segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Estanque / A proposição de Angelo Gonçalves

Estanque, exposição (proposição) de Angelo Gonçalves


Estanque

A proposição de Angelo Gonçalves

28 SETEMBRO 2020, 

 

Pois a arte – e afinal não vejo outra definição que englobe todas as demais – é uma atividade que consiste em produzir relações com o mundo, em materializar de uma ou outra forma suas relações com o tempo e o espaço.

(Nicolas Bourriaud)

Dificilmente resisto à tentação de procurar sentidos nas palavras, para além daqueles que elas contêm. O escritor argentino Julio Cortázar dizia que as palavras eram um mistério que ele gostava de desvendar, de penetrar, para criar novas relações, e revelações, mesmo, e sobretudo, nas palavras banais do quotidiano:

Yo parezco haber nacido para no aceptar las cosas tal como me son dadas.

Angelo Gonçalves é um artista que, como o escritor argentino, não aceita as coisas como lhe são dadas – usa os objetos (palavras) banais do quotidiano e com eles cria a sua arte. Uma arte que está em processo desde que ele começou a explorar, de forma mais densa e consciente, as camadas de significação que se ocultam sob os tetos das palafitas, das casas provisórias, da impermanência do que devia ser permanente e sólido. Mas, ao contrário de diversos artistas contemporâneos, que agem sobre os objetos artísticos anteriores, que habitam, e tomam para si, as artes de outros e atuam sobre elas, num processo a que o Nicolas Borriaud chama de pós-produção, Angelo Gonçalves atua sobre o real, sobre a materialidade dos objetos que são, quase sempre, restos e sobras da sociedade de consumo.


Estanque, exposição (proposição) de Angelo Gonçalves

Estanque é uma exposição e uma proposição – estancar é conter o curso dos líquidos, e é também esgotar-se, chegar a um ponto fixo, do qual não se consegue sair. O que não traduz o fluxo irreprimível do artista que apresenta, nessa exposição, 2 pinturas, 2 fotografias e 2 instalações construídas in situ. Nenhuma delas está estanque, pois são dialogantes – entre si mesmas e entre outras exposições do artista. Há, no entanto, um elemento comum: a água que está contida, representada através das palavras e das imagens, insinuada pelos recipientes que compõem os objetos, pelas manchas nas pinturas mas, efetivamente, ausente. A fragilidade das instalações corresponde à fragilidade da escultura fotografada que foi escolhida, pelo próprio artista, como a imagem desta exposição: uma palafita, com seus pilares à mostra, como desnudados pela água que parece rarear.


Estanque, exposição (proposição) de Angelo Gonçalves

Há outra fotografia, que acompanha esta imagem, que mostra o manancial seco, com a casa/palafita no meio, perdida entre as margens que se estendem e tomam o lugar outrora ocupado pela água. Em galego, estanque é o nome que se dá a uma barragem, a um tanque artificial. Como aquelas que estancam os rios que deveriam fluir.


Estanque, exposição (proposição) de Angelo Gonçalves

Como disse, mais que uma exposição, Angelo Gonçalves apresenta-nos uma proposição que é antagônica à ideia de estancar, de cortar o fluxo, de chegar a um ponto, aparentemente, final. Marcel Broodthaers afirmou que “desde de Duchamp, o artista é o autor de uma definição”. O artista, como Cortázar, define a função dos objetos nas suas criações, afastando-os da sua aparente banalidade e criando novos sentidos que podem estar estagnados num tempo e espaço definidos, mas que continuam o seu percurso para além do momento exato, e estanque, da sua criação.

MEER





sexta-feira, 25 de setembro de 2020

“Já não sou eu” / Os últimos dias de Robin Williams


Robin Williams em uma foto promocional tirada em 2013, um ano antes de sua morte.
Robin Williams em uma foto promocional tirada em 2013, um ano antes de sua morte.

“Já não sou eu”: os últimos dias de Robin Williams, um gênio que estava se quebrando por dentro

O ator se suicidou apenas seis meses depois de começar a notar os sintomas da demência com corpos de Lewy, uma doença que ele nunca soube que sofria. Um novo documentário nos apresenta os últimos dias de um dos comediantes mais brilhantes da história




Juanjo Villalba
22 sep 2020

Você pode imaginar a dor que ele deve ter sentido quando percebeu que sua mente estava se desintegrando? E além disso, devido a algo desconhecido", diz Susan Schneider Williams, viúva de Robin Williams, no novo documentário que narra os últimos meses de sua vida, Robin’s Wish (“o desejo de Robin”), dirigido por Tylor Norwood.

