quarta-feira, 28 de agosto de 2013
terça-feira, 27 de agosto de 2013
Polêmica no Brasil com a contratação de 4.000 médicos cubanos
![]() |
| Médica conversa com estudantes de Medicina em Havana, em foto de arquivo. / CLAUDIA DAUT (REUTERS) |
Polêmica no Brasil com a contratação de 4.000 médicos cubanos
Ministério Público brasileiro alerta que a contratação de médicos da ilha para atender regiões pobres do país pode ser irregular
JUAN ARIAS Río de Janeiro 24 AGO 2013 - 03:55 CET
A decisão do governo da presidente Dilma Rousseff de contratar 4.000 médicos cubanos para atuar em 701 cidades pobres pode acabar nas mãos do Ministério Público do Trabalho, afirmou nesta sexta-feira o jornal Folha de São Paulo.
O procurador José de Lima Ramos Pereira afirmou que a contratação é “totalmente irregular”. Ele alega que a motivação de falta de médicos em algumas localidades pobres e distantes dos centros urbanos “não se caracteriza com a urgência que exige, por exemplo, uma situação de calamidade” como um terremoto ou uma epidemia. Segundo os médicos brasileiros, o país não tem falta de profissionais, mas sim de infraestrutura, nas localidades mais pobres e remotas, onde os brasileiros preferem não trabalhar.
O procurador também acredita que a relação trabalhista deve ser direta entre o empregador e o empregado. Isso, segundo ele, não ocorreria caso o Brasil venha a pagar diretamente ao governo de Cuba, que decidirá a remuneração a ser recebida por cada um dos médicos. O contrato, portanto, “fere a legislação do trabalho e a constituição”.
Para Renato Bignami, coordenador do programa de luta contra o trabalho escravo em São Paulo, essa situação “criará uma simetria no mercado de trabalho” se os médicos cubanos receberem salários inferiores aos dos médicos brasileiros.
Tanto os auditores fiscais do Ministério do Trabalho em São Paulo como o presidente da Associação dos Advogados, encarregada da assistência médica, questionaram a contratação de médicos cubanos.
O governo brasileiro reconhece que não sabe qual porcentagem dos 10 mil reais por mês (cerca de 4.200 dólares) os contratados receberão, mas estima que deverá ser equivalente ao que ganham na ilha caribenha ou em missões no exterior. Os municípios onde eles trabalharem também deverão oferecer alimentação e moradia. As autoridades negam categoricamente a acusação de que os médicos vão trabalhar em situação de “escravidão” no Brasil.
Os 4.000 médicos cubanos atuarão nas cidades incluídas no programa Mais Médicos, lançado pelo governo para recrutar dentro e fora do país 15.000 médicos, para atender a uma população de 11 milhões de pessoas. Dessas cidades, 45% se encontram em zonas rurais, a maioria nas regiões pobres do norte e nordeste do país.
O acordo entre Brasil e Cuba para a contratação de médicos foi autorizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para as Américas.
segunda-feira, 26 de agosto de 2013
Brasil toma medidas inéditas para frear a depreciação do real
Brasil toma medidas inéditas para frear a depreciação do real
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico afirma que o sistema bancário do Brasil é robusto
JUAN ARIAS Río de Janeiro 24 AGO 2013 - 04:19 CET
Com medo de que a alta do dólar possa acabar afetando a inflação (que já está no limite previsto pelo governo, de 6,5 %), o Banco Central do Brasil anunciou, na terça-feira, que tomará novas medidas. Será realizado, "diariamente até 31 de dezembro", um programa de leilões de swap cambial (um contrato no qual as duas partes se comprometem a realizar o intercâmbio em uma data futura), equivalente à venda de dólares no mercado futuro.
Segundo o Banco Central, de segunda a sexta serão oferecidos leilões de swap cambial tradicional de 500 milhões de dólares (cerca de 374 milhões de euros). Nas sextas-feiras, serão lançados leilões de linha, isto é, venda de dólares à vista com compromisso de recompra até um bilhão de dólares (748 milhões de euros). Se isso não bastasse, serão realizadas “operações adicionais”. No total, serão até 60 bilhões de dólares (45 bilhões de euros) até o final do ano.
Luciano Coutinho, presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), afirmou hoje que, apesar da volatilidade cambial do momento, o sistema bancário brasileiro é robusto. “Temos condições macroeconômicas perfeitamente administráveis e grandes oportunidades de investimentos”, explicou durante o Encontro Nacional de Comércio Exterior, no Rio de Janeiro.
