segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Morre Mercedes Barcha, a mulher que tornou possível o sucesso de García Márquez



Mercedes Barcha y Gabriel García Márquez


Morre Mercedes Barcha, a mulher que tornou possível o sucesso de García Márquez

A esposa do Nobel de literatura faleceu neste sábado no México, aos 87 anos


Camila Osorio
Cidade do Mexico, 16 ag 2020

Entre os milhares de lendas e imagens literárias que o Nobel Gabriel García Márquez tornou famosas em seus 87 anos de vida, uma das mais conhecidas incluía sua esposa, Mercedes Barcha. Contava que ela penhorou vários eletrodomésticos para poder enviar pelo correio o romance que tornou Gabo universal. Mercedes Barcha morreu neste sábado na Cidade do México, aos 87 anos. Foram casados por 56 anos e tiveram dois filhos, Rodrigo e Gonzalo. O marido se encarregou de tornar o nome dela famoso durante anos porque não teria conseguido se entregar em tempo integral às letras não fosse o trabalho administrativo e o cuidado que ela lhe dedicou.

No dia em que o escritor terminou o manuscrito de Cem Anos de Solidão, na década de 1960, ele e a mulher foram ao correio do México para enviá-lo à editora na Argentina que estava interessada no livro. Um funcionário do local pesou as folhas do texto e disse que a remessa custaria 83 pesos, mas Mercedes --que era a administradora da família-- falou que só tinha 45. Os dois decidiram então enviar apenas metade do manuscrito, a parte que podiam pagar, e ficar com o restante na esperança de poder mandar depois. “Então, fomos para casa e Mercedes pegou as últimas coisas que faltava penhorar”, disse Gabo. Ela empenhou o aquecedor, seu secador de cabelo, a batedeira, e assim Mercedes conseguiu enviar o resto do romance que tornaria seu marido lendário. “Agora, só falta o romance ser ruim”, lhe disse, então, com raiva. Mercedes era a primeira pessoa que lia a obra de Gabo e era a crítica que o escritor mais temia.
“Sua personalidade era única, uma mescla singular de inteligência absoluta, força de caráter, pragmatismo, curiosidade, senso de humor e hermetismo'‘, disse Jaime Abello Banfi, diretor geral da Fundação Gabo, em um comunicado de condolências. “Querida Mercedes, você foi um polo na Terra, jamais te esqueceremos. Sua recordação nos inspirará.”

Embora ela sempre se certificasse de que a vida doméstica estivesse funcionando, Mercedes Barcha também era uma devota da literatura e lia os manuscritos do marido antes de muitos amigos do Nobel. Quando Gabo estava terminando Cem Anos de Solidão, disse a certa altura que a crítica que mais o preocupava era a da companheira. “A expressão em seu rosto me garantiu que o livro estava no caminho certo”, contou Gabo.

Pouco se sabe sobre os esforços de Mercedes para escrever, embora os arquivos de Gabriel García Márquez da Universidade de Austin-Texas contenham um pequeno texto que ela escreveu aos 15 anos para um jornal de estudantes. É um elogio ao enorme rio Magdalena, na Colômbia, que nasce na cordilheira dos Andes e deságua no mar do Caribe, onde ela o chama de “um tesouro” impossível de retratar. “Considero como um átomo o que minha caneta pode escrever sobre essa longa e majestosa corrente”, disse naquele texto de 1947.


“Os pais de Mercedes eram amigos dos pais de García Márquez”, diz Gustavo Tatis, biógrafo de Márquez e autor do livro The Conjurer’s Yellow Flower. Ela tinha 9 anos e ele 12 quando se conheceram, “e García Márquez teve desde muito cedo a clarividência de que esta seria a mulher que o acompanharia durante toda a vida”. Mercedes mais tarde inspirou vários personagens de Gabo em romances como Cem anos de solidão, O outono do patriarca e O amor nos tempos do cólera, que foi dedicado a ela. “Ela era uma espécie de Úrsula Iguarán”, lembra Tatis, “uma grande mulher por trás do gênio de García Márquez”.

