segunda-feira, 12 de junho de 2017

Roger Waters / “Não se ganha nada construindo muros. Só os idiotas fazem isso”


Roger Waters

Roger Waters

“Não se ganha nada construindo muros. Só os idiotas fazem isso”

Crítico com o mundo que vivemos, gênio criativo do Pink Floyd chega aos 73 anos com um novo disco solo


JOSEBA ELOLA
10 JUN 2017 - 13:18 COT







Roger Waters na gravação do discoAmpliar foto
Roger Waters na gravação do disco SEAN EVANS


Guerras pavorosas. Guerras que expulsam pessoas de suas terras, que matam, que destroem famílias. Não é de se estranhar que as guerras continuem tão presentes nas músicas do britânico Roger Waters. Seu pai morreu na Segunda Guerra Mundial. Seu avô, na Primeira.


Aquele garoto que cresceu sem um pai continua muito vivo dentro desse homem de 73 anos. 
O gênio criativo do Pink Floyd, o homem sofredor que se esgoela levado por suas obsessões, o esquerdista crítico com a ordem estabelecida, o de letras pungentes, está de volta. E se passaram 25 anos. Sim, é verdade, há 12, em 2005, escreveu uma ópera, Ça Ira, uma raridade em sua longa trajetória. Mas desde 1992, data de seu último disco de rock solo, não trazia uma nova coleção de músicas. 
Voltas e voltas, round and round. A vida dá voltas, já escrevia em ‘Us and Them’, pérola do mítico álbum The Dark Side of the Moon (1972), que catapultou os Floyd à fama, ao reconhecimento mundial. Isso de dar voltas, no seu caso, se confirma. Quando na segunda metade dos anos oitenta, após deixar o grupo, Waters brigava com seus colegas para que não pudessem usar o nome Pink Floyd sem que ele estivesse no projeto, David Gilmour e Nick Mason pareciam os donos do legado da banda: eram eles que andavam por todas as partes cantando Money. Mas o tempo o devolveu a Waters.Após percorrer o mundo com a turnê mais bem-sucedida da história de um artista solo – 220 apresentações entre 2010 e 2013, mais de 458 milhões de dólares (1,5 bilhão de reais) arrecadados –, a que realizou retomando The Wall, obra do Pink Floyd fundamentalmente composta por ele, retorna agora com Is This the Life We Really Want?, editado pela Columbia (Sony Music), um disco de aroma maduro, lembrando bastante os do Pink Floyd dos setenta, desses que transmitem a sensação de que o apocalipse espreita, mas que ainda existe um raio de luz que passa por uma fresta da persiana. Um disco que viaja do ruído da sociedade da informação, desse barulho em vivemos instalados, à intimidade oferecida por um momento de paz embalado pelo som cálido de um violão. Que fala da guerra, dos refugiados, de uma sociedade guiada pelo medo, do silêncio e da indiferença de tantos diante do que está acontecendo.





