quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Quando a Alemanha deportou o patriarca dos Trump

O avô de Donald Trump, Friedrich Trump.

Quando a Alemanha 

deportou o patriarca dos Trump

Um pesquisador encontra o documento de expulsão de 1905 do avô do futuro presidente dos EUA


LUIS DONCEL
Berlim 23 NOV 2016 - 17:31 CST


Donald Trump chegará em 20 de janeiro à presidência dos Estados Unidos graças, em grande medida, a um discurso duro contra a imigração. O homem que se propôs “tornar a América grande de novo” poderá nesse momento recordar seu pai, Fred, nascido em solo norte-americano em 1905, poucos meses depois de sua família ser expulsa da Alemanha. A história já era conhecida. Mas um pesquisador encontrou agora o documento que certifica o momento em que a família Trump teve de fazer as malas e buscar a vida na outra ponta do mundo.



Na época não podiam saber, mas as autoridades bávaras iriam mudar a história do século XXI com uma carta. “Informa-se o cidadão americano Friedrich Trump. Agora residente em Kallstadt, que dispõe até 1 de maio do presente ano para abandonar o Estado da Baviera. Caso contrário, deve estar preparado para sua expulsão”, dizia o documento datado de 27 de fevereiro de 1905, publicado pelo jornal Bild.
A história é tão intrincada quanto fascinante. Friedrich já havia abandonado Kallstadt em 1885, com apenas 16 anos. Como tantos alemães, chegava a uma América imersa na febre do ouro com desejo de fazer fortuna. Mas, em vez de buscar o metal precioso, ele se dedicou a abrir locais onde oferecia comida, bebida e, segundo sua biógrafa Gwenda Blair, prostitutas. O negócio andou bem e, já com dinheiro no bolso, voltou à sua cidade natal. Ali conheceria sua mulher, Elisabeth.
Depois de idas e vindas, a família decidiu estabelecer-se definitivamente em Kallstadt, que na época pertencia ao reino da Baviera e, hoje, ao Estado da Renânia-Palatinado. Mas os entraves administrativos se interpuseram em seu caminho. “Ao emigrar aos EUA em 1885, Trump partiu sem notificar seu país, como era obrigado, e sem cumprir o serviço militar. Por esse motivo, as autoridades lhe negaram em 1905 a renacionalização”, afirma Paul, diretor emérito do Instituto de História e Folclore do Palatinado.
O avô do presidente eleito fez de tudo para revogar a decisão. Escreveu uma carta ao “mui querido, nobre, sábio e justo soberano” príncipe regente Leopoldo, na qual lhe pedia permissão para ficar. Sem sucesso. A família Trump abandonaria a Alemanha de forma definitiva em 1 de julho de 1905, rumo a Nova York. Ali nasceria três meses depois o pai do que hoje pode ser um dos homens mais famosos do mundo.
Está sendo difícil para Kallstadt se acostumar com a popularidade. Antes da vitória de Trump, muitos moradores diziam esperar que não ganhasse. Primeiro, porque a cidade se encheria de curiosos. Segundo, porque, como reconhecia seu prefeito, não sentia uma grande simpatia por Trump. “Aqui são muito mais queridos os Heinz que os Trump”, afirmava a EL PAÍS em junho Simone Wendel, diretora do documentário Kings of Kallstadt. Porque a família Heinz, mundialmente famosa pelo vinho, também procede desta pequena localidade vinícola. Na popularidade dos Heinz também influem os 40.000 euros (143.000 reais) que a família doou para reparar o órgão da igreja. Na cidade ninguém se lembra de um gesto parecido por parte de Donald Trump. Embora, claro, o futuro presidente aparecesse no documentário de Wendel. “Adoro Kallstadt”, afirmava.

EL PAÍS

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