Segundo Coutinho, é possível que o Brasil “esteja entrando em um novo patamar de câmbio”. Ontem o dólar alcançou 2,451, o nível mais alto desde 2008. O preço do dólar - que se aproxima dos 2,60 – cria uma certa preocupação em relação aos preços no mercado de importados, já que o Brasil apresenta um forte desequilíbrio na balança comercial em termos de exportações. Mas o presidente do BNDES prefere ver os aspectos positivos desse novo panorama cambial: “Muito provavelmente estamos entrando em um ciclo duradouro de valorização do dólar, o que tende a criar condições mais favoráveis para nossa competitividade no médio prazo”.
Segundo ele, este é o momento em que o Brasil precisa manter a “tranquilidade para deixar passar este momento de nervosismo”. Nos próximos dias, o Banco Central, que acaba de tomar estas medidas de emergência para conter a alta do dólar, deverá decidir se vai manter os juros atuais, de 8,5%, ou se voltará a aumentá-los. Quando a presidente Dilma Rousseff assumiu o governo, em 2010, se comprometeu a baixar as taxas de juros oficiais de dois dígitos, que considerava excessivamente altas em comparação a outros países do mundo.
Conseguiu reduzi-las sete vezes seguidas durante os dois primeiros anos de governo (uma queda de 7%). Há alguns meses, contudo, o Banco Central tem se visto obrigado a voltar a subir os juros para 8,5, número que ainda pode aumentar. Isso para não sacrificar ainda mais a inflação, um mal que recai sobretudo nas costas da nova classe saída da pobreza, que já apresenta cerca de 40% de endividamento sobre sua renda.
domingo, 25 de agosto de 2013
Livia Garcia Roza / As borboletas
Livia Garcia Roza
AS BORBOLETAS
Sigo as borboletas que não sabem para onde vão. É certo o imprevisto.
sábado, 24 de agosto de 2013
sexta-feira, 23 de agosto de 2013
quinta-feira, 22 de agosto de 2013
Mathew Cerletty / Um artista americano
quarta-feira, 21 de agosto de 2013
José Miguel Wisnik / O dia da marmota

José Miguel Wisnik
O colunista escreve aos sábados
O dia da marmota
A fantasia de escrever sobre um dia que se repete, no qual o tempo não sai da toca
O colunismo consequente recomenda que a redação do jornal tenha pré-pronta uma “coluna de gaveta” sua, para qualquer eventualidade em que você não possa escrevê-la ou enviá-la. Nunca tomei essa precaução, só escrevo sob a pressão do dia. Mas lamento a gaveta vazia em dias como hoje. Os ventos, bons, continuam me soprando pelo Nordeste do Brasil. Estou em Recife, trabalhando para o projeto do Museu Cais do Sertão Luiz Gonzaga, a ser inaugurado em dezembro, vendo cantadores de perto, repentismos alucinantes, acompanhando gravações que serão incorporadas ao Museu. Aprendendo como um louco, me divertindo, e mergulhado nisso. Quem me dera ser um repentista do jornalismo, mas eu não sou sequer um jornalista. A coluna de gaveta que eu teria escrito tem no entanto um título, e chama-se “O dia da marmota”.
Refere-se a um filme americano de 1993, uma comédia leve, em princípio, que no Brasil chamou-se “Feitiço do tempo” (no original, “Groundhog Day”). O egocêntrico “homem do tempo” de uma rede de TV vai fazer a cobertura de um evento anual cercado pela expectativa de saber se, num certo dia preciso de inverno, a marmota — uma espécie de esquilo — sai ou não da toca. Se ela sair, mesmo em meio ao nevoeiro, anuncia o fim iminente do inverno. Se se assustar com a própria sombra e voltar para a toca, mesmo que haja sol, pode-se contar que o inverno dura mais seis semanas.
Vi o filme uma vez só, na época em que foi lançado. Não estou seguro do que me lembro, mas seguríssimo do que não esqueci mais. A marmota sai ou não sai da toca, não sei, mas no dia seguinte o homem do tempo é despertado, no hotel da localidade em que vigora a tal tradição, por um rádio-relógio que anuncia, para seu desconcerto, um novo dia da marmota — que é o mesmo. Sem maior razão, é o tempo que não sai da toca, e começa a se repetir em círculos diários. O protagonista é obrigado a experimentar, todos os dias, o mesmo dia da marmota. Aos poucos, começa a interagir com as situações que já conhece, a tirar partido delas e a fazer algum avanço, embora tudo recomece igual no dia seguinte do dia seguinte.
