quarta-feira, 12 de julho de 2017

Eliane Brum / O aborto na fogueira eleitoral




O aborto na fogueira eleitoral

Todos os perigos parecem ainda morar no corpo da mulher, inclusive, de várias maneiras, para os políticos brasileiros em campanha


Aconteceu de novo. E logo cedo. Depois de assistir à missa de Páscoa no Santuário Nacional de Aparecida, no interior de São Paulo, Eduardo Campos, pré-candidato à presidência da República pelo PSB, foi confrontado com a pergunta do aborto. Contra ou favor? Era o colarinho do cardeal Dom Raymundo Damasceno, presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), ao seu lado, que estava justo, mas foi Campos que espremeu a seguinte resposta: “Acho que a legislação brasileira é adequada e, como cidadão, minha posição é a de todos. Não conheço ninguém que seja a favor do aborto”. E acrescentou: “Como cristão, cidadão e pai de cinco filhos, minha vida já responde à pergunta”. Dias depois, Campos afirmou, durante uma coletiva de imprensa, que seu “ponto de vista é muito claro”, mas que “respeita o ponto de vista dos outros”. Disse ainda que sua posição sobre o aborto é “pública”, porque já foi candidato outras vezes, e sugeriu aos jornalistas que dessem “um Google” para buscar a resposta, o que é um tanto extraordinário.
Nos últimos anos, o tema se tornou uma moeda de barganha eleitoral. Todos os dias mulheres de todas as religiões fazem abortos no Brasil. Aos 40 anos, uma em cada cinco brasileiras já fez aborto. A cada dois dias uma mulher morre por aborto ilegal. Muitas deixam crianças órfãs, num ciclo de dor e miséria que mereceria a atenção de qualquer cidadão, mais ainda de alguém que pleiteia governar o país. Mas a questão do aborto, de fato, nenhum candidato parece querer discutir com a seriedade e a honestidade exigidas para algo com tanto impacto sobre o país. O assunto só aparece como instrumento de chantagem na busca inescrupulosa por todo o apoio possível, nesse caso o voto religioso. O ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha, pré-candidato do PT ao governo de São Paulo, foi outro que assistiu à missa de Páscoa em Aparecida.



A cada dois dias uma mulher morre por aborto ilegal. Mas a questão do aborto, de fato, nenhum candidato parece querer discutir com a seriedade e a honestidade exigidas para algo com tanto impacto sobre o país

Está aberta a temporada de beija-anel de bispo e cardeal. Logo, será a vez dos grandes pastores midiáticos. O Estado é laico, mas as últimas campanhas mostraram que parte dos candidatos impõe as mãos, rala os joelhos e rasga princípios no maior número de altares que conseguir. A transformação de vidas humanas em moeda eleitoral mostra o quanto o debate político é rebaixado no Brasil. Revela também o quanto o Estado brasileiro ainda é frágil diante da pressão das religiões. As igrejas podem defender comportamentos morais para os seus fiéis, mas não impor suas prescrições ao conjunto dos cidadãos brasileiros. Cabe ao Estado laico zelar para que os limites não sejam ultrapassados, o que se perde quando direitos fundamentais viram instrumento de chantagem.
A declaração de Campos – “não conheço ninguém que seja a favor do aborto” – provocou protestos nas redes sociais. Páginas foram criadas no Facebook nas quais pessoas se apresentam, ironicamente: “Prazer, Eduardo Campos, eu sou a favor da descriminalização do aborto e existo”. A frase usada por Campos é um conhecido truque retórico, como bem aponta a jornalista Carla Rodrigues em seu blog. Evoca a ideia de que ninguém seria a favor de eliminar embriões como método contraceptivo. Mas a questão, como Campos sabe muito bem, é ser a favor das mulheres que fazem aborto, assegurando seu direito de decidir sobre a própria maternidade e protegendo a sua saúde, para que não morram em procedimentos clandestinos. O tema que precisa ser enfrentado, como Campos sabe muito bem, é de como amparar as mulheres que têm morrido por não serem amparadas – mesmo nos casos em que o aborto já é permitido no país: risco de morte da mãe, gravidez por estupro, gestação de feto anencefálico.
A decisão sobre se pode ou não levar adiante uma gravidez é privada, pertence à cada mulher. É uma escolha íntima, em geral difícil. Essa decisão individual só assume uma dimensão pública na medida em que o Estado deixa de assegurar às mulheres os meios para ter sua escolha respeitada. Assim, a questão do aborto no Brasil, se não diz respeito apenas à saúde pública, é também de saúde pública. E uma das mais sérias, já que atinge as brasileiras mais pobres, que arriscam a vida no banheiro de casa, enquanto as mais ricas interrompem a gestação com razoável segurança em clínicas privadas. O direito ou não ao aborto no Brasil, como qualquer um que não é cínico sabe, tanto quanto o direito a sobreviver ou não a ele, é uma questão de ter ou não dinheiro para fazê-lo em condições seguras. Só é assim porque barganhar com a vida das mulheres pobres, que dependem do SUS, continua sendo um esporte lucrativo, tanto nas eleições quanto nos corredores do Congresso.
Em 2013, grupos evangélicos e também católicos, como o Pró-Vida e Pró-Família, ameaçaram Dilma Rousseff com a retirada de apoio na reeleição, alegando que ela estaria, “na prática, legalizando o aborto no Brasil”. A presidente havia acabado de sancionar sem vetos a lei, aprovada pela Câmara e pelo Senado, que obriga os hospitais a prestarem atendimento integral e multidisciplinar às vítimas de violência sexual. Entre outros direitos, a mulher que sofre estupro pode obter na rede pública a chamada pílula do dia seguinte, para não correr o risco de engravidar do estuprador. Era sobre isso que grupos religiosos radicais protestavam.



