quinta-feira, 15 de agosto de 2024

Sofi Oksanen / O que os ocidentais não deberían ter visto

 


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O QUE OS OCIDENTAIS NÃO DEVERIAM TER VISTO

A autora finlandesa estoniana, Sofi Oksanen, causa tumulto com o tema e faz sucesso com sua obra O Expurgo, que acaba de ganhar quase todos os prêmios possíveis.



A autora finlandesa estoniana Sofi Oksanen fala conosco sobre o seu romance Expurgo, no topo da lista dos mais vendidos. Este é o primeiro livro a receber ambos o Prêmio Runeberg e o Prêmio Finlandia, tendo também recebido o Prêmio de Literatura do Conselho Nórdico de 2010. E tudo isto aconteceu no momento certo: logo após o anúncio, a tradução em inglês foi publicada e seguida por mais de vinte outros idiomas.

O romance de Sofi Oksanen Puhdistus (Expurgo) ocupou o primeiro lugar da lista de mais vendidos na Finlândia em 2008 e ganhou o prestigioso Prêmio Finlandia, além de vários outros prêmios e menções. Em fevereiro de 2009, foi a vez de outro respeitado prêmio literário, o Prêmio Runeberg, criado em homenagem ao poeta finlandês, J.L. Runeberg (1804–1877).

Expurgo é o primeiro livro a receber ambos os Prêmios Runeberg e Finlandia, e esta honra foi definitivamente confirmada quando Oksanen foi nomeada vencedora do Prêmio de Literatura do Conselho Nórdico, no valor de euros 47.000. O romance já foi publicado em inglês, seguido por traduções em diversos outros idiomas e outras prestes a ser publicadas.

A verdadeira Estônia soviética

Oksanen pode ser a única pessoa habilitada a escrever um livro como este. Nascida em 1977, a escritora de origem estoniana finlandesa cresceu em Jyväskylä, no centro da Finlândia, e veraneava na Estônia, porém o seu destino não era a capital, Tallinn, onde era comum ver turistas, e sim o interior do país, no campo. A sua avó morava em um kolkhoz, uma fazenda coletiva soviética, e ao visitar a sua avó, Oksanen teve acesso a uma região proibida para os ocidentais.

Assim, Oksanen viu o que os ocidentais não deveriam ver – “a verdadeira Estônia soviética” – nas palavras dela. Ela conviveu o suficiente com esse mundo para merecer a credibilidade do cidadão comum, porém com um olhar distante que lhe permite uma observação mais realista e completa.

O romance vai e volta, entre o passado e o presente, acompanhando a vida na Estônia antes das deportações stalinistas em 1949 até os dias após a sua independência em 1991. “Para mim é quase impossível escrever em ordem cronológica”, diz Oksanen. “Eu tento relacionar as coisas em um nível metafórico ou simbólico, ou meramente por intuição.”

O livro alterna, também, entre os personagens principais, duas mulheres de gerações diferentes: Aliide, moradora de uma aldeia rural, e Zara, vítima de tráfego humano. Ambas sofrem violências extremas e tentam sobreviver em dois mundos semelhantes, onde as opções são limitadas e onde, aparentemente, a sanidade mental é uma raridade.

Musicalidade, ritmo e dor

“Eu queria que a capa mostrasse uma orelha grade e um brinco dourado”, diz Oksanen.

“Eu queria que a capa mostrasse uma orelha grade e um brinco dourado”, diz Oksanen.Foto: R. Eiro; art: S. Sorsa

Expurgo foi primeiramente escrito como uma peça de teatro antes de ser romanceado por Oksanen, que recebeu o reconhecimento de críticos por sua habilidade na construção de uma trama repleta de suspense e drama. A sua prosa flui naturalmente, retratando os acontecimentos de maneira detalhada e intensa.

De alguma forma entendemos o que ela quer dizer ao descrever uma cozinha como “muda e ensurdecedora”, ou quando Aliide acredita que ela e o outro personagem estão “a salvo e juntos” quando, na realidade, não o estão. “Minha intenção é escrever musicalmente”, diz Oksanen.

Ela muda de ritmo de acordo com a sua vontade, aumentando o passo à medida que uma sentença vai sendo desenvolvida, para refletir a velocidade crescente dos pensamentos de seus personagens. O seu estilo é suficientemente aconchegante para permitir que o leitor penetre nas mentes de seus personagens nos seus momentos mais sombrios e dolorosos. Vivenciamos o seu desespero à medida que suportam a traição, a violência, o estupro, a injustiça e o medo, e mesmo assim em nenhum momento Oksanen leva o leitor a sentir vontade de abandonar a leitura.

A caminho da Sibéria

A palavra finlandesa “puhdistus” pode significar expurgo (Purge, no título em inglês), mas a sua origem é da palavra “limpar” que também pode ser traduzida como “purificação”. Denota a deportação de milhares de estonianos para a Sibéria, sob o regime de Stalin.

“Quando eu era criança”, diz Oksanen, “ninguém falava sobre as deportações. As pessoas ‘iam para a Sibéria’. Era tão perigoso mencionar determinados assuntos que as pessoas usavam uma série de rodeios para evitar falar sobre a questão principal.”

