terça-feira, 30 de junho de 2015

Rubem Fonseca / Conto de amor

Ilustração de Triunfo Arciniegas

Rubem Fonseca
CONTO DE AMOR



Quando servi o Exército eu me tornei especialista em bombas. Sei fabricar qualquer tipo de bomba portátil, muito usada por terroristas. A bomba que eu estava fazendo tinha que ter efeito fulminante, para que a vítima nada sofresse. E antes da explosão, era necessário que fosse emitido um feixe de luz radiante que fizesse a vítima perceber a iminência da explosão. 
A pessoa que eu queria matar era o meu filho João. 
Minha mulher Jane estava grávida quando fui enviado ao exterior com um contingente do Exército a serviço das Nações Unidas. Fiquei ausente cerca de dois anos. Escrevia constantemente para Jane e ela respondia. Quando o meu filho nasceu e recebeu o nome de João, as cartas de Jane ficaram bem estranhas. Ela dizia que precisava falar comigo uma coisa muito séria, mas não sabia como. Eu respondia impaciente para ela dizer de qualquer maneira, mas ela persistia na falta de clareza, que cada vez piorava mais. Afinal, Jane deixou de responder minhas cartas. 
Quando voltei da missão da ONU, corri para casa assim que desembarquei no aeroporto.
Jane abriu a porta para mim. Seu aspecto me surpreendeu. Estava envelhecida, pálida, parecia doente. 
“Onde está o João?”, perguntei. Jane começou a chorar convulsivamente, apontando a porta do quarto onde ele estava. 
Entrei no quarto, seguido de Jane. 
João estava deitado no berço, um menino lindo, que ao me ver deu um sorriso. Peguei-o no colo. Então, tive uma surpresa que me deixou atônito. João só tinha uma perna e um braço, eram os únicos membros que possuía. 
Jane estendeu-me um papel, todo amassado, uma receita médica onde estava escrito: esta criança sofre de focomelia, uma anomalia congênita que impede a formação de braços e pernas. Jane cuidava do João com o maior cuidado e com grande carinho. Mas ela definhava cada vez mais e morreu quando João tinha seis anos. Eu dei baixa no Exército para poder cuidar do meu filho. Quando eu perguntava se ele queria alguma coisa, ele dizia “Eu quero ir para a guerra”. 
Sua deficiência física se agravava com a idade. Ele tinha 15 anos, mas não podia andar, estava impossibilitado de exercer as mínimas atividades físicas. 
“Eu quero ir para a guerra, papai”, ele pediu mais uma vez. 
Então decidi que ele iria à guerra. Foi quando preparei a bomba. 
Com a bomba na mão eu disse: “Meu filho, você foi convocado para ir à guerra.”
“Obrigado, meu pai querido, eu te amo muito.”
Eu o amava mais ainda. 
Coloquei a bomba na sua mão. 
“Essa bomba vai explodir. É a guerra”, eu disse. 
“É a guerra”, ele repetiu feliz. 
Saí do quarto onde estava. Pouco depois vi o clarão. 
João também viu esse clarão, feliz, antes da bomba explodir, matando-o. 
Eu amava o meu filho.



Rubem Fonseca
Amálgama
Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 2013


Rubem Fonseca nasceu em 1925 e é um dos maiores escritores contemporâneos de língua portuguesa. Autor de 27 livros, entre suas principais obras estão as coletâneas de contos Lúcia McCartney, Feliz ano novo e O cobrador, além dos romances A grande arte e Agosto. "Conto de amor" faz parte do novo livro de contos do autor, Amálgama (2013). O escritor vive no Rio de Janeiro.



domingo, 28 de junho de 2015

Rubem Fonseca / Cidade de Deus



Rubem Fonseca
BIOGRAFIA
Cidade de Deus



Rubem Fonseca / Cidade de Deus (Dante)


O nome dele é João Romeiro, mas é conhecido como Zinho na Cidade de Deus, uma favela em Jacarepaguá, onde comanda o tráfico de drogas. Ela é Soraia Gonçalves, uma mulher dócil e calada. Soraia soube que Zinho era traficante dois meses depois de estarem morando juntos num condomínio de classe média alta da Barra da Tijuca. Você se importa?, Zinho perguntou, e ela respondeu que havia tido na vida dela um homem metido a direito que não passava de um canalha. No condomínio Zinho é conhecido como vendedor de uma firma de importação. Quando chega uma partida grande de droga na favela Zinho some durante alguns dias. Para justificar sua ausência Soraia diz, para as vizinhas que encontra no playground ou na piscina, que o marido está viajando pela firma. A polícia anda atrás dele, mas sabe apenas o seu apelido, e que ele é branco. Zinho nunca foi preso.

Hoje à noite Zinho chegou em casa depois de passar três dias distribuindo, pelos seus pontos, cocaína enviada pelo seu fornecedor em Puerto Suarez e maconha que veio de Pernambuco. Foram para a cama. Zinho era rápido e rude e depois de foder a mulher virava as costas para ela e dormia. Soraia era calada e sem iniciativa, mas Zinho queria ela assim, gostava de ser obedecido na cama como era obedecido na Cidade de Deus.

“Antes de você dormir posso te perguntar uma coisa?”

“Pergunta logo, estou cansado e quero dormir, amorzinho.”

"Você seria capaz de matar uma pessoa por mim?"

“Amorzinho, eu mato um cara porque ele me roubou cinco gramas, não vou matar um sujeito que você pediu? Diz quem é o cara. É aqui do condomínio?”