Jon Lee Anderson, jornalista da revista The New Yorker e amigo de Mercedes, lembra que era uma pessoa escassa, com poucas palavras, mas que falava eufemisticamente e com sabedoria. “Quando escrevi um perfil sobre Gabo em 1999, entendi que só com a aprovação dela eu conseguiria acessá-lo”, diz Anderson, que, como outros amigos de Mercedes, se lembra dela naquele papel protetor de escritora. “Quando a conheci em Bogotá e conversamos, sem que ela me dissesse, senti que havia me dado a aprovação para que eu pudesse me aproximar dele”. Os amigos de Gabo eram facilmente amigos de Mercedes também, e ela decidia quais deveriam estar mais perto e quais deveriam ser distantes. No artigo de Anderson, quando falava com Gabo sobre sua esposa, o ganhador do prêmio Nobel lhe diz que ele tinha uma teoria: que Fidel Castro, amigo do escritor, na verdade confiava mais em Mercedes do que ele.

“Ela sempre foi uma mulher muito reservada, desempenhou muito bem aquele papel de muro de contenção diante de Gabo”, lembra outro amigo próximo, o escritor nicaraguense Sergio Ramírez. Outra pessoa que conseguiu passar por esse muro foi Zheger Hay, um militante de esquerda na Colômbia que foi exilado no México nos anos 80 e conheceu Mercedes logo após sua chegada. “Ela sempre teve uma vida muito discreta, sem se exibir”, lembra Hay. Mercedes, diz sua amiga, passava os dias cuidando das casas da família em Cartagena ou na Cidade do México e era constantemente informada sobre as últimas notícias políticas, embora tivesse o cuidado de não compartilhar sua opinião publicamente. “Mercedes era uma viciada em televisão para assistir ao noticiário, ela estava muito ciente de tudo”, diz Hay. “Mas tinha um senso de discrição especial, porque sabia muito bem que Gabo era seu marido e por isso tudo que ela dizia também podia virar notícia.”

Embora calorosa com seus amigos, Mercedes decidiu que não queria ser uma figura pública que falava constantemente na mídia sobre seu marido ou sua vida familiar, e é por isso que a maior parte do que se sabe sobre ela foi através das palavras de seu marido. Mas nenhum homem de letras pode se dedicar à literatura sem uma comunidade íntima para sustentá-lo. Com a sua partida, Mercedes lembra que hoje nem Cem Anos de Solidão nem O amor nos tempos do cólera existiriam sem uma mulher como ela.

EL PAÍS




terça-feira, 11 de agosto de 2020

O triunfo de Gisele Bündchen e do seu nariz

Gisele Bündchen - Wikipedia, la enciclopedia libreO triunfo de Gisele Bündchen e do seu nariz

A modelo brasileira chega aos 40 anos em plena forma e com uma carreira cheia de sucessos, apesar das dúvidas que seu físico provocou no começo



Carlos Primo
Madrid, 20 Jul 2020


Há uma história muito conhecida segundo a qual Gisele Bündchen, no começo da sua carreira de modelo, ainda adolescente, escutou que não iria longe devido ao seu nariz. Não é um mito, como confirmou Angela Missoni ao The New York Times em 2016: quando Bündchen posou em sua primeira campanha para a grife italiana, o fotógrafo Mario Testino decidiu que fosse penteada de tal maneira que o cabelo escondesse seu rosto. Testino, nas palavras de Missoni, “estava preocupado com o nariz dela”. Aquilo aconteceu em 1998, quando a modelo brasileira tinha apenas 18 anos. Nesta segunda-feira completa 40 como uma das profissionais mais conhecidas, influentes, prestigiosas e também atípicas do setor.

Este aniversário é uma cifra redonda, especialmente para quem está na carreira de modelo, a qual embarcou há décadas numa interminável corrida pela juventude. Bündchen, entretanto, conseguiu se localizar numa espécie de limbo geracional. A brasileira é mais jovem que as veteranas dos anos noventa, mas não tanto como a nova fornada de influencers encabeçada por Kendall Jenner, que lhe arrebatou o título de modelo mais bem paga do mundo em 2017.Última supermodelo ― assim a qualificou Claudia Schiffer em 2011 ― e primeira estrela digital da moda, tal como referendam seus 16 milhões de seguidores no Instagram, Gisele contou em numerosas ocasiões que chegou às passarelas por acaso. Nascida em uma família de classe média no Rio Grande do Sul, sua mãe a matriculou numa escola de modelos para que aprendesse a caminhar corretamente. Foi descoberta num parque de diversões, e as oportunidades chegaram em cascata. Mudou-se primeiro para São Paulo e depois para Nova York, onde ocupou um espaço no setor editorial e conseguiu um dos contratos mais cobiçados na indústria, com a Victoria’s Secret.