“Quando comecei a escrever a peça de teatro, eu pensava sobre a reação traumática que as pessoas podem ter após sofrer uma violência ou serem estupradas”, diz ela. “As pessoas sempre tentam se limpar”. “Assim, este foi o primeiro significado – uma purificação.”

Público espectador

Perguntei se era mais fácil escrever um romance depois de criar a trama como uma peça de teatro. Oksanen respondeu que romances precisam de mais informações, como pano de fundo. “É preciso informar muitas coisas que não são necessárias quando encenamos uma peça de teatro.”

“Queria que o ambiente e o mundo refletissem a realidade no romance. Não precisamos escrever os nomes de revistas e esse tipo de coisas no roteiro de uma peça, pois o público pode vê-los.”

Contar a estória em dois tipos de estilo altera até os personagens: “Embora eu soubesse que a Aliide era o tipo de pessoa que manteria o silêncio, que não falaria sobre o ocorrido nem o contaria à Zara, em uma peça de teatro existe um público. E por esse motivo na peça Aliide fala mais sobre o que aconteceu. Essa é uma grande diferença.”

Incidentes estranhos



Quando um autor de origem estoniana finlandesa escreve um livro que escava o passado recente da Estônia, é inevitável perguntar a si mesmo sobre os paralelos com a Finlândia. Sabemos que a Finlândia jamais fez parte da União Soviética, porém “há muitos incidentes estranhos na história finlandesa relacionados à União Soviética”, comenta Oksanen. Na década de 70, determinados filmes foram censurados, por motivos políticos, e alguns trechos do livro de Solzhenitsyn, O Arquipélago de Gulag, foram publicados em finlandês apenas na Suécia, pois nenhum editor da Finlândia atrevia-se a tocá-los.

E vale a pena escrever um livro sobre alguns desses incidentes? “Creio que sim”, diz ela. “A maneira como a ‘finlandização’ afetou a imprensa é uma grande questão, e também como ela afetou os livros didáticos.” Todavia, por enquanto, Oksanen está pensando sobre os seus próximos dois romances. Ambos tratarão da Estônia, porém ela não revela nada mais, além disso.

Poucos dias antes de ser anunciada como a vencedora do Prêmio Runenberg, ela nos disse o seguinte: “Ganhar os dois prêmios, o Runeberg e o Finlandia, seria incomparável. O Finlandia reconhece apenas o gênero romance, já o Runeberg inclui todos os gêneros, significando uma variedade maior de rivais”.

E para culminar, ao vencer o Prêmio de Literatura do Conselho Nórdico, Expurgo tornou-se ainda mais incomparável, pois desta vez os seus rivais vinham de seis países diferentes. “Para mim é difícil ver o romance como algo excepcional”, Oksanen declarou em entrevista ao jornal de maior circulação diária da Finlândia, o Helsingin Sanomat, quando Expurgo foi o escolhido entre outros concorrentes da Suécia, Finlândia, Dinamarca, Noruega, Islândia e das Ilhas Faroe.

“Muitos dos meus leitores de fora da Finlândia me disseram que o romance permanece nos seus sonhos durante semanas”, continuou. “É uma sensação que não te abandona”. Aguardamos ansiosamente as reações do público falante de inglês ao livro, à medida que Expurgo segue a sua trajetória de sucesso bem além das fronteiras da Europa setentrional.

Por Peter Marten, fevereiro de 2009. Atualizado em julho de 2010


FINLAND




terça-feira, 13 de agosto de 2024

Gramática e a função do adjetivo Palavras que qualificam o mundo

 



Gramática e a função do adjetivo

Palavras que qualificam o mundo

22 JULHO 2024, 


Adjetivo. Do latim adjectivus, formado pela preposição ad (ao lado) somada ao verbo jacere(lançar) e o sufixo ivus, próprio para palavras de natureza adjetiva, literalmente significa lançado ao lado. E mais especificamente: lançado, ou melhor, colocado ao lado do substantivo.

Essa definição de origem etimológica se justifica por sua natureza nominativa, tal qual ocorre com o substantivo, no latim.

Substantivo e adjetivo: nomes de mesma natureza gramatical

Dois exemplos podem ilustrar bem, se usados na língua materna do Português: homem forte e mulher bonita. Em português, os vocábulos homem e mulher designam as principais realidades: dois seres do sexo masculino e feminino, respectivamente, que possuem características físicas e biológicas totalmente diferentes.

Porém há o que se diz deles: forte e bonita. Essas são duas realidades que não podem ser consideradas obrigatórias, funcionando como um acidente daqueles dois nomes. A submissão do adjetivo ao substantivo ocorre caso utilizemos estes no plural: homens e mulheres. Assim, tais características precisarão acompanhar a flexão dos nomes, variando também no plural: fortes e bonitas.

Tal regra já era prevista no latim: vir fortis e mulier pulchra. Caso as palavras vir (homem) e mulier(mulher) se flexionem no plural, os adjetivos também deverão acompanhá-los em gênero, número e caso. Portanto, a mudança ocorreria para vires fortes e mulieres pulchræ. Assim, dependendo da função sintática que o substantivo realizasse, o adjetivo o acompanharia em sua flexão.

