quinta-feira, 15 de junho de 2017

Morre Anita Pallenberg, a ‘rolling stone’ feminina




Morre Anita Pallenberg, a ‘rolling stone’ feminina

Mulher livre que foi companheira de Brian Jones e Keith Richards tinha 73 anos



DIEGO A. MANRIQUE
Madri 14 JUN 2017 - 11:09 COT





Anita Pallenger morre
Anita Pallenberg, musa dos Rolling Stones, com Keith Richards em uma imagem de dezembro de 1969. GETTY IMAGES

Anita Pallenberg, encarnação do espírito iconoclasta dos anos sessenta e musa dos Rolling Stones, morreu terça-feira em Londres. Tinha 73 anos e uma saúde frágil, com sequelas de uma hepatite C e sérios problemas de quadril. Não foram divulgadas as causas exatas de sua morte, anunciada por sua amiga Stella Schnabel.


PerPermitaPermitam-me fazer uma lembrança. Em 1969, estreou na Espanha O Tirano da Aldeia (Michael Kohlhaas - Der Rebell), um filme do cineasta alemão Volker Schlöndorff sobre o lendário insurgente medieval Michael Kohlhaas, do qual participava Anita. Correu o boato de que Keith Richardsaparecia como extra, por isso fomos em massa ver o filme (afinal, em pleno franquismo, era inconcebível que os Rolling Stones tocassem na Espanha). Fomos vê-lo várias vezes. E ficamos apaixonados por Anita Pallenberg.


Mas, de fato, foi em terras valencianas, a caminho de Tanger, no Marrocos, que Keith Richards e Anita tiveram um caso. Dali a pouco tempo, ela largou seu namorado oficial, o também rolling stone Brian Jones, que tinha se revelado um abusador. Essa troca de namorado nos fez ver que o universo daquela banda se movia por leis próprias. Não existia o conceito de infidelidade: no mesmo livro, Richards se queixa de que Anita flertou com Mick Jagger durante a filmagem de Performance, algo que ela sempre negou.
Anita foi uma daquelas criaturas hedonistas que tomaram de assalto os anos sessenta. Exibia seu multiculturalismo: nascida em Roma de pais alemães, falava quatro idiomas e passou por diferentes instituições de ensino. Mas se tornou independente após conhecer a dolce vita e o círculo nova-iorquino de Andy Warhol. O que, exatamente, fazia Ana? Trabalhava como modelo, teve pequenos papéis em filmes de Roger Vadim e Marco Ferreri, além de uma breve passagem pela companhia teatral Off Broadway Living Theatre. Vivia intensamente.


Quando ela chegou, os Rolling Stones eram um projeto em construção, que seguia ativamente o caminho dos Beatles e tentava assimilar os ensinamentos de Bob Dylan. Anita ajudou a dar-lhes sofisticação, audácia, aura de perigo: o rumor de que ela praticava magia negra era apenas um dos muitos que circulavam naquela época. Provavelmente, Anita foi a mais selvagem de todos, no que se refere a drogas e sexo. Segundo a opinião da parte mais empresarial do grupo, era um perigo. Depois da famosa detenção de 1977 em Toronto, quando Richards foi acusado de tráfico de drogas, aumentaram as pressões para que o casal se separasse.

A situação se complicou em 1979: na casa norte-americana de Richards, apareceu morto com um tiro um jovem de 17 anos com quem Anita tinha um caso. Entraram em ação os famosos “advogados dos Rolling Stones”, que conseguiram que aquilo se considerasse um acidente ou um jogo idiota de roleta-russa.




Richards e Pallenberg tiveram três filhos, Marlon, Angela e Tara, mas esta última morreu de pneumonia em seu berço em 1976. Foram tomadas medidas para que seus filhos fossem criados por pessoas responsáveis e, a partir de 1980, o casal foi se distanciando.
Richards se preocupou em manter Anita, que até o fim teve acesso à residência do guitarrista na Jamaica. Ali, chamou a atenção da polícia local, que decidiu dar-lhe uma lição: foi trancada em uma cela com alguns dos piores sujeitos da região.