“Não”.

“De onde é?”

“Mora na Taquara”.

“O que foi que ele te fez?”

“Nada. Ele é um menino de sete anos. Você já matou um menino de sete anos?”

“Já mandei furar a bala as palmas das mãos de dois merdinhas que sumiram com uns papelotes, pra servir de exemplo, mas acho que eles tinham dez anos. Por que você quer matar um moleque de sete anos?”

“Para fazer a mãe dele sofrer. Ela me humilhou. Tirou o meu namorado, fez pouco de mim, dizia para todo mundo que eu era burra. Depois casou com ele. Ela é loura, tem olhos azuis e se acha o máximo.”

“Você quer se vingar porque ela tirou o seu namorado? Você ainda gosta desse puto, é isso?”

“Gosto só de você, Zinho, você é tudo para mim. Esse merda do Rodrigo não vale nada, só sinto desprezo por ele. Quero fazer a mulher sofrer porque ela me humilhou, me chamou de burra, ria na frente dos outros.”

“Posso matar esse puto.”

“Ela nem gosta dele. Quero fazer essa mulher sofrer muito. Morte de filho deixa a mãe desesperada.”

“Está bem. Você sabe onde o menino mora?”

“Sei.”

“Vou mandar pegar o moleque e levar para a Cidade de Deus.”

“Mas não faz o garoto padecer muito.”

“Se essa puta souber que o filho morreu sofrendo é melhor, não é? Me dá o endereço. Amanhã mando fazer o serviço, a Taquara é perto da minha base.”

De manhã bem cedo Zinho saiu de carro e foi para a Cidade de Deus. Ficou fora dois dias. Quando voltou, levou Soraia para a cama e ela docilmente obedeceu a todas as suas ordens, Antes de ele dormir, ela perguntou, “você fez aquilo que eu pedi?”

“Faço o que prometo, amorzinho. Mandei meu pessoal pegar o menino quando ele ia para o colégio e levar para a Cidade de Deus. De madrugada quebraram os braços e as pernas do moleque, estrangularam, cortaram ele todo e depois jogaram na porta da casa da mãe. Esquece essa merda, não quero mais ouvir falar nesse assunto", disse Zinho.
“Sim, eu já esqueci.”

Zinho virou as costas para Soraia e dormiu. Zinho tinha um sono pesado. Soraia ficou acordada ouvindo Zinho roncar. Depois levantou-se e pegou um retrato de Rodrigo que mantinha escondido num lugar que Zinho nunca descobriria. Sempre que Soraia olhava o retrato do antigo namorado, durante aqueles anos todos, seus olhos se enchiam de lágrimas. Mas nesse dia as lágrimas foram mais abundantes.

“Amor da minha vida”, ela disse, apertando o retrato de Rodrigo de encontro ao seu coração sobressaltado.


Rubem Fonsecda
"Histórias de Amor"
Cia. das Letras,São Paulo, 1977, pág. 11.



sábado, 27 de junho de 2015

Rubem Fonseca / Lúcia McCartney


Rubem Fonseca
BIOGRAFIA
LÚCIA McCARTNEY

Abro o olho: Isa, bandeja, torrada, banana, café, leite, manteiga. Fico espreguiçando. Isa quer que eu coma. Quer que eu deite cedo. Pensa que sou criança.
Depois que o marido da Isa foi embora ela ficou me marcando ainda mais. Isa diz que ele volta, mas eu duvido. Primeiro, ela não era casada com o marido dela. Segundo, acho que eles não se gostavam muito: Isa de vez em quando fazia programa, e ele sumia durante dias. Acho que agora sumiu de vez. Isa espera que o marido volte, a qualquer momento. As camisas dele estão todas passadinhas na cômoda e ela mandou consertar o binóculo, o cara era doido por jóquei. Ela não sai mais de casa, nem prum programa barra limpa, mas até agora, nada.
O Renê me telefona pra fazer um programa, de noite. Eu digo que está bem. Tomo nota do endereço.
Na praia está toda a turma. Combinam ir pro Zum Zum. Eu digo que talvez vá. Se o meu programa acabar cedo eu vou. Mas eu não digo nada do meu programa para eles. Eles estão por fora. Dois já dormiram comigo, mas só dois. A gente vai pra boate, dança, bebe e depois eu venho pra casa. É mais camaradagem que outra coisa. A gente brinca, se diverte e pronto.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Rubem Fonseca / Família



Rubem Fonseca
BIOGRAFIA

Família


Ernestino e Dora se casaram dispostos a dar ao mundo muitos filhos. Planejavam ter três meninos e duas meninas, mas não se incomodariam se fossem quatro meninas e um menino, desde que o primeiro a nascer fosse do sexo, masculino.Dora morreu ao dar à luz uma menina, cujo nome veio a ser também Dora. Todos pensavam que Ernestino se casaria novamente, ele era um homem bonito, herdara do pai uma empresa e ampliara os negócios, um bom partido para qualquer mulher, mesmo tendo uma filha pequena para criar. Agindo como bons alcoviteiros, os casais amigos, convictos de que Ernestino devia se casar novamente, afinal a pequena Dora precisava de uma mãe e ele, cedo ou tarde, necessitaria do carinho de uma mulher, se revezavam apresentando ao viúvo jovens mulheres prendadas e virtuosas. Mas Ernestino não se interessava por nenhuma delas e o tempo foi passando até que os amigos, percebendo que Ernestino jamais se casaria novamente, desistiram de seus propósitos casamenteiros.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Rubem Fonseca / Betsy



Rubem Fonseca
BIOGRAFIA
Betsy


Rubem Fonseca / Betsy (De otros mundos)

Betsy esperou a volta do homem para morrer.