Bündchen foi um dos “anjos” da marca de lingerie de 1999 a 2007. Anos mais tarde, contou que decidiu deixar esse trabalho porque sua agenda de eventos havia se tornado muito ocupada e se sentia cada vez menos à vontade na passarela. “Eu me via num lugar diferente na minha vida e não tinha certeza de querer continuar trabalhando ali”, escreveu uma década depois em Aprendizados: minha caminhada para uma vida com mais significado, o livro de memórias e reflexões que publicou em 2018.

Bündchen não desfila desde 2017. Continua protagonizando campanhas de cosmética da Dior. Na mais recente, lançada em maio, posa junto à sua mãe, Vania. Também é rosto habitual da marca brasileira de joalheria Vivara. Só neste ano foi capa da Harper’s Bazaar russa, da edição norte-americana da Marie Claire e da Vogue Brasil. Entretanto, sua atividade nas redes sociais pouco tem a ver com a moda. Compartilha suas rotinas de exercícios e de ioga, escreve mensagens inspiradoras em inglês e português e divulga causas sociais, projetos solidários e iniciativas ambientalistas. Não tem alergia à política; no ano passado, suas críticas ao Governo de Jair Bolsonaro fizeram que o presidente brasileiro a qualificasse publicamente como “má brasileira”. Ela, envolvida há 13 anos na defesa do meio ambiente e na proteção da Amazônia, lhe respondeu em uma carta aberta que “maus brasileiros são os que desmatam”.

Em todo caso, os conteúdos que dão o que falar ultimamente estão mais relacionados à sua vida familiar. Está casada há 11 anos com o astro do futebol americano Tom Brady, com quem tem dois filhos que aparecem frequentemente nas redes sociais da modelo. Em abril, Brady falava abertamente em uma entrevista sobre as tensões existentes no casal pela dificuldade de conciliar vida profissional e familiar. O momento mais crítico do relacionamento, segundo o atleta, ocorrera dois anos antes. “Gisele não estava satisfeita com nosso casamento”, disse Brady. “Precisava de uma mudança. Ela me disse que embora a situação funcionasse para mim, não era igual para ela. É que às vezes em um relacionamento você se encontra num ponto em que tudo funciona para você, mas o importante é que funcione para os dois.”

Nos últimos meses, o casal protagonizou posts de agradecimento aos trabalhadores sanitários durante a pandemia e inclusive desafios virais no TikTok, utilizando o humor e a leveza como forma de calar os rumores. Não é uma estratégia inesperada na trajetória de uma modelo que sempre soube tirar proveito da naturalidade. Tanto faz que tenha um nariz que não parecia perfeito, uma anatomia mais sinuosa que os padrões ou uma forma de caminhar pela passarela que pouco tem a ver com o rigor da academia. Há décadas, os salões de meio mundo se empenham em oferecer às clientes cachos loiros idênticos aos que Gisele, segundo ela, sempre manteve de forma natural. E já se sabe que a chave para triunfar em um dos setores mais rebuscados do mundo é, paradoxalmente, conseguir que tudo pareça fácil.

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Sobrevivente de Hiroshima / “Um exército de fantasmas veio até mim”




Hiroshima: los árboles que sobrevivieron a la bomba atómica y hoy ...
Hiroshima

Sobrevivente de Hiroshima: “Um exército de fantasmas veio até mim”

No 70º aniversário da bomba atômica de Hiroshima, sobreviventes revivem lembranças


Macarena Vidal Lyn
Hiroshima, Japão, 6 ag 2015


Na segunda-feira 6 de agosto de 1945, às 8h de uma manhã ensolarada em Hiroshima, Takashi Teramoto, de 10 anos, era o menino mais feliz do mundo. Sua mãe tinha se deixado convencer e o trouxera de volta para casa depois de passar meses recolhido a um refúgio infantil. Naquela noite, o garoto tinha dormido em sua casa pela primeira vez em mais de três meses. “Como me senti confortável! É uma de minhas lembranças mais intensas”, sussurra. Às 7h30, depois de ser acordado por um alarme antiaéreo, havia saído para brincar com dois amigos. Sua mãe o fez entrar às 8h10 para preparar-se para ir ao médico. Cinco minutos mais tarde, às 8h15, explodiu o inferno.

Hiroshi Hara.
Hiroshi Hara.M. V. L

Takashi nunca voltaria a ser completamente feliz. Em meio a um céu completamente limpo, o Enola Gay, um B-29 norte-americano pilotado por Paul Tibbets, havia lançado a primeira bomba atômica, chamada Little Boy.