Portanto, é fundamental entender essa conexão entre essas duas categorias gramaticais que se intercambiam em suas funções, uma vez que o substantivo pode realizar função adjetiva, como por exemplo, em menina-moça, no qual a palavra moçaé um caracterizador de menina ou mesmo quando o adjetivo exerce uma função substantiva. Um exemplo disso há em frases como “Quem ama o feio bonito lhe parece”, em que feio funciona como substantivo.

Tipos de adjetivo

O adjetivo, como aponta Bechara (2009: 143), possui uma função delimitadora do substantivo; no entanto, essas funções podem ser divididas em três: explicação, especialização e especificação.

Os explicadores destacam e acentuam uma características inerente do nomeado ou denotado. Os especializadores marcam os limites extensivos ou intensivos pelos quais se considera o determinado, sem isolá-lo bem opô-lo a outros determináveis capazes de caber na mesma denominação. Os especificadores restringem as possibilidades de referência de um signo, ajuntando-lhe notas que não são inerentes a seu significado. (BECHARA, 2009, 143).

À frente, o gramático dá alguns exemplos de cada tipo citado. Como exemplo de explicadores, vasto oceano, líquidas lágrimas, que são características próprias daquelas substâncias.

Entre os especializadores, poder-se-iam relacionar as seguintes expressões: a vida inteira, o sol matutino, o céu austral, o homem pensante. Nesses casos, tais características limitam aquelas substâncias em um aspecto, pois pode-se falar de uma parte da vida, do sol vespertino, do céu setentrional ou do homem irracional.

Por sua vez, os especificadores funcionam como realmente um acidente do substantivo, pois não são uma propriedade obrigatória daquele ser. Ex: folha de papel, quadro negro, árbitro de futebol. Repare que esses seres podem ser especificados por outras palavras como amarela, branco e de basquete, respectivamente. E mesmo assim fariam sentido.

Portanto, não há apenas um tipo de adjetivo e suas funções mostram o quanto são importantes para que se possa delimitar corretamente o substantivo.

Funções adjetivas na gramática

A função de acrescentar algo ao substantivo, seja esta uma característica intrínseca dele ou não se dá também com outras classes gramaticais variáveis. São elas: pronomes, artigos e numerais.

Para que isso se torne claro, é importante ressaltar um conceito sintático: o de adjunto adnominal. Todo termo (ou sintagma), seja ele verbal ou nominal, possui um núcleo e, no caso dos nominais, é o substantivo. Caso haja um referenciador deste e ele esteja a seu lado, salvo nos casos de apostos como Rio Amazonas, cidade de São Paulo, entre outras, sua função é adjunto adnominal; ou seja, ele é um auxiliador do nome.

Um bom exemplo

Em uma frase como a que inicia o Hino Nacional Brasileiro, é possível perceber claramente essa distinção. “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas de um povo heroico um brado retumbante”.

Nesse caso, há um sintagma verbal (ouviram) e dois nominais (as margens plácidas do Ipiranga, um brado retumbante de um povo heroico).

Ao se analisar friamente, percebem-se dois principais substantivos: margens e brado. Todas as demais palavras exercem uma função adjetiva, ou seja, acrescentam algo a esses substantivos. O artigo as define como já conhecidas; plácidas por sua vez, mostram a calmaria das margens; a locução adjetiva do Ipiranga, especifica ainda mais essas margens.

No caso do objeto direto um brado retumbante de um povo heroico, há dois numerais cardinais (um), dois adjetivos (retumbante e heroico) e um substantivo (povo), que aliado à preposição de exerce uma função adjetiva de restringir o brado retumbante. Em ambos os termos se percebe que a função exercida por eles é de adjunto adnominal.

A mesma função de adjunto adnominal pode ser exercida por uma oração, como pode ser visto em “O homem que trabalha faz a terra produzir”, como pode ser visto na música Bendito seja Deus, Pai. A oração marcada possui valor de adjunto adnominal, uma vez que ela delimita a palavra homem, tal qual faz um adjetivo.

Portanto, estudar o adjetivo é buscar entender como se delimitar o substantivo de forma a mostrá-lo da forma mais clara, a fim de que o interlocutor possa ter clareza, seja no conceito que lhe está sendo ensinado, seja na visão que lhe é suscitada. Abrir mão do aprendizado dessa categoria gramatical é simplesmente desprezar a beleza do ser e da existência das coisas, pois, sem ele, jamais conheceríamos a verdade de cada coisa em si, jamais poderíamos saber as diferenças entre.


MEER 



segunda-feira, 12 de agosto de 2024

Outubro / A exustêncua na toda da vida


Folhas no outono
Folhas no outono

Outubro

A existência na roda da vida

8 MARÇO 2024, 

 Suspirei absorto ao olhar o calendário. Outubro nosso de cada ano que sempre chega. Tudo acontece em outubro. Mês dez que já foi um oito romano, transformado por Gregório XIII, que tinha a santa pretensão de corrigir o anuário... Dez é também o arcano da Roda da Fortuna no Tarot e aí sim, tenho explicação e consolo para tudo. A Roda é o ciclo das coisas; o começo, o fim e consequentemente, o recomeço. Ele acontece. Inevitavelmente. Em minha vida, observo curioso, fatalidades e alegrias imensuráveis quando se extingue o verão.