Antes da viagem ele notara que Betsy mostrava um apetite incomum. Depois surgiram outros sintomas, ingestão excessiva de água, incontinência urinária. O único problema de Betsy até então era a catarata numa das vistas. Ela não gostava de sair, mas antes da viagem entrara inesperadamente com ele no elevador e os dois passearam no calçadão da praia, algo que ela nunca fizera. No dia em que o homem chegou, Betsy teve o derrame e ficou sem comer. Vinte dias sem comer, deitada na cama com o homem. Os especialistas consultados disseram que não havia nada a fazer. Betsy só saia da cama para beber água.

O homem permaneceu com Betsy na cama durante toda a sua agonia, acariciando seu corpo, sentindo com tristeza a magreza de suas ancas. No último dia, Betsy, muito quieta, os olhos azuis abertos, fitou o homem com o mesmo olhar de sempre, que indicava o conforto e o prazer produzidos pela presença e pelos carinhos dele. Começou a tremer e ele a abraçou com mais força. Sentindo que os membros dela estavam frios, o homem arranjou para Betsy uma posição confortável na cama. Então ela estendeu o corpo, parecendo se espreguiçar, e virou a cabeça para trás, num gesto cheio de langor. Depois esticou o corpo ainda mais e suspirou, uma exalação forte. O homem pensou que Betsy havia morrido. Mas alguns segundos depois ela emitiu novo suspiro. Horrorizado com sua meticulosa atenção o homem contou, um a um, todos os suspiros de Betsy. Com o intervalo de alguns segundos ela exalou nove suspiros iguais, a língua para fora, pendendo do lado da boca. Logo ela passou a golpear a barriga com os dois pés juntos, como fazia ocasionalmente, apenas com mais violência. Em seguida, ficou imóvel. O homem passou a mão de leve no corpo de Betsy. Ela se espreguiçou e alongou os membros pela última vez. Estava morta. Agora, o homem sabia, ela estava morta.

A noite inteira o homem passou acordado ao lado de Betsy, afagando-a de leve, em silêncio, sem saber o que dizer. Eles haviam vivido juntos dezoito anos.

De manhã, ele a deixou na cama e foi até a cozinha e preparou um café puro. Foi tomar o café na sala. A casa nunca estivera tão vazia e triste.

Felizmente o homem não jogara fora a caixa de papelão do liqüidificador. Voltou para o quarto. Cuidadosamente, colocou o corpo de Betsy dentro da caixa. Com a caixa debaixo do braço caminhou para a porta. Antes de abri-la e sair, enxugou os olhos. Não queria que o vissem assim.

Rubem Fonseca

"Histórias de amor" 
Cia. das Letras, São Paulo, 1997, pág. 09.