Na manhã de 11 de agosto de 2014, Susan se levantou logo e, como sempre, esperava encontrar Robin já de pé, andando pela casa e disposto a praticar uma hora de meditação. Já fazia meses que era evidente que algo não estava bem na cabeça de seu marido. Williams tinha dificuldades para atuar, para lembrar suas falas, para se relacionar com seus amigos e sair de casa, dormia muito mal, seu braço esquerdo não respondia, e ficava obcecado com coisas absurdas —como uma noite em que se convenceu de que um de seus melhores amigos, o comediante Mort Sahl, ia morrer antes do amanhecer e ligou insistentemente para ele, com o consequente desespero porque não obtinha resposta. Mort continua vivo; naquele dia, estava dormindo.

A meditação era uma das poucas coisas que o ajudavam a se sentir melhor. “Meditávamos juntos todas as manhãs. Quando me levantei e vi que a porta do quarto dele ainda estava fechada, pensei: ‘Meu Deus, está dormindo! É um ótimo sinal’”, conta Susan no documentário. “Então chegou o assistente dele, porque tinham trabalho a fazer e já era hora de sair, e eu lhe disse: ‘Mande-me uma mensagem quando ele acordar’. Logo depois, recebi uma que dizia: ‘Ainda não se levantou, o que devo fazer?’”, prossegue. “Aí vi que tinha algo errado, muito errado. Respondi: ‘Acorde-o imediatamente e me chame’. Ele me chamou e…”.

Robin Williams se enforcou durante aquela noite em um armário do quarto em que dormia sozinho devido a seus problemas de insônia e ao fato de que, por sua doença, tinha alucinações que o faziam gritar de madrugada. Quando a notícia foi divulgada, o bairro tranquilo em que viviam no norte de San Francisco, onde Williams gostava de se comportar como qualquer outro morador, foi tomado por jornalistas, câmeras de televisão, caminhões com antenas enormes e até um helicóptero que fazia imagens aéreas da área. Nas semanas seguintes, a mídia não parou de especular sobre as causas do suicídio: drogas, depressão, transtorno bipolar e bancarrota.

Desde a morte de Robin Williams, sua viúva, Susan Schneider Williams, promove ações de conscientização sobre a demência com corpos de Lewy.
Desde a morte de Robin Williams, sua viúva, Susan Schneider Williams, promove ações de conscientização sobre a demência com corpos de Lewy. 



Ninguém tinha razão, mas ainda há pessoas que pensam que essas coisas tiveram algo a ver. O documentário não se detém muito nas especulações da mídia após a morte de Williams. Enfoca o que ocorreu alguns meses depois, em outubro de 2014, quando Susan recebeu o resultado da autópsia e descobriu que, na verdade, a causa de tudo aquilo foi a demência com corpos de Lewy.

“A demência com corpos de Lewy é uma doença devastadora”, resume no documentário o médico Bruce Miller, diretor do Centro de Memória e Envelhecimento da Universidade da Califórnia em San Francisco, que tratou pessoalmente do caso do ator. “É letal e evolui rapidamente. Analisando como afetou o cérebro de Robin, descobri que foi o caso mais agressivo de Lewy que já vi em todos os meus anos de carreira. Praticamente todas as áreas de seu cérebro tinham sido afetadas. É realmente surpreendente que pudesse se mover e caminhar”. Ele finaliza: “As pessoas com cérebros excepcionais, que são incrivelmente brilhantes, costumam resistir e tolerar melhor as doenças degenerativas do que as que têm um cérebro normal. Isso demonstra que Robin Williams era um gênio”.

Essa doença se caracteriza pelo acúmulo de uma proteína em determinadas áreas do cérebro, formando placas (os chamados corpos de Lewy) bastante semelhantes às que podem ser observadas nas doenças de Alzheimer e de Parkinson, ambas com sintomas muito similares. Esses acúmulos fazem com que o cérebro não funcione corretamente. “Quando li os sintomas: mudanças de humor, problemas de movimento, depressão, medos, ansiedade, alucinações, problemas de sonho, paranoia…”, comenta Susan sobre esse momento em que percebeu que tudo se encaixava. “Se simplesmente tivéssemos sabido o nome da doença que Robin tinha, só isso já teria lhe dado um pouco de paz”. Mas esse tipo de demência só pode ser diagnosticado depois da morte do paciente.

“Ele estava muito frustrado. Lembro que me disse: ‘Já não sou eu. Não sei o que está acontecendo comigo. Já não sou eu’”, conta Shawn Levy, diretor de Uma Noite no Museu 3: O Segredo da Tumba, seu último filme, que foi um inferno para o ator. “Quando estávamos com um mês de rodagem, era evidente que algo estava acontecendo com ele. Sua mente já não funcionava com a mesma velocidade. Sua chispa tinha se apagado. Tivemos de reformular algumas cenas para que pudesse gravá-las, foi mais trabalhoso para mim, mas faria qualquer coisa por Robin”.

“Ele sofreu muito durante a filmagem”, continua Levy. “Telefonava às dez da noite, às duas, às quatro da manhã, perguntando: ‘O que gravamos hoje poderá ser usado? Estou indo bem?’. Eu tinha de tranquilizá-lo o tempo todo, dizia-lhe: ‘Você continua sendo você, todo mundo sabe. Não se esqueça disso, por favor’”.

