segunda-feira, 31 de março de 2014

Octavio Paz / Um animal que imagina

Octavio Paz

Octavio Paz

Um animal que imagina

O Nobel mexicano, Octavio Paz, ditou em 1975 seis dissertações, nunca publicadas, nas quais analisou sua ideia sobre a literatura

Este é um trecho da que o Nobel mexicano dedicou à relação entre poesia e progresso



Octavio Paz retratado por Daniel Mordzinski.
Estas leituras retrospectivas provocaram em mim emoções e sentimentos contraditórios: simpatia e repulsão, por quem eu fui; aprovação e desgosto, pelo que escrevi. A confirmação e a negação convivem e batalham no meu interior. Assim, não posso nem sequer me julgar. Não me condeno nem tampouco me absolvo. Limito-me a me ver e, para dizer a verdade, a me suportar. Não obstante, na medida em que posso ser objetivo, que é muito pequena, advirto que mudança e continuidade são duas notas constantes nos meus trabalhos poéticos, dois polos, dois extremos contrários que me atraíram desde que comecei a escrever. Sempre me interessou e, mais, me apaixonou, a experimentação e a exploração de formas e territórios poéticos pouco conhecidos, novos. Desse ponto de vista minha poesia se inscreve dentro da tradição da literatura moderna, que é uma literatura de exploração e de invenção.
Procurei definir esta tradição em vários trabalhos críticos, especialmente em Os Filhos do Lodo, um livro que tem como subtítulo ‘Do Romantismo à Vanguarda’. Essa tradição pode ser caracterizada como uma série de rupturas com o passado e uma série de tentativas de criar uma arte nova, distinta e única. A antiga estética se fundava na limitação dos modelos da Antiguidade Clássica, a moderna, desde o século XVIII para cá, na busca de uma nova beleza. Mas talvez estejamos no final deste período e vivemos na decadência da vanguarda. De qualquer maneira, no meu caso, a exploração de formas poéticas, de novas formas, coincidiu sempre com o amor e o cultivo das formas tradicionais, do soneto e o hendecassílabo, o poema breve com métricas curtas. Mas a mudança e a continuidade não só se entrelaçam nas formas poéticas que frequentei mas também nos temas e na própria substância do que escrevi.

Octavio Paz / O escritor absoluto

Octavio Paz

O escritor absoluto


O México homenageia Octavio Paz, seu intelectual mais completo. Da poesia à política e da arte à antropologia, nada foi alheio ao autor de “O Labirinto da Solidão”

Para uns foi um grande emblema do poder, para outros, uma voz crítica contra a autoridade



Octavio Paz visto por Loredano.
Uma manhã de 22 anos atrás, por volta das nove horas, o poeta Antonio Deltoro, então colaborador de Vuelta, chamou seu diretor, Octavio Paz, para agradecer-lhe a publicação de um livro na editora da revista. Chamava com apreensão, porque Paz tinha uma vivacidade que em curta distância o fazia temível: examinava severamente seus interlocutores perguntando-lhes se haviam lido isto ou aquilo e se não podia respondê-lo de qualquer maneira. O interrogatório, no entanto, foi além do esperado. Como é que não havia lido a informação de certa revista mexicana barata e sensacionalista? Assombrado, porque considerava essa publicação totalmente alheia aos interesses de Paz, Deltoro o perguntou: “mas o senhor lê isso?”. E o escritor, que além do que a essa hora havia devorado tudo da imprensa do dia, respondeu: “Na barbearia, na barbearia”.

domingo, 30 de março de 2014

Winston Manrique Sabogal / Vargas Llosa de vida e de livros

Mario Vargas Llosa

Vargas Llosa de vida e de livros

Uma manhã de confissões literárias na casa em Lima do Nobel



O escritor Mario Vargas Llosa em sua casa em Lima. / DANIEL MORDZINSKi
Com o semáforo vermelho, Mario Vargas Llosa desce rápido do carro e, quando chega à faixa de pedestres na avenida, o semáforo volta ao verde, e ele para de repente. O acaso faz com que fique escoltado, em cada lado, por um mímico e um César Vallejo dourado que se dirigem com pressa para onde ele mesmo também vai. O escritor se dá conta e atina em dizer: “Parece muito com Vallejo”. Uns 60 passos depois e 14 minutos mais tarde, o escritor peruano inaugura o Dia das Palavras ao ler com emoção os versos do poeta peruano, em um parque à beira-mar.

sábado, 29 de março de 2014

Hilda Hilst / Amavisse VIII / Descansa






Hilda Hilst
AMAVISSE


Descansa.
O Homem já se fez
O escuro cego raivoso animal
Que pretendias.



