testemunho de um encontro inusitado em que seres excepcionais cruzam uma fronteira misteriosa rumo a algo além do que a razão e o conhecimento podem reconhecer, algo a que só se chega através do milagre da fé, e que, justamente por isso, está fora do alcance do ser puramente racionalista e agnóstico. E, entretanto, a beleza imperecível de certas imagens, emoções e músicas, e a astúcia e sutileza do crítico, aproximam esses leitores refratários ao coração dessa poesia que é mais do que poesia, e permitem que ele compartilhe com seus autores sua embriaguez irracional e sua loucura divina. Mas Víctor García de la Concha também foi um sagaz leitor do romance moderno espanhol e latino-americano, como mostrou em sua coleção de ensaios Cinco Novelas en Clave Simbólica, publicada em 2010.
Como diretor do Instituto Cervantes, no que foi provavelmente o período mais crítico da crise econômica na Espanha, lutou não só para não fechar nenhum centro do Instituto Cervantes como para abrir vários outros em diversos continentes. E foi um diretor excepcional da Real Academia Espanhola, que trabalhou de maneira incansável para estreitar os vínculos entre todas as academias americanas e a espanhola, de modo que despareceram as reservas e distâncias que anteriormente frustraram essa colaboração. A vitalidade e o impulso crescente do espanhol pelo mundo têm há muitos anos nesse antigo professor da Universidade de Salamanca um de seus melhores guardiões.