quinta-feira, 22 de junho de 2017

Luiz Ruffato / Meus romances preferidos



Meus romances preferidos

Existem dois tipos de listas: as necessárias e as inúteis, sendo que em muitos casos, dialeticamente, as necessárias tornam-se inúteis e as inúteis, necessárias



LUIZ RUFFATO
2 DEZ 2014 - 17:29 COT



Não sei quando começou a necessidade de fazer listas, mas posso imaginar nosso antepassado mais remoto riscando na parede da caverna, à lua de uma tocha, signos que indicavam quanto de alimento havia sido estocado para o inverno que se aproximava ou, como somos competitivos, a relação entre nomes de integrantes da tribo e o número de caças abatidas por cada um deles.
Se formos propor uma hermenêutica acerca do tema, talvez possamos afirmar que existem dois tipos de listas: as necessárias e as inúteis, sendo que em muitos casos, dialeticamente, as necessárias tornam-se inúteis e as inúteis, necessárias. Tomemos dois exemplos. Todo mês, enumero as coisas que faltam na despensa de minha casa antes de me dirigir ao supermercado: essa lista arrolo na categoria das necessárias. Por outro lado, há pessoas que anotam suas metas para o ano que se inicia, começar a fazer ginástica, parar de fumar, cortar em definitivo o açúcar, ser mais solidário, menos intolerante: essa, elenco na categoria das inúteis...
Liev Tolstói


Feitas as compras, a lista do supermercado, necessária, torna-se então inútil. A lista contendo nossos desejos de sermos melhores para nós mesmos e para os outros, embora inútil, pois dificilmente as cumprimos, convertem-se em necessárias, porque estabelecem um vínculo com o futuro, e projetarmo-nos é uma forma de vencer a morte.
Tudo isso, para justificar o que se segue. Ninguém me perguntou, mas resolvi organizar uma lista dos melhores romances que li em minha vida – escolhi o número vinte, não por motivos místicos, mas porque talvez, pela amplitude, alinhave, mais que preferências intelectuais, uma história afetiva das minhas leituras. Enquadro-a na categoria das listas inúteis, mas quem sabe, se consultada, municie discussões, já que toda escolha é subjetiva e aleatória, ou, na melhor das hipóteses, suscite curiosidade a respeito de um título ou de um autor. Ocorresse isso, me daria por satisfeito.
Os 20 melhores romances, por ordem alfabética:
Anna Kariênina, de Liev Tolstói (1828-1910) – Publicado em 1877, traça um painel da sociedade russa do século XIX. Tem a melhor frase de abertura de uma narrativa de ficção, verdadeira aula de teoria literária: “Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira”. A edição da Cosac Naify conta com excelente tradução de Rubens Figueiredo.
Berlin Alexanderplatz, de Alfred Döblin (1878-1957) – Lançado em 1929, acompanha a trajetória do desajustado Franz Biberkopf pelas ruas de uma Berlim caótica do período entreguerras,. A vertigem de um mundo em colapso expressa-se de maneira magnífica numa narrativa que se quer, ao mesmo tempo, objetiva e subjetiva. Editado pela Martins, com tradução de Irene Aron.
Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez (1927-2014) – Em 1967, o povoado de Macondo, situado num país qualquer da América Hispânica, torna-se universal. Ali, se desenvolve a saga dos Buendía, um ciclo interminável de histórias cujos protagonistas vivem no tênue limite entre real e fantástico. Publicado pela Record, com tradução de Eric Nepomuceno.
Miguel de Cervantes