Hilda Hilst
Amavisse
São Paulo, Massao Ohno Editor, 1989




Hilda Hilst / Amavisse VI / Que as barcaças do Tempo me devolvam


Hilda Hilst
AMAVISSE
VI



Que as barcaças do Tempo me devolvam
A primitiva urna de palavras.
Que me devolvam a ti e o teu rosto
Como desde sempre o conheci: pungente
Mas cintilando de vida, renovado
Como se o sol e o rosto caminhassem
Porque vinha de um a luz do outro.

Que me devolvam a noite, o espaço
De me sentir tão vasta e pertencida
Como se águas e madeiras de todas as barcaças
Se fizessem matéria rediviva, adolescência e mito.

Que eu te devolva a fonte do meu primeiro grito.


Hilda Hilst
Amavisse
São Paulo, Massao Ohno Editor, 1989



Hilda Hilst / Amavisse II / Como se te perdesse, asimm te quero


Hilda Hilst
Amavisse
II




Como se te perdesse, assim te quero.
Como se não te visse (favas douradas
Sob um amarelo) assim te apreendo brusco
Inamovível, e te respiro inteiro

Um arco-íris de ar em águas profundas.

Como se tudo o mais me permitisses,
A mim me fotografo nuns portões de ferro
Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima
No dissoluto de toda despedida.

Como se te perdesse nos trens, nas estações
Ou contornando um círculo de águas
Removente ave, assim te somo a mim:
De redes e de anseios inundada.



Hilda Hilst
Amavisse
São Paulo, Massao Ohno Editor, 1989



Hilda Hilst / Trovas de muito amor para um amado senhor XIII / Dizeis que tenho vaidades



Hilda Hilst
Trovas de muito amor
para um amado senhor

XIII


Dizeis que tenho vaidades.
E que no vosso entender
Mulheres de pouca idade
Que não se queiram perder

É preciso que não tenham
Tantas e tais veleidades.

Senhor, se a mim me acrescento
Flores e renda, cetins,
Se solto o cabelo ao vento
É bem por vós, não por mim.

Tenho dois olhos contentes
E a boca fresca e rosada.
E a vaidade só consente
Vaidades, se desejada.

E além de vós
Não desejo nada.

Hilda Hilst
Poesia: 1959-1979

São Paulo, Quíron, 1980.



Hilda Hilst / Trovas de muito amor para um amado senhor I / Nave

Pie
Chinese Theatre, Hollywood, LA, 2013
Foto de Triunfo Arciniegas

Hilda Hilst
Trovas de muito amor 
para um amado senhor

I



Nave
Ave
Moinho
E tudo mais serei


Para que seja leve
Meu passo
Em vosso caminho.


Hilda Hils

Trovas de muito amor para um amado senhor, 1960
Poesia: 1959-1979
São Paulo, Quíron, 1980.




Hilda Hilst / Dez chamamentos ao amigo II / Ama-me


Hilda Hilst

DEZ CHAMANENTOS AO AMIGO 
II

Ama-me. É tempo ainda, interroga-me.
E eu te direi que o nosso tempo é agora.
Esplêndida avidez, vasta ventura
Porque é mais vasto o sonho que elabora.

Há tanto tempo sua própria tessitura.

Ama-me. Embora eu te pareça
Demasiado intensa. E de aspereza.
E transitória se tu me repensas.





Hilda Hils / Dez chamamentos ao amigo I / Se te pareço noturna e imperfeita


Hilda Hilst
Dez Chamamentos Ao Amigo
I



Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse

Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.



Hilda Hilst
Júbilo Memória Noviciado da Paião,  1974
Poesia: 1959-1979 
São Paulo, Quíron, 1980.



Hilda Hilst / XXII / Não me procures ali


Hilda Hilst
XXII



Não me procures ali
Onde os vivos visitam
Os chamados mortos.
Procura-me
Dentro das grandes águas
Nas praças
Num fogo coração
Entre cavalos, cães,
Nos arrozais, no arroio
Ou junto aos pássaros
Ou espelhada
Num outro alguém,
Subindo um duro caminho

Pedra, semente, sal
Passos da vida. Procura-me ali.
Viva.


