domingo, 30 de março de 2014

Winston Manrique Sabogal / Vargas Llosa de vida e de livros

Mario Vargas Llosa

Vargas Llosa de vida e de livros

Uma manhã de confissões literárias na casa em Lima do Nobel



O escritor Mario Vargas Llosa em sua casa em Lima. / DANIEL MORDZINSKi
Com o semáforo vermelho, Mario Vargas Llosa desce rápido do carro e, quando chega à faixa de pedestres na avenida, o semáforo volta ao verde, e ele para de repente. O acaso faz com que fique escoltado, em cada lado, por um mímico e um César Vallejo dourado que se dirigem com pressa para onde ele mesmo também vai. O escritor se dá conta e atina em dizer: “Parece muito com Vallejo”. Uns 60 passos depois e 14 minutos mais tarde, o escritor peruano inaugura o Dia das Palavras ao ler com emoção os versos do poeta peruano, em um parque à beira-mar.

“COSTUMAVA ESCREVER COM seu dedo grande no ar:
Vivam os companheiros! Pedro Rojas”,
de Miranda de Ebro, pai e homem,
marido e homem, ferroviário e homem,
pai e mais homem. Pedro e suas duas mortes”.

Está alegre. É sua semana no Peru, não só por completar 78 anos amanhã, mas pelos três eventos que foram organizados nos quatro pontos cardeais de Lima. “É importante para a cidade e o país que tenham vindo aqui tantos e tão bons escritores de nossa língua nestes dias para falar de livros e de leituras. É preciso estimular a leitura de bons livros, porque a literatura é não só um prazer superior, mas tem consequências muito positivas, como estimular a fantasia, a curiosidade, criar o espírito crítico. É um elemento fundamental nas sociedades modernas e para seus cidadãos.”

55 anos do primeiro livro

Há 55 anos Vargas Llosa publicou seu primeiro livro: Os Chefes. Um volume de contos, escritos entre 1953 e 1958, na maioria escritos quando estudava em San Marcos, em Lima. Um gênero que nunca mais publicou, apesar de gostar muito dele. Mas quanto tentou escrever um relato, acabou se transformando em novelas como Pantaleão e as VisitadorasA Cidade e os Cachorros, ou em capítulos de novelas. ”São histórias que crescem para mim, e assim que começo a escrevê-las rompem a moldura do conto.”
Mas o primeiro texto literário que publicou foi o relato O Avô, no jornal El Comercio, de Lima, em 1956. Um conto, recorda Vargas Llosa, cruel, de um velho perverso que quer vingar-se do neto. Uma história e temática, entre o terror e o gótico, que pouco teria a ver com o escritor que em 2010 ganharia o Nobel de Literatura por obras como A Cidade e os CachorrosA Casa Verde,Conversa na CatedralA Guerra do Fim do Mundo, Lituma nos Andes, A Festa do Bode e O Herói Discreto.
O Nobel se refere à I Bienal de Novela Mario Vargas Llosa, que termina hoje, depois de quatro dias, com o anúncio do resultado do prêmio para a melhor obra publicada em espanhol entre 2012 e 2013. Dias em que participaram mais de 30 escritores de língua espanhola em 14 mesas redondas, com um público devotado.
“Papel de vento, o mataram: passa!
Pena de carne, o mataram: passa!
Abisa logo a todos os companheiros!”
Vargas Llosa continua lendo os versos de Vallejo, diante do Vallejo dourado, de España aparta de mí ese cáliz (Espanha afasta de mim esse cálice).Meia hora antes, em seu apartamento, em um terraço de frente para o Pacífico, sem horizonte por causa da névoa, falava entusiasmado de um aspecto apaixonante e anterior à escrita: a leitura. Um entusiasmo e sabedoria que transmite em A Verdade das Mentiras de tal forma que ao ler qualquer um de seus trinta ensaios sobre escritores e obras o efeito imediato é ir buscar tal livro e lê-lo ou relê-lo. “Esse é o objetivo”, diz, sorrindo. A primeira coisa que faz, agora, é revelar o mistério do momento em que um livro o enfeitiça; “Depende do gênero”, esclarece. “Na poesia a chave está nos primeiros versos. Se não são bons, dificilmente se vai em frente, e o leitor desiste. Na novela, ao contrário, isso pode demorar e nem sempre as primeiras páginas apresentam a maravilha que pode vir. Por isso, de alguma maneira, entendo Gide quando se recusou a publicar Em Busca do Tempo Perdido, de Proust, o que o levaria a se arrepender por toda a vida. Há outros romances que desde as primeiras páginas te capturam, como Cem Anos de Solidão, com esse começo extraordinário; o Moby Dick, com este ‘Digamos que me chamo Ismael’, tão enigmático; ou O Quixote com ‘Em um lugar da Mancha de cujo...’, com seu mistério e musicalidade. Como dizia Borges, o que não for excelente não é poesia, por isso me dediquei à novela...”