quarta-feira, 24 de junho de 2015

Alexandre Gaioto / Um chope com Rubem Fonseca

Rubem Fonseca
Guadalajara, 2007
Foto de Triunfo Arciniegas

Um chope com Rubem Fonseca

O jornalista Alexandre Gaioto narra o encontro com o escritor
Alexandre Gaioto
Debaixo de um sol escaldante, num Leblon a quase 40 graus, o porteiro pergunta qual o meu nome e já vai ligando para o apartamento indicado. Após um breve interfone, indaga qual o motivo da nossa presença. Estamos, eu e minha namorada, às 13h de uma sexta-feira, na porta do luxuoso prédio de Rubem Fonseca, a poucos metros do mar. Resolvo abrir o jogo: somos leitores do Rubem, queremos pagar um chope para ele. O porteiro fica sem reação. Olha novamente o casal com mochilas nas costas e um isopor nas mãos, e dá um sorriso. Depois de explicar a situação por telefone a alguém do apartamento, ele libera o portão e nos acompanha até o elevador.
“Estão esperando vocês”, diz o porteiro.
A recepção surpreende uma carioca cinquentona que entra no elevador no mesmo instante em que a gente.
“Nossa, vocês estão com sorte, viu? A livraria aqui do Leblon está cansada de oferecer coquetel para os lançamentos do Rubem Fonseca, e ele nem responde os convites”, comenta, antes de descer num dos andares do prédio.
Para a decepção geral, quem está na porta do apartamento de Rubem Fonseca não é ele, mas a funcionária Dalva, uma negra simpática e atenciosa, de uns sessenta anos. Descalça, trajando um vestido azul, ela abre um sorriso e parece um pouco confusa.
“Vocês trouxeram uma encomenda, é isso?”
“Não, viemos pagar um chope para o Rubem Fonseca, queremos beber com ele”, vou dizendo, enquanto espio lá dentro a pilha de livros que ocupa uma parede inteira na espaçosa sala do apartamento.
“Ah, ele não está aqui no momento. Mas deixe um nome e um telefone. Quem sabe ele não liga?”, aconselha.
Agradeço a cordialidade e vou saindo, ao lado de minha namorada. Deixo com Dalva o meu nome e o número do celular, com o DDD do Paraná. Ela escreve tudo num bilhete. Já que a ideia amalucada de beber com Rubem Fonseca não deu certo, o jeito é pegar uma praia no Leblon, logo ali na frente. Por desencargo de consciência, coloco créditos no celular. E acho engraçado aquilo tudo: até parece que o Rubem Fonseca vai ligar.
Então, ele liga
Frio para danar, o mar do Leblon congelava qualquer mortal naquela tarde. Por sorte, tínhamos uma garrafa de Mojito, que matamos na areia, rapidamente, em goles desesperados. Meu celular tocou às 14h, interrompendo as doses de Mojito. Mergulhamos num silêncio tenso. Um olhando para o outro, sem reação. Peguei o celular na mochila. Vi, na tela do aparelho, que era o número de um amigo do Paraná. Para assustar a namorada, gritei “é ele, é ele, o Rubem está ligando!”. Atendi eufórico.
“Alô, Rubem?!”
Minha namorada arregalou uns olhos espantados.
“Rubem, é o Alexandre, sim. Tudo bem contigo, bicho?! Estou na praia, vamos encher a cara num bar aqui perto?”
Caímos na risada: a cena era improvável demais. Uma hora mais tarde, seria a vez do meu pai ligar. Atendi novamente, fingindo conversar com Rubem Fonseca. No diálogo com meu pai, que improvisou surpreendentemente bem o papel do escritor recluso, combinei que deixaríamos nossas respectivas mulheres em casa e, lá pelas 23h, partiríamos para uma noitada de esbórnia na Centaurus, a digníssima boate em Ipanema, famosa por suas acompanhantes de alto nível. Minha namorada já não deu bola para a piada nem para o itinerário noturno.
A bebida e os acepipes guardados na bolsa já tinham ido goela abaixo quando o celular tocou, novamente, às 16h. Desta vez, com um DDD do Rio de Janeiro. Não podia ser. Não mesmo. Devia ser o efeito alcoólico do Mojito. Conferi o número no painel. É ele, amor, é ele. Fui solenemente ignorado.
“Alô, é o Alexandre?”, indagou a voz rouca.
Rubem Fonseca tem uma voz rasgada. Entraria fácil numa banda de rock, blues ou num quarteto de jazz tocando Chet Baker. Também seria legal ouvir Rubem Fonseca cantando Bob Dylan.
“Olha, Alexandre, estou muito ocupado hoje. Mas se você passar aqui agora, eu posso te receber. Você consegue vir já?”
Mal tinha desligado o celular, já estava jogando o Mojito e a caixa de isopor no lixo, juntando a bolsa, gritando “é ele, é ele!”, e minha namorada só acreditou que era mesmo o Rubem Fonseca quando me viu, atabalhoado, correndo pela areia, pagando pelas cadeiras e pelo guarda-sol alugados na barraca da praia. Deu para tirar a areia do corpo, trocar o chinelão pelo tênis e pegar na bolsa uma edição de Amálgama, o último livro de Rubem Fonseca. Por sorte, estávamos a uma quadra de distância.
Conselhos de mestre
Não sabia que Rubem Fonseca recebia os leitores em seu apartamento. Sei, por experiência própria, que ele conversa com todo mundo em suas caminhadas diárias.
Foi assim, numa dessas caminhadas, que abordei Rubem Fonseca nas ruas do Leblon, há cinco anos. Passei alguns minutos em frente ao seu prédio e, quando ele saiu, ficamos por quase meia hora conversando sobre literatura, reclusão, as perseguições na ditadura e o processo criativo. Aproveitei que o clima estava bacana e mostrei alguns continhos meus ao Rubem Fonseca. Pedi que ele lesse depois, se poderia me dar um retorno por e-mail. Tudo o que eu queria era saber se eu deveria ou não insistir naquele papo de ser escritor. Sei que escritores odeiam esse tipo de coisa, mas, como eu disse, o clima estava bacana. Sentado ao meu lado num banco da Avenida Ataulfo de Paiva, Rubem Fonseca fez questão de ler os quatro continhos ali mesmo. Apontou erros que só ao seu lado pude ver claramente. Num dos contos havia a mistura de algumas gírias, inseridas na fala dos personagens, e a gramática normativa dominava o resto da narrativa.
“O seu texto está todo escrito na norma culta, pode tirar essas gírias aqui. O seu texto não precisa disso”, criticou, rasurando os termos no papel. Aconselhou-me, ainda, a estender as narrativas, todas excessivamente curtas. “Você tem que abrir gavetas no texto. É assim que funciona com o romance”, disse. Com os continhos em mãos, incentivou-me a escrever com dedicação, diariamente. “Seus contos são concisos, enxugados. Você tem voz própria, porra! Você não vai ser jornalista. Você vai ser escritor, porra!”, estimulou-me Rubem Fonseca.
Qual outro grande autor perde tempo lendo coisas inéditas, no meio da rua, redigidas por escritores desconhecidos? E, encorajador, ainda faz apontamentos, dá dicas valiosas, manda seguir em frente? Rubem Fonseca, além de gênio, é um cara generoso.
Além da dedicação diária e da necessidade de reescrever os textos, quem quiser escrever bem deve, também, ter sua proposta literária definida. “O escritor tem de escrever para provocar. Para escrever o que todos querem ler, existem os jornalistas”, ironiza Rubem Fonseca. Essa é a fórmula do sucesso. Depois disso, é abrir os braços e correr para o reconhecimento, para a fama – ou, no caso dele, se esconder de tudo isso, quieto no Rio de Janeiro.
A reclusão, no caso de Rubem Fonseca, não é garantia de anonimato. Enquanto estávamos sentados, ele foi reconhecido por uma moradora do Leblon. Era uma carioca muito branca, de uns sessenta anos. Fogosa, convidou o escritor para um jantar à noite, e ele recusou cordialmente. “Ela é muito velha para mim”, justificou, depois que a leitora saiu de cena.
Cinco anos depois daquele encontro, Rubem Fonseca está prestes a me receber, agora ao lado de minha namorada, em sua residência. Não pretendo pentelhá-lo, novamente, com um punhado de textos. O que eu quero mesmo é encher a cara com ele.
Fugitivo
“Vamos entrando, vamos entrando”, convida Rubem Fonseca, com um sorriso amigável, abrindo a porta de seu apartamento.
Ele não é alto, deve ter pouco mais de 1m60. Veste camiseta, calça jeans e, nos pés, sapatos. Caminha devagar, quase mancando, até um dos sofás impecavelmente brancos da sala, repleta de livros. Tudo é bem organizado, privilegiando o espaço dos cômodos. Na sala ao lado, outra penca de livros surge em fartas estantes.
“Hoje, o meu dia está uma correria. Acabei de voltar de um encontro com meu filho, à noite vou jantar com a minha filha e ainda tenho que encontrar uns documentos e enviá-los para o meu advogado. Ele já está me cobrando”, comenta, em tom de desabafo.
“A gente queria te pagar um chope no bar mais próximo”, eu explico. Ele dá uma boa risada. Rubem Fonseca é gente fina à beça.
“Ah, eu parei de beber há muito tempo. E vocês sabem: eu vivo fugindo das pessoas”, diz, rindo.
“É mais difícil escrever hoje em dia?”, pergunto ao escritor, estendendo o exemplar de Amálgama para ele autografar.
“Ah, sim. Toda essa correria de advogado e documentos atrapalha a rotina. Não sobra tempo para escrever”, reclama.
No livro, Rubem Fonseca faz uma dedicatória amigável. E minha namorada diz o quanto gostou do brutalismo e do humor negro do primeiro conto, “O filho”, uma das melhores histórias do Amálgama. No conto, escrito ao seu melhor estilo, Rubem Fonseca aborda o nascimento de uma criança que nasce aleijada, sem um braço.
“Que dó do bebê, que dó. Coitadinho dele”, responde Rubem Fonseca. O criador, para a nossa surpresa, tem, sim, piedade de suas próprias criaturas. “Mas você tem mais de 18 anos, não tem?”, pergunta Rubem Fonseca à minha namorada. “Este livro é só para maiores de idade”, avisa, rindo, enquanto estende o exemplar autografado.
Ele se levanta do sofá com um pouco de dificuldade. Justificável, afinal, para um senhor de 88 anos. Mas há uma dor no corpo, ele explica, culpa de um tombo recente.
“Só posso andar nas ruas com isso aqui”, comenta o escritor, seguindo para a outra sala. No canto da estante, ele pega uma bengala e exibe o seu novo acessório das caminhadas. “Sem ela, posso perder o equilíbrio”, justifica.
“E você continua charmoso”, elogia minha namorada. Eu engrosso o coro, também digo que ele está charmosão. Ele dá outra risada, abre um sorriso.
“E quando vem o próximo livro, Rubem?”, indago.
“Agora, estou trabalhando em um romance. A editora quer soltar só no próximo ano. Por enquanto, tenho só um working title, que pode mudar a qualquer momento”, diz.
“Quando você começa a escrever, sempre sabe como irá terminar a história?”, questiono.
“Não, nunca sei como vou terminar. As histórias mudam durante a escrita”, revela.
Já na porta do apartamento, agradeço a recepção e a rápida conversa. Ele está visivelmente feliz. “Da próxima vez, avisem antes que vocês virão e aí teremos mais tempo para conversar. E, se vocês forem à praia, tomem cuidado. Vão pela manhã, não fiquem lá à tarde. Olha a pele da sua namorada, Alexandre, é tão branquinha. Esse sol é perigoso. Cuide bem dela, viu? Porque ela é muito bonita; e você, muito feio”, aconselha Rubem Fonseca, arrancando uma boa gargalhada nossa.
Evitamos a praia, seguindo o conselho do escritor, e corremos pelas ruas do Leblon à caça da bodega mais próxima. Na mesa do Jobi, acalmamos os ânimos e tomamos um porre para celebrar o encontro com deus.
Alexandre Gaiotoé jornalista e trabalha no jornal O Diário de Maringá, Paraná. Tem 26 anos e é mestrando em literatura pela UEM


