sábado, 18 de junho de 2016

Vargas Llosa / A Viagem no balão

Borges e Maria Kodama
Ilustração de Fernando Vicente
Mario Vargas Llosa

A Viagem no balão

Borges demorou para desfrutar de um amor correspondido e isso se refletiu em sua literatura. Nunca poderia ter escrito 'Atlas' sem viver as maravilhosas experiências que conta neste livro


EL PAÍS
4 0UT 2014

Eu acreditava ter lido todos os livros de Jorge Luis Borges – alguns, várias vezes –, mas há pouco tempo encontrei em um sebo um que desconhecia:Atlas, escrito em colaboração com María Kodama e publicado pela Sudamericana em 1984. É um livro de fotos e notas de viagem, e na capa vemos o casal dando um passeio de balão sobre os vinhedos do Napa Valley, na Califórnia.
As notas, acompanhadas por fotografias, foram escritas, em sua grande maioria pelo menos, nos dois ou três anos anteriores à publicação. São muito breves, primeiro memorizadas e depois ditadas, como os poemas escritos por Borges no final da sua vida. Sempre precisas e inteligentes, estão recheadas de citações e referências literárias, e nelas existe sabedoria, ironia e uma cultura tão vasta como a geografia de três ou quatros continentes que o autor e a fotógrafa visitam nesse período (descem e sobem sem cessar em aviões, trens e barcos). Mas também existe nelas – e isso não é nem um pouco frequente em Borges – alegria, exaltação, desfrute da vida. São as notas de um homem apaixonado. Borges as escreveu entre os 83 e os 85 anos, depois de ter perdido a visão décadas antes e, portanto, quando era incapaz de ver com os olhos os lugares que visitou: somente podia fazê-lo com a imaginação.
Ninguém diria que quem as escreve é um octogenário cego, porque elas transpiram um entusiasmo febril e juvenil por tudo aquilo que toca e pisa, e seu autor se permite às vezes os dengos e gracejos de um jovenzinho a quem a garota do bairro, por quem estava apaixonado, acaba de dizer sim. A explicação é que María Kodama, a frágil, discreta e misteriosa jovem argentino-japonesa, sua ex-aluna de anglo-saxão e das sagas nórdicas, por fim o aceitou, e o ancião escritor goza, sem dúvida pela primeira vez na vida, de um amor correspondido.
Isso pode parecer uma fofoca doentia, mas não é; a vida sentimental de Borges, a julgar pelas quatro biografias dele que eu li – as de Rodríguez Monegal, María Esther Vázquez, Horacio Salas e, sobretudo, a de Edwin Williamson, a mais completa – foi um puro desastre, uma frustração atrás da outra. Ele se apaixonava geralmente por mulheres cultas e inteligentes, como Norah Lange e sua irmã Haydée, Estela Canto, Cecilia Ingenieros, Margarita Guerrero e algumas outras, que o aceitavam como amigo, mas, assim que descobriam seu amor, o mantinham à distância e, cedo ou tarde, o largavam. Somente Estela Canto esteve disposta a levar as coisas a uma intimidade maior, mas, nesse caso, foi Borges quem tirou o corpo fora. Podemos dizer que era o jogo de sombras que o atraía no amor: ameaçá-lo, não concretizá-lo. Somente nos seus últimos anos, graças a María Kodama, teve uma relação sentimental que parece ter sido estável, intensa, formal, de compenetração intelectual recíproca, algo que fez Borges descobrir um aspecto da vida que até então, segundo sua terminologia, havia sido privado.




Todo o relacionado com o sexo resultaria inquietante e perigoso até uma idade avançada