Nasci em outubro, junto ao tapete dourado e vermelho que as folhas tecem nesta época. Anos mais tarde, no mesmo mês, conheci Laura, numa viagem à Argentina. Unimos nossas vidas com o cadeado prateado na Ponte do Amor em Buenos Aires. 

Todos os filhos também nasceram, obviamente, sem o menor planejamento, nesta altura do ano. Os que vingaram e os que não vingaram. Assim, tive as emoções mais contundentes, a celebrar natividades e a providenciar sepultamentos. 

Pessoas importantes e cães fiéis se foram, do mesmo jeito que chegaram oportunidades grandiosas de sucesso. Ganhei muito em outubro e perdi na mesma proporção. Realizei sonhos de infância e deparei-me com dura realidade. Saboreei os mais doces prazeres e congelei-me em amargas desilusões. Tudo em outubro. O mês escolhido para as surpresas mais gratas - e nem tanto - da minha vida.

Lembro-me que em meu peito, um maremoto agigantava-se. As águas agitavam-se tamanha era aquela tormenta. Ainda fora do país, a construir a vida, a dar passos em direção a uma carreira e estabilidade, deparei-me com traição e falsidade em uma sociedade infeliz. Não preciso nem contar quando isto aconteceu, não é mesmo? Sem perspectivas, com uma família e a alma para nutrir, recomecei mais uma vez, dentre tantas outras que a Roda girava anualmente. Confesso que quase cheguei a acostumar-me com isso, mas não fui capaz de evoluir para tanto, ou pelo menos de considerar por este prisma. Mas segui em frente. Acho que aceitei. Sim. Segui em frente.

É interessante observar as coisas a partir da velhice, perceber que o tempo de alguém não pode ser linear, uma vez que volta-se sempre no mesmo ponto, por tantas e tantas vezes, enquanto se respira nesta vida.

As impermanências naturais da existência acompanhava-nos, como a toda gente. Mas comigo tudo era muito radical. Laura, nesse avassalador carrossel, supostamente tinha dificuldades em fluir harmoniosamente, mesmo com todo amor que nos envolvia. Ao passar dos anos, uma depressão profunda tomou conta de seu sorriso, de seu corpo e de toda sua vontade de viver. Terríveis crises acentuavam-se e foi difícil manter o alento. Mais um desengano para a minha coleção de outubros. Despedi-me da companheira amada, mãe dos meus filhos e par insubstituível.

O que eu aprendi com tudo isso? Que uma lei invisível desmantela as ilusões? Que não existe vontade e decisão? Existirá mesmo o destino? É possível amar o amor fati do Nietzsche? Amar - e amar-me - por tudo que aconteceu? Afinal, o que passei formou-me assim, trouxe-me aqui. É possível sentir o tão supremo ato de amor próprio? Tudo que passei é parte de mim e mesmo com todas as injustiças não há lugar para o 'E se fosse diferente?'

E o que eu fiz a partir dos tantos novembros que vieram? Eu aguardei os invernos, e como as árvores fazem, concentrei minhas forças nas raízes. Só assim pude florescer nas primaveras e aproveitar o calor do solstício. Observar a vida no auge da maturidade e refletir é um exercício interessante. O que posso pensar é que estamos/somos muito próximos da natureza e eu, urbanoide convicto, jamais pensei sobre isso... Uma sabedoria ancestral que só quem tem olhos de ver consegue apreciar.

Revendo o filme da minha existência parece um baita drama, mas é só a vida, do jeito que ela é. E como eu lido com o que acontece conta mais que o próprio fato, que o próprio fado.

Hoje, dentro de mim, do centro da minha Roda, persevero com resiliência. É o que me resta. Sinto que deixarei este mundo em outubro. Oh! Um mimo do destino. Não negocio com a morte, eu sempre aguardo o mês dez.


MEER



domingo, 11 de agosto de 2024

Mandalas / Simbolismo universal de poder e magia

 

Mandalas douradas em fundo marrom
Mandalas douradas em fundo marrom


Mandalas

Simbolismo universal de poder e magia

8 FEVEREIRO 2024, 


Da tradução clássica do sânscrito como círculo da essência até a concepção do psiquiatra suíço C.G. Jung como símbolo do self e totalidade da psique, as mandalas viajam por culturas várias e podem ser consideradas uma imagem simbólica do Universo.

Sem começo nem fim,
a natureza do Universo é circular.

As mandalas estão presentes nas manifestações culturais ancestrais. Nas tradições Hinduísta e Budista fazem parte dos seus rituais de conexão com o sagrado. Como guia de interiorização, leva a meditações profundas para alcançar a paz interior. São também compreendidas como fonte de cura, uma vez que a contemplação inspira serenidade, equilíbrio das emoções e, consequentemente, ajuda nos processos físicos com a redução do estresse.