A decisão sobre se pode ou não levar adiante uma gravidez é privada, pertence à cada mulher. É uma escolha íntima, em geral difícil. Essa decisão individual só assume uma dimensão pública na medida em que o Estado deixa de assegurar às mulheres os meios para ter sua escolha respeitada

Na época, escrevi um artigo intitulado “O aborto e a má fé”, em que apontava para a possibilidade de que o nível da campanha de 2014 pudesse ser ainda mais baixo que o de 2010. É curioso, mas também triste, que a largada tenha sido dada por quem se apresenta como protagonista de uma “nova política”, e também como “socialista”. Novo, de fato, seria enfrentar a questão do aborto com a profundidade que o tema exige. E bem longe da simplificação de plebiscito, defendida na campanha anterior por Marina Silva (Rede), a anunciada vice de Eduardo Campos nas eleições presidenciais desse ano, que é evangélica.
Propor que o aborto seja matéria para um plebiscito é usar de má fé, ao tentar dar uma aparência democrática a um pensamento autoritário. Cabe à democracia respeitar a vontade da maioria, ao, por exemplo, eleger um presidente da República, governadores e legisladores, mas também cabe à democracia assegurar os direitos das minorias. Questões de ética privada, como o aborto e a união de pessoas do mesmo sexo, não são matérias de plebiscito. Referem-se à garantia dos direitos fundamentais de cada cidadão. Num debate político é menos importante saber o que cada candidato fará diante de uma escolha de ordem moral e privada em suas próprias vidas, do que saber claramente como vão cuidar das brasileiras que morrem porque o aborto é criminalizado no Brasil. A crença ou não crença religiosa de cada candidato só diz respeito ao eleitor se essa crença ou não crença interferir na garantia dos direitos fundamentais de quem fará escolhas diferentes no âmbito da sua vida privada. Homens ou mulheres públicos governam para assegurar os direitos fundamentais de todos – os que fariam a mesma escolha moral que eles e também os que não fariam. Ao transformar o aborto em moeda eleitoral para faturar o voto religioso, a democracia escorre para o esgoto.
Nas primeiras campanhas eleitorais após a ditadura, os candidatos costumavam evitar abordar o tema do aborto. Aos poucos, ao perceber o potencial eleitoral do crescimento dos evangélicos no Brasil, alguns oportunistas começaram a perceber que jogar o aborto na mídia e no palanque poderia ser conveniente. Tanto para conquistar o voto religioso quanto para derrubar opositores (cada vez mais raros) com escrúpulos de se tornar coroinhas de última hora. No período recente, ninguém fez isso com maior truculência do que José Serra (PSDB), na campanha eleitoral de 2010.
Para lembrar, porque é importante manter a memória viva. No final do primeiro turno de 2010, a internet e as ruas foram tomadas por uma campanha anônima, na qual se afirmava que Dilma era “abortista” e “assassina de fetos”. Dilma começou a perder votos entre os evangélicos e parte dos bispos e padres católicos exortou os fiéis a não votar nela. Serra empenhou-se em tirar proveito do ataque vindo das catacumbas, determinando o rumo da campanha dali em diante. E Dilma correu a buscar o apoio de religiosos, acabando por escrever uma carta declarando-se “pessoalmente contra o aborto”. Nela, comprometia-se, em caso de vencer a eleição, a não propor nenhuma medida para alterar a legislação sobre o tema. Logo, tanto Serra quanto Dilma despontaram no espetáculo eleitoreiro como devotos tomados por um fervor religioso até então desconhecido de quem acompanhava a sua trajetória. Serra apregoou que tinha “Deus no peito”. Dilma agradeceu “a Deus pela dupla graça” e, usando o mote dos grupos mais radicais do catolicismo, afirmou que fazia “uma campanha, antes de tudo, em defesa da vida”.