Dom Quixote, de Miguel de Cervantes (1547-1616) – Composto por dois tomos, o primeiro lançado em 1605 e o segundo dez anos depois, trata-se da obra mais completa da história da literatura universal. Paródia dos romances de cavalaria, ilustra à perfeição o eterno embate entre racionalismo e idealismo. Há várias traduções, mas recomendo a de Sergio Molina, pela Editora 34.
Enquanto agonizo, de William Faulkner (1897-1962) – Embora não seja a mais conhecida das obras do autor, este romance, publicado em 1930, lança luz sobre os Bundren, família pobre do sul dos Estados Unidos, que busca cumprir o último desejo da matriarca. Disponível apenas numa edição de bolso da L&PM, com tradução de Wladyr Dupont.
Ilusões Perdidas, de Honoré de Balzac (1799-1850) – Lucien de Rubempré é um dos mais fascinantes personagens da literatura. Intelectual provinciano, busca firmar-se em Paris no início do século XIX. Egoísta e arrogante, mas também ingênuo, vê seus sonhos ruírem, após descartado pela mesma sociedade que o adotara. Publicado em 1837, possui seis diferentes traduções disponíveis.
Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis (1839-1908) – Dedicado “ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver”, este romance, de 1881, marca a entrada de Machado de Assis no rol dos maiores autores da literatura universal. Cínico e sarcástico, Brás Cubas fala ao Brasil de todos os tempos. Há inúmeras edições disponíveis, das excelentes às péssimas.

Moby Dick, de Herman Melville (1819-1891) – Publicado em 1851, este verdadeiro compêndio de possibilidades narrativas possui uma dimensão épica que nos remete à própria criação do mundo – o tema ultrapassa, em muito, a perseguição da grande baleia branca pelo capitão Ahab. A melhor edição é da Cosac Naify, com tradução de Alexandre Barbosa da Silva e Irene Hirsch.
No coração das trevas, de Joseph Conrad (1857-1924) – Neste libelo anticolonialista, lançado em 1902, acompanhamos o narrador Charles Marlow penetrando no âmago da África Central em busca de um enigmático personagem chamado Kurtz. O que ele encontra é apenas o horror. Há algumas edições disponíveis: recomendo a tradução de José Roberto O’Shea, pela Hedra.

O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald (1896-1940) – Romance da era do jazz, publicado em 1925, mostra os bastidores da vida luxuosa da classe média endinheirada da Costa Leste dos Estados Unidos. Por trás da futilidade e da loucura, a solidão e o vazio que prenunciam a tragédia. Há pelo menos sete diferentes versões disponíveis no mercado.
O leopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa (1896-1957) – Somente publicado dois anos após a morte do autor, este é o depoimento do fim de uma época, a da decadente aristocracia refinada e parasita. Tem uma das frases mais emblemáticas do exercício da política: “Para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude”. Fora de catálogo, disponível apenas em sebos.
O morro dos ventos uivantes, de Emily Brontë (1818-1848) – O amor entre a complicada Cathy Earnshaw e o rancoroso Heathcliff ultrapassa as convenções sociais, o tempo e até mesmo a morte. Publicado em 1847, é a narrativa da paixão cega e da vingança a qualquer preço, desenvolvida nos grotões de uma Inglaterra selvagem. Disponível em pelo menos sete versões diferentes.
O mundo se despedaça, de Chinua Achebe (1930-2013) – A chegada do homem branco a uma remota área habitada pela etnia ibo, às margens do rio Níger, desestabiliza a sociedade local, de religião anímica e regras próprias. A introdução do cristianismo desintegra rapidamente algo que durava desde tempos imemoriais. A edição original é de 1958. Fora de catálogo.

O processo, de Franz Kafka (1883-1924) – Romance antecipatório da aniquilação da subjetividade, que caracterizaria o século XX. A força de sua ficção engendrou até mesmo um adjetivo, kafkiano, para designar situações absurdas. Publicação póstuma, de 1925, conta com duas boas traduções, de Modesto Carone e Marcelo Backes, pela Cia das Letras e L&PM.
O vermelho e o negro, de Stendhal (1783-1842) – Egoísta e ambicioso, Julien Sorel usa, sem escrúpulos, seu charme e simpatia para galgar um lugar na exclusivista sociedade francesa pós-napoleônica, com resultados trágicos. Lançado em 1830, é um monumento do realismo psicológico. Recomendo a edição da Cosac Naify, traduzida por Raquel Prado.
Oblómov, de Ivan Goncharóv (1812-1891) – Publicado em 1859, é um retrato da derrocada da sociedade russa. O aristocrata Iliá Ilitch Oblómov, incapaz de tomar qualquer atitude prática na vida, até mesmo de se levantar da cama, assiste seu mundo sucumbir à inércia e à indiferença. Publicado pela Cosac Naify, com tradução de Rubens Figueiredo.
Os Irmãos Karamázov, de Fiódor Dostoiévski (1821-1881) – Lançado em 1879, narra a complexa relação do avaro Fiódor Karamázov com seus três filhos: Dmitri, o primogênito, e seus meio-irmãos, o intelectualizado Ivan e o místico Aleksiei. Esse romance antecipa vários temas que seriam depois discutidos pela psicanálise. Recomendo a tradução de Paulo Bezerra, pela Editora 34.