O legado do ator

O legado de Robin Williams é vasto e vai muito além dos filmes e de seu trabalho como ator. Desde o começo de sua carreira, dedicou-se a visitar hospitais (não parece coincidência que tenha interpretado o médico Patch Adams), organizou eventos beneficentes em favor da alfabetização e dos direitos das mulheres, e viajou ao Afeganistão, ao Iraque e a outros 11 países para animar as tropas americanas enviadas para lá.

Para o grande público, entretanto, Williams será lembrado por suas interpretações como o gênio de Aladdin, o professor de Sociedade dos Poetas Mortos, O Pescador de Ilusões e Uma Babá Quase Perfeita. “Acompanhei Robin por dois dias nas sessões de dublagem de Aladdin e vê-lo trabalhar fazendo todos aqueles personagens foi incrível”, conta o ator Stanley Wilson, amigo de Williams. “Estava fora de si, estava tão feliz! Dizia aos técnicos: ‘Espere, vamos fazer outra tomada. Tenho uma ideia e acho que o posso fazer melhor’. ‘O que você quer dizer com isso de que pode fazer melhor?’, respondiam eles, chorando de tanto rir”.

“Algumas das coisas mais divertidas dos filmes Uma Noite no Museu são ideias que Robin teve na hora. Havia muita improvisação”, destaca Shawn Levy. “Às vezes, Ben Stiller e eu nos olhávamos alucinados por estar vendo Robin Williams em todo seu esplendor. Essa espécie de loucura, incrivelmente criativa, um poço sem fundo de ideias, essa capacidade, era como um superpoder”.

Depois que soube a causa real da morte de Robin, sua mulher, Susan, percorreu os estúdios de televisão mais importantes dos Estados Unidos para contar a verdade sobre a morte de seu marido e também para conscientizar o grande público sobre a demência com corpos de Lewy, uma tarefa à qual continua dedicando todos os seus esforços e que também é um dos motivos fundamentais da gravação deste documentário, filmado em colaboração com várias associações médicas dos EUA.

“O cérebro é uma glândula extraordinária. Quando você acha que conseguiu entendê-lo, ele surge com algo novo”, diz Robin Williams em uma das entrevistas que aparecem no documentário. Em vários outros momentos do filme, aparecem fragmentos nos quais o comediante fala de uma ou outra forma sobre cérebro, sobre como nos surpreende, como nos deslumbra. É como se o assunto o obcecasse, e o fato é que, desde que a doença começou a lhe causar sérias dificuldades até o momento em que decidiu acabar com a própria vida, passaram-se apenas seis meses. Seu cérebro era sua ferramenta, seu superpoder, e Williams não conseguiu suportar que parasse de funcionar como sempre.

EL PAÍS





quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Martin Luther King, um líder moral ou um adúltero mentiroso

 

Martin Luther King



Martin Luther King, um líder moral ou um adúltero mentiroso

Documentário ‘MLK/FBI’, que estreou no Festival de Toronto, expõe a campanha de difamação contra o ativista realizada pelo FBI com o apoio da Casa Branca


Irene Crespo
Madri, 17 sep 2020

Em 28 de agosto de 1963, o movimento pelos direitos civis nos EUA deu o grande salto. Tomou Washington em uma marcha histórica que tirou a luta das cidades do sul e a tornou uma exigência nacional e internacional. Martin Luther King fez seu famoso discurso I have a dream naquele dia, e enquanto isso, não muito longe dali, era observado com muito receio. J. Edgar Hoover, que foi diretor do FBI durante 48 anos, há muito temia o aparecimento de “um messias negro” e naquele dia isso se cumpriu.

O braço direito de Hoover, chefe da inteligência nacional, William C. Sullivan, declarou e deixou por escrito na época que Martin Luther King Jr. “era o homem negro mais perigoso da América”. “Temos que usar todos os nossos recursos para destruí-lo.” A máquina do FBI foi colocada em funcionamento e teve início uma campanha de descrédito contra o ativista, uma perseguição que começou grampeando seus telefones e os de seus aliados, continuou colocando microfones onde quer que fosse e acabou com uma longa rede de confidentes de seu círculo mais íntimo, entre eles seu fotógrafo Ernest C. Withers. “A tal ponto que no dia em que o assassinaram já não estavam mais grampeando seus telefones porque tinham uma cobertura de informantes muito boa”, explica Sam Pollard, diretor do documentário MLK/FBI, que estreou no Festival de Toronto. O filme expõe esse obscuro episódio da inteligência norte-americana apoiando-se em documentos desclassificados recentemente, que confirmaram a obsessão pessoal de Hoover por King.