terça-feira, 23 de junho de 2015

Biografias / Rubem Fonseca


Rubem Fonseca
Guadalajara, 2007
Foto de Triunfo Arciniegs
Os prisioneiros (1963) 
A coleira do cão (1965) 
Romance negro e outras histórias (1992) 
O buraco na parede (1995)
Rubem Fonseca / Cidade de Deus
Cofraia dos Espadas (1998)
Rubem Fonseca / O vendedor de seguros
Secreções, excreções e desatinos (2001)
Pequenas criaturas (2002)
Diário de um Fescenino (2003)
64 Contos de Rubem Fonseca 2004)
Ela e outras mulheres (2006)
Rubem Fonseca / Teresa
Axilas y otras historias indecorosas (2011)
Rubem Fonseca / O ensina da gramática
Rubem Fonseca

(1925)

"Neste momento estou desenvolvendo o começo da história que iniciei com o título que lhe deu o sopro inicial de vida. No quiosque de livros da praça li um poema no qual o autor (roubei dele o título da minha história) diz que o mundo é doloroso, os seres humanos não merecem existir e ele, poeta, suspeita que a crueldade da sua imaginação está de certa forma conectada com seus impulsos criativos. Matar a velha, não a crueldade, como disse o poeta, mas a força do meu ato e não apenas da minha imaginação foi a impulsão que fará de mim um verdadeiro escritor. Tenho, agora, o começo, tenho o meio e o fim." (Pequenas criaturas - "Começo")