As mandalas são círculos geométricos que representam a totalidade e a integridade natural. O círculo é a forma perfeita, uma das imagens primordiais da humanidade e ao considerarmos esta simbologia percebemos que nós também somos este círculo, uma vez que não somos dissociados da natureza. 

A natureza é mandálica, basta prestar atenção na formação de todos os inícios - a partir de um núcleo central circular - desde os átomos até as infinitas galáxias. Jung entendia que a mandala é uma representação simbólica do átomo nuclear da psique humana. Poeticamente, as flores são padrões de mandalas assim como nossos olhos – as janelas da alma. Podemos sentir a delicadeza da afirmação de que vemos o mundo através de mandalas.

Círculos Mágicos

O ponto e a curva
Fora e dentro
O tudo e o nada
O infinito
Nós 

Jung utilizou o termo e a representação artística circular de cultuação e contemplação das culturas orientais para expressar o self e a totalidade da psique1, incluindo o relacionamento do homem com o mundo ou o cosmos. Observou que ao fazer desenhos circulares - as mandalas - ele mesmo, e depois, ao propor para seus pacientes, pôde estabelecer e compensar desordens e perturbações psíquicas, ou seja, a mandala torna-se o arquétipo da ordem, da integração e da plenitude psíquica. Uma tentativa de autocura através do espelho. 

Ao desenhar uma mandala, harmonizamos algo dentro de nós, pois unimos e integramos as nossas partes, possibilitando transformação. É um desenho de conexão e movimento: nos conecta com o nosso centro e ao mesmo tempo abre possibilidades e perspectivas transpessoais, coletivas, cósmicas.

Nossa relação com o mundo se dá através das mandalas quando nos colocamos em harmonia com o círculo, assim compreendemos mais e temos mais flexibilidade na vida. Esta relação se dá a partir da nossa relação conosco mesmos e as mandalas expressam o nosso mundo interno e tudo aquilo que não alcançamos com as palavras. É uma linguagem imagética onde os símbolos2 nos reconciliam com o universo. Simbolizar é imprescindível para o equilíbrio interno.

Desenhar mandalas resulta em imagens impregnadas de cargas afetivas e emocionais inconscientes que projetamos no desenho. É a dinâmica de busca da união dos opostos (masculino/feminino, direita/esquerda, par/ímpar, vida/morte...).

Mandalas e autoconhecimento

A primeira função da mandala, do ponto de vista terapêutico e de autoconhecimento, é promover equilíbrio - contemplar uma mandala nos remete para uma noção de equilíbrio - e também faz refletir: quem sou eu dentro desse círculo?

Os livros de colorir, do ponto de vista de interiorização espiritual, podem não dizer nada sobre si mesmo, de toda forma quando pintamos uma mandala entramos em estado meditativo, de conexão e alcançamos silêncio interno, ou pelo menos é possível se aproximar desta possibilidade e perspectiva.

Na jornada que fazemos para dentro, na busca pelo autoconhecimento, a mandala deixa de ser um círculo e passa a ser um círculo sagrado.

O círculo representa o si mesmo e o universo que o rodeia. A mandala sagrada está dentro. Quem não admite a vida como um grande círculo está fadado ao sofrimento, pois além do movimento do centro para as extremidades e destas novamente para o centro, há os ciclos. A vida é feita de ciclos, uma outra dimensão do próprio círculo. 

Hoje, as pessoas, de um modo geral, não sabem onde estão seu ponto central (essência), é preciso entender a relação entre o mundo externo e o Eu. 

Toda mandala tem de ter definido o fora e o dentro, o ponto e a curva. O movimento é: vou de meu centro ao mundo e volto. Este movimento é o que nos faz. Quando eu deixo de ser o ponto central da minha vida, eu não consigo ver quem sou. Para refletir:

  • Como anda o meu mundo em relação ao mundo?
  • O meu centro está no centro da minha vida ou na vida do outro?
  • Estou agindo no mundo de acordo com quem sou?

Terapeuticamente, as mandalas auxiliam nesse movimento de subjetividade, da individuação, do encontro com a estrutura pessoal.

A arte das mandalas

Tanto contemplar quanto pintar mandalas - como elemento artístico - desenvolve e aumenta a criatividade, foco, concentração e equilíbrio. 

As mandalas que são usadas em caráter decorativo também possuem magia. Além da beleza e estética, elas nos levam para o seu centro. Como ímãs somos atraídos para o seu núcleo central como se buscássemos a nós mesmos, como se quiséssemos encontrar o nosso círculo sagrado.

Já que em todo centro há outro centro,
só nos resta dançar em círculos
em torno desse grande mistério que é a totalidade.

(Caio Felix)

A arte de conhecer a si mesmo - muito antes de Delfos - reconhecida como sabedoria ancestral, tem nas mandalas um instrumento de conexão com o divino, promovendo a concentração necessária para chegar ao silêncio profundo e realmente conhecer a real e verdadeira essência do ser – a integração com o Todo. Jung, o pai da psicologia analítica, estudou este conceito e o percebeu como o próprio humano, que dança em seus antagonismos em busca do seu centro e da totalidade. A mandala é a música do mundo interno e em sua partitura está a energia vital de cada um.