Apresentado por meio de material audiovisual de arquivo, incluindo imagens nunca vistas, como algumas da histórica marcha ou pessoais da vida de King, o documentário quer ser, nas palavras de seu diretor, “uma chamada de atenção”. É uma apresentação de duas faces dos Estados Unidos: a de Hoover e a de King. Dois homens que se projetavam como heróis e líderes morais, que representavam duas formas de entender a liberdade e o que significava e significa ser americano. Uma mensagem que ressoa hoje em meio ao novo ressurgimento do Black Lives Matter em conflito com o Governo Trump.

“O filme é extremamente oportuno, mas eu diria que sempre o será no zeitgeist americano, porque os problemas raciais nunca irão embora”, diz Pollard. “Somos um país que está sempre lutando contra problemas raciais porque está fundado nas costas de escravos negros”.


Em plena Guerra Fria, em sua luta aberta contra o comunismo, o primeiro ponto fraco que encontraram contra Martin Luther King foi seu amigo e assessor, o advogado Stanley Levison. O próprio procurador-geral dos EUA, Bobby Kennedy, que em público defendia o ativista, aprovou as escutas telefônicas para revelar essa possível motivação comunista no movimento pelos direitos civis. E seu irmão, o presidente John F. Kennedy, também estava ciente. Mas o que nenhum dos dois sabia é que graças a essa instalação de espionagem logo tiveram que descartar a conexão comunista e encontraram outra suculenta fraqueza: a vida privada do pastor.

Foi na casa de um de seus colaboradores mais próximos, que também é um dos entrevistados no documentário, Clarence Jones. Seus telefones também tinham sido grampeados e lá descobriram a relação extraconjugal de King. Para Hoover aquilo desacreditava por completo a moralidade do líder pacifista e ampliou a perseguição: o observavam em quartos de hotel onde se encontrava com outras mulheres, o seguiam por todo o país, e os agentes federais que descobriam algo sobre sua vida adúltera eram recompensados.


No entanto, por mais que Hoover e seus homens mandassem relatórios a outros ativistas, à imprensa, nada vinha à tona. Nervosos, quando ganhou o Nobel da Paz chegaram a enviar-lhe uma carta ameaçadora, chantageando-o com a publicação de tudo se não saísse do caminho.

Hoover o chamou de “o maior mentiroso do mundo”, King se defendeu e a disputa pública acabou no único encontro físico que tiveram a portas fechadas. Nem as escutas telefônicas acabaram nem o ativista interrompeu sua luta. Mas uma pesquisa realizada na época sobre a popularidade de ambos os líderes deixou bem claro o conservadorismo reinante no país: Hoover alcançou 50% de apoio e MLK, apenas 15%. Era aquela ideia popularizada do FBI como herói e salvador dos EUA diante de um homem que queria revolucionar o país.

O FBI continuou tão empenhado em acabar com Martin Luther King que nunca cumpriu sua função protetora. Não o avisava das ameaças e inclusive, depois de seu assassinato, Hoover só concordou em fazer uma investigação depois de forte pressão. De fato, de acordo com os historiadores entrevistados em MLK/FBI, sua obsessão pessoal com o pastor reduz a credibilidade dos documentos oficiais.

Pollard encarou o documentário refletindo sobre se o surgimento das provas da vida adúltera de King, sua provável presença em um estupro, poderia alterar seu legado, sabendo que as gravações feitas pelo FBI poderão ser ouvidas em 2027. Isso mudará a ideia do autor de I have a dream? “Não existem seres humanos perfeitos, as pessoas são complexas e isso não tirará o valor de todas as coisas boas que fez”, responde no documentário James Comey, o diretor do FBI que durante sua gestão teve sobre sua mesa a petição original de Hoover a Kennedy para iniciar as escutas de King. Um lembrete do mau uso e abuso de poder.



quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Elena Ferrante / ‘A vida mentirosa dos adultos’



Leia trecho do novo livro de Elena Ferrante, ‘A vida mentirosa dos adultos’


Elena Ferrante, o pseudônimo sob o qual se esconde a enigmática autora dos quatro volumes da saga ‘A amiga genial’, volta a surpreender com um novo romance aclamado pela crítica


Elena Ferrante
4 Sep 2020



Segundo Angela, eu não contava mais nada de divertido sobre aquele assunto. Bem, era verdade que eu havia parado com as histórias desbocadas, mas só porque me parecia infantil exagerar minhas parcas experiências e também porque eu não tinha nenhum material mais concreto. Desde a consolidação do relacionamento com Roberto e Giuliana, eu havia mantido distante meu colega de escola, Silvestro, que, depois do episódio do lápis, grudara em mim e propusera um namoro secreto. Mas, sobretudo, eu havia sido duríssima com Corrado, que continuara com suas propostas, e cautelosa, mas firme, com Rosario, que em intervalos fixos aparecia na porta da escola e propunha que eu o acompanhasse ao seu apartamento na Via Manzoni. Aqueles três pretendentes pareciam pertencer a uma humanidade degradada da qual, por azar, eu fizera parte. Angela, por sua vez, parecia ter se tornado outra pessoa, traía Tonino e não poupava nem a mim nem a Ida dos detalhes das relações ocasionais que mantinha com colegas de escola e até com um professor de mais de cinquenta anos, tanto que ela mesma fazia caretas de asco enquanto falava a respeito.