Nascido em Juiz de Fora, Minas Gerais, em 11 de maio de 1925, José Rubem Fonseca é formado em Direito, tendo exercido várias atividades antes de dedicar-se inteiramente à literatura. Em 31 de dezembro de 1952 iniciou sua carreira na polícia, como comissário, no 16º Distrito Policial, em São Cristóvão, no Rio de Janeiro. Muitos dos fatos vividos naquela época e dos seus companheiros de trabalho estão imortalizados em seus livros. Aluno brilhante da Escola de Polícia, não demonstrava, então, pendores literários. Ficou pouco tempo nas ruas. Foi, na maior parte do tempo em que trabalhou, até ser exonerado em 06 de fevereiro de 1958, um policial de gabinete. Cuidava do serviço de relações públicas da polícia. Em julho de 1954 recebeu uma licença para estudar e depois dar aulas sobre esse assunto na Fundação Getúlio Vargas, no Rio. Na Escola de Polícia destacou-se em Psicologia. Contemporâneos de Rubem Fonseca dizem que, naquela época, os policiais eram mais juízes de paz, apartadores de briga, do que autoridades. Zé Rubem via, debaixo das definições legais, as tragédias humanas e conseguia resolvê-las. Nesse aspecto, afirmam, ele era admirável. Escolhido, com mais nove policiais cariocas, para se aperfeiçoar nos Estados Unidos, entre setembro de 1953 e março de 1954, aproveitou a oportunidade para estudar administração de empresas na New York University. Após sair da polícia, Rubem Fonseca trabalhou na Light até se dedicar integralmente à literatura. É viúvo e tem três filhos.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Meryl Streep / Tenho que agradecer por estar viva


Meryl Streep 
TENGO QUE AGRADECER

Tenho que agradecer sempre por estar viva. Tenho amigos demais que estão doentes ou morreram, e eu estou aqui. Está brincando? Não posso me queixar.



sábado, 20 de junho de 2015

Vinícius de Moraes / O nosso poetinha

Vinícius de Moraes
Vinicius de Moraes, o nosso poetinha

por Carolina Borges  

Chamar Vinicius de Moraes de poetinha, ao contrário do que possa parecer aos desavisados, não é de forma alguma com a intenção de diminuí-lo ou menosprezar sua obra. Ele é o poetinha porque nunca quis ser Poeta, aquele que está acima de todos, vendo a vida com a sabedoria que lhe cabe. Vinicius não era assim, simplesmente foi o poetinha, que estava ali, nos bares da zona sul carioca, nas casas mais festivas da cidade (incluindo a dele), uma pessoa simples, que além da já famosa paixão pelas mulheres, tinha uma incansável paixão pela beleza da vida.
Vieram desse escritor apaixonado poemas que se tornaram ícones da nossa arte literária como O HaverSoneto de Separação e o Soneto de Fidelidade (dos famosos versos “Que não seja imortal, posto que é chama / Mas que seja infinito enquanto dure”).Poderíamos citar inúmeros poemas, abertamente inspiradas no amor e em suas experiências com esse sentimento, mas ainda é preciso mencionar sua produção em prosa, que engloba textos para jornal (inclusive críticas de cinema) e peças de teatro, sendo a mais famosa Orfeu da Conceição, um adaptação da tragédia grega para a realidade de um morro carioca.
Isso tudo sem nem ter comentado sua produção musical. Ele assina uma das músicas mais emblemáticas da cultura brasileira: Garota de Ipanema (em parceria com Tom Jobim) recentemente entoada por um coro de 100 mil pessoas no Rock in Rio – é a concretização do sonho de Vinicius, ver sua música cheia de poesia ser popular, estar no coração das pessoas, embalar os namorados e divertir os amigos. Apesar de uma formação acadêmica rígida e tradicional, Vinicius sempre viu na simplicidade a beleza mais pura. Outras letras famosas traduzem sua música simples, nunca simplória, comoSamba da BençãoCanto de Ossanha e a clássica Chega de Saudade. Listar toda a produção de Vinicius é façanha quase impossível e exigiria mais que uma tese de doutorado.
No entanto, a vida desse gênio nem sempre foi bela e divertida: a boemia, que tanto contribuíra para a sua produção artística, foi usada de justificativa para afastá-lo do cargo de diplomata (sim, ele também era diplomata). Apesar de ser conhecido por sua responsabilidade (nunca havia chegado atrasado, por exemplo), quando a ditadura militar no Brasil instituiu o AI-5, o servidor Marcus Vinícius da Cruz e Mello Moraes foi aposentado.  O governo alegava que sua conduta não era compatível com um diplomata. Nosso poetinha só foi anistiado em 1998, e em 2006 foi oficialmente reintegrado na carreira diplomática. A Câmara dos Deputados aprovou em fevereiro de 2010 a promoção póstuma ao cargo de “ministro de primeira classe” do Ministério dos Negócios Estrangeiros – o equivalente a embaixador, o cargo mais alto da carreira diplomática, uma homenagem mais que merecida a quem serviu o Brasil da melhor forma possível: fazendo e exportando arte.
No documentário Vinicius, de Miguel Faria Jr, vemos o depoimento de vários amigos e parceiros de trabalho, afinal, para Vinicius a vida era uma festa cheia de amigos e não havia “contato profissional”, ele só fazia parceria com quem considerava ser seu amigo. Todos são unânimes em afirmar que não existia pessoa mais animada, raro é encontrar imagens que mostrem o compositor, cantor e poeta sozinho e pensativo, naquela imagem quase oficial dos poetas. A imagem dele era outra: numa mão o copo de uísque, na outra, o cigarro e um sorriso bem grande para arrematar. Mas, infelizmente, essa imagem compunha um falso personagem: num olhar mais atento é possível notar que, aos poucos, o ânimo de Vinicius foi se esvaindo, ele começou a negar a velhice latente e a se relacionar com pessoas cada vez mais jovens (incluindo seus casamentos que têm a média de idade cada vez menor).
A companhia constante da bebida começou a preocupar os amigos, o alcoolismo batia à porta sem que se percebesse, talvez fosse uma fuga para a real situação em que Vinicius sempre se encontrou: a solidão. Ele era amigo de todos, de estrelas de Hollywood a garçons de Ipanema, mas tinha sempre uma melancolia no olhar, uma tristeza sutil que só é possível de ser percebida quando ele era observado sem notar. Afinal, o amor só é bom se doer, e gênio feliz demais não é gênio, é só mais um escritor. Vinicius morreu num de seus lugares preferidos: a banheira. Era lá que ele apoiava sua máquina de escrever e tinha o sossego necessário para escrever sua poesia que nos encantará eternamente. Na ocasião, ele preparava com o amigo Toquinho a peça A Arca de Noé, um espetáculo infantil.
Dentre a produção literária de Vinicius de Moraes, destaca-se o seu primeiro livro O caminho para a distância (1933), que surpreendeu os críticos apesar dos 19 anos de idade de Vinicius; o livro de prosa/poesia Para viver um grande amor (1962); e o Livro de sonetos (1967), reunião de sonetos escritos ao longo de 30 anos pelo poeta.