Da morte. Odes mínimas.1980




sexta-feira, 28 de março de 2014

Anton Tchekhov / Pamonha

Gabrielle, 1895
Renoir
Anton Tchekhov
PAMONHA
Trad. Boris Schnaiderman



Convidei há dias para o meu escritório a governanta de meus filhos, Iúlia Vassílievna. Era preciso acertar as contas.
- Sente-se, Iúlia Vassílievna! - disse - Vamos fazer as contas. Com certeza, está precisando de dinheiro e a senhora‚ tão cerimoniosa que não pede sozinha... Bem... ficou ajustado entre nós que seriam trinta rublos por mês...
- Quarenta...
- Não, Trinta... Eu tenho anotado... Sempre paguei trinta rublos às governantas...Bem, a senhora residiu aqui durante dois meses...
- Dois meses e cinco dias...
- Dois meses exatos... Anotei assim. Quer dizer que tem a receber sessenta rublos... Descontando nove domingos... a senhora, realmente, não deu aula ao Kólia nos domingos, mas apenas passeou com ele... E mais três feriados...
Iúlia Vassílievna ficou vermelha e pôs-se a puxar uma franja do vestido, mas... não disse palavra!...
- Três feriados... quer dizer que temos a descontar doze rublos... Kólia esteve doente quatro dias e, por isso, não estudou... A senhora, então, deu aula apenas a Vária... Durante três dias, a senhora teve dor de dente e minha mulher dispensou-a das aulas da tarde... Doze e sete são dezenove. Descontando... ficam... hum... quarenta e um rublos... Certo?
O olho esquerdo de Iúlia Vassílievna ficou congestionado e nublou-se. Começou a tremer-lhe o queixo. Tossiu nervosa, assoou-se, mas... sem dizer palavra!
- Na noite de Ano Bom, a senhora quebrou uma xícara de chá e um pires. São menos dois rublos... A xícara é uma relíquia, custa mais caro, mas... vá lá, Deus que a perdoe! Nossas coisas já se têm estragado em tantas ocasiões! Depois, devido a uma falta de atenção por parte da senhora, Kólia trepou numa árvore e rasgou o paletozinho... São menos dez... A arrumadeira, em consequência igualmente de uma distração sua, roubou os sapatos de Vária. A senhora deve cuidar de tudo. Está  contratada e recebe ordenado. Quer dizer que devemos tirar mais cinco... No dia dez de janeiro, a senhora levou emprestados de mim dez rublos...
- Eu não levei! - murmurou Iúlia Vassílievna.
- Mas está anotado aqui!
- Está bem...seja.
- De quarenta e um, tira-se vinte e sete, sobram quatorze...
Os olhos da governanta encheram-se de lágrimas... O suor apareceu sobre seu narizinho comprido e gracioso. Pobre menina!
- Eu só levei uma vez - disse ela, a voz trêmula. - Levei três rublos de sua senhora... Não levei mais nada...
- E agora? Imagine, eu nem anotei isso! Tirando três de quatorze, fica onze... Aqui está o seu dinheiro, minha cara! Três... tres, três... um e um... Queira receber!
Dei-lhe os onze rublos... ela os tomou e enfiou-os no bolso, com dedos trêmulos.
- Merci - murmurou.
Levantei-me de um salto e pus-me a andar pelo quarto. O furor apossou-se de mim.
- Mas, por que este merci? - perguntei.
- Pelo dinheiro...
- Mas eu a assaltei, diabos, eu lhe roubei dinheiro! Por que
merci?
- Noutras casas, cheguei a não receber nada...
- Não recebeu nada! Compreende-se! Eu caçoei da senhora, dei-lhe uma lição cruel... Vou lhe pagar todos os seus oitenta rublos! Estão preparados para a senhora, neste envelope! Mas, como é que se pode ser moleirona assim? Porque não protesta? Por que fica quieta? Pensa que, neste mundo, pode-se não ser audacioso? Pensa que se pode ser tão pamonha?
Ela esboçou um sorriso azedo e eu li em seu rosto: "Pode-se sim!".
Pedi-lhe perdão por aquela lição cruel e dei-lhe, para seu grande espanto, os oitenta rublos. Pôs-se a balbuciar merci com timidez e saiu do escritório. Acompanhei-a com o olhar e pensei:
- É fácil ser forte neste mundo!