Aquele asco me abalava, era genuíno. Eu o conhecia e tinha vontade de lhe dizer: você não consegue esconder, vamos falar a respeito. Mas nunca falamos, parecia que o sexo devia necessariamente nos entusiasmar. Eu mesma não queria admitir, nem para Angela nem para Ida, que preferia virar freira a voltar a sentir o fedor de latrina de Corrado. Além disso, eu não queria que Angela interpretasse aquela minha falta de entusiasmo como um ato de devoção em relação a Roberto. E também, vamos admitir, a verdade era difícil. O asco tinha suas ambiguidades, difíceis de pôr em palavras. O que me enojava em Corrado talvez não me causasse nojo em Roberto. Então eu me limitava a identificar contradições e dizia:

— Por que você continua com Tonino se faz essas coisas com outros?

— Porque Tonino é um bom rapaz e os outros são uns porcos.

— E você faz essas coisas com porcos?

— Faço.

— Por quê?

— Porque gosto do jeito como eles me olham.

— Faça Tonino olhar para você da mesma maneira.

— Ele não olha assim.

— Talvez não seja homem — disse Ida uma vez.

— Pelo contrário, é muito homem.

— E então?

— Não é um porco, só isso.

— Não acredito — disse Ida —, não existem homens que não são porcos.

— Existem — falei pensando em Roberto.

— Existem — disse Angela, e citou com expressões fantasiosas as ereções de Tonino assim que encostava nela.

Acho que foi enquanto ela falava, achando graça daquilo, que senti falta de uma discussão séria sobre o tema, não com elas, mas com Roberto e Giuliana. Roberto teria se esquivado? Não, eu tinha certeza de que teria respondido e encontrado, também naquele caso, uma maneira de tecer raciocínios muito articulados. O problema era o risco de parecer inoportuna aos olhos de Giuliana. Por que enfrentar aquele tema na presença do seu noivo? Afinal, tínhamos nos visto seis vezes, sem contar o encontro na Piazza Amedeo, e quase sempre por pouco tempo. Portanto, objetivamente, não tínhamos tanta intimidade. Embora ele tivesse a tendência de sempre dar exemplos muito concretos quando debatia grandes questões, eu não teria coragem de perguntar: por que, se cavamos um pouco, encontramos o sexo em qualquer coisa, mesmo nas mais elevadas; por que, para definir o sexo, um só adjetivo é insuficiente, são necessários vários — constrangedor, insosso, trágico, alegre, prazeroso, asqueroso —, e nunca um de cada vez, todos juntos; é possível um grande amor se privar de sexo, é possível que as práticas sexuais entre homem e mulher não estraguem a necessidade de amar e ser correspondido? Eu imaginava essas e outras perguntas, com um tom distante, talvez um pouco solene, para evitar, sobretudo, que tanto Giuliana quanto ele pudessem pensar que eu queria bisbilhotar a vida privada deles. Mas eu sabia que jamais as faria. No entanto, insisti com Ida:

— Por que você acha que não existem homens que não são porcos?


— Eu não acho, eu sei.


— Então Mariano também é um porco?


— Claro, ele vai para a cama com a sua mãe.


Tive um sobressalto, disse gelidamente:


— Eles se encontram de vez em quando, mas como amigos.


— Eu também acho que são apenas amigos — interveio Angela.


Ida balançou energicamente a cabeça, repetiu decidida: não são apenas amigos.


— Não beijo homens, me dão nojo — exclamou.


— Nem um homem bom e bonito como Tonino? — perguntou Angela.


— Não, eu só vou beijar mulheres. Querem ouvir um conto que eu escrevi?


— Não — disse Angela.


Olhei em silêncio para os sapatos de Ida, que eram verdes. Lembrei que seu pai havia olhado para o meu decote.

A vida mentirosa dos adultos, Elena Ferrante. Tradução de Marcello Lino. Intrínseca, 2020.


quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Coringa / O vilão mais carismático, completa 80 anos

Cena da HQ ‘A piada mortal’.
Cena da HQ ‘A piada mortal’

Coringa, o vilão mais carismático, completa 80 anos

Na Espanha, duas HQs homenageiam o inquietante personagem, que inspira debates filosóficos sobre a liberdade