O crítico é o responsável pela marginalidade em que vive ao ter perdido o protagonismo que tinha e deveria recuperar. Não temos críticos de grande responsabilidade nem em outras áreas
E Vargas Llosa continua como se tivesse acabado de ler pela primeira vez as obras citadas. Um pouco depois, suas palavras avançam como o Pequod atrás de Moby Dick quando passou um inverno diante das costas peruanas onde ele mesmo está agora...
“A boa literatura nos ajuda a ficar mais bem armados diante da vida e de qualquer engano. Te defende contra a mentira, a manipulação e as falsas aparências. Por isso é uma barbaridade educar as pessoas somente nas tecnologias.”
Ele disse várias vezes que no centro de todas as novelas chameja um protesto contra o mundo que coube a cada um viver, e que pode ser modificado por meio da leitura. E também que os bons livros convidam à rebelião para ser melhor cidadão e ajudam a construir um mundo melhor. E várias vezes esta semana falou sobre o chamado a esse motim, e hoje lhe ocorre algo ...
“A crítica literária tem agora mais responsabilidades em um mundo com excesso de informação e excesso de livros. E é responsável pela marginalidade em que vive ao ter perdido o protagonismo que tinha e deveria recuperar. Não temos críticos de grande responsabilidade nem em outras áreas. Parecem limitar-se a resenhas, quase como publicidade, a banalizaram e se esqueceram da função de apresentar os elementos para que as pessoas apreciem o bom e o menos bom de cada livro, e algo muito importante é que devem ter claro o lugar que essa obra ocupa em seu contexto, e contar isso aos leitores. Especialmente nestes tempos em que a Internet tende a dar o mesmo valor a tudo...”
A análise sobre a Internet e o modo como as tecnologias emergentes modificaram a vida continuam chamando sua atenção...
“O principal perigo não é que a Rede vá cair um dia porque isso não vai acontecer. Isso é brincar com o apocalipse. O que teria de ocorrer é que haja uma certa normalidade em algo que quase não é normal. Não sabemos até onde chegará a função da cultura nas redes. O receio é que a Internet banalize a cultura. Há razões para estarmos preocupados. Mas o que de fato é perigoso é a enorme possibilidade de manipulação tecnológica para criar conflitos entre países. Não há uma legalidade. Tudo isso abre flancos em que, além do mais, penetram na tua intimidade e podem chegar a usurpar a tua identidade. Tem de ser criada muito rápido uma legalidade, do contrário, permanecem brechas sobre a liberdade ou a soberania individual.’
Vargas Llosa faz um giro e, agora que as séries de televisão são louvadas como criadoras de uma nova narrativa, esclarece que viu algumas e gostou muito, como The Wire e House of Cards…
“Mas dizer que são melhores que a literatura e que descobriram novas formas de contar é ignorância e desconhecer a história da literatura. Eu não vi uma inovação como nas novelas modernas. A impressão que um bom livro deixa no leitor tem um efeito mais duradouro e profundo.”
Ele diz isso ao lado das estantes com seus livros favoritos. Logo depois posa entusiasmado para as fotos em seu escritório enquanto aponta o horizonte embaçado pela névoa para contar que nos dias límpidos se consegue ver as ilhas, incluindo aquela que tem forma de baleia.



Vargas Llosa em uma rua de Lima. / DANIEL MORDZINSKI




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