Com cerca de três metros de comprimento e quatro toneladas de peso, carregava 50 quilos de urânio. A 600 metros de altura sobre o centro da cidade e 43 segundos depois de seu lançamento, sua explosão causou uma bola de fogo de 28 metros de diâmetro, com uma temperatura de 30.000 graus Celsius. Uma área de dois quilômetros de raio se tornou apenas terra queimada. Setenta mil dos cerca de 350.000 habitantes de Hiroshima, que até então não havia sido bombardeada na guerra, morreram imediatamente depois do ataque. Outras 70.000 pessoas morreram antes do fim daquele ano, vítimas de seus ferimentos ou da radiação.


“Vi de relance um grande clarão azul. E ouvi um grande estrondo. Depois não vi mais nada. A terra tremia e não paravam de cair coisas em cima de mim. Finalmente vi um pouco de luz e saí à rua”, onde uma vizinha se responsabilizou por ele. “Minha mãe ainda estava dentro da casa, eu não queria sair dali, mas os vizinhos me disseram que cuidariam dela. Quando começou a cair chuva ácida, gotas de água negra, a vizinha me protegeu com um pedaço de lata porque meu rosto ardia. Ela morreu meses depois, doente por causa da radiação. Estou convencido de que lhe devo minha vida”, lembra-se Teramoto.

Takashi Teramoto




Minoru Yoshikane também viu o clarão de relance. Aos 18 anos, estava terminando a escola secundária e aspirava a tornar-se professor de inglês, entusiasta que era da literatura e das canções nessa língua. Havia sido recrutado, como os demais estudantes da escola secundária, para trabalhar no esforço de guerra e encontrava-se numa fábrica esperando ordens. Quando explodiu a bomba, ele e seus colegas se refugiaram no sótão. “Duas horas mais tarde, um de nossos professores nos disse que a escola corria perigo e tínhamos que sair para oferecer ajuda, e então nos dirigimos ao centro.”

Nunca esquecerá o que viu. Não restavam casas em pé. Cerca de 90% dos edifícios de Hiroshima ficaram destruídos pela explosão e pelos incêndios que se seguiram. “Vi o que parecia ser um exército de fantasmas vindo até mim. Dezenas de feridos, queimados, com os rostos destroçados, não pareciam humanos. A pele caía em pedaços. Também havia mortos, muitos mortos. Fiquei muito assustado.”

Hiroshi Hara, de 13 anos, estava numa ilha próxima procurando comida para seu tio doente quando ocorreu a explosão. No dia seguinte, tentou chegar à escola, no centro de Hiroshima. “O rio estava cheio de corpos. Muitos feridos, queimados, com as orelhas derretidas. Imploravam por água, alguma coisa para beber. Ao verem que eu era estudante, perguntaram para que escola estava indo, se conhecia seus filhos e filhas. No momento da explosão, muitas crianças, agrupadas por idade e escola, estavam no centro trabalhando em fábricas ou construindo abrigos... Milhares e milhares deles morreram.”

Minoru Yoshikane.M. V. L.

Na sua fuga até o campo, o pequeno Takashi também havia encontrado outros desses feridos graves, que escapavam como podiam. Reconheceu um deles, com o rosto queimado e que caminhava com os braços estendidos à frente, para evitar que a pele que saía em tiras tocasse no chão: era um dos amigos com que estivera brincando antes da explosão e que morreria em poucos dias. O outro morreu imediatamente, ele saberia depois.

Três dias mais tarde, 9 de agosto, às 11h02 da manhã, outro B-29, Bockscar, lançava outra bomba, desta vez de plutônio, contra Nagasaki. O Fat Man, que tinha uma onda explosiva muito maior –equivalente a 22.000 toneladas de trinitrotolueno, contra as 15.000 do Little Boy— caiu sobre um bairro da periferia. Cerca de 70.000 pessoas morreram de imediato ou nos meses que se seguiram até o fim do ano. Em 15 de agosto, o Japão capitulou. Nesse mesmo dia, a mãe de Takashi morreu em decorrência de ferimentos.




Hiroshi Hara


O inferno não tinha acabado para as vítimas. Takashi, como muitos outros residentes, viu como perdia o cabelo por efeito da radiação. Sangrava pelas gengivas e pontos negros irrompiam na pele. Teve que ficar de cama até dezembro. Ele conta que ver as pessoas vomitar sangue se tornou algo normal naqueles meses. Seu irmão acabou morrendo depois de um câncer que ele crê ter sido causado pela bomba. “Muita gente continua sofrendo ainda hoje.”