Notas

1 Self ou si mesmo expressa a totalidade do homem, é o centro da personalidade e a partir dele é possível impulsionar naturalmente para as vivências do potencial humano e desenvolver a personalidade genuína em seu processo de individuação. Para Jung a mandala representa o processo psíquico de individuação.
2 A palavra símbolo na sua etimologia - sinnbild em alemão – significa unificação de pares opostos. Este movimento é fundamental no processo de amadurecimento e integração do ser.


MEER



sábado, 10 de agosto de 2024

Coimbra, o fado e os estudantes

 

Universidade de Coimbra, Portugal. Coimbra exala inspiração e os poetas a cantam em seus versos
Universidade de Coimbra, Portugal. Coimbra exala inspiração e os poetas a cantam em seus versos


Coimbra, o fado e os estudantes

Tradição e canções: a Universidade fora dos edifícios

8 AGOSTO 2024, 


Coimbra dos encantos, mais ainda na hora da despedida, como cantam os estudantes. A cidade é palco de encontros e intercâmbio cultural digno da riqueza que Portugal tanto almejou.

Desde 2013 a Universidade de Coimbra (a Alta e Sofia) é Patrimônio Mundial da Humanidade. Recebe alunos do mundo todo, a deixar saudade nos que partem e a colecionar saudade nos que ficam.

Em maio acontece a Queima das Fitas, evento tradicional em que os estudantes da UC comemoram os objetivos alcançados nos estudos com alegria. Para cada curso uma cor, para cada ano de curso, um festejo. 

O evento tem origem nas comemorações do Centenário da Sebenta (1899) e no Enterro do Grau (1905), onde eram queimadas as fitas que prendiam as pastas das sebentas, daí o nome da festa. Em 1918, os estudantes dos quartos anos de Direito e Medicina fizeram a queima das fitas em Coimbra e em 1919, os quartanistas de todos os cursos fizeram um cortejo. Estas foram as primeiras comemorações como as que conhecemos atualmente. A serenata aparece em 1949 e integra este programa de celebrações, e a partir de então, marca o início da grandiosa festividade acadêmica.

A Serenata Monumental acontece na Sé Velha e é um espetáculo emocionante. Todos os estudantes com seus trajes acadêmicos – uma longa capa preta, camisa social, gravata, calça para os homens e saia para as mulheres ou popularmente capa e batina – ouvem em silêncio o fado de Coimbra, um fado que mistura o popular e o erudito. Um fado de serenata, de rua. A Sé Velha espelha o céu noturno na serenidade das estrelas que brilham a trinar.

Os grupos de Fado de Coimbra são compostos por guitarra portuguesa de Coimbra, viola de acompanhamento e voz. A guitarra de Coimbra é diferente da de Lisboa, ela é maior, tem uma lágrima incrustada em sua voluta e a afinação é mais grave. É uma exclusividade folclórica da cidade com raiz popular e origem erudita.

Mesmo que Universidade venha recriando tal gênero musical, que com algumas alterações tem hoje, inclusive, outra nomenclatura como Canto e Canção de Coimbra, o respeito à essência e a gênese do fado é imaculado. A canção de raiz de Coimbra (popular e acadêmica) é um canto de rua. E segundo os estudantes, sempre será.

Os temas das canções são o amor e a saudade, majoritariamente. Como nos versos:

Romagem à Lapa

Se um dia a vida voltasse
Ao tempo que havia
E se o Mondego passasse
E a todos levasse
A um velho dia 

Talvez a Lapa cantasse
E em pedra gravasse
A nossa alegria
Talvez a Lapa sorrisse
E à pedra se ouvisse
Olá, poesia. 

(Luiz Góes) 

Não olhes para os meus olhos

Não olhes para os meus olhos
Tão velhinhos nesta idade
Cautela que te não pegue
A doença da saudade 

Tenho saudades da vida
Quase desejo morrer
É só para olhar os teus olhos
Que inda desejo viver 

(Fernando Rolim) 

O Rio Mondego que atravessa a cidade de Coimbra tem o seu curso inteiramente em Portugal. Nasce na Serra da Estrela, percorre toda a região do centro do país e tem a sua foz no Atlântico, na cidade de Figueira da Foz. Ele é inspiração para escritores e poetas e também uma reverência popular:

Corre Mondego

Nasce na Estrela o Mondego
Vai passar junto à Felgueira
Atravessando Coimbra
Vai parar junto à Figueira 

Corre Mondego, devagarinho
Paz e sossego, vai de mansinho
Se ouvires dizer algum dia
Que um estudante morreu
Reza-lhe um Avé-Maria
Que este estudante sou eu 

(Popular)

Canção do Mondego

Vendo correr-te o pranto
Na hora em que parti,
- Como me amavas tanto -
Ao dar-te o "adeus", sorri. 

Ouvi, quando voltei:
"Já te não amo, não"
Era verdade , e então
- Vendo-te rir - , chorei 

(Manuel da Silva Gaio)

Este ano, com a comemoração dos 50 anos do 25 de abril teve lugar fados com letras de protesto/denúncia como a Trova do vento que passa, com letra de António Portugal e Manoel Alegre.