Pedro Páramo, de Juan Rulfo (1917-1986) – “Vim a Comala porque me disseram que aqui vivia meu pai, um certo Pedro Páramo”. Comala e Pedro Páramo, aos poucos, se fundem nesta narrativa a um só tempo realista e fantástica, construída em fragmentos aparentemente desconexos. Lançado em 1955, é editado no Brasil pela Record, com tradução de Eric Nepomuceno.
Viagem sentimental pela França e Itália, de Laurence Sterne (1713-1768) – Publicado em 1768, é uma narrativa satírica que coloca em xeque a própria forma do romance. Inicia-se abruptamente e termina com uma vírgula, sem sequer alcançar a Itália, objetivo aparente do personagem, se levarmos a sério o título. Tem uma edição pela Hedra, com tradução de Luana Ferreira de Freitas.
Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift (1667-1745) – Numa época em que pululavam livros de naturalistas que descreviam terras desconhecidas, o autor imagina seu personagem, Lemuel Gulliver, visitando lugares improváveis, criando, assim, uma poderosa sátira sobre a sociedade europeia. Recomendo a edição da Cia das Letras, com excelente tradução de Paulo Henriques Britto.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

João Paulo Teixeira / Hemingway com Ava Gardner



Hemingway com Ava Gardner


Por João Paulo Teixeira
EM 23/07/2012 ÀS 11:20 PM

Burt Lacaster / Ava Gardner
The Killers
1946
Ernest Hemingway é o escritor americano que melhor conceitualizou a “geração perdida” definida por Gertrude Stein. Isto porque, Hemingway descreve com extrema precisão homens que saíram das guerras e conflitos bélicos do século 20 para se embrenharem nas trevas do padecimento físico e psicológico. 
Para celebrar um tratado minúsculo em tamanho, mas grande em abrangência literária, o bom diretor Robert Siodmak fez “The Killers”, em 1946,  um filme fantástico ao estilo “noir”. Os primeiros dez minutos reproduzem quase literalmente o conto homônimo de Hemingway, escrito em 1927. 
Dois assassinos invadem uma vila adormecida no interior dos Estados Unidos para matar o recluso imigrante sueco Swede (Burt Lancaster). Estranhamente, no conto e no filme, o protagonista não esboça resistência e abraça sua morte sem pestanejar. 
O espectador fica na iminência cruel de imaginar a razão, pouco natural, para que Swede abandone o desejo de viver. Ao ser anunciado que, em poucos minutos, receberia oito tiros de revólver, ele apenas responde ao colega que trabalha com ele como frentista: “Não vou fugir. Estou cansado de me esconder”. 
Depois que o filme deixa o roteiro “escrito” por Hemingway, aparece a imaginação fértil dos roteiristas Anthony Veiller e John Huston, o mesmo que fez e dirigiu “O Falcão Maltês”. 
Os dois inventam a personagem Riordan (vivido pelo ator Edmon O’ Brien), um dedicado investigador de uma companhia de seguros, que para descobrir uma apólice avantajada — avaliada na época em 2500 dólares —  vai atrás do passado da vítima. (Frise-se que, durante o filme, um personagem enche o tanque de um Cadillac modelo seis cilindros com apenas oito dólares. Ou seja, 2500, à época, representava uma quantia considerável). 
Na sequência do roteiro, parece que Veiller e Huston leram e filmaram, ao seu modo, “O Sol Também se Levanta”, primeiro romance de Hemingway. Ele retrata a história de um pugilista que se envolve com uma mulher de reputação duvidosa. No livro, é uma enfermeira que tem a aparência que o leitor o desejar. Já no filme, a beleza fica por conta da belíssima Ava Gardner. 
É possível que Hemingway — que teve a maioria de suas obras traduzidas no Brasil pelo escritor goiano José J. Veiga — tenha gostado, e muito, de ver Ava Gardner inserida em um dos seus textos mais notáveis. 