O Pink Floyd em 1968
O Pink Floyd em 1968 GETTY

Em uma manhã ensolarada e limpa em Nova York, Waters entra com passadas firmes em uma sala de estúdios de gravação próximos ao parque Madison Square Garden e se acomoda em uma poltrona diante da mesa de mixagem. Às vezes, os anos favorecem as pessoas. Aquele garoto feioso das capas dos anos setenta é hoje um homem atraente que quase lembra, guardadas as devidas proporções, Richard Gere. Camiseta negra, calça jeans azul justa, botas negras, olhar azul, George Roger Waters (Great Bookham, Surrey, Reino Unido, 6 de setembro de 1943), o Lennon do Pink Floyd, dispara com língua afiada quando fala de política e menciona sem reservas sua dura infância quando fala de si mesmo. Conversa pausadamente, pronunciando todas e cada uma das sílabas com um inglês muito british que não foi contaminado com o sotaque americano, mesmo morando já há vários anos na cidade dos arranha-céus.
Pergunta. O senhor escreve sobre a guerra desde 1968. Em seu novo disco, fala de pessoas que morrem em guerras distantes. Isso se deve ao fato de o seu pai ter morrido na Segunda Guerra Mundial?
Reposta. A guerra está presente porque está sempre aí. Mas, sim, pode ser que isso ocorra pelo fato de eu ter uma empatia especial com as vítimas. E isso talvez tenha a ver com o fato de que mataram meu avô e meu pai nas duas guerras mundiais. Meu avô morreu em 24 de setembro de 1916 e seu filho, em 18 de fevereiro de 1944. Por isso, talvez tenha a ver com essa agonia gerada pela perda e que milhões de pessoas estão sofrendo com isso no mundo todo.
“Escrever alivia. Compartilhar um sentimento e mostrar-se diante dos demais pode ser catártico. Você se expõe à aprovação, ao ridículo”
P. Em 17 de fevereiro de 2014, você visitou o local onde o pai morreu, a 30 quilômetros de Roma, conduzido por um veterano de guerra, Henry Schindler. O que descobriu nessa viagem?
R. Toda a viagem, a visita ao jardim do memorial, ver o nome de meu pai inscrito na pedra, tudo isso me fez entender a dimensão da necessidade de eu conquistar a aprovação dessa pessoa que mal conheci, pois eu era muito pequeno quando ele morreu. Mas eu o admirava e o respeitava por causa das histórias e lendas que minha mãe contava sobre ele. Comprovei como ele era e é importante para mim. Certa vez, depois de um show, um veterano se aproximou de mim, olhou-me bem nos olhos, pegou minha mão e disse: “Seu pai estaria orgulhoso de você”. Fiquei sem palavras. Emocionou-me muito ouvir aquele homem dizer aquilo.
P. Quem ele era?
R. Era um veterano do Vietnã. Costumo convidá-los para os shows. Fiz isso na turnê de The Wall. Convido-os e fico com eles no intervalo do concerto para cumprimentá-los. Aparecem ali homens feridos, homens com queimaduras.
P. O que representou para o senhor crescer sem um pai?
R. Você passa toda a vida fazendo trejeitos toda vez que está com outro homem, tenta impressioná-lo. Fiz isso desde que era pequeno, faço desde então.

P. Essa ausência influiu no fato de se tornar músico, na necessidade de escrever canções?
R. Provavelmente. A verdade é que não sei de onde vem a escrita, é algo completamente misterioso. Mas a necessidade infinita do tapinha no ombro, a busca de um pai “bem certo” tem sido uma constante na minha vida.
P. As canções o ajudaram a se impor às guerras interiores, às suas batalhas consigo mesmo?
R. Sim, estou certo de que é assim. Às vezes, explico as coisas a mim mesmo e para os outros por meio da música ou da poesia...
P. Ou seja, escrever canções alivia...
R. Sim, escrever alivia, é gratificante. Compartilhar um sentimento ou mostrar-se diante dos demais pode ser catártico. Você se expõe à aprovação, ao ridículo. E com muita frequência as pessoas respondem com amor, empatizam se você expressa um sentimento que reconhecem. Nunca contei isto a ninguém, mas muitas vezes na minha vida disse a mim mesmo: “por que não lhe falei?” É frequente a gente falar com alguém e guardar algo porque está preocupado com qual será a resposta. Minha experiência é que não compartilhar, tentar ocultar aspectos negativos sobre si, não se arriscar a contar, não admitir algo que você fez porque acha que te retirarão o amor é quase sempre uma má decisão.


P. Bem, às vezes, contar o que se passa com a gente pode ferir o outro...
R. Sim, é verdade. A vida é complexa.
P. O senhor foi contestador desde muito pequeno. De onde procede essa veia contra a autoridade?
R. Vivi um incidente na creche quando tinha dois ou três anos. Havia um brinquedo, um caminhão vermelho doado pelos americanos, um triciclo. Um dia me sentei em cima e minhas calças rasgaram. Uma moça que trabalhava na creche decidiu que tinha de costurá-las, assim, tirou-as de mim à força. Eu me senti como se estivessem me violando. Resisti e briguei com ela com toda a força que tinha meu pequeno corpo, mas ela era forte demais para mim.
P. Você tinha dois ou três anos e se lembra do incidente?
R. Perfeitamente, é uma lembrança muito forte. Eu me senti vítima dessa bovina errante que não entendia meus sentimentos, os de uma criança. Vivenciei vergonha, humilhação. Posso ter uma ideia do que deve ser alguém estuprar a gente, de tão intenso que foi. Eu gritava como um possesso. Tinha enorme sensação de desamparo.
“Marine Le Pen, o maldito Nigel Farage e Donald ‘Maldito’ Trump se enganam. Temos que acolher os refugiados compreender de onde vêm”

