quarta-feira, 18 de maio de 2016

Vargas Llosa / A derrota de Evo




Evo Morales
(Fernando Vicente)

A derrota de Evo

Popularidade do presidente não bastará para que a opinião pública boliviana continue enganada


MARIO VARGAS LLOSA
5 MAR 2016 - 18:00 COT

A derrota de Evo Morales no referendo com o qual pretendia reformar a Constituição para se reeleger pela quarta-vez no ano 2019 é uma boa coisa para a Bolívia e para a cultura da liberdade. Inscreve-se em uma cadeia democratizante que vai golpeando o populismo demagógico na América Latina, da qual são marcos importantes a eleição de Mauricio Macri na Argentina contra o candidato da senhora Fernández de Kirchner, o anúncio de Rafael Correa de que não será candidato nas próximas eleições no Equador, a esmagadora derrota –por cerca de 70% dos votos– do regime de Nicolás Maduro nas eleições para a Assembleia Nacional na Venezuela e o desprestígio crescente da presidenta Dilma Rousseff e seu mentor, o ex-presidente Lula, no Brasil, pelo fracasso econômico e os escândalos de corrupção da Petrobras que pressagiam também um fracasso catastrófico do Partido dos Trabalhadores nas próximas eleições.
Ao contrário dos governos populistas da Venezuela, Argentina, Equador e Brasil, cujas políticas demagógicas fizeram suas economias desmoronarem, dizia-se de Evo Morales que sua política econômica vinha sendo bem-sucedida. Mas as estatísticas não contam toda a verdade, ou seja, o período enormemente favorável que a Bolívia viveu em boa parte destes dez anos de Governo com o aumento do preço das matérias-primas; desde a queda delas, o país decresce e está sendo sacudido por escândalos e corrupção. Isso explica em parte o descenso vertiginoso da popularidade de Evo Morales. É interessante observar que no referendo quase todas as principais cidades bolivianas votaram contra ele, e que, se não tivesse sido pelas regiões rurais, as menos cultas do país e também as mais longínquas, onde é mais fácil para o Governo falsificar o resultado das urnas, a derrota de Evo teria sido muito maior.
Até quando o singular mandatário continuará lançando ao “imperialismo norte-americano” e aos “liberais” a culpa de tudo o que vai mal? O último escândalo que protagonizou tem a ver com a China, não com os Estados Unidos. Uma ex-amante dele, Gabriela Zapata, agora presa, com a qual teve um filho em 2007, foi depois executiva de uma empresa chinesa que vinha recebendo suculentos e arbitrários contratos governamentais para construir estradas e outras obras públicas num valor acima de 500 milhões de dólares. O flagrante favoritismo desses contratos ilegais, denunciados por um destemido jornalista, Carlos Valverde, sacudiu o país, e os desmentidos e explicações do presidente só serviram para comprometê-lo mais com a negociata. E para que a opinião pública boliviana recorde que esse é somente o último exemplo de uma corrupção que ao longo deste decênio vinha manifestando-se em múltiplas ocasiões, apesar de a popularidade de Evo ter servido para silenciá-la. Dá a impressão de que aquela popularidade, que se vai dissipando, já não bastará para que a opinião pública boliviana continue enganada, aplaudindo um mandatário e um regime que são um monumento ao populismo mais desenfreado.




O último escândalo que protagonizou tem a ver com a China, não com os Estados Unidos