Há informações prefaciais apontando como biográfico o romance pioneiro do escritor norte americano em visita à Espanha. Nele, o jornalista Jake Barnes é emasculado por um ferimento de guerra e nutre um amor platônico por uma enfermeira que o rejeita no leito de morte.  
Hemingway acostumou-se à vida de viagens e usou parte de suas aventuras como pano de fundo para histórias na África, na Europa e em Cuba. Seu livro mais célebre, que o levou ao Nobel de Literatura em 1954, mostra figurativamente o encantamento do escritor com o regime socialista implantado na ilha caribenha. O desfecho totalitário do modelo econômico e social, aliado a terrível depressão de Hemingway, resultou — anos depois — no suicídio do escritor com um balaço disparado na própria face por uma espingarda usada comumente para caçar elefantes. 
No filme de Siodmak, há poucas tragédias, mais possui um talento igual aos livros de Hemingway. No que se refere aos flashbacks, “Os Assassinos” está um passo além de “Cidadão Kane”, considerado pelo respeitável “American Film Institute” como o melhor filme estadunidense de todos os tempos. 
Enquanto “Cidadão Kane” se centra no roteiro não linear, na passagem meticulosa do tempo, nos planos detalhes inventados por D.W Griffith e no “Macguffin” verbal de “Rosebud”, a obra prima de Siodmak prende o espectador ao entregá-lo, a cada cinco minutos, uma peça de um intrincado quebra-cabeça que só é montado no final da trama. 
O roteiro, bem montado por Anthony Veiller, aliado à fotografia de Elwood Brendell e a música instrumental e retumbante do húngaro Miklos Rozsa, reforça a ligação do incansável agente de seguros — não como personagem, mas como espectador privilegiado da história de Swede. 
Para cristalizar o elemento fílmico na narração da história de Hemingway, é possível ver o investigador sentar-se em uma fila de cinema, poucos minutos antes do embate final. A câmera se posiciona em primeiro plano e, como se fossem os olhos da personagem principal, enxergam a biografia mambembe de Swede. 
Mais de três décadas depois, outro gênio do cinema americano, Stanley Kubrick, usou o mesmo fenômeno de Siodmak em seu épico “Barry Lyndon”, de 1975. Na trama de Kubrick, o personagem central Redmond Barry é mostrado, concomitantemente, como vivente e plateia à sua própria escalada rumo a aristocracia austríaca. 
Em um dos momentos que Barry se envolve em uma luta corporal em meio à guerra franco-prussiana, Kubrick também posiciona a câmera à altura dos olhos do ator Ryan O’Neal. Cada soco ou tiro de canhão é direcionado não a Barry, mas à plateia.   
O fenômeno causa tanta empatia que é praticamente impossível abandonar os filmes — tanto o de Siodmak quanto o de Kubrick — pela metade, mesmo depois de assisti-los pela enésima vez. 
Além da boa qualidade técnica, “Os Assassinos” é a consagração do gênero “noir”.  É a clara — e pioneira — materialização das razões que tornaram o modelo popular e como, anos depois, o gênero foi ramificado em dezenas de temáticas até desembocar nos populares filmes de ação da década de 1990. 
O gênero “noir”, em sua essência, é a prova que queremos a ação sem nos desprender da segurança. É um filme fantástico em todos os aspectos. 


quinta-feira, 15 de junho de 2017

Morre Anita Pallenberg, a ‘rolling stone’ feminina




Morre Anita Pallenberg, a ‘rolling stone’ feminina

Mulher livre que foi companheira de Brian Jones e Keith Richards tinha 73 anos



DIEGO A. MANRIQUE
Madri 14 JUN 2017 - 11:09 COT





Anita Pallenger morre
Anita Pallenberg, musa dos Rolling Stones, com Keith Richards em uma imagem de dezembro de 1969. GETTY IMAGES

Anita Pallenberg, encarnação do espírito iconoclasta dos anos sessenta e musa dos Rolling Stones, morreu terça-feira em Londres. Tinha 73 anos e uma saúde frágil, com sequelas de uma hepatite C e sérios problemas de quadril. Não foram divulgadas as causas exatas de sua morte, anunciada por sua amiga Stella Schnabel.