TOMMASO KOCH
Madri - 20 JUN 2020 - 15:40 COT


Uma última gargalhada estrondosa. E depois, o silêncio. O palhaço jazia imóvel no chão. Mas seu rosto continua sorrindo, para sempre. Porque a carreira original do Coringa era para durar apenas 30 páginas. O tempo de envenenar Gotham, sequestrar Robin, enfiar um par de sopapos no Homem-Morcego e disparar o primeiro “vou te matar” da sua relação. Na briga final do Batman nº 1, o “horripilante bufão” sofria um final digno de sua desumana ironia: ao tropeçar, cravava sua própria adaga no peito. Assim decidiram e desenharam seus pais, os artistas Bill Finger, Bob Kane e Jerry Robinson. Entretanto, o criminoso mostrou, já em sua primeira aventura, um enorme talento para se rebelar contra a ordem estabelecida. Seu carisma seduziu a editora DC Comics, que impôs o acréscimo de um quadrinho. Já dentro da ambulância, vinha à tona “um dado desconcertante”. E então um médico sentenciava: “Continua vivo. E vai sobreviver!”.

Era o final de abril de 1940, mas o diagnóstico continua sendo mais do que válido. O Joker acaba de completar 80 anos, e sua saúde não mostra nenhum abalo. Tampouco a idade o aburguesou ou saciou sua sede de revolução, muito pelo contrário. Duas HQs comemorativas acabam de ser lançadas nos EUA reunindo suas melhores histórias —na Espanha, sairão em outubro e novembro pela ECC Ediciones—. Oito décadas de delírio e sadismo, de caos e surpresas. E inclusive de debates filosóficos: há quem o considere marxista, existencialista ou a mais pura encarnação do super-homem teorizado por Nietzsche. “É o vilão mais interessante e o único que compete em fama com heróis como Superman, Homem-Aranha, Mulher-Maravilha e Batman. Ele é um exemplo de pura liberdade”, diz Robert G. Weiner, coautor, com Robert Moses Peaslee, do ensaio The Joker: A serious study on the clown prince of crime (“Coringa: um estudo sério sobre o príncipe-palhaço do crime”, em tradução livre).


Cena do filme 'O homem que ri' (1928), cujo personagem inspirou o estilo do Coringa. Cena do filme 'O homem que ri' (1928), cujo personagem inspirou o estilo do Coringa. WARNER BROS

Trazer o caos


De fato, embora tenha nascido como um gânster —inspirado no filme O homem que ri (1928), de Paul Leni—, o Coringa mudou de identidade várias vezes. Parecia um hippie na série televisiva dos anos 1970, foi hacker, gênio da química, e virou terrorista no século XXI. “Agora encarna todos os medos que não podemos controlar, o imprevisto. Se Batman luta pela ordem, o Coringa procura trazer o caos”, explica Gustavo Martínez, editor na ECC. Seu riso foi menos contagiante nos anos 1970, quando fracassou uma tentativa de lhe dedicar uma série de HQs própria. Mas seu pesadelo nunca sai de moda; ao invés disso, adapta-se à época. Tanto que sua última encarnação cinematográfica voltou a gerar polêmicas: após ganhar o Leão de Ouro em Veneza, o FBI avisou que Coringa, de Todd Phillips, podia estimular a violência; foi louvado ou atacado como ode anticapitalista, hino de esquerda ou de direita, segundo quem o veja.

Afinal de contas, o Coringa pode ser qualquer coisa. Tanto que uma teoria aponta que, por trás da sua identidade, se esconderia Alfred, o célebre mordomo do Batman. “Vai além de qualquer classificação ou integração dentro de uma estrutura de poder. Talvez por isso sua origem e seu fim sempre devam se manter indetermináveis”, lê-se na antologia Riddle me this, Batman!: Essays on the universe of the Dark Knight. Para desenhistas e roteiristas, representa o éden da liberdade. No fundo, o próprio vilão costuma convidar os leitores a desconfiarem do que se conta sobre seu passado. E até seus três criadores oferecem versões discrepantes sobre como o geraram.

Joaquin Phoenix no final de 'Coringa' (2019).
Joaquin Phoenix no final de 'Coringa' (2019). WARNER



Assim, cada novo artista lhe põe a maquiagem que preferir: um homem destruído pela morte de sua mulher grávida, ou a vítima dos abusos paternos; um desequilibrado sem escrúpulos ou a demonstração viva de que louca mesmo é sociedade. Uma mente, definitivamente, indecifrável, e por isso tão fascinante como inquietante, assim como sua fantasia de palhaço. O Coringa é uma piada tremendamente incômoda. “É igualmente provável que lhe mate ou lhe deixe viver. Fascina-me que nunca pague seus colaboradores. No máximo, não os assassina. E ainda assim sempre há gente disposta a trabalhar com ele”, observa Weiner.

Tamanha defesa da liberdade para todos leva o Coringa a ser comparado a Jean-Paul Sartre. Foi visto também como anarquista, por sua luta antissistema, ou sequaz de Marx, quintessência da luta proletária. Para outros, sua vontade de poder a todo custo e sem temor a nada coroa o manifesto filosófico de Nietzsche. Embora, entre tantas teorias, talvez a mais terrível seja a de A piada mortal. Na HQ escrita por Alan Moore, o Coringa simplesmente é um sujeito que teve o azar de perder tudo. “Basta um dia ruim para mergulhar o homem mais cordato do mundo na loucura!”, dispara o vilão. E um dia ruim, como se sabe, qualquer um pode ter.