P. E essa sensação de desamparo o acompanhou na escola?
R. Basta que te aconteça uma vez para que você se preocupe com que volte a suceder. E assim foi, já adolescente, durante um fim de semana com a Cadet Force, uma espécie de versão júnior do Exército, ou da Marinha. Estávamos em um barco, em uma estação naval no norte da Inglaterra. Uma noite me ocorreu algo similar. Um grupo de rapazes me atacou. É algo que costumavam fazer. Te assaltavam no meio da noite, baixavam as suas calças e colocavam betume nas bolas. A há há.
P. Daí o “We don’t need no education” [não necessitamos de educação’, verso da arquifamosa ­Another Brick in the Wall, de Pink Floyd]…
R. Alguém me mostrou um desenho que fiz, que agora está na exposição do Pink Floyd do Victoria and Albert Museum, de Londres, onde aparece um professor apontando um menino pequeno e lhe dizendo: “Você é patético. Nunca chegará a ser nada”.
P. Sério?
R. Assim nos tratavam na escola. Lembro-me de pessoas que supostamente era professores que escreviam na lousa: “Isto é lixo”. Atacavam ad hominem as crianças, eram uns sacanas. Não todos, havia gente muito decente, mas alguns eram uns porcos.
P. Ou seja, você não passou muito bem nos anos da escola...
R. Oh, não, odiei cada minuto do colégio.



Primeiros anos da banda britânica
Primeiros anos da banda britânica  REDFERBS

P. Depois estudou arquitetura. Em que momento decidiu que queria ser músico?
R. Quando tinha 14 ou 15 anos. Parecia a única possibilidade de ganhar dinheiro ou de conseguir dormir com alguém [risos].
P. Era tão difícil assim naqueles tempos?
R. Sim. A outra opção era ganhar nas apostas esportivas. Lembro-me que eu trabalhava como arquiteto em 1967, mas logo nos tornamos músicos profissionais e tive de deixar o estúdio em que trabalhava. Durante anos vivemos com nada, quase não ganhávamos dinheiro. Pouco a pouco fomos tendo mais sucesso, fazendo shows por todo o país, aprendemos a fazer discos. E finalmente conseguimos fazer um que era realmente bom, The Dark Side of the Moon, que foi um grande êxito. O resto é história.
P. O que representou para você, no auge do Pink Floyd, a saída de Syd Barrett [o primeiro líder da banda, vítima do consumo de LSD] do grupo?
R. Foi muito sofrido. Eu o conhecia desde pequeno. Ficou louco. De repente, a pessoa que era meu amigo, um garoto encantador e com muito talento, parecia um zumbi... A banda tinha tido sucesso graças a ele, compunha todas as canções. Foi devastador. E também muito desgastante. Quando você se apoia em alguém que é seu amigo e ele de repente desaparece, fica a sensação de que isso pode ser o final de tudo. Foi muito dolorido e estranho, mas conseguimos superar. E representou uma grande mudança. Todos nós nos vimos obrigados a compor. Eu já tinha escrito um par de canções quando ele ainda estava na banda, por isso já estava claro que tinha algumas ideias para expressar. Quando ele se foi tive de ser quem passou a criar tudo.
P. O que aprendeu de sua fase no Pink Floyd e, em particular, daqueles anos em que se separaram, em meados dos anos oitenta?
R. Não acho que tenha aprendido muito nesses anos [ri]. A gente aprende com os erros que comete com as mulheres. Muito. Ou pelo menos eu aprendi. Muito.
“Não creio ter aprendido muito com a ruptura do Pink Floyd. A gente aprende com os erros que comete com as mulheres. Ou pelo menos eu aprendi. Muito”
P. Sério?
R. Sim. Cometi erros muuuuito graves. Mas no final você aprende a ser mais honesto consigo mesmo. Como dizíamos antes, o pior é esconder. E o amor é transcendental. Se você se entrega, vão te ferir, mas também você crescerá e experimentará alegria. Se você não se abre ao amor, você murcha e morre. Também aprendi que não devemos estar abertos só ao amor carnal, a estar com uma mulher para o sexo ou para formar uma família. Você tem que ser capaz de estar com as pessoas que precisam de você, com outros seres humanos. Assim, quando alguém se apresenta às portas da sua fronteira, cheio de pó, porque teve de viver onde lhe coube viver, você tem que lhe dar abrigo. Marine Le Pen, o maldito Nigel Farage e Donald Maldito Trump se enganam. Temos que acolher os refugiados, compreender as sociedades de onde vêm, suas convicções religiosas; temos que abrir espaço em nosso coração para os outros. Nada se ganha construindo muros, apontando para os outros e dizendo: “Nós somos os bons e esses são os maus”. Isso só fazem os idiotas. E fazem isso diariamente, a todo o momento, inventam histórias para apoiar sua visão, nisso consiste a propaganda. Isso é o que têm em comum com Joseph Goebbels. Ele se deu conta de que isso funcionava, e funciona, infelizmente. Por isso é preciso resistir.
P. Você agora mora nos Estados Unidos, um país em que Donald Trump venceu...
R. Ganhei, Ganhei, Ganhei [diz, imitando a voz de Trump]
P. … E os impostos que paga serão destinados a incrementar os gastos militares. Como vivencia isso?
R. É terrível
P. Você veio viver aqui...
R. Vim por meu filho, o menor de meus filhos, depois de um divórcio. Minha esposa era americana e trouxe meu filho, por isso eu o segui...
P. E como se sente?
R. Estou feliz aqui, agora. Encontrei uma boa mulher [ri]. Bem, já está, acho que assim temos que deixar.