PerPermitaPermitam-me fazer uma lembrança. Em 1969, estreou na Espanha O Tirano da Aldeia (Michael Kohlhaas - Der Rebell), um filme do cineasta alemão Volker Schlöndorff sobre o lendário insurgente medieval Michael Kohlhaas, do qual participava Anita. Correu o boato de que Keith Richardsaparecia como extra, por isso fomos em massa ver o filme (afinal, em pleno franquismo, era inconcebível que os Rolling Stones tocassem na Espanha). Fomos vê-lo várias vezes. E ficamos apaixonados por Anita Pallenberg.


Mas, de fato, foi em terras valencianas, a caminho de Tanger, no Marrocos, que Keith Richards e Anita tiveram um caso. Dali a pouco tempo, ela largou seu namorado oficial, o também rolling stone Brian Jones, que tinha se revelado um abusador. Essa troca de namorado nos fez ver que o universo daquela banda se movia por leis próprias. Não existia o conceito de infidelidade: no mesmo livro, Richards se queixa de que Anita flertou com Mick Jagger durante a filmagem de Performance, algo que ela sempre negou.
Anita foi uma daquelas criaturas hedonistas que tomaram de assalto os anos sessenta. Exibia seu multiculturalismo: nascida em Roma de pais alemães, falava quatro idiomas e passou por diferentes instituições de ensino. Mas se tornou independente após conhecer a dolce vita e o círculo nova-iorquino de Andy Warhol. O que, exatamente, fazia Ana? Trabalhava como modelo, teve pequenos papéis em filmes de Roger Vadim e Marco Ferreri, além de uma breve passagem pela companhia teatral Off Broadway Living Theatre. Vivia intensamente.


Quando ela chegou, os Rolling Stones eram um projeto em construção, que seguia ativamente o caminho dos Beatles e tentava assimilar os ensinamentos de Bob Dylan. Anita ajudou a dar-lhes sofisticação, audácia, aura de perigo: o rumor de que ela praticava magia negra era apenas um dos muitos que circulavam naquela época. Provavelmente, Anita foi a mais selvagem de todos, no que se refere a drogas e sexo. Segundo a opinião da parte mais empresarial do grupo, era um perigo. Depois da famosa detenção de 1977 em Toronto, quando Richards foi acusado de tráfico de drogas, aumentaram as pressões para que o casal se separasse.

A situação se complicou em 1979: na casa norte-americana de Richards, apareceu morto com um tiro um jovem de 17 anos com quem Anita tinha um caso. Entraram em ação os famosos “advogados dos Rolling Stones”, que conseguiram que aquilo se considerasse um acidente ou um jogo idiota de roleta-russa.




Richards e Pallenberg tiveram três filhos, Marlon, Angela e Tara, mas esta última morreu de pneumonia em seu berço em 1976. Foram tomadas medidas para que seus filhos fossem criados por pessoas responsáveis e, a partir de 1980, o casal foi se distanciando.
Richards se preocupou em manter Anita, que até o fim teve acesso à residência do guitarrista na Jamaica. Ali, chamou a atenção da polícia local, que decidiu dar-lhe uma lição: foi trancada em uma cela com alguns dos piores sujeitos da região.



Mas, assim como Richards, ela era uma sobrevivente. Passou por um processo de reabilitação e largou as drogas, embora tenha sofrido algumas recaídas. Evitou a tentação de escrever suas memórias e se tornou um símbolo de resiliência, assim com outra musa dos Stones, Marianne Faithfull, com quem participou de um capítulo da série da BBC Absolutely Fabulous.
Em seus últimos anos, convertida ao vegetarianismo, dedicou-se a cultivar sua horta no bairro londrino de Chiswick. Participou de filmes de diretores cultuados, como Abel Ferrara e Harmony Korine. Reconhecida como inspiração por mulheres que podiam ser suas filhas (ou suas netas!), conseguiu até mesmo voltar às passarelas, desfilando orgulhosa com sua bengala. Também gostava de atuar como disc jockey em festas privadas.
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