1883.


Anton Tchekhov
A Dama do Cachorrinho e outros contos
Trad. Boris Schnaiderman
ED. Max Limonad, 1986.


quinta-feira, 27 de março de 2014

Anton Tchekhov / A obra de arte

Picasso

Anton Tchekhov
A OBRA DE ARTE
Carregando sob o braço um objeto embrulhado no número 223 do Mensageiro da Bolsa, Sacha Smirnoff, filhinho de mamãe, assumiu uma expressão de tristeza e entrou no consultório do doutor Kochelkoff.
— Ah! meu grande jovem! — exclamou o médico. — Como vamos? O que há de novo?
Fechando as pálpebras, Sacha pôs a mão no coração e, comovido, falou:
— Mamãe lhe manda seus cumprimentos, Ivan Nicolaìevitch, e me encarregou de lhe agradecer… Mamãe só tem a mim no mundo, e o senhor me salvou a vida… curando-me de grave enfermidade e… não sabemos como lhe agradecer.

quarta-feira, 26 de março de 2014

Anton Tchekhov / Brincadeira


Anton Tchekhov

Brincadeira

Trad. Tatiana Belinky



Um claro dia de inverno... O frio é forte e seco de estalar, e Nádenka, que eu levo pelo braço, fica com os cachos das fontes e o buço no lábio superior orvalhados de prata cintilante. Estamos no cume de um morro alto. Diante dos nossos pés, até a planície, lá embaixo, estende-se um declive escorregadio e brilhante na qual o sol se mira como um espelho. Ao nosso lado está um trenó pequenino, forrado de pano vermelho-vivo.
- Deslizemos até embaixo,  Nadêjda Petrovna! - imploro eu. - Só uma vez! Garanto-lhe, ficaremos sãos e salvos!
Mas Nádenka tem medo. Toda essa extensão, desde as suas pequeninas galochas até o fim da montanha de gelo, se lhe afigura como um terrível abismo de profundidade imensurável. Ela fica tonta e perde o fôlego. Só de olhar lá para baixo, quando eu apenas lhe proponho sentar-se no trenó - que terá então se ela arriscar despenhar-se no precipício? Ela morrerá, enlouquecerá!

terça-feira, 25 de março de 2014

Olga Knipper / A morte de Tchekhov

Anton Tchekhov e Olga Knipper
1901
Olga Knipper
A MORTE DE TCHEKHOV



Anton sentou-se extraordinariamente ereto e disse em voz alta e clara (embora ele não soubesse quase nada de alemão): Ich sterbe ("Estou morrendo"). O médico acalmou-o, pegou uma seringa, deu-lhe uma injeção de cânfora, e pediu champanhe. Anton tomou um copo cheio, examinou-o, sorriu para mim e disse: 'Fazia um bom tempo que não bebia um copo de champanhe.' Ele bebeu, e inclinou-se suavemente para esquerda, e eu só tive tempo de correr em sua direção e de colocá-lo na cama e chamá-lo, mas ele tinha parado de respirar e estava dormindo tranquilamente como uma criança…





Anton Tchekhov / Um clássico contemporâneo da literatura russa


Anton Tchekhov
Um clássico contemporâneo 
da literatura russa

Elena Vássina
Revista Cult

Entre o estrelado áureo dos escritores russos do século 19, Anton Tchekhov (1860-1904) ficou consagrado como o mais ousado transgressor da tradição literária clássica e um importante precursor das formas e da linguagem artística contemporânea. O escritor de múltiplas faces, Tchekhov, antes de tudo, é um reconhecido mestre de narrativas curtas: em cada um de seus contos ele conseguiu recriar o microcosmo literário que abrange o infinito e a imensidão do ser humano e do mundo. Essa preciosa descoberta artística do gênio tchekhoviano fez a literatura do século 20 reconhecer o gênero conto como um dos mais importantes da narrativa contemporânea e transformou o contista, segundo a bela definição de Alfredo Bosi, em “um pescador de momentos singulares cheios de significação”. Ao mesmo tempo, Tchekhov é um grande renovador da arte dramática, criador de um novo paradigma estético do drama contemporâneo. Fora das obras de ficção, este autor russo deixou-nos uma valiosa herança dos escritos documentais: ensaios jornalísticos, cartas, diários e cadernos de anotações. Por isso, não é de estranhar que as obras completas do escritor, cujo credo literário era “a brevidade é irmã do talento”, incluem 30 volumes.

