sexta-feira, 31 de julho de 2015

Vargas Llosa / Isaac Deustscher e Isaiah Berlin

Isaac e Isaías

As coisas que Deutscher e Berlin defendiam e criticavam eram quase sempre incompatíveis, mas eles as exprimiam com solidez intelectual e elegância expositiva. O primeiro foi marxista; o segundo, liberal



FERNANDO VICENTE
Em um livro que acaba de ser lançado, Isaac & Isaiah (The Cover Punishment of a Cold War Heretic), David Caute contrasta as vidas, ideias e destinos de Isaac Deutscher e Isaiah Berlin, dois ensaístas que alcançaram grande prestígio nos anos cinquenta e sessenta e tiveram muita influência política no âmbito intelectual na Europa e América do Norte. Pareciam-se em muitas coisas, mas suas ideias representavam dois polos irreconciliáveis: Deutscher o marxismo revolucionário, e Berlin a democracia liberal.
Ambos eram judeus não crentes, da mesma geração, e tinham acabado de fugir dos seus respectivos países, atirados pelo totalitarismo (o soviético no caso de Berlin, nascido na Letônia, e o nazista no de Deutscher, que era polonês), e ambos terminaram exilados em Londres e naturalizados britânicos. A única coincidência ideológica que houve entre eles, e só por alguns anos, foi o apoio ao sionismo, ao qual depois Deutscher atacaria com severidade, descrevendo Israel como um mero peão do imperialismo norte-americano durante a Guerra Fria.

Isaiah Berlin alcançou os mais altos reconhecimentos no âmbito acadêmico – quase toda a sua vida transcorreu em Oxford, e chegou a presidir a Royal Academy e a ser feito nobre pela rainha –, ao passo que Isaac Deutscher, embora tenha proferido seminários e sido professor convidado em importantes universidades, foi sobretudo um jornalista (na mais alta acepção intelectual da palavra) e escritor independente. Sua única tentativa de ser contratado por uma universidade britânica, a de Sussex, se frustrou, segundo afirma David Caute, por culpa de Isaiah Berlin, e daí o subtítulo um tanto enganoso do livro: “o castigo encoberto de um herege da Guerra Fria”. Digo enganoso porque, embora haja indícios de que a opinião hostil de Berlin contra a obra e a posição política de Deutscher tenha influído na decisão da Universidade de Sussex de não contratá-lo, esse assunto está longe de estar claro, e, em todo caso, Berlin sempre negou tal acusação, inclusive em duas cartas explicativas sobre sua intervenção no assunto, à viúva do autor das célebres biografias de Stalin e Trotsky.