Gosto de comédias como essa, que roçam alguma metafísica, um enigma, sem sair dos protocolos narrativos habituais. Lembro também de um outro filme (“Alguém lá em cima gosta de mim”), em que Deus comparece como um senhor aposentado, de boné e tênis, poderoso na sua singeleza comum, que pra mim é hilariante e poética. A versão superior de tudo isso, de graça e profundidade transcendentes, é o “Depois da vida”, do cineasta japonês Kore Eda, em que as pessoas que morrem chegam a uma espécie de repartição pública decadente onde são chamadas a escolher uma cena única das suas existências, a partir da qual será rodado ali mesmo um filmeco que a evoca, com recursos precários, e que será a única coisa que elas levarão consigo quando desligadas definitivamente do tempo.
Volto ao “Dia da marmota”. Toda semana é como se eu fosse despertado por um rádio-relógio imaginário que me repete inapelavelmente: “Bom dia! Hoje é quinta-feira. Dia de escrever a coluna do GLOBO. Não se esqueça do seu compromisso”. A última frase é a repetição do aviso de despertar, cheio de solicitude e gentil advertência, que escuto quando estou no Hotel Novo Mundo, no Flamengo.
Por onde o filme me pega e fica: ao longo dos dias repetitivos, o homem do tempo tenta xavecar uma jornalista que também faz a cobertura do rito climático. De um jeito ou de outro ele erra sempre na medida, sempre há alguma coisa que ele deveria ter entendido e não entendeu, desde os níveis primários aos mais avançados. Até que um dia, à custa de muito repetir, esse tosco transpõe algum limiar de entendimento, e finalmente o dia seguinte é o dia seguinte, um outro dia que não mais o da marmota.
Será então que um homem precisa, pergunto eu, que o tempo pare e se repita, que ele precisa, em suma, de mil e um dias da marmota quando encontra uma mulher que marcará sua vida? Essa é a piada verídica que a lembrança desse filme me traz. Para mim ela é de uma verdade transparente e dupla. Confissão: fiquei viúvo aos 33 anos, e cada dia que passa compreendo mais claramente o quanto faltou para eu atingir o degrau da vida em que se encontrava aquela mulher. Tive uma segunda chance: me casei de novo, há vinte e oito anos, e não venho me saindo mau aprendiz. Revelação ao buscar hoje informações sobre o filme no Google: o dia em que me casei, o 2 de fevereiro, dia de festa no mar, é a data do próprio dia da marmota.
Com o tempo o tempo te traz ao eterno retorno. As narrativas já estão vividas. É quando você se sente algo assim como um Deus aposentado, de tênis e todo poderoso.
O GLOBO
terça-feira, 20 de agosto de 2013
Tóquio / Museu, jardim e magia

CLAUDIA SARMENTO29.7.2013 8h00m
Cravado no meio de uma das regiões comerciais mais nobres de Tóquio, no bairro de Aoyama, o Nezu Museum é um tesouro escondido. O lugar já foi a mansão de um empresário milionário que era apaixonado pela cerimônia do chá. Quando ele morreu, em 1940, a casa foi transformada em fundação para preservar o jardim tradicional e o acervo de obras japonesas e asiáticas antigas. Há três anos o museu passou por uma reforma planejada pelo arquiteto Kengo Kuma, um dos maiores nomes da arquitetura japonesa. Ele criou uma construção moderna, mas manteve a atmosfera original do espaço. O jardim é pontilhado por pequenas casas onde a cerimônia do chá é servida (em eventos fechados, previamente agendados).
O Nezu é lindo e uma visita obrigatória para quem passeia por Aoyama.




segunda-feira, 19 de agosto de 2013
Tóquio / Um castelo no céu

Claudia Sarmento
UM CASTELO NO CÉU
O GLOBO, 27.07.2013
O castelo de Takeda, na província de Hyogo, é um dos mais famosos do Japão. As ruínas da fortaleza, a 350 metros de altura, parecem flutuar no céu, atraindo centenas de milhares de turistas todos os anos. Mas a multidão está afetando a preservação da construção, erguida há 400 anos. Já há risco de desabamento e o governo municipal restringiu a visitação em alguns trechos. O lugar ficou abandonado por alguns séculos. Hoje é conhecido como Machu Picchu do Japão _ um cenário de tirar o fôlego.
sábado, 17 de agosto de 2013
Pablo Neruda / Não sei quem vive ou morre
Pablo Neruda
Não sei quem vive ou morre
Não sei quem vive ou morre, quem repousa ou desperta,
mas é o teu coração que distribui
Luiz Ruffato / Conto de Natal
Conto de Natal
Dezembro espreguiça-se nos parabrisas dos irritados automóveis parados no semáforo, bufam buzinas aceleradas
LUIZ RUFFATO
17 DEZ 2013 - 10:20 COT
¡Mire la lluvia!, ¡Mire la lluvia!, a voz trêmula abafada pelos motores dos carros, pelo alarido dos transeuntes um pinheiro caminha apressado em direção a um ônibus, suor escorrendo no rosto, ¡Mire la lluvia!, ¡Mire la lluvia!, a mão esquerda esgrime um enorme guarda-chuva preto, Made in China, outros espalhados sobre a banca, resguardada do sol do início de tarde pela marquise de uma loja de discos, ¡Señora!, ¡Señora!, ¡Mire!, ¡Mire! Dezembro espreguiça-se nos parabrisas dos irritados automóveis parados no semáforo, bufam buzinas aceleradas, nuvens carregadas ameaçam as luzinhas que enfeitiçam a véspera de Natal.