Questões de ética privada, como o aborto e a união de pessoas do mesmo sexo, não são matérias de plebiscito. Referem-se à garantia dos direitos fundamentais de cada cidadão

Nesse sentido, talvez a campanha de 2010 tenha sido o momento mais baixo desde a redemocratização do país. O que nela se passou escancarou as portas para todas as leviandades e recuos que vieram depois, nos temas relativos à saúde da mulher e ao respeito à diversidade sexual. Basta lembrar, entre outros, do cancelamento do kit anti-homofobia, que seria usado nas escolas públicas, e a retirada do ar do vídeo de uma campanha de prevenção a doenças sexualmente transmissíveis, na qual uma prostituta dizia ser “feliz”. O fato de uma mulher ser feliz e ser prostituta parece ter ferido mais a sensibilidade dos hipócritas de ocasião (e do governo) do que pessoas adoecerem ou mesmo perderem a vida por doenças evitáveis.
Os protagonistas desse rebaixamento do debate político jamais devem ser esquecidos. A coerência dos candidatos, assim como seu comportamento diante de temas espinhosos, mas de extrema importância, revelam como cada um deles vai atuar quando tiver o poder. Se a campanha eleitoral de 2014 superar a de 2010, na chantagem com temas que dizem respeito a vidas humanas – e isso num momento em que os brasileiros nas ruas exigem maior participação na política e maior responsabilidade daqueles que foram eleitos para cargos públicos – será assombroso. Quando Eduardo Campos afirma que não conhece “ninguém que seja a favor do aborto”, apenas reforça a suposição de que, em vez de uma alternativa à “velha política”, como seus marqueteiros se esforçam para difundir, ele seria mais um representante da política viciada e permeável às chantagens de ocasião.



A pergunta é por que, ainda hoje, no século 21, é tão crucial manter o controle sobre o corpo feminino

É importante pensar por que o aborto, mais uma vez, ameaça despontar numa eleição presidencial como instrumento de barganha para o apoio e o voto religioso – e não outro dos temas morais. Por que, de novo, é do corpo da mulher que se trata. Por que, outra vez, a disputa rasteira se dá sobre a topografia feminina. O que isso oculta? O que revela? A questão talvez seja menos o aborto, mas sim em que medida a religião pode controlar, via Estado, a reprodução das mulheres – e, especialmente, a sexualidade das mulheres. A pergunta é por que, ainda hoje, no século 21, é tão crucial manter o controle sobre o corpo feminino.
Parece que a visão medieval que localiza no corpo das mulheres a morada de todos os perigos continua atual. Inclusive para políticos em campanha. Enquanto isso, mulheres reais morrem porque, quem tem o dever de debater e promover políticas públicas para assegurar seus direitos fundamentais, chantageia com suas vidas. Cabe a cada cidadão impedir que a eleição de 2014 se torne uma trágica repetição da indignidade testemunhada em 2010, na qual votos foram negociados sobre cadáveres femininos.




terça-feira, 11 de julho de 2017

Clarice Lispector / Saudade

Clarice Lispector

Clarice Lispector

SAUDADE

Saudade é um dos sentimentos mais urgentes que existem.



Clarice Lispector / Ás vezes

Clarice Lispector
Poster de T.A.

Clarice Lispector
Ás vezes

Clarice Lispector / Quando se ama

Clarice Lispector

Clarice Lispector

QUANDO SE AMA 



Quando se ama não é preciso entender o que se passa lá fora, pois tudo passa a acontecer dentro de nós.


segunda-feira, 10 de julho de 2017

Eliane Brum / A potência de Adelir



A potência de Adelir

Que dogmas tão profundos a gestante de Torres feriu para ter seu corpo violado pelo Estado na calada da noite