Raymond Carver / Os contos de Tchekhov

Anton Tchekhov
Raymond Carver
OS CONTOS DE TCHEKHOV

Os contos de Tchekhov são tão maravilhosos (e necessários), hoje, como quando eles apareceram pela primeira vez. Não é apenas o número imenso de contos que ele escreveu —poucos escritores, se houver algum, escreveram mais que ele— é impressionante a frequência com a qual ele produziu obras-primas, contos que nos encorajam, bem como encantam e mexem conosco, que revelam as nossas emoções de forma que só a verdadeira arte conseguiria.



segunda-feira, 24 de março de 2014

Romain Gary / Uma Vida à Sua Frente


Romain Gary
Uma Vida à Sua Frente 

Trinta anos depois da morte do escritor, sai final­mente em Por­tu­gal “Uma Vida à Sua Frente”, o livro que Romain Gary assi­nou como Émile Ajar para poder gan­har, violando as regras, o seu segundo Prémio Goncourt. Ao mesmo tempo, em Paris, uma exposição conta a história de um dos maiores embustes do mundo literário. 
Por Isabel Coutinho
No dia 17 de Novem­bro de 1975, o júri do mais impor­tante prémio literário francês reuniu-se e, à oitava ronda, atribuiu o Prémio Goncourt ao sen­hor Émile Ajar pelo seu romance “La Vie Devant Soi”. Na altura, os jor­nal­is­tas per­gun­taram insis­ten­te­mente se o júri não se tinha sen­tido pouco à von­tade por estar a atribuir o prémio a um “autor descon­hecido”. Poucos tin­ham visto Émile Ajar em carne e osso. Do escritor havia ape­nas uma fotografia um homem de cabe­los ao vento em frente ao mar e sabia-se que tinha escrito, tam­bém sob pseudón­imo, “Gros-Câlin”, o seu primeiro romance.
O júri não deu importân­cia a estes por­menores e foi assim que, sem ninguém saber, Romain Gary (1914–1980) se tornou no único escritor a gan­har duas vezes o Goncourt, um prémio que, estip­ula o reg­u­la­mento, só se pode rece­ber uma vez na vida. O escritor francês já tinha rece­bido o prémio literário em 1956, pelo romance “As Raízes do Céu”, e voltava agora a ser escol­hido com este livro. Só se soube a ver­dade seis meses depois da sua morte. A história nar­rada por Momo, um ado­les­cente muçul­mano de 14 anos que vive no bairro de Belleville, em Paris, na casa de Madame Rosa, uma pros­ti­tuta refor­mada e sobre­vivente de Auschwitz, é esta sem­ana pub­li­cada, pela primeira vez em Por­tu­gal, numa edição da Sex­tante. Foi adap­tado para cin­ema, por Moshé Mizrahi, com Simone Sig­noret a inter­pre­tar Madame Rosa.
Romain Gary arqui­tec­tou tudo. Teve atenção aos por­menores para que ninguém sus­peitasse de que era ele quem estava por trás de Émile Ajar. Arran­jou um cúm­plice, con­tra­tou advo­ga­dos e men­tiu com os dentes todos, até aos ami­gos mais ínti­mos. Antes de se sui­ci­dar com um tiro, deixou indi­cações ao seu filho e ao edi­tor para que o man­u­scrito “Vie et Mort d’Émile Ajar” fosse pub­li­cado postumamente.
Nes­sas dezenas de pági­nas, o escritor que nasceu em Vil­nius, na Lituâ­nia, filho de rus­sos judeus, e viveu em França, com a mãe, desde os 14 anos, torna pública a fal­ca­trua. “Diverti-me muito. Adeus e obri­gado”: assim ter­mina o livro onde conta como engen­drou um dos maiores embustes do mundo literário.
O escritor — que começou por ser avi­ador e herói de guerra, fez car­reira diplomática na Bul­gária, em França, na Suíça e nos EUA, e foi cineasta, jor­nal­ista e actor rev­ela aí que a sua prin­ci­pal moti­vação foi mostrar que os críti­cos literários france­ses eram tolos. Em “Romain Gary: a Tall Story”, biografia pub­li­cada no final do ano pas­sado, David Bel­los afirma que o escritor estaria farto de ser cat­a­loga do e desre­speitado pelos críti­cos. “Ele que­ria provar ao mundo que os jor­nal­is­tas e os edi­tores são preguiçosos, não lêem os tex­tos que criti­cam ou os livros que sug­erem, e apoiam-se em pre­con­ceitos e fofo­cas para for­marem as opiniões que impõem à comu­nidade”, escreve o autor, pro­fes­sor de francês e de lit­er­atura com­parada da Uni­ver­si­dade de Princeton.
Na ver­dade, só depois de ter acabado de escr­ever “Gros-Câlin” é que Romain Gary decidiu publicá-lo com outro nome. Sen­tia que era muito difer­ente das suas obras ante­ri­ores. O romance é quase um diário de um homem que vive com uma ser­pente pitão num aparta­mento em Paris e tem uma lin­guagem con­sid­er­ada inovadora.