A indiazinha – sem sutiã, os pequenos seios furam a malha fina; negros, os cabelos alastram-se pelo púbis, pelos sovacos, pelas pernas – às vezes incomodava-se com a algazarra, sentia-se sufocada pela gasolina queimada, humilhada com os olhares opacos que a tornavam invisível, com a sua falta de sorte, ¡Basta de konanearme! Pensava até em abandonar aquele tabuleiro mambembe, perder os pés pela cidade, observar as vitrinas, a decoração das lojas, toda aquela gente esbaforida, estos non son mujeres, ni hombres, sino animales, animales, ¿comprendes?, ¡Mire!, ¡Mire!, o corpo se contrai com as lembranças recentes, catorze, dezesseis horas tocando uma máquina-de-costura industrial nos fundos de um galpão no Bom Retiro, pernas anestesiadas, cabeça leve, prestes a desmaiar, como no soroche, a coreana andando de lá para cá bate palmas, ameaça, grita, Pálí!, Pálí!, não entendia uma palavra, mas conhecia de cor aquela expressão que se nutre de desprezo, sí, ¡animales!, silêncio, nada de olhares vizinhos, nada de cicios, nada de nada, ¡Nada!, berram os ponguitos amontoados pelos cantos, envolvidos em ponchos e retalhos.
Sem os documentos, retidos pelo patrão, ¡Quisiri!, seguiu o rapaz, boa-praça que conhecera comprando camisas para revender no centro da cidade, as araras abarrotando a kombi amarela, ele falou em serviço decente, e insinuou, quem sabe, mais para a frente, se tudo der certo, poderia, por que não?, mas, primeiro, o estoque de guarda-chuvas, que adquirira apostando nas águas de verão, e, diacho!, atrasavam-se, há quatro dias a liberdade das ruas, uma única peça negociada, a velhinha, olhos azuis, por simpatia, ou pena, levara el paraguas, tentou puxar assunto, agradecida, mas não conseguia falar português, entendia mal e mal... ¡Senõr!, ¡Señor!, ¡Mire!, ¡Mire!
De repente, gotas espelhadas coloriram o asfalto quente, e as pessoas buscaram refúgio, um terno-e-gravata aproximou-se e, sem discutir o preço, carregou um guarda-chuva, e vieram outros e outras, uma moça vestindo um tailleur preto, sapatos de salto alto, uma barba ruiva, duas garotas piercing-e-tatuagem, suas mãos encheram-se de notas, novas e amarrotadas, quebradiças e rasgadas, e seu corpo andino abriu-se num sorriso largo, sua pele de bronze arrepiou-se na umidade, vontade de molhar a cabeça na água que desabava do céu de chumbo, !Waca!, e então, ao voltar-se para o lado direito, percebeu, de cócoras, quase sob a bancada semivazia, um papai-noel, a roupa vermelha respingada, almoçando uma quentinha, pensamentos sobrenadando a enxurrada empoçada na boca-de-lobo entupida.
Que chuva!, disse, Que chuva!, repetiu. Ah, se chovesse assim na minha terra... Se chovesse... Os dentes branquíssimos sorveram o vento, Mi tierra... Mi tierra es nada ahora, falou, mastigando as já curtíssimas unhas pretas. O homem, envergonhado por não compreender, levantou-se, com dificuldade, e entrou no McDonald’s. Ao retornar, após jogar a embalagem de alumínio no lixo e usar o banheiro para urinar e fazer um bochecho, a chuva havia cessado. Pôs o gorro, a placa Os melhores preços de importados da praça! Confira! abraçou-o, estacionado junto à faixa de pedestres. Antes de atravessar, buscou a moça e, simpático gritou, Feliz Natal pra você, menina, feliz Natal! Ela, que arrumava os guarda-chuvas restantes, parou, acenou desajeitada e por um momento acompanhou o homem perder-se em meio à multidão.
Luiz Ruffato é escritor
Assinar:
Postagens (Atom)







