Tomara que, do mesmo modo que os bolivianos, a opinião pública internacional deixe de mostrar essa simpatia em última instância discriminatória e racista que, sobretudo na Europa, tem rodeado o suposto “primeiro indígena que chegou a ser presidente da Bolívia”, uma das muitas mentiras que sua biografia oficial propala, em todas as suas viagens internacionais. Por que discriminatória e racista? Porque os franceses, italianos, espanhóis e alemães que enalteceram o divertido governante que se exibia nas reuniões oficiais sem gravata e com uma desbotada chompita de alpaca jamais teriam celebrado um governante de seu próprio país que dissesse as estupidezes que Evo Morales dizia por toda a parte (como que na Europa havia tantos homossexuais por causa do consumo exagerado da carne de frango), mas, ao que parece, para a Bolívia esse ignaro personagem estava bom. Os aplausos a Evo Morales na Europa me recordavam Günter Grass quando recomendava aos latino-americanos “seguirem o exemplo de Cuba”, mas para a Alemanha e a culta Europa ele não propunha o comunismo, e sim a social-democracia. Ter pesos e medidas distintos para o Primeiro e o Terceiro Mundo é, pura e simplesmente, discriminatório e racista.
Quem acredita que um personagem como Evo Morales está bom para a Bolívia (embora nunca estivesse para a França ou a Espanha) tem uma pobre e injusta ideia daquele país do altiplano. Um país de que eu gosto muito, pois ali, em Cochabamba, passei nove anos de minha infância, uma época que recordo como um paraíso. A Bolívia não é um país pobre, mas, sim, como muitas repúblicas latino-americanas, empobrecido pelos maus Governos e as políticas equivocadas de seus governantes –muitos deles tão pouco informados e tão demagogos como Evo Morales–, que desperdiçaram os ricos recursos de sua gente e seu solo –sobretudo, colinas e montanhas– e permitiram que uma pequena oligarquia prosperasse a tal ponto que a base da pirâmide, as grandes massas quéchua e aimará, e a população mestiça, que é o grosso de sua classe média, vivessem na pobreza. Evo Morales e aqueles que o rodeiam não fizeram avançar nem um pingo o progresso da Bolívia com seus acordos comerciais com o Brasil para a exploração do gás e seus empréstimos gigantes provenientes da China para o financiamento de obras públicas faraônicas e, muitas delas, sem sustentação técnica nem financeira, que comprometem seriamente o futuro desse país, ao mesmo tempo em que sua política de nacionalizações, vitimização da empresa privada e exaltação da luta de classes (e, com frequência, de raças) incentivava uma violência social de perigosas consequências.




É interessante advertir que no referendo quase todas as principais cidades votaram contra ele

A Bolívia conta com políticos respeitáveis, realistas e valentes –conheço alguns deles–, que, apesar das condições dificílimas em que tinham de atuar, arriscando-se a campanhas ignóbeis de desprestígio por parte da imprensa e dos aparatos de repressão do Governo, ou à prisão e ao exílio, vêm defendendo a democracia, a liberdade ultrajada, denunciando os atropelos e a política demagógica, a corrupção e as medidas errôneas e insensatas de Evo Morales e sua corte de ideólogos, encabeçados pelo vice-presidente, o marxista Álvaro García Linera. São eles, e dezenas de milhares de bolivianos como eles, a verdadeira cara da Bolívia. Eles não querem que seu país seja pitoresco e folclórico, uma anomalia divertida, mas um país moderno, livre, próspero, uma genuína democracia, como são agora Uruguai, Chile, Colômbia, Peru e tantos outros países latino-americanos que souberam desvencilhar-se –ou estão a ponto de fazê-lo, mediante os votos– de quem, como o casal Kirchner, o comandante Chávez e seu herdeiro Nicolás Maduro, o inefável Rafael Correa, Lula e Dilma Rousseff, os estavam ou ainda estão levando-os ao abismo.
A derrota de Evo Morales no referendo do domingo passado abre uma grande esperança para a Bolívia e agora só é preciso que a oposição, que festeja esse resultado, mantenha a unidade (precária, infelizmente) que essa consulta produziu, e não volte a dividir-se, pois esse seria um presente dos deuses para a declinante estrela de Evo Morales. Se se mantiver unida e tão ativa como esteve nestas últimas semanas, a Bolívia será o próximo país latino-americano a livrar-se do populismo e recobrar a liberdade.
EL PAÍS
PESSOA




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