quinta-feira, 8 de junho de 2017

Juan Goytisolo, escritor espanhol, morre aos 86 anos no Marrocos


Juan Goytisolo, 

escritor espanhol, 

morre aos 86 anos no Marrocos


Goytisolo foi vencedor do Prêmio Cervantes e era conhecido por seus romances experimentais e ensaios políticos.

Por Agencia EFE
04/06/2017 11h49 Atualizado 04/06/2017 11h50

O escritor espanhol Juan Goytisolo, de 86 anos, morreu na manhã deste domingo (4) em Marrakech, no Marrocos, segundo confirmou hoje Ricard Parise, amigo pessoal do escritor.

Parise disse desconhecer as circunstâncias exatas da morte. O estado de saúde do escritor era delicado nos últimos meses e ele havia sido hospitalizado em várias ocasiões.

O corpo do escritor, Prêmio Cervantes em 2014, foi levado ao necrotério de Marrakech, e ainda não se sabe se será enterrado na cidade marroquina onde residiu nas últimas décadas ou se será repatriado a Barcelona.

Goytisolo foi vencedor do Prêmio Cervantes e era conhecido por seus romances experimentais e ensaios políticos.


O GLOBO

DE OTROS MUNDOS
Juan Goytisolo / 'Je est un autre'
Juan Goytisolo / Paisaje después de las batallas
Muere el escritor Juan Goytisolo a los 86 años en Marrakech
Muere Juan Goytisolo, el escritor disidente
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París, la otra patria de Jean Goytisolo
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Juan Goytisolo / Coto vedado / La sinceridad de un libro
Goytisolo en su amargo final

DRAGON
Juan Goytisolo  / Scourge of the new Spain 
Juan Goytisolo / Man Booker International prize 2011


domingo, 4 de junho de 2017

Cass Bird / Mulheres

Guinevere, Carolyn, Malgosia 

Cass Bird

MULHERES

Carolyn Murphy

Guinevere Van Seenus  

Malgosia Bela 


Guinevere, Malgosia 

Malgosia 


sexta-feira, 2 de junho de 2017

Fanny Ardant / Uma resistente à procura de luta





ANTÓNIO PEDRO FERREIRA

Fanny Ardant: Uma resistente à procura de luta

05.02.2017
“O Divã de Estaline” é o terceiro filme com assinatura de Fanny Ardant. De passagem por Lisboa, a atriz revelou-nos as suas motivações pessoais numa vida pautada pela leitura, pela paixão e pelo cinema