Para os hibakusha, como são conhecidos no Japão os sobreviventes da bomba atômica, “foi um caminho difícil” desde então, como afirma Yasuyoshi Komizo, da Fundação para a Cultura da Paz de Hiroshima. Tiveram que viver sob a censura oficial dos EUA a respeito dos bombardeios e sob a discriminação dos próprios compatriotas, que temiam os possíveis efeitos da radiação. Alguns negavam que tinham estado ali. “Como qualquer ser humano, no início o que sentiam era ódio e vontade de vingança. Não mudaram de opinião facilmente. Mas com o tempo concluíram que continuar com ódio não faz sentido, que a paz é algo que cabe a cada ser humano, e querem dar seu testemunho para que nunca mais se repita um ataque nuclear.”



quinta-feira, 6 de agosto de 2020

75 anos após a bomba de Hiroshima, a ameaça nuclear ressurge em um novo tabuleiro geopolítico


Manifestantes com máscaras de Trump e Putin posam sobre duas bombas falsas durante protesto contra armas atômicas em Berlim, na Alemanha.
Manifestantes com máscaras de Trump e Putin posam sobre duas bombas falsas durante protesto contra armas atômicas em Berlim, na Alemanha.FABIAN SOMMER 

75 anos após a bomba de Hiroshima, a ameaça nuclear ressurge em um novo tabuleiro geopolítico

Enquanto Trump e Putin desmantelam a rede de tratados de controle de armas nucleares, o surgimento de novas potências como a China desenha um cenário mais instável para o planeta


PABLO GUIMÓN
|MARÍA R. SAHUQUILLO

Washington / Moscou - 06 AGO 2020 - 07:54 COT

Há exatamente 75 anos os Estados Unidos se tornaram o primeiro e único país do mundo a atacar um inimigo com uma arma nuclear, com o bombardeio da cidade japonesa de Hiroshima, durante a Segunda Guerra Mundial. Hoje, o tabuleiro geopolítico mudou significativamente, mas permanecem as tensões e incertezas sobre como garantir que nenhum país volte a usar novamente as armas atômicas. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirma que ele e seu colega russo, Vladimir Putin, trabalham juntos para reduzir a ameaça de uma guerra nuclear, mas a verdade é que ambos passaram pelo menos os últimos três anos e meio desenvolvendo armas nucleares e destruindo tratados destinados ao seu controle. Embora a o governo norte-americano reconheça que considerou retomar os testes nucleares interrompidos há quase três décadas, ninguém descarta uma nova corrida armamentista com a Rússia e, agora, com a China.

Passo a passo, o sistema de segurança criado no período final da Guerra Fria por Washington e Moscou está se desintegrando. O fim, no ano passado, do histórico Tratado de Controle de Armas Nucleares de Alcance Intermediário (INF), assinado em 1987 por Ronald Reagan e Mikhail Gorbachev, foi o início de uma nova era. Hoje, Washington e Moscou não limitam mais o armazenamento, teste ou implantação de mísseis terrestres de alcance intermediário ( entre 500 e 5,5 mil quilômetros).

Washington também decidiu abandonar o Tratado de Céus Abertos, que permitia voos de inspeção para fomentar a confiança entre os países. E o presidente Trump ainda indicou que não renovará o Novo START, o último grande tratado de controle de armas nucleares entre Washington e Moscou, a menos que a China também aceite se vincular às limitações impostas pelo acordo. Sem ele, não haverá tratado algum que controle os dois maiores arsenais nucleares do mundo. O acordo expira em fevereiro, pouco depois da posse do ganhador das presidenciais americanas marcadas para novembro.

A cidade japonesa de Hiroshima após o ataque nuclear de 6 de agosto de 1945.
A cidade japonesa de Hiroshima após o ataque nuclear de 6 de agosto de 1945. PRISMA BY DUKAS / UNIVERSAL IMAGES GROUP VIA GETTY


Trump fez da assinatura de um acordo nuclear com a Rússia e a China uma prioridade, mas Pequim até agora rejeitou os convites para participar do debate. A responsabilidade dos Estados Unidos de liderar o controle e a eliminação progressiva de armas nucleares, como primeiro e único país a tê-las usado, baseou a política nuclear de Washington desde o início. Durante mais de 60 anos, presidentes de ambos os partidos, de Eisenhower a Obama, tentaram reduzir o arsenal de armas nucleares e as possibilidades de serem utilizadas. Mas o presidente Trump, como em tantas outras áreas, rejeitou os vínculos históricos. Apenas dois meses atrás, Marshall Billingslea, o principal negociador norte-americano para acordos de controle armamentista, confirmou que a Administração estudou a realização do primeiro teste nuclear desde 1992. “A possibilidade de a Administração Trump retomar os testes de armas nucleares é tão temerária quanto perigosa”, disse Joe Biden, adversário democrata de Trump.