ELIANE BRUM
14 ABR 2014 - 08:34 CDT

Na madrugada de 1o de abril, dois poderes, a Medicina e a Justiça, produziram uma cena histórica no Brasil. Nela, uma mulher em trabalho de parto, Adelir Lemos de Goes, 29 anos, foi arrancada de sua casa, na zona rural do município gaúcho de Torres, por um oficial de justiça e policiais armados. Em seguida, ela foi obrigada a entrar numa ambulância. Se não entrasse, prenderiam seu marido, Emerson Guimarães, 41 anos, técnico em manutenção industrial. Apavorada, com contrações a cada cinco minutos, preocupada com o susto dos filhos pequenos, Adelir foi escoltada até o Hospital Nossa Senhora dos Navegantes. Lá, mais uma vez, foi obrigada por ordem judicial a deixar-se cortar. Contra a sua vontade, tiraram do seu útero, por cesariana, seu terceiro filho, uma menina. Naquela madrugada, Adelir descobriu que dois espaços que considerava privados, invioláveis, tinham sido invadidos no meio da noite: sua casa, seu corpo. Ao amanhecer, Adelir não pertencia sequer a si mesma.

sábado, 8 de julho de 2017

Ridley Scott / Alien, o passageiro perdido de uma nave sem futuro


Ridley Scott

Alien, o passageiro perdido de uma nave sem futuro

Hoje, nos despedimos da criatura de Ridley Scott na saída do cinema e vamos comer uma pizza. Antes, ele nos fecundava na poltrona e voltava pra casa com a gente. O que aconteceu?


ELIANE BRUM
15 MAI 2017 - 13:53 CDT






Cena de Alien 3 (1992).
Cena de Alien 3 (1992).


(Aviso de Spoiler: se não assistiu ao recém lançado Alien Covenant e quer assistir, não leia este texto antes disso.)
É numa poesia do início do século 19 que está a chave para a tragédia, a da humanidade e a do criador de Alien, o oitavo passageiro.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Euler de França Belém / Meio século sem William Faulkner



Meio século sem William Faulkner


Euler de França Belém
09/08/2012 ÀS 07:16 PM


O autor de “O Som e a Fúria” visitou São Paulo, em 1954, bebeu muito e, segundo a lenda, teria perguntado o que estava fazendo em Chicago

Nem todos os romances de Faulkner são de alta qualidade, mas “O Som e a Fúria”, “Enquanto Agonizo” (o preferido de Harold Bloom), “Luz em Agosto” e “Ab­salão, Absalão” merecem figurar em qualquer lista de melhores livros de todos os tempos.

William Faulkner
William Faulkner morreu em julho de 1962. Ele tinha 64 anos e, em termos literários, parecia tão esgotado quanto Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway. Em 1954, esteve no Brasil, quase sempre bêbado. Certo dia, segundo uma das versões, teria perguntado: “O que estou fazendo em Chicago?” A história de sua visita ao Brasil, quatro anos depois de ter recebido o Nobel de Literatura, é contada, de modo romanceado, no livro “Dias de Faulkner (Imprensa Oficial, 124 páginas), de Antônio Dutra. Ao ser apresentado à escritora Lygia Fagundes Telles, apontada como “contista”, teria dito: “Se os seus contos forem tão bonitos quanto os seus olhos, a senhora certamente é uma grande escritora”. A autora do belo romance “As Meninas” disse que levou o criador de “Enquanto Agonizo” para ver cobras no Ins­tituto Butantã. “Segurava as cobras e gritava: ‘Sou um fazendeiro, um fazendeiro’. Ele chegou meio fora de órbita a São Paulo. Queria ver cobras e o Cruzeiro do Sul. Um dia, pegou-me pelo braço e apontou para o céu, querendo ver as estrelas. Ficou doido com essa história de Cruzeiro do Sul. E estava sempre com o cabelo molhado. Creio que se molhava para ficar desperto, devido ao excesso de álcool. Não era um homem bonito. Era baixo, mas tinha um rosto muito forte”, contou Lygia à “Folha de S. Paulo”. Queria mas não conseguiu visitar uma fazenda de café e Mato Grosso.

O brasileiro Raduan Nassar, autor de “Lavoura Arcaica” e “Um Copo de Cólera”, lembra, não vagamente, Liev Tolstói e Faulkner. Tolstói, anarquista cristão, tentou viver de acordo com suas pregações, mas, nobre e rico, jamais o conseguiu integralmente. Tentou educar a plebe, escreveu até cartilha para os filhos dos mujiques, mas acabou desistindo de tudo, e, com mais de 80 anos, fugiu de casa, morrendo numa estação de trem — célebre como, mais tarde, Gandhi, uma espécie de tolstoiano (que deu certo) da Índia. Faulkner era um escritor notável, mistura de James Joyce e Guimarães Rosa, mas passou a vida sugerindo que era apenas um fazendeiro do Mississippi. Na verdade, embora não fosse um scholar, era um homem culto, leitor frequente da Bíblia e de outro William, o britânico Shakespeare. Quando saía para passear, diz sua biógrafa Monique Nathan, levava alguma obra do bardo inglês no bolso do casaco. Raduan escreveu uma obra pequena e refugiou-se numa fazenda, em São Paulo, tornando-se um próspero produtor rural — e não apenas um criador de galinhas, como divulgaram alguns jornais. Agora, aproximando-se dos 80 anos, doou a fazenda para uma universidade pública, dividiu parte dos bens com seus funcionários e mudou-se para uma fazenda menor, a Retiro Feliz. Meio faulkneriano. Meio tolstoiano.