Drama intimista, como o define, o terceiro filme de Fanny Ardant, uma das atrizes francesas mais emblemáticas e a eterna musa de François Truffaut, é um trabalho sobre o poder, que utiliza a figura de Estaline como metáfora dessa condição absoluta. “O Divã de Estaline”, diz-nos, na sua última passagem por Lisboa, “não é um filme sobre Estaline, é um filme com Estaline. Quis criar uma fábula, contar um conto. A realidade histórica não me interessa”. Fanny Ardant é clara na sua intenção de criar uma metáfora sobre o efeito que o poder exerce nas pessoas, sobre o medo que dele advém e sobre a transformação a que submete toda a gente. O mesmo medo, revela, que “hoje em dia toda a gente tem em relação a tudo. Medo de não agradar, de não ser ou estar como deve ser...”
Em honra do poeta russo Osip Mandelstam, que afrontou Estaline com um poema caricatural, e que por isso foi condenado ao exílio e não tendo obedecido acabou preso e obrigado a trabalhos forçados, o filme avança “como uma representação da resistência e da liberdade possível”, mas também numa demonstração de que “aquele poder absoluto só existe porque a sociedade, o povo lhe diz sim e o aceita”.
O resultado é a humanização de “um Estaline monstruosamente humano” e muito semelhante às personagens que Shakespeare constrói em “Ricardo III” ou “Macbeth”, acredita a realizadora. “Há qualquer coisa nelas que nos faz ter compaixão ou pena.” Gérard Depardieu, acrescenta, “mostra o homem, aquele que duvida, que é apanhado pelo passado, que se olha ao espelho e já não se vê, que tem medo da morte e do abandono, num jogo perverso à procura do significado dos seus sonhos”. Um homem que não gosta daquilo em que se tornou nem física nem moralmente... “Para um ditador que era charmoso, agradava às mulheres, inteligente, culto, é complicado envelhecer”, segue Ardant. “Torna-se ambíguo e os poderes ambíguos são os mais perigosos. Suscitam adoração. Foi por isso que quis filmar sempre o grupo de pessoas que o rodeiam mudo, como os coros antigos que olhavam sem nada dizer, que esperavam e que se submetiam.”
Mas submissão é algo que Fanny Ardant não conhece na vida real. Sempre com a liberdade como fio condutor, cresceu no Mónaco, onde nasceu, filha de um oficial do exército, frequentou um colégio de freiras que detestava, e passava as férias grandes em casa dos avós, no meio dos bosques a norte de Paris. “Um sítio fantástico onde ninguém nos via. Sempre me contaram que durante a guerra os alemães passaram por lá e foram-se embora por acharem que ali não vivia ninguém.”
Lá tudo era uma aventura. “A casa ainda não tinha eletricidade, havia aqueles candeeiros a petróleo, a água era tirada do poço à mão, lavávamo-nos naqueles lavatórios antigos que punham em cada quarto. O meu avô tinha uma biblioteca enorme. Foi lá que comecei a ler. Lia tudo, tudo, tudo”, lembra. “Só passei a conviver com rapazes na Universidade e as pessoas pensavam que eu não sabia nada, mas eu sabia as coisas da vida através dos livros. Quando li a ‘Madame Bovary’, de Gustav Flaubert, percebi, antes sequer de me ter apaixonado, que se podia trair um amor!”
Essa madame Bovary, ser livre que vive à margem das convenções, é parte daquilo que a realizadora defende: “O que me parece ser o mais importante neste mundo é a liberdade. Não é a segurança. A nossa época, a nossa democracia agita a bandeira negra do medo para poder dizer-nos que pode tomar conta de nós, mas isso roubar-nos-á a liberdade.”
Desde sempre que se lembra de querer ser atriz, mas a profissão “aleatória e hipotética”, como lhe chamaram os seus pais, levaram-na a optar por estudar Ciências Políticas em Aix-en-Provence, no Sul de França. Escolheu o curso por ser o que durava menos tempo. “Recordo esse tempo como um período em que se falava. Hoje em dia já ninguém fala com ninguém. Fala-se da meteorologia. Gosto imenso da dialética. E naquela altura falava muito sobre as ideias, mesmo que não estivesse de acordo com os meus interlocutores”, continua a realizadora.