Um deles esteve convencido de que o comunismo se reformaria de suas taras
O livro é interessante, seriamente documentado, mas não simpático, pela antipatia que Caute professa por Isaiah Berlin e que surge com frequência, sobretudo quando, de passagem, ele se empenha em salientar suas frivolidades, cultivar a amizade dos poderosos e dos milionários e se mostrar às vezes algo fátuo e soberbo com as pessoas. E também, algo muito mais grave, dando a entender de maneira sub-reptícia que algumas das maiores contribuições de Berlin à cultura da liberdade, como sua teoria sobre a liberdade “negativa” e a “positiva”, sua divisão entre intelectuais “ouriços” e “raposas” e a clara demarcação entre um liberal e um conservador, não foram nem originais nem importantes. A verdade é outra: Berlin é um dos mais importantes pensadores políticos do nosso tempo, e um dos poucos cuja obra elucida com perfeita e sistemática coerência o liberalismo rebaixado e sectário dos que o entendem como uma exclusiva doutrina econômica de defesa do mercado, de quem, como ele mesmo, vê nele uma doutrina na qual a tolerância, a coexistência política, os direitos humanos, o espírito crítico, a cultura e a fiscalização do poder são tão importantes quanto a propriedade privada e a economia de mercado para estimular o progresso social.
Berlin e Deutscher só se viram duas vezes na vida, e nunca polemizaram diretamente, embora, como sustenta Caute, as coisas que defendiam e criticavam fossem quase sempre incompatíveis e, ao mesmo tempo, de uma grande solidez intelectual e uma equivalente elegância expositiva. Com os anos que transcorreram e as coisas que neles ocorreram, hoje sabemos que Isaiah Berlin venceu cabalmente esse debate, como demonstra a desaparição da União Soviética e a conversão da China ao capitalismo autoritário.
No entanto, que todas as profecias e anseios políticos de Deutscher tenham se frustrado não tira o menor valor de boa parte da sua obra, nem priva de méritos a coragem e a honestidade com que defendeu sempre suas ideias. Ele foi um marxista antitotalitário, essa raridade; foi a razão pela qual o Partido Comunista polonês o expulsou das suas fileiras, e pela qual foi sempre a besta negra dos stalinistas da URSS e do Ocidente. Ele nunca negou os terríveis crimes cometidos sob Stálin, e os livros e ensaios que dedicou a ele e a Trotsky os documentam com rigor. Mas sempre esteve convencido de que, apesar de tudo isso, uma hora ou outra o comunismo se reformaria dos seus defeitos, e que, retornando às fontes primigênias do marxismo, estabeleceria sociedades mais justas, mais humanas, mais decentes do que o capitalismo, cujo sucesso exigia a exploração dos mais pelos menos, e era constitutivamente injusto e por isso condenado, cedo ou tarde, a se extinguir. A famosa reforma interna da URSS, que Deutscher tanto esperou, nunca se tornou realidade, e, no final, foi o comunismo que deixou de existir, pelo menos como uma alternativa tangível às democracias liberais.
Mas, na sua condenação ao colonialismo, à corrupção e aos abusos que o poder econômico poderia chegar a cometer nos países capitalistas, na necessidade de não contabilizar o progresso exclusivamente pelo crescimento econômico, de dotar a democracia de um conteúdo criativo e constantemente renovado por um ideal de justiça e solidariedade com os pobres, os discriminados e os marginalizados, as ideias de Deutscher têm vigência duradoura. E é verdade também, como diz Caute, que sua vida foi um modelo de coerência, o que lhe exigiu sacrifícios enormes. Mas também se equivocou muitas vezes, como quando acreditou ver, no movimento contra a Guerra do Vietnã nos Estados Unidos, a gestação de um socialismo que uniria os estudantes e os operários norte-americanos em uma revolução contra o capitalismo.

O outro dedicou mais tempo a entender aos inimigos da liberdade que a suas valedores
Por que Isaiah Berlin sempre professou essa antipatia tão profunda por Deutscher, que o levava às vezes, na sua correspondência, a usar contra ele termos que eram insólitos no seu linguajar, como “repelente” e “desprezível”? Certamente não era pela diferença de ideias que os separava. Berlin dedicou mais tempo a tratar de entender os inimigos da liberdade do que seus protetores, e dedicou ensaios escrupulosamente honestos a Marx, a Comte, a Herder, a Hobbes, a Sorel e a muitos outros dessa corrente, de modo que a razão da antipatia não era ideológica. Nem tampouco pessoal, pois mal se vieram em duas ocasiões. David Caute dá a entender que a razão poderia ser uma resenha negativa que Deutscher publicou contra o ensaio de Berlin acerca da “inevitabilidade histórica”, mas parece um episódio pequeno demais para merecer tanto ódio pessoal.
Não menos surpreendente é o desprezo que Berlin sempre sentiu por Hannah Arendt, uma amante da liberdade não menos comprometida do que ele com a luta contra o comunismo e o fascismo (que ela conheceu na carne, pois foi torturada durante nove dias e nove noites pela Gestapo antes de conseguir fugir da Alemanha), e cuja obra é quase inteira dedicada a estudar as raízes do totalitarismo, suas origens culturais e históricas e as iniquidades que ele causou. Em suas cartas, Berlin fala dela de maneira profundamente despeitosa, negando sua competência filosófica e acusando-a – muito injustamente – de escrever catataus incompreensíveis.
Talvez não haja respostas para essas perguntas. Ou talvez haja, sim, mas sejam pouco satisfatórias por sua generalidade. Os grandes homens – e Isaiah Berlin o foi de fato – são também seres humanos, não super-homens, e por isso mesmo estão sujeitos às pequenezas e misérias que, por exemplo, nos desmoralizam quando reviramos a vida íntima de um Picasso ou de um Victor Hugo, ou de qualquer outra genialidade. Eram grandes quando escreviam, compunham, filosofavam ou pintavam; mas, no demais, estavam feitos do mesmo barro que nós, o resto dos pobres mortais.



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