Nem todos os romances de Faulkner são de alta qualidade, mas “O Som e a Fúria”, “Enquanto Agonizo” (o preferido de Harold Bloom), “Luz em Agosto” e “Ab­salão, Absalão” merecem figurar em qualquer lista de melhores livros de todos os tempos. Mesmo romances menores, como “Os Invictos” (delicioso), a trilogia Snopes (“A Aldeia”, “A Cidade” e “A Mansão”; a energia narrativa faulkneriana, a maldição sulista, às vezes aparece nesses romances crepusculares) e “Sartoris” (a história fragmentária de um dos mais poderosos personagens do escritor, o coronel John Sartoris — inspirado em seu bisavô William C. Falkner, sem “u” — que migra de um livro para outro, como de “Sartoris” para “Os Invencidos”) superam, de longe, a literatura beat — a que fez mais dieta de qualidade nos Estados Unidos (palermas adoram a “datilografia” empolada de Jack Keroauc, possivelmente por desconhecer a “escrita automática” dos surrealistas). Não são, evidentemente, obras escritas por um fazendeiro... comum.





Em 1922, Faulkner foi demitido porque não parava de ler em serviço. Em 1924, com a intenção de se tornar jornalista, migrou para Nova Orleans, deixando sua amada Oxford, e recebeu dicas literárias de Sherwood Anderson. Na revista “The Double-Dealer”, indicado por Anderson, publicou artigos e poemas. Em 1925, de volta a Oxford, trabalha para publicar a edição de seus livros. Em 1929, aos 32 anos, publica “Sartoris”, que dá origem ao ciclo de Yok­napatawpha (a região inventada pelo escritor), e seu romance mais refinado, “O Som e a Fúria”. Um ano depois, lança “Enquanto Agonizo”. Apesar da importância posterior de “O Som e a Fúria”, que o tornou o Joyce americano, só fez sucesso com “Santuário”, em 1931. Com  “Luz em Agosto”, em 1932, e com “Absalão, Ab­salão”, em 1936, praticamente concluiu sua obra mais importante. Depois, lançou “Os invencíveis”, em 1938, “Pal­meiras Selvagens”, em 1939, e “A Aldeia”, em 1940.

O livro “Os Escritores — As Históricas Entrevistas da Paris Review” (Companhias das Letras, 327 páginas) exibe um Faulkner às vezes surpreendentes e às vezes nem tanto. “Sou um poeta fracassado. Talvez, primeiro, todo romancista queira escrever poesia, descobre então que não consegue e tenta o conto, que é a forma mais exigente depois da poesia. E, fracassando nisso, só aí começa a escrever ro­mances.” Verdade. Talvez não, mas a formulação é no mínimo curiosa.

Jean Stein pergunta se há uma fórmula para se tornar um bom romancista. Faulkner: “Noventa e nove por cento de talento... noventa e nove por cento de disciplina... noventa e nove por cento de trabalho. Não se deve estar nunca satisfeito com o que se faz. (...) Um ar­tista é uma criatura arrastada por demônios. (...) É totalmente amoral. (...) A única responsabilidade do escritor é para com sua arte. (...) Se um escritor tiver que roubar a sua mãe, não hesitará; a ‘Ode a uma urna grega” [de John Keats, 1795-1821] vale mais do que qualquer punhado de velhas”.

Faulkner cutuca aqueles que dizem não publicar grandes obras porque não têm tempo, ou porque precisam trabalhar para sobreviver: “O escritor não precisa de liberdade econômica. Tudo de que precisa é lápis e papel. Eu nunca soube que algo bom em literatura tivesse se originado da aceitação de uma oferta gratuita de dinheiro. O bom escritor nunca pede auxílio a uma instituição cultural. (...) Nada pode prejudicar a literatura de um homem se ele for um escritor de primeira classe”.