Mas, assim como Richards, ela era uma sobrevivente. Passou por um processo de reabilitação e largou as drogas, embora tenha sofrido algumas recaídas. Evitou a tentação de escrever suas memórias e se tornou um símbolo de resiliência, assim com outra musa dos Stones, Marianne Faithfull, com quem participou de um capítulo da série da BBC Absolutely Fabulous.
Em seus últimos anos, convertida ao vegetarianismo, dedicou-se a cultivar sua horta no bairro londrino de Chiswick. Participou de filmes de diretores cultuados, como Abel Ferrara e Harmony Korine. Reconhecida como inspiração por mulheres que podiam ser suas filhas (ou suas netas!), conseguiu até mesmo voltar às passarelas, desfilando orgulhosa com sua bengala. Também gostava de atuar como disc jockey em festas privadas.
EL PAÍS




DE OTROS MUNDOS


quarta-feira, 14 de junho de 2017

Luiz Ruffato / Pink Floyd e eu




Pink Floyd e eu

Era verão e eu não sabia que em três anos minha vida mudaria para sempre


LUIZ RUFFATO
21 JAN 2015 - 10:11 COT

*Para Helena Ruffato
Talvez por temperamento, nunca tive ídolos. Para idolatrar alguém ou algo torna-se necessário vestir os óculos da paixão, que nos veda a luz e impede o raciocínio. No plano individual, a paixão deseja a morte do objeto venerado, o “alguém”, que nos satisfaz apenas como projeção de uma ideia que construímos a respeito dele. No plano coletivo, agarramo-nos a “algo” que nos fortalece a sensação de pertencimento (clube de futebol, cantores populares, líderes religiosos, partidos políticos) e pregamos a aniquilação do outro diferente de nós. A idolatria age por exclusão, por isso mantenho-me distanciado de discursos arrebatados, que são, ao fim e ao cabo, fundamentalistas.
Isso não significa, claro, que não tenho admirações, encantamentos, fascínios. Zico e Tostão permanecem para mim como exemplos de jogadores de futebol, por seu comportamento dentro e fora do campo. Torço para o Flamengo (tenho uma pequena coleção de camisas retrô, que inclui a utilizada no ano do meu nascimento) e releio sempre Machado de Assis, Balzac e Tchekov. Adoro meus gatos, Federico Felino e Sky, que não são deuses egípcios reencarnados, mas unhas afiadas que destroem os móveis do apartamento. Guardo algumas lembranças agradáveis da infância em Cataguases, mas reconheço minha cidade-natal pobre, feia, provinciana. E gosto imenso de Pink Floyd, cuja música me acompanha desde os 14 anos de idade.






Era verão e eu não sabia que em três anos minha vida mudaria para sempre. Naquele momento, habitava o corpo franzino de um garoto triste que perdia o sono assustado com o coaxar das estrelas no céu imenso, apavorado com a possibilidade de o mundo sucumbir numa hecatombe nuclear – pela manhã, eu me olhava no espelho e sentia uma genuína vontade de morrer... Montava na bicicleta freio contra-pedal e atravessava a cidade carregando trouxas de roupa lavada e passada para a clientela da minha mãe. Invisível, entrava pela porta lateral das casas e entrevia universos tão longínquos quanto aqueles que imaginava à noite deitado na minha cama, a janela emoldurando o firmamento.
A kombi estacionou no meio-fio e o rapaz, bigode e cabelos negros ondulados na altura dos ombros, subiu as escadas. Filho do dono de uma padaria, Z. ajudava a família distribuindo pães para os armazéns, restaurantes, bares e botequins. Simpático, usava roupas extravagantes e arrastava fama de maconheiro, categoria na qual a polícia classificava desde consumidores e traficantes até pessoas indesejadas de maneira geral (rebeldes, agitadores, indisciplinados, revoltosos), para marcá-las como contestadores da ordem, da moral, dos bons costumes. Z. entregou a trouxa de roupa suja para minha mãe e voltou-se para mim, que ouvia, melancólico, temas de faroeste-espaguete de Ennio Morricone, um dos seis ou sete elepês que meu irmão comprara com o toca-discos Philips no Natal (alguns dos outros: Ray Coniff, Músicas inesquecíveis - Volume 1, Contos dos Bosques de Viena de Strauss, O melhor da música italiana, Burt Bacharach...).
Z. falou, Vou trazer um negócio pra você. Apareceu à tarde, me repassou um disco que estampava uma vaca na capa (o que me conquistou de imediato a estima, pois remetia às minhas férias na roça), alertando: Só tome cuidado pra não arranhar... Custei a tomar coragem para assentar aquela bolacha preta no prato da eletrola, mas quando o fiz foi um alumbramento. Os sons de metais ritmados pela bateria misturavam-se a relinchos de cavalos e barulho de motocicletas, coroados por violinos angelicais, batidas eletrônicas e solos de guitarra, guindando-me a um voo sobre minha casa tão modesta. Lá de cima enxerguei minha mãe, lenço abraçando os cabelos castanhos, as mãos azuis de água de anil; enxerguei meu pai, terno e gravata, arrastando os sapatos em círculos infindos; enxerguei meu irmão apascentando o pomar, que breve seria sufocado pelo matagal; enxerguei minha irmã a chulear as horas, ansiando enredos de contos de fadas. Eu começava a me despedir de todos... Eu queria salvá-los, mas não podia... “Se eu fosse um trem, estaria atrasado”...
Na semana seguinte, Z. pegou o disco, feliz por saber que havia me maravilhado. No entanto, suas visitas espaçaram-se e em menos de seis meses ele sumiu de vez. Descobrimos então que seus pais, preocupados com as más companhias, haviam resolvido enviá-lo para um colégio interno no interior de São Paulo, onde contavam com parentes. Anos depois, ele retornou à cidade, convertendo-se num agiota famoso na região. Hoje, estão todos mortos, minha mãe, meu pai, meu irmão. Parte de mim imergiu com eles, parte permanece, como uma canção de Pink Floyd – cicatriz intangível na espessura da alma.