Romain Gary


Foi assim que tudo começou

Como é que Romain Gary con­seguiu levar avante, e sem que ninguém sus­peitasse, um dos maiores embustes do mundo literário? Primeiro pre­cisou de con­vencer o seu amigo Pierre Michaut, um homem de negó­cios que vivia no Brasil, a entrar no jogo. Ele aceitou e, numa das suas vis­i­tas a Paris, dirigiu-se ao escritório do edi­tor Robert Gal­li­mard com o man­u­scrito de “Gros-Câlin” debaixo do braço.

Contou-lhe que estava ali em nome de um francês que vivia no Rio de Janeiro. Por razões legais, esse exi­lado não podia usar o nome ver­dadeiro nem regres­sar a França. O edi­tor, conta David Bel­los na biografia, leu duas pági­nas e enviou o livro para apre­ci­ação. No dia seguinte rece­beu um con­vite para ir a casa de Romain Gary. Quando lá chegou, encon­trou o escritor com um homem que lhe pare­cia famil­iar. “Não o estás a con­hecer?”, perguntou-lhe Gary. Robert Gal­li­mard perce­beu a marosca.
Não me digas que me pre­gaste esta par­tida…”, disse. Romain Gary obrigou-o a jurar que não con­taria o seg­redo a ninguém. O edi­tor cumpriu a promessa, bem como o pequeno grupo que sabia que era Gary o ver­dadeiro Émile Ajar: a secretária que dac­tilo­grafava os tex­tos, a sua ex-mulher e mãe do seu filho, a actriz Jean Seberg, os advo­ga­dos, e o seu primo Paul Pavlow­itch, que terá um papel fun­da­men­tal nesta história.
Ape­sar de a primeira leitora de “Gros-Câlin” ter dado uma apre­ci­ação muito pos­i­tiva, os edi­tores que o leram a seguir não ficaram tão entu­si­as­ma­dos. Conta David Bel­los que o escritor Ray­mond Que­neau, que fazia parte do painel de leitura, disse que o autor devia ser um chato mas tinha tal­ento. Acon­sel­hava que o livro fosse pub­li­cado na Mer­cure de France, uma fil­ial da Gallimard.
Quando o livro foi pub­li­cado, os críti­cos literários ten­taram desco­brir quem era o autor por trás do pseudónimo.
Nunca sus­peitaram de Romain Gary, que nesse ano pub­lica “La Nuit Sera Calme”, onde responde às per­gun­tas de um seu amigo de ado­lescên­cia, o jor­nal­ista François Bondy.
Para que tudo cor­resse bem com o pseudón­imo, o escritor não assi­nou os con­tratos com a edi­tora e, rece­ando a curiosi­dade dos jor­nal­is­tas, pediu ao primo Pavlow­itch que se envolvesse na história fazendo-se pas­sar por Émile Ajar. O plano: via­jar para o Rio de Janeiro e aí encar­nar a per­son­agem de Émile Raja, um médico francês que, acu­sado da prática de abor­tos clan­des­ti­nos, teria saído de França e adop­tado o sobrenome Ajar como pseudón­imo literário. A viagem nunca chegou a acontecer.