A relação escritor-leitor não interessa a Faulkner: “Não tenho tem­po de pensar em quem está lendo minha obra”. De repente, corta: “Se eu reencarnasse, gostaria de voltar como um urubu. Nin­guém o odeia ou inveja nem o quer ou precisa dele. Ele nunca se vê importunado ou em perigo, e pode comer qualquer coisa”.

Embora seja filho de Édouard Dujardin e Joyce, com ou sem mo­nólogo interior ou fluxo de cons­ciência, Faulkner diz que “um escritor seria um louco se seguisse uma teoria. Deve aprender com seus próprios erros; as pessoas só aprendem errando. O bom artista acredita que ninguém é bom o bastante para lhe dar conselhos”.

“O Som e a Fúria” foi o livro que “mais dor e angústia” causou a Faulkner. “É o livro pelo qual sinto mais carinho. Não pude abandoná-lo, e nunca consegui contar a história direito, embora tentasse ao máximo, e gostaria de tentar de novo, embora provavelmente fracassasse ainda outra vez.”

O entrevistador pergunta: “Quanto de sua literatura é baseada na experiência pessoal?” Faulkner responde, possivelmente meio irônico: “Não sei dizer. Nunca fiz as contas. (...) Um escritor precisa de três coisas, experiência, observação e imaginação, sendo que duas dessas, às vezes até mesmo uma, podem suprir a falta das outras. Comigo, uma história geralmente começa com uma ideia ou memória ou imagem mental. Escrever a história é apenas uma questão de ir construindo esse momento, de explicar por que aconteceu ou o que provocou a seguir”.

Inquirido sobre inspiração, Faulkner antecipa João Cabral de Melo Neto: “Não sei nada a respeito de inspiração, porque não sei o que é — ouvi falar a respeito dela, mas nunca a vi”.

Há quem diga que Faulkner tinha certa inveja de James Joyce, dado seu suposto maior alcance literário, sobretudo fama, apesar de não ter recebido o Nobel de Literatura. “Os dois grandes homens do meu tempo eram [Thomas] Mann e Joyce. Deveríamos nos aproximar do ‘Ulysses’, de Joyce, como o pregador batista analfabeto se aproxima do Antigo Testamento: com fé”, disse Faulkner. Inveja? Nem tanto. Ele elogia seu padrinho literário, Sherwood Anderson, Theodore Dreiser e Mark Twain. “Os livros que leio são aqueles que conheci e amei quando era moço e aos quais volto como se volta aos velhos amigos: o Antigo Testamento, Dickens, Conrad, Cervantes — ‘Dom Quixote’. Leio-os todos os anos, como alguns leem a Bíblia. Flaubert, Balzac — ele criou um mundo intacto, próprio, uma corrente sanguínea que flui através de vinte livros —, Dostoiévski, Tolstói, Shakespeare. Leio Melville ocasionalmente, e dos poetas Marlowe, Campion, Jonson, Herrick, Donne, Keats e Shelley. Ainda leio Housman. Já li esses livros tantas vezes que nem sempre começo na primeira página ou leio até o fim. Leio apenas uma cena, ou o tocante a uma personagem, assim como você se encontra e conversa com um amigo por alguns minutos. (...) Leio Simenon porque me lembra alguma coisa de Tchekhov.” O entrevistador não pergunta o quê, infelizmente, tem a ver Simenon com o escritor russo.

Personagens preferidos de Faulkner: Sarah Gamp, sra. Harris, Falstaff, Prince Hal, dom Quixote, Sancho Pança, Lady Macbeth, Bottom, Ofélia, Mercúcio, Huck Finn, Jim, Sut Lovingood (personagem de um livro de George Harris). “Nunca gostei muito de Tom Sawyer — um tremendo pedante.”

Sobre os críticos: "O artista nao tem tempo para escutar os criticos. Aqueles que querem ser escritores leem as resenhas, aqueles que querem escrever não têm tempo de ler resenhas. O crítico também está tentando dizer: 'Joãozinho esteve aqui'. Sua função não se dirige ao próprio artista. O artista está um degrau acima do crítico, pois está escrevendo alguma coisa que porá o crítico em movimento. O crítico está escrevendo alguma coisa que porá todo o mundo em movimento, menos o artista".

Sobre Freud, Faulkner disse, em tom jocoso: “Todo mundo falava de Freud quando eu vivia em Nova Orleans, mas nunca o li. Nem Shakespeare o leu. Duvido que Melville o tenha lido, e tenho certeza de que Moby Dick não o fez”.