terça-feira, 13 de junho de 2017

Roger Waters / “The Wall ainda é um ato de protesto”



Roger Waters

“The Wall ainda é um ato de protesto”

Ex-líder do Pink Floyd recupera em um filme o show sobre o lendário disco


PABLO GUIMÓN
24 JUN 2015 - 10:28 COT

The Wall pegou a estrada pela primeira vez em 1980 e revolucionou a escala e a ideia do que poderia ser um show de rock. Em 1982, transformou-se em filme cult nas mãos de Alan Parker e Bob Geldof, que fazia o papel do jovem e atormentado Pink.
Waters deixou o Pink Floyd em 1985 e brigou na Justiça com David Gilmour e Nick Mason pelos direitos da marca e do material. Perdeu os direitos sobre o Pink Floyd, mas ficou com os do álbum The Wall. Em 21 de julho de 1990, oito meses após a queda da Cortina de Ferro, o álbum foi reencarnado em um show de grandeza épica, realizado em Berlim, com o qual o Olimpo do rock quis demolir o muro cultural entre os dois blocos. Naquela noite, The Wall transcendeu os muros da música.
Em 2010, um Waters sessentão embarcou com o The Wall em uma turnê mundial estratosférica por três anos, que terminou documentada em um novo filme. Intitulado Roger Waters The Wall e codirigido pelo cantor e Sean Evans, estreou no ano passado no Festival de Toronto e chega aos cinemas de todo o mundo em setembro. As entradas já estão à venda.
Ao longo de toda essa história, curiosamente, o sentido do próprio disco foi mudando. Em um hotel em Londres, Roger Waters (Surrey, Reino Unido, 1943) conversa com o EL PAÍS sobre como uma confissão íntima acabou se transformando em um grito contra qualquer abuso de poder.

Pergunta. Já parou para pensar sobre a ironia de que The Wall, que surgiu de sua frustração com o grande público e as turnês, tornou-se, 35 anos depois, um dos maiores espetáculos ao vivo de todos os tempos?





Estou em um lugar muito diferente daquele do miserável e fodido Roger, de muitos anos atrás. Agora estou mais feliz com o público e comigo mesmo"

Resposta. Minha relação com o público mudou em um dia de 1999. Depois de deixar o Pink Floyd, fiz algumas turnês sozinho. Eram tempos muito difíceis. Eu estava brigando com meus ex-colegas pelo nome da banda, foi uma dessas épocas que constroem o caráter. Decidi parar por um momento. Então Don Henley [do The Eagles] me convidou para participar de um show beneficente com ele, Neil Young e John Fogerty. Aceitei e foi maravilhoso. O público escutava. Não era como antes, quando todos gritavam uns com os outros, bebendo cerveja, pediam outra rodada aos gritos enquanto você tinha que tocar. Odiava aquilo. Mas nesse show vivi novamente esse grande sentimento de amor e pensei que poderia voltar para a estrada. Anos depois me propus a fazer The Wall.
P. Como se monta um show como este?
R. A primeira coisa que fiz foi chamar Mark Fisher, que morreu há dois anos, de repente e infelizmente. Tinha trabalhado com ele em 1977 no espetáculo Animals e depois em todas as grandes turnês. Com ele comecei a fazer infláveis, aeronaves e Deus sabe mais o que. Disse a ele que queria voltar para a estrada com The Wall. Ele começou a rir. "Parece uma loucura?", perguntei. Me disse que não. Sugeri fazer algo com telas, mas ele respondeu que, se fosse para fazer, tinha que ser como antes. Tinha que construir um muro e derrubá-lo. Imediatamente soube que era verdade.
P. O que você ainda tem do personagem Pink?
R. Estou em um lugar muito diferente daquele do miserável e fodido Roger, de muitos anos atrás. Agora estou muito mais feliz com o público e comigo mesmo, apesar de menos feliz com o que está acontecendo no mundo.