A men­tira con­tinua

Quando começou a cor­rer o rumor de que “Gros-Câlin” pode­ria ser can­didato ao Prémio Renau­dot (atribuído a primeiras obras), Robert Gal­li­mard avisa Romain Gary de que ele pode­ria meter-se em apuros. O escritor deu instruções ao advo­gado para que o livro fosse reti­rado das lis­tas de todos os prémios a atribuir em 1974.

Mas, com o livro nas livrarias, Émile Ajar teve de apare­cer e por isso Paul Pavlow­itch deu uma entre­vista ao “Le Monde”. A sua fotografia sai nos jor­nais. Entu­si­as­mado com o sucesso, Romain Gary começa a escr­ever o segundo livro. Tra­bal­hava de manhã na obra de Émile Ajar e de tarde na obra de Romain Gary. Em Out­ubro, pub­lica “Uma Vida à Sua Frente”, que teve como primeiro título “La Ten­dresse des Pier­res”. Quando a capa do livro já estava a ser impressa, a mul­her de Pavlow­itch repara que o título é igual àquele que uma per­son­agem de um romance ante­rior de Gary dava ao livro que estava a escr­ever. Antes que alguém notasse a coin­cidên­cia, Émile/ Paul Pavlow­itch pediu ao edi­tor para parar a impressão.
Mas o pior estava para vir. A 17 de Novem­bro de 1975, “Uma Vida à Sua Frente” recebe o Goncourt. Se alguém desco­brisse que o romance era de um escritor que já tinha ven­cido o prémio, Romain Gary seria preso. Por isso, três dias depois, Émile Ajar faz saber que recusa o prémio.
O júri responde que “o Goncourt é como a vida e como a morte não se aceita nem se recusa”. Entre­tanto, um jor­nal­ista con­segue, através da fotografia que cir­cu­lara nos jor­nais, perce­ber que Émile Ajar era Paul Pavlow­itch, primo de Romain Gary, e pub­lica a história. Tudo é posto em causa. Gary é forçado a dizer pub­li­ca­mente que não aju­dou o primo a escr­ever o livro e que não tem nada a ver com Émile Ajar. Nunca mais poderá con­tar a ver­dade, e por­tanto começa a escr­ever “Pseudo”, livro em que Émile Ajar conta como Paul Pavlow­itch, inter­nado numa clínica psiquiátrica, escreveu os seus livros. A men­tira continua.
O último livro assi­nado por Émile Ajar, “L’Angoisse du Roi Salomon”, é pub­li­cado em 1979. No ano seguinte, aos 66, Romain Gary suicida-se na sua casa em Paris: “Fiz um pacto com o sen­hor lá de cima, vocês con­hecemno? Fiz um pacto com ele de forma a nunca me deixar envel­he­cer.” A sua ex-mulher, Jean Seberg, tinha apare­cido morta no ano ante­rior. “Nen­huma lig­ação”, escreve na nota de suicí­dio que deixou.
Seis meses depois, em 1981, é rev­e­lada a ver­dadeira iden­ti­dade de Émile Ajar. Paul Pavlow­itch pub­lica “L’Homme que l’On Croy­ait”, onde conta a sua ver­são da história. É entre­vis­tado no pro­grama “Apos­tro­phes”, de Bernard Pivot. Pouco depois, é pub­li­cado o man­u­scrito “La Vie et Mort d’ Émile Ajar”, onde Romain conta que a jor­nal­ista Laure Boulay, do “Paris Match”, lhe disse a certa altura que estava con­ven­cida de que Romain Gary e Émile Ajar eram a mesma pes­soa. Romain Gary apaixonou-se per­di­da­mente por ela e respon­deu: “É evi­dente. Ninguém se aperce­beu a que ponto Ajar foi influ­en­ci­ado por mim. Podemos até falar de um ver­dadeiro plá­gio. Mas enfim, é um jovem autor. Não faço questão de protes­tar.” Esta história mirabolante volta agora a ser con­tada, 30 anos depois da morte do escritor, no Musée des Let­tres et Man­u­scrits, em Paris. Até 3 de Abril, a exposição “Romain Gary, des ‘Racines du Ciel’ à ‘La Vie Devant Soi’” mostra os man­u­scritos, as car­tas, as notas, as fotografias e os arti­gos de imprensa que recon­stituem o grande golpe.
Artigo pub­li­cado no caderno ípsilon, do PÚBLICO, de 21 de Janeiro de 2010
CIBERESCRITAS

DE OTROS MUNDOS