O curso correu-lhe bem, “é perigoso quando os estudos nos correm bem”, e candidatou-se a um lugar no Ministério dos Negócios Estrangeiros. “Fui parar à embaixada de França em Londres. Mas, graças a deus, fui recambiada para França. Chegava todos os dias atrasada ao emprego, de tal maneira que os outros funcionários se perguntavam, mas quem é esta?” Já em França, frequentou um curso de teatro e começou a dar os primeiros passos como atriz. Aos 31 anos, François Truffaut, por quem se apaixonou e com quem teve uma filha, escreveu-lhe uma carta, depois de a ter visto num filme que passou na televisão, e que foi um enorme sucesso em França, “Les Dames de la Côte” (1979).
“Fiquei extremamente surpreendida. Sou tímida, por natureza. Ele perguntava-me se estaria disponível para conversarmos. Fui ao encontro mas sempre a questionar-me sobre o que havia de dizer e sem ter resposta.” Truffaut estava a preparar o filme “O Último Metro” (1980), com Catherine Deneuve e Gérard Depardieu, mas já tinha em mente fazer “La Femme d’à Coté”, que Fanny Ardant haveria de protagonizar também ao lado de Depardieu.
“Truffaut era alguém cujo comportamento eu admirava, o comportamento na vida e no cinema. Ele vivia o cinema e a literatura. Admirava-lhe também a inteligência, a liberdade de espírito, a sua grande liberdade de espírito. Tinha um enorme respeito pelo outro, fosse alguém todo-poderoso ou um zé-ninguém.”
Acabou por saber da sua morte, em outubro de 1984, já devastada. “Mesmo antes de viver as mortes que me transtornaram [o pai morre quando ela tem apenas 17 anos], muito nova, descobri o lado efémero da vida. Aos 13 ou 14 anos era essa angústia que tomava conta de mim. Sabia que um momento igual ao que estava a viver nunca mais se repetiria e que não poderia agarrá-lo. Fui desde muito jovem tomada por aquela sensação de não poder agarrar os momentos. A morte era a grande ilustração desse sentimento do efémero. Durante toda a minha vida tive sempre este fleurt com a morte, nunca a perdi de vista. Mas não a sentia forçosamente como uma inimiga. Sempre a olhei como um desgosto, uma coisa que não correu bem mas que não vai durar para sempre. É uma inimiga e uma amiga ao mesmo tempo. É preciso relativizá-la, porque, lá está, só há uma vida, temos que a viver.”
Zeffirelli, Antonioni, Resnais, Polanski, Wenders, foram alguns dos realizadores com quem trabalhou. “Não sou uma teórica do cinema, mas o que vi foram grandes diretores cheios de paixão e de entusiasmo, gente que em cima do plateau fazia como que uma pequena criação do mundo e só isso contava. Tinham a paixão de um artesão.”
A mesma que tem ao falar connosco e que impõe em tudo e a todos com quem trabalha de um lado ou do outro da câmara. “Enquanto atriz fui sempre escrevendo histórias, argumentos. Escrevia depois de almoço, à tarde. As histórias estavam mais ou menos bem acabadas. Um dia escrevi uma que tinha um melhor final e foi quando encontrei Paulo Branco. Chamava-se ‘Sangue e Cinzas’ (2009) e foi o meu primeiro filme”, lembra com vivacidade.
Hoje, diz, “continuo a ser uma atriz e gosto muito de o ser, por isso é complicado dirigir os outros atores. Cada um de nós funciona de uma forma muito particular. Eu, por exemplo, não preciso que me falem e expliquem o papel durante horas. Sou como um cão, cheiro os papéis. Mas há atores que precisam de muito tempo. Aprendi que é assim. Gérard Depardieu é como eu. Uma frase e já está. Está pronto”.
Ao escrever os diálogos deste filme, “O Divã de Estaline”, tudo lhe parecia claro, tão claro que levou tempo a falar com os seus atores. “Gostava que todos percebessem que na nossa sociedade o poder do dinheiro é enorme, é, de facto, o verdadeiro poder. E é capaz de transformar as pessoas que se submetem a ele. Há sempre os que dizem que se vão desenrascar, que vão sair dessa, que não se submeterão a tudo, que vão conseguir ganhar ao poder, mas a tentação está sempre lá como esteve ao lado de Eva no paraíso.”
E gostava, diz-nos com humildade, que os espectadores fixassem uma pequena cena, “aquela em que Lídia entra e abraça Estaline voluptuosamente e veste uma camisa de noite. É preciso que todos percebam que já são outros os ventos que sopram. Ela já está salva do jugo do poder. Ele já não pode prender-lhe a alma, tal como acontece em ‘Almas Mortas’, de Nikolai Gogol.”
A literatura e os livros sempre a abrirem caminho para uma realidade vasta. “Os grandes autores fazem-nos ganhar tempo, vêm e contam-nos coisas que nós levaríamos uma vida inteira para nos apercebermos delas.” Neles e em Fanny Ardant há uma só mensagem: “Não se resignem, sejam livres venha o que vier...”