quinta-feira, 18 de junho de 2015

Hemingway / As neves de Kilimanjaro


Ernest Hemingway
As Neves de Kilimanjaro


Hemingway / Las nieves del Kilimanjaro (De otros mundos)

Kilimanjaro é uma montanha coberta de neve, a 6.000 metros de altitude, e diz-se que é a montanha mais alta da África. O seu pico ocidental chama-se ‘Ngàge Ngài’, a Casa de Deus. Junto a este pico encontra-se a carcaça de um leopardo. Ninguém ainda conseguiu explicar o que procurava o leopardo naquela altitude.

— O que é fantástico é que isto é indolor — disse ele.
— É assim que ficamos a saber quando ela começa.
— É assim realmente?
— Absolutamente. Mas, desculpa este cheiro. Deve incomodar-te.
— Não! Por favor, não digas isso.
— Olha para eles —, disse ele. — É o que vêem ou o que lhes cheira que os atrai desta maneira? A cama de lona em que o homem estava deitado estava na extensa sombra de uma mimosa, e quando ele olhou para além da sombra, no brilho intenso da planície viam-se três daquelas aves obscenamente agachadas, enquanto, no céu, mais uma dúzia voava, fazendo sombras velozes quando passavam.

terça-feira, 16 de junho de 2015

V.S. Naipaul / Uma casa para o sr. Biswas



V.S. Naipaul
Uma casa para o sr. Biswas 
(A House for Mr. Biswas)

Publicado em 13 de março de 2011 por Nego Dito

Não sei quanto a vocês, mas eu estou levando a sério o desafio literário livrada 2011. Já li o primeiro livro do meu autor escolhido. De fato, acabei de lê-lo agora e já resolvi escrever enquanto a coisa tá fresca na cabeça. Sem mais, vamos a ele.

Vidiadhar Surajprasad Naipaul, esse índio velho com cara de figurante de filme do Giuliano Gema, minha gente, é o autor que eu escolhi para conhecer esse ano. Nasceu de uma família indiana na década de 30 em Trinidad, aquela ilhazinha simpática que fica em cima da Venezuela, do ladinho de Tobago, e, após uma vida estudando entre os ingleses, ganhou o prêmio Nobel de literatura em 2001, aos quase 70 anos. Povo de Estocolmo, vamos começar a reconhecer o mérito literário das pessoas mais cedo um pouquinho, vamos? O que o idoso vai fazer com o milhão de platas que ele vai colocar no bolso com o prêmio? Gastar tudo com remédio nas farmácias Minerva? Dá o vil metal na mão de um escritor mais garotão, pra ele gastar com Jet-skis, shows particulares do Yo-Yo-Ma, raves em Santorini, enfim, dá dinheiro pro cara viver a vida, né?

Enfim, voltando ao assunto, Naipaul escreveu, em 1961 esse mega romance de formação com traços de pós-colonialismo (é sério gente, existe uma corrente literária com esse nome, não iria enganá-los de graça) chamado Uma casa para o Sr. Biswas (na ficha técnica da Companhia das Letras, colocaram que o título original era “A house to Mr. Biswas, mas não é to, é for, mancada básica do inglês básico). O livro, parte drama, parte comédia, fala da história de Mohun Biswas, o sr. Biswas da história, um cara que cresceu numa família minimamente grande, como costumam ser as famílias hindus a julgar pela família do Apu, que é o único hindu que eu conheço, e ele é só um desenho animado, e, acho que por isso, sonha em ter um cantinho só pra ele. Tido como maldito por um pândita, um sacerdote que vem traçar a personalidade dele, cresce recebendo uma sutil hostilidade de sua família, e casa com uma mocinha chamada Shama, da terrível família dos Tulsi, uma família de comerciantes maior que o Polyphonic Spree inteirinho, cheio de gente autoritária e sem paciência pra nada. Mohun então começa a trabalhar de jornalista e a escrever pequenos contos enquanto tenta conquistar sua própria casa, sendo enganado por tudo e por todos a todo momento.