Primeira aparição de Coringa,em edição em espanhol de 'Batman 1' (abril de 1940).Primeira aparição de Coringa,em edição em espanhol de 'Batman 1' (abril de 1940).ECC EDICIONES

Leituras selecionadas

Junto com o Coringa, em 2020 também completam 80 anos Robin e a Mulher-Gato. Daí que Gustavo Martínez, editor na ECC Ediciones, aceite selecionar uma série de HQs para tentar abranger a história dos três personagens. Do vilão, recomenda ler A piada mortal e Um sorriso de matar. Para o mais célebre ajudante do Batman, sugere Robin: Ano um, Jovens Titãs: Ano um e Asa Noturna: Volume 1.

EL PAÍS



sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Elizabeth Taylor / Mrs Palfrey no Claremont



 Margarida Periquito
 9789896419844
 01/2020
 184
 15,3 X 23,3 x 1 cms
 Capa Mole

 290 gr


Mrs Palfrey 

no Claremont

«Nomeado pelo The Guardian como um dos “100 melhores romances de sempre” e finalista do Man Booker Prize, Mrs Palfrey no Claremont é uma visão irónica e compassiva da amizade entre uma mulher de idade e um jovem autor, escrita por uma romancista magnífica, o elo de ligação que faltava entre Jane Austen e John Updike.» [Independent]
Numa chuvosa tarde de domingo, em janeiro, Mrs Palfrey, que recentemente se tornara viúva, chega ao Hotel Claremont, onde irá passar o resto dos seus dias.

Os outros hóspedes são pessoas — altamente perturbadas e excêntricas — que vivem de migalhas de afeição e de um interesse obsessivo pelas refeições servidas no hotel. Juntos, lutam contra os seus inimigos gémeos: o tédio e a morte.

Até que, um dia, Mrs Palfrey conhece o jovem e belo escritor Ludo, dando início a uma amizade pouco convencional…



SOBRE A AUTORA

Elizabeth Taylor

Elizabeth Taylor nasceu em Reading, no Berkshire, na Grã-Bretanha, em 1912. Estudou na Abbey School e trabalhou como governanta e bibliotecária antes do seu casamento em 1936. «Aprendi muito com esses empregos», escreveu, «e nunca lamentei o tempo que passei neles.» Viveu em Penn, no Buckinghamshire, durante a vida de casada. O seu primeiro romance, At Mrs Lippincote’s, foi publicado em 1945, sendo segui- do de vários outros.Ao mesmo tempo, escrevia contos, publicados em diversas revistas e reunidos em quatro volumes, e um livro para crianças, Mossy Trotter.Elizabeth Taylor ficcionou perspicazes e comoventes personagens da classe média inglesa.Morreu em 1975. Com o passar dos anos, foi sendo reconhecida como uma grande romancista por escritores como Sarah Waters, Elizabeth Bowen e Kingsley Amis.

RA


FICCIONES

DE OTROS MUNDOS

MESTER DE BREVERÍA







quinta-feira, 20 de agosto de 2020

García Márquez / “Pablo Escobar não podia distinguir entre o bem e o mal”

Gabriel García Márquez e Mercedes Barcha


García Márquez:
“Pablo Escobar não podia distinguir entre o bem e o mal”

O escritor leu para um grupo de jornalistas o rascunho de 'Notícia de um Sequestro'



ROSA MORA
Madrid, 25 jul 2019
ARQUIVO | 7 DE SETEMBRO DE 1995

“Antes de entrar no automóvel olhou por cima do ombro para ter certeza de que ninguém a seguia”. São as primeiras linhas do primeiro capítulo do novo livro de Gabriel García Márquez. Ele as leu para 12 privilegiados jovens jornalistas e poucas pessoas mais em Miraflores de la Sierra (Madri). Ali, quase em segredo, o escritor colombiano realizou um curso —“uma oficina”, corrigiu ele— de jornalismo, organizada por sua Fundación para el Nuevo Periodismo e pela Escola de Jornalismo do EL PAÍS – Universidade Autônoma de Madri. E esse livro, que não é um romance, sobre o narcotráfico na Colômbia é uma longa reportagem. Tudo que conta nele é informação cem por cento investigada e verificada durante três anos.