A evaporação destes tratados, combinada com o surgimento de novas potências nucleares como a China, desenha um cenário mais instável e com menos limites, no qual as novas armas tecnológicas desempenham um papel destacado. Robôs assassinos, mísseis hipersônicos e armas cibernéticas se juntam à corrida, como evidenciou o preciso ataque norte-americano com um drone que matou o general iraniano Qasem Soleimani em Bagdá nos primeiros dias deste ano.

Putin já anunciou novas armas hipersônicas, que viajam a pelo menos cinco vezes a velocidade do som, muito mais difíceis de rastrear e interceptar. Moscou garante que seu sistema estratégico Avangard, que descreve como uma de suas “armas invencíveis” e que é composto por um foguete balístico intercontinental equipado com ogivas que podem ser manobradas em planos verticais e horizontais e mudar de rumo “já está em serviço”. A Rússia afirma que pode voar em 15 minutos para o território norte-americano. Além disso, garante que já estão quase prontos seus mísseis de cruzeiro hipersônicos antitanque Zirkon, que podem ser implantados em navios de superfície, atualmente na fase final de testes, de acordo com o Ministério da Defesa. Assim como seu drone nuclear submarino Poseidon, projetado para ser transportado por submarinos, embora especialistas ocidentais tenham questionado o quão avançado está o desenvolvimento desse tipo de armas.

Também os EUA, China, Índia, Japão e outros países estão desenvolvendo mísseis hipersônicos. E a corrida armamentista tem um novo campo de batalha: o espaço, onde as duas históricas potências se acusam mutuamente de testar armas.



terça-feira, 4 de agosto de 2020

Rei emérito da Espanha, Juan Carlos I abandona o país para proteger a Monarquia


Juan Carlos I
Rei emérito da Espanha, Juan Carlos I abandona o país para proteger a Monarquia

Monarca deixa o Palácio da Zarzuela para impedir que as informações sobre sua fortuna no exterior prejudiquem a família real espanhola


Madrid, 3 de agosto de 2020


O rei emérito, Juan Carlos I, comunicou ao filho, Felipe VI, sua “meditada decisão de se mudar para fora da Espanha” ante a “repercussão pública” das notícias sobre suas contas no exterior e “para contribuir” com seu filho para que possa desenvolver seu papel como chefe de Estado “com a tranquilidade e a calma” que o cargo exige, de acordo com a carta divulgada pela Casa do Rei.

O comunicado foi divulgado poucas horas depois de dom Juan Carlos abandonar o Palácio da Zarzuela, onde residiu nos últimos 58 anos. A Casa do Rei não especifica em que país ele viverá a partir de agora e apresenta sua saída da Espanha como uma decisão voluntária, embora tenha sido tomada em consenso com o filho, que expressou seu "profundo respeito e gratidão" pelo passo dado.

Para deixar claro que a partida para o exterior não é uma tentativa de fugir da ação da Justiça (a Procuradoria do Tribunal Supremo e o Ministério Público da Suíça estão investigando suas contas no exterior), o advogado de dom Juan Carlos, Javier Sánchez-Junco, divulgou um comunicado em que afirma que ele "permanece à disposição a todo o momento do Ministério Público por qualquer procedimento ou ação considerada oportuna".

Juan Carlos I não perderá o título honorífico de Rei, que lhe foi concedido por um decreto real de junho de 2014, alguns dias antes de sua abdicação. O pai do Rei teria se oposto a renunciar voluntariamente a esse título, que não implica nenhum privilégio, e seu filho não quis privá-lo dele contra sua vontade, como fez com sua irmã Cristina, após o caso Urdangarin.

Esta é a íntegra da carta enviada por Juan Carlos I ao filho:

“Majestade, querido Felipe, com o mesmo afã de serviço à Espanha que inspirou meu reinado e diante da repercussão pública que certos eventos passados em minha vida privada estão causando, desejo te manifestar a minha mais absoluta disponibilidade para ajudar a facilitar o exercício de suas funções com a tranquilidade e a calma que a sua alta responsabilidade requer. É o que exigem meu legado e minha própria dignidade como pessoa.

Há um ano te expressei minha vontade e desejo de deixar de desenvolver atividades institucionais. Agora, guiado pela convicção de prestar o melhor serviço aos espanhóis, a suas instituições e a você como Rei, te comunico a minha meditada decisão de me mudar neste momento para fora da Espanha.