Pergunto aos rios que levam
Tanto sonho à flor das águas
E os rios não me sossegam
Levam sonhos deixam mágoas
Pergunto à gente que passa
Por que vai de olhos no chão
Silêncio é tudo o que tem
Quem vive na servidão 

Há quem te queira ignorada
E fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
Nos braços negros da fome 

E em toda Serenata Monumental há as canções da despedida. São as Balada da nostalgia, Balada da despedida e Balada de Coimbra. Todas versam sobre o encerramento dos tempos universitários e para muitos, implica a despedida da cidade também. Lágrimas lavam a Sé Velha numa noite emocionante ao som das guitarras portuguesas. Tamanha comoção marca o início das festividades da Queima das Fitas, e depois, o cortejo e o ritual são pura animação e euforia.

A Coimbra dos universitários, dos fados, do Mondego, da saudade continua ano após ano reforçando a tradição com seus cantos e encantos. 

No livro Coimbra em palavras (2018), Wagner Merije descreveu: repleta de “imensitudes”, Coimbra mantêm a sua magia de outrora como poucos lugares no mundo, numa sensação constante de “seja eterno enquanto dure”. Feita de passado e de presente, este lugar propaga poesia, histórias e memórias de personagens intrigantes, nobres, plebeus, de gente como a gente, serenatas, bebedeiras e amores mil.

Adriana Calcanhoto, Embaixadora da Língua Portuguesa na UC, também cantou Coimbra em Corre o Munda:

Não existe rima para ti Coimbra
Nem achei palavra para explicar-te
Não existe rima para ti Coimbra
Nem achei palavra para decifrar-te 

Não permita a Deus que eu morra sem voltar
A flanar-te sob o céu cinza
A encher-me os olhos com o rio raso que te serpenteia
Por onde vagueia tua compositora sem eira nem beira
Corre o Munda 

Coimbra exala inspiração e os poetas a cantam em seus versos, como se a cidade fosse feita de letras abraçadas a notas musicais. Sente-se Coimbra na vibração de todas as suas canções, das suas ruas que lembram as Minas Gerais e mais uma vez é aquela saudade (no caso, para mim)...

Viver Coimbra é assim, em cada canto uma canção.


MEER 



sexta-feira, 9 de agosto de 2024

Oscar Wilde / O erotismo e a loucura feminina







"Salomé" provoca discussões ao representar a mulher como um ser tanto sedutor quanto perigoso

O erotismo e a loucura feminina

A representação da mulher na obra Salomé

29 JULHO 2024, 


O meu primeiro contacto com a peça “Salomé” foi em 2016/2017, quando, depois de ler “O retrato de Dorian Gray”, decidi aventurar-me pelo decadentismo de Wild. Originalmente lançada em 1891, na França, esta peça de teatro apresenta num único ato toda a história da personagem principal, oferecendo ao leitor um texto de fácil compreensão, mas igualmente inebriante e cativante. 

Claro que, antes de estudarmos mais aprofundadamente o conteúdo literário da peça, importa entender quando esta foi lançada, para então podermos discutir o seu caráter transgressor. Falamos aqui do século XIX, marcado profundamente pelos ideais de hierarquização e superioridade masculina, que enclausuravam a mulher, submetendo-a a um papel de invisibilidade. Sem participação ativa na sociedade, a mulher vivia inteiramente para o lar, sendo completamente marginalizada em todas as áreas, incluindo a literatura. Pelo que se observa, até ao Romantismo, as mulheres tinham pouca representação na nossa cultura, inserindo-se sempre nos estereótipos de mãe, bruxa ou prostituta. No entanto, com a revolução industrial o cenário muda e a figura feminina ganha uma nova dimensão, sendo agora representada como um perigo. No ideário francês, a mulher começa a ser representada como um ser ambíguo, associado ao pecado, ao mal e à morte. 

É neste contexto, e como forma de retratar as insatisfações da época, que diversos escritores procuraram utilizar os seus textos para denunciar a marginalização da mulher. “Salomé” é um destes exemplos. A peça de Oscar Wilde procurou desafiar as convenções sociais, apresentando uma visão provocativa e complexa da feminilidade.

Wilde, inspirado pelo decadentismo do final do século e pelo simbolismo francês, revelou-se contra as normas impostas pela sociedade, onde a mulher era inferiorizada, e apresenta-nos uma figura feminina irreverente, fatal e extremamente sensual, que causa tanto repulsa como admiração. Na sua obra “Salomé”, o autor procede a uma representação complexa e multifacetada das mulheres, retratando a personagem principal como uma femme fatale, ou seja, uma mulher sedutora e perigosa que provoca a queda daqueles ao seu redor. Ela é apresentada como manipuladora, astuta e ambiciosa, contrariando as noções tradicionais de feminilidade e passividade. 

Baseada na narrativa bíblica, “Salomé”, apresenta a mulher como um ser altivo, perspicaz e sedutor, que utiliza a sua beleza para obter o que quer. Ela é a representação da nova mulher, que, insatisfeita com o seu papel na sociedade, procura fugir da opressão sofrida. Ela é erótica e expressiva, não aceita ser submissa nem silenciada e não se adequa aos padrões de machismo e conservadorismo impostos. 