Uma vez escreveu: “Muitas coisas eu li e poucas coisas vivi”. Ainda que não tivesse dito, teríamos sabido disso lendo seus contos e ensaios, de prosa encantadora, sutil inteligência e soberba cultura. Mas de uma estremecedora falta de vitalidade, um mundo riquíssimo em ideias e fantasias no qual os seres humanos parecem abstrações, símbolos, alegorias, e no qual os sentidos, apetites e toda forma de sensualidade foram pouco menos do que abolidos; se o amor aparece, é intelectual e literário, quase sempre assexuado.
As razões dessa privação podem ter sido muitas. Williamson frisa como um fato traumático em sua vida uma experiência sexual que o pai de Borges lhe impôs, em Genebra, mandando-o a uma prostituta para conhecer o amor físico. Ele já tinha dezenove anos, e aquela tentativa foi um fiasco, algo que, segundo seu biógrafo, repercutiu gravemente sobre sua vida futura. Desde então, tudo relacionado com o sexo teria sido para ele algo inquietante, perigoso e incompreensível, um território que manteve à distância do que escrevia. E é verdade que em seus contos e poemas o sexo é uma ausência mais do que uma presença e que, quando aparece, costuma ser acompanhado de certa angústia e até horror (“Os espelhos e a cópula são abomináveis porque multiplicam o número dos homens”). Somente a partir de Atlas (1984) e Os Conjurados (1985), uma coleção de poemas (“Este livro é seu, María Kodama”, “Neste livro estão as coisas que sempre foram suas”), o amor físico aparece como uma experiência prazerosa, enriquecedora da vida.
Os psicanalistas têm um bom material – já abusaram bastante dele – para analisar as relações de Borges com sua mãe, a temível dona Leonor Acevedo, descendente de próceres, que – como conta Estela Canto, uma das namoradas frustradas de Borges, em um livro autobiográfico – exercia uma vigilância estrita sobre as relações sentimentais de seu filho, acabando com elas de modo implacável se a dama em questão não se ajustasse às suas severíssimas exigências. Essa mãe castradora teria anulado, ou, pelo menos, freado a vida sexual do filho adorado. Dona Leonor foi fator decisivo no casamento de Borges com dona Elsa Astete Millán em 1967, que durou somente três anos e foi um martírio do princípio ao fim para Borges, ao extremo de induzi-lo a terminar fugindo, como nas letras truculentas de um tango, de sua cônjuge.




O rico mundo inventado pelos maestros da palavra escrita encheu-se com María Kodama

Tudo isso mudou no final de sua vida, graças a María Kodama. Muitos amigos e parentes de Borges a atacaram, acusando-a de calculista e interesseira. Que injustiça! Eu acredito que graças a ela – para saber basta ler o precioso testemunho que é Atlas – Borges, octogenário, viveu anos esplêndidos, desfrutando não somente dos livros, da poesia e das ideias, mas também da proximidade de uma mulher jovem, bela e culta, com quem podia falar de tudo aquilo que o apaixonava e que, além disso, o fez descobrir que a vida e os sentidos podiam ser tão ou mais excitantes que os aforismos de Zenão, a filosofia de Schopenhauer, a máquina de pensar de Raimundo Lúlio ou a poesia de William Blake. Nunca poderia ter escrito as notas desse livro sem ter vivido as maravilhosas experiências que Atlas nos mostra.
Maravilhosas e disparatadas, aliás, como levantar-se às quatro da madrugada para subir em um balão e passear uma hora e meia entre as nuvens, a intempérie, fustigado pelas correntes de ar californianas, sem ver nada, ou percorrer meio mundo para chegar ao Egito, pegar um punhado de areia, jogá-lo longe e poder escrever: “Estou modificando o Saara”. O casal vai da Irlanda para Veneza, de Atenas para Genebra, do Chile para a Alemanha, de Istambul para Nara, de Reykjavík para Deià, e chega ao labirinto de Creta, onde, além de lembrar o Minotauro, tem a sorte de se perder, o que permite a Borges citar uma vez mais para sua dama: “Em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações como María Kodama e eu nos perdemos naquela manhã e continuamos perdidos no tempo, esse outro labirinto”. Quando estão percorrendo as ilhas do Tigre, em uma das quais Leopoldo Lugones se suicidou, Borges recorda “com um sentimento de agridoce melancolia que todas as coisas do mundo me levam para uma citação ou a um livro”. Isso era certo, antes. Nos últimos anos de sua vida, tudo o que faz, toca e imagina nessa caudalosa e frenética andança o aproxima não da literatura, mas da sua jovem companheira. O rico mundo inventado pelos grandes mestres da palavra escrita se encheu, para ele, no limiar da morte, de animação, ternura, bom humor e até paixão.
Pouco tempo depois, em 1986, em Genebra, quando Borges, já muito doente, sentiu que estava morrendo, disse para María Kodama que, depois de tudo, não era impossível que existisse algo, além do final físico de uma pessoa. Ela, muito prática, lhe perguntou se queria que chamasse um sacerdote. Ele assentiu, com uma condição: que fossem dois, um católico, como lembrança de sua mãe, e um pastor protestante, em homenagem a sua avó inglesa e anglicana. Literatura e humor, até o último instante.


PESSOA

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