quinta-feira, 1 de junho de 2017

Gabriel García Márquez / Os sete capítulos esquecidos de ‘Cem Anos de Solidão’



Os sete capítulos esquecidos de ‘Cem Anos de Solidão’

García Márquez publicou episódios avulsos para sondar o público antes de terminar o romance


ÁLVARO SANTANA ACUÑA
Austin 26 MAI 2017 - 17:00 COT´

Meses antes de terminar Cem Anos de Solidão, Gabriel García Márquez amargava sérias dúvidas sobre a qualidade de um romance que se tornaria um clássico da literatura. "Quando li o que tinha escrito", confessou por carta a um amigo, "tive a desmoralizante impressão de estar metido numa aventura que tanto podia ser afortunada quanto catastrófica". Algo pouco conhecido é que García Márquez publicou sete capítulos de Cem Anos de Solidão para aplacar essas dúvidas. E fez isso antes de acabar o livro (o que aconteceu em agosto de 1966) e de assinar o contrato com a Editorial Sudamericana, que firmou em 10 de setembro do mesmo ano. A obra foi lançada em 30 de maio de 1967. Na próxima terça-feira fará 50 anos.
Os sete capítulos foram publicados em jornais e revistas que circulavam em mais de 20 países. Representam mais de um terço do livro, que ao todo tem 20 capítulos. Nem sequer há cópias deles no arquivo pessoal de García Márquez no Harry Ransom Center, no Texas, que abriga seu legado. Para encontrar seu rastro é preciso percorrer bibliotecas na França, Estados Unidos, Colômbia e Espanha.
Os capítulos caíram no esquecimento porque se acreditava que eram idênticos aos publicados na primeira edição, de 1967, do livro. Só que a comparação das versões revela outra realidade. Desde a primeira página há mudanças na linguagem, na estrutura e na descrição dos personagens. Isso dá aos capítulos esquecidos grande valor literário para entender como a obra foi escrita. García Márquez afirmou que tinha queimado as notas e os manuscritos preparatórios depois de receber a primeira cópia do livro.

42 alterações

O primeiro capítulo saiu em 1º de maio de 1966 no El Espectador, de Bogotá, quando ainda faltavam três meses para finalizar a obra. Entre essa versão e a edição final de 1967 há 42 alterações significativas, que aparecem desde a primeira página. As casas de Macondo, por exemplo, não eram "de barro e taquara" como na edição final, e sim simplesmente de "adobe". O escritor buscava uma linguagem mais precisa.
Também há modificações importantes na estrutura geral do livro. Por exemplo, na edição de 1967, a ação destruidora dos cupins, que anuncia o declínio da casa da família Buendía, é descrita mais para o final da obra. Mas na versão de El Espectador, "o cupim minava os alicerces da casa" desde o primeiro capítulo. Referências tão no começo aos insetos davam dramaticidade à futura decadência da casa.
Na edição definitiva, Macondo é um povoado isolado da civilização, com localização exata desconhecida. Ao contrário, no capítulo de El Espectador, Macondo é localizada com facilidade, pois fazia fronteira "a Oeste com as dunas do rio La Magdalena", na Colômbia. García Márquez suprimiu esse e outros detalhes sobre a localização precisa da cidadezinha para criar no leitor a impressão de que poderia ser um lugarejo típico de qualquer país latino-americano.

O pranto de Aureliano

Outra mudança surpreendente tem a ver com o nascimento do coronel Aureliano Buendía. Na edição final, o coronel "tinha chorado no ventre de sua mãe e nasceu com os olhos abertos", enquanto no capítulo de El Espectador o herói recebia tratamento pouco heroico e até prosaico: a parteira lhe dá "três palmadas enérgicas" para fazê-lo chorar.
O capítulo seguinte que García Márquez testou com os leitores saiu na revista Mundo Nuevo em agosto de 1966. Publicada em Paris, essa revista se tornou a principal vitrine da literatura do boom latino-americano. Seus 6.000 exemplares mensais eram vendidos em 22 países, incluindo Estados Unidos, Holanda, Espanha, Portugal e quase toda a América Latina. Nesse capítulo encontrei 51 diferenças em relação à edição final. Por exemplo, José Arcadio, cuja mãe, Úrsula, temia que nascesse com rabo de porco, veio ao mundo como "um filho saudável", ao passo que na edição final o autor aumenta a dramaticidade ao escrever: "Deu à luz um filho com todas as suas partes humanas".


Primeiro capítulo de 'Cem Anos de Solidão' publicado em 'O Espectador', de Bogotá.
Primeiro capítulo de 'Cem Anos de Solidão' publicado em 'O Espectador', de Bogotá.