Se repararmos, a obra é disruptiva em si na forma como representa a mulher. Na bíblia, Salomé é apresentada como um modelo para a sociedade, um ser insignificante que está ali para servir, seguir ordens e atender os desejos masculinos. A passagem demonstra-nos que a mulher era tratada como um ser inferior, sem direito a falar e sem participação na sociedade. Salomé não passa de um instrumento para realizar as vontades da sua mãe.

Em Oscar Wilde, por sua vez, a protagonista é centro das atenções. A peça acontece no palácio de Herodes Antipas, onde Salomé, enteada do Tetrarca, é rejeitada pelo objeto do seu fascínio, o profeta João Batista. Para ter o que deseja, a jovem, tomada pelo fascínio erótico, realiza uma dança para Herodes, exigindo a cabeça de João Batista numa bandeja de prata, como recompensa. No final, Salomé, consumida pela irracionalidade do seu desejo, beija apaixonadamente a cabeça decapitada do profeta. 

A obra de Wilde apresenta Salomé como um ser lascivo, que, por vontade própria, dança para Herodes e o convence a entregar-lhe a cabeça de João Batista para que ela possa finalmente obter o que deseja: beijar o profeta e satisfazer o seu desejo carnal, antes negado. Salomé transforma-se no arquétipo de sensualidade, tentação e perdição, sendo a mais pura representação do gozo feminino. A personagem é o símbolo da Femme fatal: uma mulher bonita e misteriosa que engana e desafia os homens da peça.

Abordando temas como o poder destrutivo da luxúria, a inevitabilidade do destino e os perigos da obsessão, a escrita de Oscar Wilde tende a utilizar o olhar como forma de desejo sexual ao descrever, logo nas primeiras linhas, a forma como Herodes olhava para Salomé, uma jovem princesa de beleza excecional. No final da peça, o objeto de desejo transfigura-se, e a cabeça decapitada do profeta passa a ser o centro do desejo sexual e da vingança da protagonista. 

Apesar de procurar quebrar os estereótipos da época, a representação de Salomé trouxe consigo vários problemas, sobretudo se analisarmos a peça tendo em consideração o contexto social e cultural da época. Em primeiro lugar, a representação da mulher como sedutora e obsessiva alimenta os estereótipos negativos associados ao género, o que reforça a visão de que as mulheres são inerentemente seres irracionais e impulsivos. A conduta desafiante de Salomé também causou algumas controvérsias: se por um lado alguns viam a sua determinação e assertividade como um sinal de liberdade relativamente às expetativas tradicionais colocadas sobre as mulheres, por outro havia quem considerasse as ações da personagem como uma ameaça à ordem social.

A representação da mulher na peça de Oscar Wilde é muito diferente do evangelho, apresentando Salomé como uma personagem forte, com vontades, desejos e que não se deixa controlar, ao contrário da Salomé da bíblia, que é submissa às vontades dos restantes personagens. Ao mesmo tempo, a peça de teatro é disruptiva em si, ao protagonizar temas como a sexualidade, o desejo, a luxúria, e a violência. Claro que, apesar de subversiva, a mulher continua a ser tratada, em segundo plano, como um objeto, tanto por Herodes, que a deseja fisicamente, quanto pelos soldados que a atacam.

MEER





quinta-feira, 8 de agosto de 2024

Lauren Mendinueta / A modelo de Balthus

 



Lauren Mendinueta
A MODELO DE BALTHUS

Há quase meio século

posei em segredo para Balthus.

Ele disse-me, «não te movas,

vês-te formosa andando a quatro patas,

mas se te moves deixarás de ser uma mesa».

Quando acabou de me pintar 

falou-me um pouco aborrecido.

 «As tuas pernas são demasiado grossas, 

não voltarei a pintar-te».

Entristecida abandonei a sala.

Há pouco vi o quadro num museu.

Tinha vontade de levantar o indicador

para dizer em voz alta: 

«Essa sou eu».

Mas vi-me tão irreconhecível

que tive de conter o meu impulso, 

conter o meu corpo,

com medo do ridículo.


Lauren Mendinueta em "Viver Tão por Dentro" 

(Trad. Nuno Júdice, The Poets Society, Portugal)




domingo, 4 de agosto de 2024

James Baldwin/ Nasceu há 100 años

 

James Baldwin, 1963

James Baldwin

NASCEU HÁ 100 ANOS

“Ter talento conta pouco. Conheço muitos talentos destroçados. Para além de talento, são necessários os ingredientes do costume: disciplina, amor, sorte, mas acima de tudo, perseverança.”

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— JAMES BALDWIN (Nova Iorque, 2 de Agosto de 1924 — Saint-Paul de Vence, 1 de Dezembro de 1987), romancista, ensaísta, dramaturgo, poeta e activista social e político norte-americano, em entrevista a Jordan Elgrably, in The Art of Fiction No. 78, The Paris Review, issue 89, Spring 1984.


James Baldwin, em 1963.



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