sábado, 17 de fevereiro de 2024

Mary Oliver / A viagem

 


Mary Oliver


Não sou tradutor, mas conheci recentemente Mary Oliver, 1935/2019, essa adorável poeta americana, que tem um livro sobre cachorros que eu adoraria traduzir "Dog songs". Ela foi a mais longeva das poetas de sua geração e tinha uma relação, digamos, metafísica com a natureza, tendo ganho todos os principais prêmios de poesia nos EUA. Aqui um belo poema dela com tradução de dois especialistas e a minha modesta contribuição.

Marcilio Godoy


THE JOURNEY 

In: “Dream Work” - 1986


One day you finally knew

what you had to do, and began,

though the voices around you

kept shouting

their bad advice –

though the whole house

began to tremble

and you felt the old tug

at your ankles.

“Mend my life!”

each voice cried.

But you didn’t stop.

You knew what you had to do,

though the wind pried

with its stiff fingers

at the very foundations,

though their melancholy

was terrible.

It was already late

enough, and a wild night,

and the road full of fallen

branches and stones.

But little by little,

as you left their voices behind,

the stars began to burn

through the sheets of clouds,

and there was a new voice

which you slowly

recognized as your own,

that kept you company

as you strode deeper and deeper

into the world,

determined to do

the only thing you could do –

determined to save

the only life that you could save.


***


A VIAGEM (tradução J. A. Rodrigues)

 

Um dia finalmente soubeste

o que tinhas que fazer, e o começaste,

ainda que as vozes ao teu redor

insistissem em esbravejar

os seus maus conselhos –

ainda que toda a casa

começasse a tremer

e sentisses o velho tranco

em teus tornozelos.

“Corrige-me a vida!”

bradava cada uma das vozes.

Mas não te detiveste.

Sabias o que tinhas que fazer,

ainda que o vento imprimisse força

com os seus rígidos dedos

às próprias fundações,

ainda que a sua melancolia

fosse tremenda.

Já era tarde o bastante,

uma noite selvagem,

e a estrada estava cheia

de pedras e galhos caídos.

Mas pouco a pouco,

conforme deixavas suas vozes para trás,

as estrelas começaram a cintilar

por entre as camadas de nuvens,

e se ouviu uma nova voz

que aos poucos

reconheceste como tua,

que te fez companhia

enquanto adentravas

o mundo cada vez mais fundo,

decidida a fazer

a única coisa que poderias fazer –

decidida a salvar

a única vida que poderias salvar.

 

***


A VIAGEM (tradução: Yuri Amauri)


Um dia descobriste finalmente

o que tinhas que fazer, e começaste,

apesar das vozes à tua volta

continuarem a gritar-te

os seus maus conselhos -

apesar de toda a casa

ter começado a vacilar

e sentires o velho esticão

nos teus tornozelos.

"Corrige a minha vida!"

gritou cada uma das vozes.

Mas não paraste.

Sabias o que tinhas que fazer,

apesar do vento ter suplicado

com os dedos apontados

às mais profundas fundações,

apesar da sua melancolia

ser terrível.

Era já muito tarde,

e uma noite selvagem,

e a estrada cheia de ramos

caídos e pedras.

Mas, à medida que

deixavas as suas vozes para trás,

as estrelas começaram a arder

por entre as camadas das nuvens

e surgiu uma nova voz

que aos poucos

reconheceste como tua,

que te fez companhia

enquanto avançaste cada vez mais fundo

no interior do mundo,

determinado a fazer

a única coisa que podias fazer -

determinado a salvar

a única vida que podias salvar.


***


A VIAGEM (tradução: Marcílio Godoi)


Um dia, enfim, você descobre

que tem algo a fazer, e o faz

apesar das vozes em volta

manterem a grita

dos seus maus conselhos -

apesar de a casa inteira

ter começado a balançar 

forçando aquele puxão

nas suas canelas.

"Sustenta a minha vida!"

as vozes entoavam.

Mas você resistiu.

Pois você sabia o que tinha de ser feito

apesar de os uivos suplicantes do vento

terem seus dedos apontados

para a base de tudo,

apesar dessa terrível

melancolia.

Já era tarde

o bastante e a selvagem noite

e a estrada repleta da queda

de galhos e pedras.

Mas, pouco a pouco

enquanto você se afastava das vozes

e as estrelas começavam a arder

por entre filetes de nuvens

surgiu uma nova voz

que lentamente 

você reconheceu como sua,

e lhe fez companhia

enquanto você avançava cada vez mais fundo

mais dentro do mundo,

determinado a fazer

a única coisa que você podia fazer —

determinado a salvar

a única vida que você podia salvar.





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