Uma decisão que tomo com profundo sentimento, mas com grande serenidade. Fui Rei da Espanha durante 40 anos e durante todos eles sempre quis o melhor para a Espanha e para a Coroa.

Com minha lealdade de sempre.

Com o carinho e afeto de sempre, teu pai”.

Segundo o comunicado da Casa do Rei, Felipe VI transmitiu ao pai seu “profundo respeito e agradecimento por sua decisão”. “O Rei deseja enfatizar a importância histórica que representa o reinado de seu pai, como legado e obra política e institucional de serviço à Espanha e à democracia; e, ao mesmo tempo, quer reafirmar os princípios e valores sobre os quais esta se assenta, no marco de nossa Constituição e do restante do ordenamento jurídico”, conclui a nota.

A decisão do rei emérito ocorre após as investigações iniciadas por promotores suíços e espanhóis sobre os supostos recursos de Juan Carlos I em paraísos fiscais. O advogado do rei emérito também divulgou um comunicado no qual afirma que, apesar da saída de Juan Carlos I da Espanha, seu cliente está à disposição do Ministério Público para qualquer procedimento ou ação que se considere oportuna.

A medida anunciada nesta segunda-feira se dá quase cinco meses depois que Felipe VI adotou, em 15 de março, sua decisão mais dolorosa: privar o pai da dotação de quase 200.000 euros (1,25 bilhão de reais) por ano que ele recebia em recursos públicos e renunciar a qualquer herança que lhe possa corresponder das contas dele no exterior. Mesmo considerando as dúvidas levantadas por essa decisão ―não se pode renunciar a uma herança enquanto não morre quem a concede―, seu significado era claro: o rei rompia as amarras com o pai, que encarnou a instauração da Monarquia constitucional na Espanha.

Os problemas de Juan Carlos I começaram em meados de 2018, quando agentes da Polícia Judiciária suíça enviados pelo procurador Yves Bertossa começaram a revistar a gestora de fundos de Arturo Fasana. Nessa investigação, Bertossa encontrou duas fundações com contas em bancos suíços. A fundação de Liechtenstein Zagatka, de Álvaro de Orleans, primo distante do rei emérito, que pagou voos particulares de Juan Carlos I e de Corinna Larsen; e a fundação panamenha Lucum, cujo primeiro beneficiário era Juan Carlos I e o segundo, Felipe VI.

Quando essa notícia veio a público, em março de 2020, o atual chefe de Estado anunciou que estava renunciando à herança de seu pai e informou que um ano antes Corinna Larsen havia enviado uma carta ao Palácio Zarzuela informando-o que o nome do atual Rei aparecia, junto com o de suas irmãs, como beneficiário dessa fundação. Na Casa Real se tomou a decisão de informar o Governo e recorrer a um cartório para rejeitar qualquer dinheiro dessas contas.

A investigação suíça revelou que em 8 de agosto de 2008 Arturo Fasana depositou na conta da Lucum no banco privado Mirabaud 100 milhões de dólares (530 milhões de reais) procedentes do Ministério das Finanças da Arábia Saudita. Quatro anos depois, o dinheiro foi transferido por ordem do então chefe de Estado para uma conta em Nassau (Bahamas) do banco Gonet & Cie em nome da empresa de fachada Solare, de propriedade de Corinna Larsen. Bertossa embargou as contas dos suspeitos e abriu um processo secreto de lavagem de dinheiro contra os envolvidos na criação da estrutura e no recebimento do dinheiro.

O rei emérito não está sendo investigado no momento, embora fontes judiciais suíças não descartem a possibilidade de que seja no futuro. As informações enviadas pela Suíça às autoridades judiciais espanholas levantaram dúvidas sobre o comportamento do rei emérito após junho de 2014, quando perdeu a blindagem constitucional da inviolabilidade. Embora já seja imputável, o rei emérito tem prerrogativa de foro no Supremo. Por isso, a procuradora-geral do Estado, Dolores Delgado, decidiu no início de junho que a Procuradoria do Tribunal Supremo deveria assumir o caso. Esta fase da investigação deve determinar se há indicações suficientes de que o ex-chefe de Estado tenha cometido algum delito desde que deixou o trono. Os investigadores trabalham fundamentalmente com dois: lavagem de capital (tentar ocultar a origem ilícita do dinheiro) e crime fiscal (uma fraude contra o tesouro público superior a 120.000 euros).