Jean Stein diz que algumas pessoas leram seus livros três vezes e não entenderam. Faulkner recomenda: “Que leiam quatro vezes”.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

A guerra dos poderosos chefinhos Puzo e Sinatra



A guerra dos poderosos chefinhos Puzo e Sinatra


POR EULER DE FRANÇA BELÉM 
EM 04/07/2009 ÀS 10:10 AM


O livro “Confissões de Mario Puzo e Revelações Sobre o Chefão” do próprio Puzo, apesar do título estrambótico, conta os desencontros do escritor e do cantor-ator
Mario Puzo e Frank Sinatra  
Frank Sinatra é o cantor Johnny Fontane de “O Poderoso Chefão”, de Mario Puzo (livro) e de Francis Coppola (filme). Durante anos, a Máfia patrocinou o amigo Sinatra e, quando sua carreira caminhava para a decadência, mafiosos, como Sam Giancana, levantaram-na com elegância e, não menos importante, violência. Ao escrever o “Chefão”, Mario Puzo não hesitou e aproveitou a história de como Sinatra conseguiu um papel importante no filme “A Um Passo da Eternidade” (1953), dirigido por Fred Zinnemann. A Máfia “deu-lhe” o papel do simpático Angelo Maggio, um soldado rebelde. Sinatra ficou “p” da vida e prometeu vingança, a maior delas ignorar Puzo em encontros sociais.
O livro “Confissões de Mario Puzo e Revelações Sobre o Chefão” (Artenova, 271 páginas), do próprio Puzo, apesar do título estrambótico, conta os desencontros do escritor e do cantor-ator. A dona do Elaine’s de Nova York, Elaine, tentou apresentar Puzo para Sinatra. Perguntou se não havia problema, Puzo disse que não, mas Sinatra não quis conversa.
Noutra ocasião, ao participar do aniversário de um milionário, no Chasen’s, em Los Angeles, perguntaram a Puzo se queria ser apresentado a Sinatra. Escaldado, o escritor disse que não. Quando ia embora, o anfitrião e um “assecla” pegaram Puzo pelas mãos e o levaram para conhecer Sinatra.
O relato de Puzo: “O milionário fez a apresentação. Sinatra não ergueu os olhos do prato nem por um instante sequer.
— Gostaria de lhe apresentar o meu amigo Mario Puzo — disse o milionário.
— Pois eu não gostaria — retrucou Sinatra.
Diante disso comecei a me afastar. Aparentemente, contudo, o pobre milionário não havia percebido, continuando a insistir.
— Eu não quero ser apresentado a ele — repetiu Sinatra”.
Como Sinatra parece ter avaliado que Puzo pedira para ser apresentado, o autor de “O Poderoso Chefão” esclareceu: “Escute, a ideia não foi minha”. “Seguiu-se, então, a coisa mais espantosa”, relata Puzo. “Ele não entendeu nada. Imaginou que eu estaria me desculpando por causa de Johnny Fontane, o personagem do meu livro.” Sinatra perguntou: “‘Quem foi que lhe disse para botar aquilo no seu livro? O seu editor?’ — perguntou ele, com a voz quase amável”.
Puzo, que dizia não aceitar interferência de editores em seus livros, corrigiu: “Eu estava me referindo a nossa apresentação”. Ao perceber que a “arte” era mesmo de Puzo, “Sinatra pôs-se a vociferar. O pior termo que usou para me ofender foi cáften, o que de certa forma foi lisonjeiro para mim que jamais conseguira de uma namorada que aos menos espremesse os cravos das minhas costas, quanto mais que trabalhasse para mim. Lembro-me ter ele afirmado que, não fosse pelo fato de eu ser mais velho, me daria uma surra inesquecível. Acontece que eu era um garoto quando ele já cantava na Paramount. O que me magoou de verdade foi ver aquele italiano do Norte ameaçando a mim, um italiano do Sul, com violência física. Tipo da coisa que não se faz. Os italianos do Norte nunca se metem com os do Sul”. Quando Coppola foi escolhido para dirigir o filme, Sinatra disse-lhe: “Sabe, Francis, eu trabalharia em ‘O Chefão’ para você. Não o faria por aqueles caras da Paramount, mas por você, sim”. Muitos cantores foram sondados para fazer Johnny Fontane, mas a maioria não quis. O primeiro a se prontificar foi Al Martino, mas Vic Damone foi consultado primeiro. Aceitou e, depois, recusou, porque era “leal” a Sinatra ou porque a grana era curta. “Al Martino acabou conseguindo o papel e, na minha opinião, saiu-se muito bem”, conta Puzo.