P. De que maneira?





Tenho uma boa lembrança de Berlim, mas também havia a angústia e a responsabilidade de encontrar uma maneira de aquilo funcionasse. E não funcionou economicamente"

R. The Wall é ainda um ato de protesto. É muito menos sobre a história do garoto e sua perda e mais sobre a preocupação de todas as pessoas que perdemos em guerras. No final do dia, todos nós podemos ser efeitos colaterais, que é um eufemismo para pessoas inocentes mortas. The Wall é hoje uma peça sobre qualquer pessoa que sofre em qualquer conflito.
P. Por que ainda é relevante?
R. Ainda não aprendemos a proteger este pequeno planeta do desastre. Falo da mudança climática, dos oceanos, mas não só isso. Após a Segunda Guerra Mundial, pensávamos que os países ocidentais tinham uma coisa chamada democracia, que faria tudo funcionar. Mas temos que perceber que existem agora outras forças que são mais poderosas do que essa antiga ideia grega. Dinheiro, ganância, o lado escuro da natureza humana... é uma batalha intensa e difícil, que estamos perdendo.
P. O que o famoso show em Berlim, após a queda do Muro, significou para o The Wall?
R. Tentei separar, porque foi muito diferente como espetáculo, independentemente do contexto histórico. Em primeiro lugar, porque havia mais artistas. E em segundo lugar, porque foi incrivelmente complexo em termos de finanças. Tenho uma boa lembrança, mas também [havia] a angústia e a responsabilidade de encontrar uma maneira de que aquilo funcionasse. E não funcionou economicamente.
P. O que diferencia este filme do de Alan Parker?
R. É uma declaração muito poderosa, mas muito diferente daquela. Falta a parte mais narrativa. Em Goodbye Blue Sky, por exemplo, em vez de uma animação sobre a guerra, há símbolos caindo. É mais sutil, mas talvez mais político.
P. De fato irritou muita gente.
R. Você não pode fazer omeletes sem quebrar ovos. Reclamaram que havia imagens em sequência da estrela de David e o símbolo do dólar caindo do avião. Disseram que eu era antissemita, que sugeria que os judeus estão obcecados com o dinheiro. E não queria dizer isso. Então mudei aquilo, não afetava o que queria dizer.
P. Sempre montou sua obra a partir de álbuns. Agora parece que as pessoas não consomem obras tão longas e complexas.
R. Se você fosse a um show veria que havia jovens. Captou a atenção deles e não estavam entediados. Estou trabalhando em outra peça agora com um conceito completamente diferente, espero conseguir esse efeito.






Alguém tem que apostar em você nos primeiros anos, quando você vende 10.000 ou 20.000 discos. Spotify é uma piada, não pagam nada aos artistas"

P. Do que se trata?
R. Não posso explicar com detalhes. É sobre um avô e seu neto tentando responder à pergunta de por que crianças são mortas.
P. O Pink Floyd foi retomado em 2005. Acredita que podem voltar a se reunir? Como é sua relação com Gilmour?
R. Olha, não falo com David desde... Não me lembro quando. Já Nick e eu somos bons amigos, sempre fomos. Mas não, não haverá uma reunião do Pink Floyd. Isso é história e foi ótimo. Que sorte tive de estar nessa banda! Com Syd [Barrett] no começo. Sem ele não teríamos sequer começado. Fizemos grandes álbuns juntos. Estou feliz por ter estado com eles e no momento em que era possível fazer discos. Quando pessoas como eu iam a uma loja e compravam um disco. Porque agora só querem roubá-lo.
P. Acha que não seria possível uma banda como Pink Floyd agora?
R. Não. Alguém tem que apostar em você nos primeiros anos, quando você vende 10.000 ou 20.000 discos. O Spotify é uma piada, não paga nada aos artistas. Você tem que ter milhares de streams para ganhar 20 dólares. Isso é ridículo. Talvez tenha que pegar a estrada para defender ao vivo meu próximo trabalho. Porque vou te dizer o que não vou fazer: não sei se vou dá-lo para o Spotify para que o ofereça de graça.
Roger Waters The Wall, dirigido por Roger Waters e Sean Evans, estreia nos cinemas de todo o mundo em 29 de setembro. As entradas já estão à venda em: www.rogerwatersthewall.com
EL PAÍS