domingo, 2 de agosto de 2020

Charles Perrault / Chapeuzinho Vermelho



Charles Perrault

Chapeuzinho Vermelho 

Havia, numa cidadezinha, uma menina que todos achavam muito bonita. A mãe era doida por ela e a avó mais ainda. Por isso, sua avó lhe mandou fazer um pequeno capuz vermelho que ficava muito bem na menina. Por causa dele, ela ficou sendo chamada, em toda parte, de Chapeuzinho Vermelho.
Um dia em que sua mãe tinha preparado umas tortas, disse para ela:
– Vai ver como está passando tua avó, pois eu soube que ela anda doente. Leva uma torta e um potezinho de manteiga.
Chapeuzinho Vermelho saiu em seguida para ir visitar sua avó que morava em outra cidadezinha.
Quando atravessava o bosque, ela encontrou compadre Lobo que logo teve vontade de comer a menina. Mas não teve coragem por causa de uns lenhadores que estavam na floresta.
O Lobo perguntou aonde ela ia. A pobrezinha, que não sabia como é perigoso parar para escutar um Lobo, disse para ele:
– Eu vou ver minha avó e levar para ela uma torta e um potezinho de manteiga que minha mãe está mandando.
– Ela mora muito longe? – perguntou o Lobo.
– Oh! sim, – respondeu Chapeuzinho Vermelho. – É pra lá daquele moinho que você está vendo bem lá embaixo. É a primeira casa da cidadezinha.
– Pois bem, – disse o Lobo, – eu também quero ir ver sua avó. Eu vou por este caminho daqui e você vai por aquele de lá. Vamos ver quem chega primeiro.
O Lobo pôs-se a correr com toda a sua força pelo caminho mais curto. A menina foi pelo caminho mais longo, distraindo-se a comer avelãs, correndo atrás das borboletas e fazendo ramalhetes com as florzinhas que encontrava.
O Lobo não levou muito tempo para chegar à casa da avó. Bateu na porta: toc, toc.
– Quem está aí?
– É sua neta, Chapeuzinho Vermelho – disse o Lobo, mudando a voz. Eu lhe trago uma torta e um potezinho de manteiga que minha mãe mandou pra você.
A bondosa avó, que estava na cama porque não passava muito bem, gritou:
– Puxe a tranca que o ferrolho cairá.
O Lobo puxou a tranca e a porta se abriu. Ele avançou sobre a pobre mulher e devorou-a num instante, pois fazia mais de três dias que não comia. Em seguida, fechou a porta e foi se deitar na cama da avó. Ficou esperando Chapeuzinho Vermelho que, um pouco depois, bateu na porta: toc, toc.
– Quem está aí?
Chapeuzinho Vermelho, ao escutar a voz grossa do Lobo, teve medo, mas pensando que a voz de sua avó estava diferente por causa do resfriado, respondeu:
– É sua neta, Chapeuzinho Vermelho, que traz uma torta pra você e um potezinho de manteiga que minha mãe lhe mandou.
O Lobo gritou para ela, adocicando um pouco a voz:
– Puxe a tranca que o ferrolho cairá.
Chapeuzinho Vermelho puxou a tranca e a porta se abriu.
O Lobo, vendo que ela tinha entrado, escondeu-se na cama, debaixo da coberta, e falou:
– Ponha a torta e o potezinho de manteiga sobre a caixa de pão e venha se deitar comigo.
Chapeuzinho Vermelho tirou o vestido e foi para a cama, ficando espantada de ver como sua avó estava diferente ao natural. Disse para ela:
– Minha avó, como você tem braços grandes!
– É pra te abraçar melhor, minha filha.
– Minha avó, como você tem pernas grandes!
– É pra correr melhor, minha menina.
– Minha avó, como você tem orelhas grandes!
– É pra escutar melhor, minha menina.
– Minha avó, como você tem olhos grandes!
– É pra ver melhor, minha menina.
– Minha avó, como você tem dentes grandes!
– É pra te comer.
E dizendo estas palavras, o Lobo saltou pra cima de Chapeuzinho Vermelho e a devorou.


MORAL

Vimos que os jovens,
Principalmente as moças,
Lindas, elegantes e educadas,
Fazem muito mal em escutar
Qualquer tipo de gente,
Assim, não será de estranhar
Que, por isso, o lobo as devore.
Eu digo o lobo porque todos os lobos
Não são do mesmo tipo.
Existe um que é manhoso
Macio, sem fel, sem furor.
Fazendo-se de íntimo, gentil e adulador,
Persegue as jovens moças
Até em suas casas e seus aposentos.
Atenção, porém!
As que não sabem
Que esses lobos melosos
De todos eles são os mais perigosos.