quarta-feira, 5 de julho de 2017

Lista dos escritores mais ricos do mundo não tem escritores

Stephen King

Lista dos escritores mais ricos do mundo não tem escritores

POR EULER DE FRANÇA BELÉM
EM 19/08/2012 ÀS 05:05 PM
James PattersonA “Forbes” publicou  a lista dos escritores mais ricos do mundo. Não há nenhuma surpresa: não há escritores de verdade na relação da revista. (Escritores de verdade são aqueles que cobiçam a eternidade, como Homero, Dante, Shakespeare, Cervantes, Laurence Sterne, Stendhal, Balzac, Flaubert, Nathaniel Hawthorne, Herman Melville, Machado de Assis, Eça de Queirós, Henry James, D. H. Lawrence,  James Joyce, Scott Fitzgerald, Faulkner, Thomas Mann, Graciliano Ramos, Carlo Emilio Gadda, Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Lobo Antunes, entre muitos outros.) Os homens de letras citados pela “Forbes” são circunstanciais — surgem, ficam algum tempo na lista dos mais vendidos e, cinquenta anos depois (estou sendo generoso, aviso logo), ninguém mais sabe quem são eles. A literatura de mercado, para vender rapidamente, é assim mesmo. Sempre foi assim. Na época do francês Flaubert havia, é claro, muitos escritores populares — alguns faziam até mais sucesso do que ele, às vezes tido como obsceno, devido ao ruidoso processo provocado pelo romance “Madame Bovary”.
Hoje, assim como há indústrias de sabonete e cerveja, há azeitadas fábricas de autores e livros. Equipes talentosas, com um pé no jornalismo e na literatura de altíssima fofoca, escrevem livros, às vezes imensos, e fazem publicidade maciça. Vendem como água em dias quentes. James Patterson, se comparado a Proust e Joyce, deve ser tratado como analfabeto funcional. John Grisham, Ken Follett e Stephen King pertencem a um honroso quinto time da literatura mundial. Mesmo assim, não são grande coisa.
Li e reli a notícia, mas não entendi. Diz um texto, publicado no UOL, que Patterson, um gênio de Wall Street ou da lâmpada, lançou 14 novos títulos em 2011. Leia de nova e repita em voz alta: 14 livros num ano! Inacreditável: deve ser erro do UOL. Bons escritores, como os prolíficos Philip Roth e (o falecido) John Updike, lançam, no máximo, um livro por ano. E olhe lá.
Patterson, de quem pouco ouvi falar (garotos das livrarias são obrigados a usar camisetas com publicidade de seus livros), faturou 94 milhões de reais em 2011, segundo a “Forbes”. E não é que nem consigo disfarçar que estou começando a achar que estou com inveja do talento do “escritor” para ganhar dinheiro. George R. R. Martin, que escreveu a saga “As Crônicas de Gelo e Fogo” — que estou deixando para ler quando tiver 96 anos, porque este tipo de literatura melhora quando se tem Alzheimer —, faturou modestos 15 milhões de dólares no ano passado.
Descubro, lendo o texto que afanei da internet, que J. K. Rowling, autora de uma série debiloide, “Harry Potter”, vai publicar um livro adulto. Para que, nosso Deus?! Se havia infantilizado os adultos, com a série sobre um bruxo estúpido e sem nuance — porque as crianças, acredito, fugiram da bobajada —, por que Rowling volta, agora com prosa “madura”, talvez podre, para, como se dizia nos tempos de antanho, iludir os leitores de que estão comprando literatura de qualidade porque, afinal, todos estão lendo?
As mulheres estão fincando bem espertas. Na lista dos mais ricos, várias mulheres aparecem. A terceira mais rica, superando Grisham, é Janet Evanovich, que, meio envergonhado, deve dizer que não conheço, aliás, nem sabia o nome, algo pomposo.
Veja abaixo a lista dos quinze autores mais ricos e quanto eles ganharam no ano passado.
1. James Patterson: 94 milhões de dólares
2. Stephen King: 39 milhões de dólares
3. Janet Evanovich: 33 milhões de dólares
4. John Grisham: 26 milhões de dólares
5. Jeff Kinney, 25 milhões de dólares
6. Bill O'Reilly: 24 milhões de dólares
7. Nora Roberts: 23 milhões de dólares 
8. Danielle Steel: 23 milhões de dólares 
9. Suzanne Collins: 20 milhões de dólares 
10. Dean Koontz: 19 milhões de dólares 
11. JK Rowling: 17 milhões de dólares
12. George RR Martin: 15 milhões de dólares
13. Stephenie Meyer: 14 milhões de dólares
14. Ken Follett: 14 milhões de dólares
15. Rick Riordan: 13 milhões de dólares