A alquimia, tão importante nos capítulos iniciais, era mencionada em Mundo Nuevo usando o termo especializado "a Opera Magna". O escritor simplificou a leitura e optou somente por alquimia.
Após a publicação do segundo capítulo, passaram-se cinco meses até a saída do seguinte. García Márquez deve ter empregado esse intervalo para revisar a obra, porque o novo capítulo era o mais arriscado: a ascensão ao céu de Remedios, a bela. O escritor escolheu para sua divulgação Amaru, uma revista peruana dedicada à literatura de vanguarda internacional. Seus leitores eram exigentes escritores e críticos literários. García Márquez não só comprovou a solidez literária desse capítulo com eles, como também o leu em voz alta a seu círculo de amizade em sua casa na Cidade do México. "Convoquei aqui as pessoas mais exigentes, competentes e francas", escreveu em carta endereçada a seu amigo Mendoza no verão de 1966. "O resultado foi formidável, especialmente porque o capítulo lido era o mais perigoso: a subida ao céu, em corpo e alma, de Remedios Buendía."
Na revista literária colombiana Eco surgiu outro capítulo "perigoso": a morte de Úrsula, depois de viver entre 115 e 122 anos. Entre as alterações mais notáveis se destaca a eliminação de uma frase, ausente na edição de 1967, de Fernanda del Carpio, após a viagem de Amaranta Úrsula à Europa: "Meu Deus —murmurou Fernanda—, esqueci de lhe dizer para olhar para os dois lados antes de atravessar a rua".
Em março de 1967, saiu na revista Mundo Nuevo o capítulo da peste da insônia, que flagelou Macondo. Como García Márquez explicou em várias entrevistas, seu intento era que a linguagem de Cem Anos de Solidão fosse mais antiquada na primeira parte (por exemplo, usou termos arcaicos para "instrumentos musicais" e "grande alvoroço"). Depois, afirmou o escritor, a linguagem se modernizaria conforme o romance chegasse ao final.

Último tiro

García Márquez disparou seu último tiro em abril de 1967, quando a revista mexicana Diálogos imprimiu o capítulo da chuva que cai sobre Macondo durante quatro anos. Entre as mudanças importantes figura uma que revela não apenas como o autor suprimia frases ou trocava palavras como também sua técnica para acrescentar conteúdo. Quando Fernanda del Carpio termina de repreender severamente seu marido, Aureliano Segundo, depois de um monólogo que ocupa várias páginas, na versão da Diálogos ela conclui que seu marido estava "acostumado a viver das mulheres". Mas na edição de 1967, Fernanda culmina sua bronca monumental com uma frase pletórica, carregada de força mitológica e religiosa. Afirma que seu marido estava "acostumado a viver das mulheres, e convencido de que tinha se casado com a esposa de Jonas, que ficou tão calma com a história da baleia".
Por último, na semana anterior ao lançamento do livro, a revista argentina Primera Plana publicou um fragmento do capítulo sobre as 32 guerras do coronel Aureliano Buendía. Primera Plana era voltada ao grande público, e seus 60.000 exemplares semanais circulavam dentro e fora da Argentina. Embora já não tivesse tempo de fazer mudanças, García Márquez enviou um capítulo que deveria cativar o público de um continente que continuava marcado pelas guerrilhas insurgentes contra o poder, como a guerrilha do próprio coronel Aureliano Buendía.
Como revela a correspondência de García Márquez, ao publicar os capítulos mais inventivos e "perigosos", o escritor anotou bem as sugestões feitas por amigos e leitores. A história por trás desses capítulos esquecidos de Cem Anos de Solidão revela o árduo trabalho de edição feito por García Márquez, em especial para aplacar aquela "desmoralizante impressão" que teve ao ler o que havia escrito de uma obra que a partir de 30 de maio de 1967 mudaria o rumo da literatura.
Álvaro Santana-Acuña é pesquisador e professor assistente da Whitman College


ESTRATÉGIA SEMELHANTE A DE DICKENS E PÉREZ GALDÓS


Gabriel García Márquez pôs todas as cartas na mesa ao divulgar os sete capítulos. Exceto o final do livro (por razões óbvias), decidiu publicar os que para ele eram os mais inovadores e arriscados, como os que narram o começo da história, a ascensão de Remedios, a bela, a peste da insônia e a chuva em Macondo que durou quatro anos, entre outros. O objetivo do autor era testar a reação dos leitores e fazer mudanças, caso necessário.
Essa estratégia literária é parecida com a usada por escritores como Charles Dickens e Benito Pérez Galdós, que publicaram vários livros em partes, modificando o argumento conforme a reação de seus leitores. Na correspondência de García Márquez há registro disso. "Me dá muita alegria o que me diz do capítulo de Cem Anos de Solidão. Por isso o publiquei", respondeu a seu amigo Plinio Apuleyo Mendoza, que leu o primeiro capítulo no El Espectador, de Bogotá.
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