Contar mais do que isso é spoiler, então vamos às análises. Primeiro, considero que Naipaul escreveu esse livro com uma grande paixão, pois a história de Biswas está muito associada à história de seu pai e, por conseguinte, à sua infância em Trinidad. Assim como Biswas, Naipaul queria ser escritor, e também assim como Biswas, seu pai fora jornalista sem ter muitas leituras, e considerava os escritores os seres mais nobres do mundo. Acho que toda obra escrita com muita paixão por um determinado universo deve pelo menos ser considerada a ser lida com carinho, e ponto final.

Falando um pouco sobre o Sr. Biswas. A trajetória que o protagonista desenvolve ao longo de sua vida pode ser compreensível se levada em consideração o meio em que cresceu. Hostilizado por seus pais, pois o pândita havia dito que seu espirro causava azar, Mohun começou a se rebelar contra tudo aos poucos. O drama de não ser bem quisto e ainda assim ter de conviver com pessoas hostis — família, ainda por cima — é motivo bom pra querer chutar o pau da barraca, a meu ver. Depois, na adolescência, quando é forçado a casar com Shama, e a morar com uma família gigantesca, é mais um motivo para revolta. Uma vida que vai sendo arrastada para as situações, por assim dizer. Toca fundo no nosso senso de liberdade, a mulherada fica doida quando vê uma mulher de burca, é ou não é? O Biswas tem algo nele de bom, de nobre, mas isso não é despertado pelas frustrações perante a vida que lhe corroem com a força e a dor de uma lâmina profunda de agonia (achou bonito? É do Funk Fuckers!). Aí entramos em outra questão importante do livro: a rotina e as responsabilidades que oprimem a criatividade e a vontade do pobre proletário. Mohun não pode escrever e não pode exercitar todo seu fascínio pela cultura e pela literatura porque tem que cuidar do telhado que tá caindo, dos quatro filhos pra criar, da esposa que só reclama, etc. Então, ô-ô-ô-ô mai bróder, é o rodo cotidiano.

Uma última coisa que queria falar sobre o livro é uma passagem que me marcou muito. Vou tentar não contar muito do contexto para não estragar a leitura de quem, porventura se aventurar nesse livro. Bom, acontece que, em dado momento, Biswas consegue comprar uma casa, mas diante de um cenário completamente hostil. E aí ele se depara com uma realidade cruel do estado capitalista: quem tem posse tem medo. Ele começa a se sentir acuado em seu próprio terreno (opa! Mesma música do Funk Fuckers de novo) e experimentar um medo terrível de tudo e de todos, chegando a ter receio de sair lá fora. Aí está um traço do tal pós-colonialismo. O medo de quem tem posse num país completamente desestabilizado, sem seu poder executivo em pleno funcionamento, em épocas de guerra (segunda guerra), depois de colonizadores terem abandonado o país à sorte de suas divergências culturais e étnicas, do tipo “pulei fora, se virem vocês”, é terrível. A todo momento, no livro, vemos leis sendo mal-interpretadas, distorcidas, manipuladas para o interesse de alguém (não que isso não aconteça por aqui, mas no livro a coisa é muito mais visceral), algo muito típico do Estado sem Estado. Isso, aliado ao comportamento dos Tulsi e do próprio Biswas, enfim, os trejeitos da sociedade, me fazem perceber que a cultura de Trinidad e Tobago não é muito diferente da brasileira. Esse romance poderia ter sido “rodado” aqui na nossa terra, afinal. Todo mundo sendo enganado e vivendo na maior pobreza. Serião, fiquei com nojo de algumas paradas da história, como o “sorvete feito em casa”, que é guardado num freezer velho que fica soltando pedacinhos de ferrugem em cima do sorvete. Yuck!

Essa coleção do Naipaul da Companhia das Letras é bem bonita, vai dizer. Esse livro em questão é sinistro, porque são 522 páginas em letra miudinha, pra caber mais. Então é um livro que eu suei pra ler. Dica para vocês, crianças: evitem começar a ler um autor por seu maior livro, mesmo que seja um clássico. A exceção de Crime e Castigo, é claro, e também pro caso de você resolver ler Pamuk — o cara não faz muito livro pequeno, então não tem jeito. Bom, mas eu fui, demorou mas tô aqui falando dele pra vocês. Tradução do Paulo Henriques Britto, papel pólen e fonte Garamond. Tem prefácio do autor e na quarta capa, citações elogiosas de balangudos da literatura como Paul Theroux e Anthony Burgess. Ah, o livro também ganhou o prêmio Grinzane Cavour, da região de mesmo nome da Itália. Um prêmio importante, mas desconhecido, que já premiou e homenageou muita gente boa (inclusive o Cesare Pavese, Carlinha!). Tá demais, né?

E a propósito, como vão as leituras do desafio de vocês? Já leram algum autor a que se propuseram? Não quero controlar, só estou curioso mesmo. Se quiserem, escrevam aí embaixo!

Comentário final: 522 páginas pólen soft. Arranca o braço do James Franco em 127 horas.


LIVRADA