“Há apenas um mês esse livro tinha 700 páginas, agora tem 400”, disse. Provavelmente, terminará com 380 ou 450, depende do que eliminar ou acrescentar. A cópia que ontem mostrou é a 11ª versão que ele elabora e existirão muitas outras antes de publicar. “Eu digo para mim mesmo que sairá no Natal, sabendo que será um pouco depois”. Ainda não tem título definitivo. Pode ser Notícia de um Sequestro ou Os Longos Dias do Sequestro ou até Reportagem. De qualquer forma, será um dos livros mais esperados de 1996 e, sem dúvida, será uma aula de jornalismo e de literatura. Do livro, de jornalismo e de literatura García Márquez falou ontem com uma paixão contagiosa. Notícia de um Sequestro relata o caso de nove sequestros de jornalistas na Colômbia, ordenados pelo narcotraficante Pablo Escobar. “Sabia que não tinha saída e que a polícia ou seus rivais acabariam matando-o”. Por isso era melhor se entregar e usar esses jornalistas para pressionar o Governo e negociar suas condições de entrega. “César Gaviria [então presidente da Colômbia], com toda a dor de sua alma, não podia legislar para libertar os sequestrados”. Foi então uma negociação muito longa, durou quase um ano.

García Márquez não queria, de jeito nenhum, que Escobar aparecesse como protagonista do livro, por isso o traficante terminou como uma sombra esfumaçada. “Setecentas páginas me convenceram de que Escobar não podia distinguir entre o bem e mal”.

Já fazia tempo que o escritor queria voltar ao jornalismo. “Faz uns anos, o pão foi envenenado em uma cidade. Pensei que essa seria a reportagem perfeita, mas abri a boca e quando cheguei lá estavam todos os jornalistas da Colômbia para contar como Gabo fazia uma reportagem. Desisti”.


Longa investigação



Um tempo depois, ele se encontrou com Maruja Pachón de Villamizán, uma das sequestradas. Aí começou tudo. Fez uma longuíssima entrevista com Maruja e seu marido, Alberto Villamizán, pensando em escrever uma história. Logo se deu conta de que não podia dispensar o contexto. Investigou, entrevistou outros sequestrados sobreviventes, muita gente e foi surgindo a história. Vai entregar o livro a esses sobreviventes para que leiam antes de sua publicação. “Até para que apontem discordâncias se quiserem”.

“Foi fascinante voltar ao jornalismo e, além disso, sem um chefe de redação. Conto a rigorosa verdade, inclusive a parte mais subjetiva do que me contaram”. Esse esforço pela objetividade não oculta o estilo muito pessoal de García Márquez. “Não dá para dissimular. A voz do escritor precisa ser sempre a mesma”. García Márquez explicou ontem que articulou o livro em torno de dois mundos, o interno, o dos sequestrados pelo que tinham informação do que acontece no mundo, e o exterior, o dos familiares e amigos que ignoram tudo sobre os detidos, inclusive se estão vivos ou mortos. Dedica os artigos ímpares aos sequestrados e os pares aos que estão fora. O primeiro, esplêndido, relata o sequestro de Maruja e de Beatriz, sua cunhada.

As páginas que ontem o escritor leu já incluíam novas correções. “Faltam detalhes de interesse, embora não sejam indispensáveis. Por exemplo, falta um pouco de humor, embora eu sei que nos casos de sequestros nunca há humor”. Entre risadas explicou outra de suas manias: “Gosto que em meus livros todos os capítulos tenham o mesmo número de páginas. É um desafio e uma imbecilidade, mas eu gosto”. E com esse, está um pouco preocupado porque um capítulo é mais comprido que os outros, tem 43 páginas. Acha que poderá encontrar uma solução. Outro dos problemas que apresentou é o dos nomes. Primeiro cria o nome e depois o personagem ganha vida, cresce, explicou. E agora não conseguiu fazer isso. É uma reportagem.

“Quero convencer uma geração inteira de que a maneira mais limpa de competir é com a reportagem”, explicou a seu público entusiasmado. Nesse livro, disse, cuidou ao máximo os detalhes e não inventou nada. “Os escritores e os jornalistas ganham em credibilidade se tivermos muito cuidado com os detalhes”. Outro truque para conquistar o leitor é captar sua atenção e não deixar que ela se perca em nenhum momento. Tanto em um romance quanto em uma reportagem “o final de cada linha precisa manter o suspense para obrigá-lo a ler a seguinte”.

NA PELE DO TERROR




Gabriel García Márquez passou três anos submerso em um mundo terrível, o do narcotráfico. Não sentiu medo, disse, porque escreveu sobre uma história já passada, mas omitiu dados que poderiam ser perigosos para algumas pessoas. Enfiou-se na pele do terror e ontem transmitiu com tanta força esse sentimento que os ouvintes ficaram impressionados. Marisa Montoya, irmã do secretário da Presidência da Colômbia, foi sequestrada e assassinada. Entre ela e seus jovens sequestradores estabeleceu-se uma relação especial. Eles a chamavam de avó, ela os obrigava a rezar o terço. “Avó, prepare-se que vamos levá-la para outro lugar”, disseram um dia.

“Ela deve ter pensado que iam libertá-la. Penteou-se, pediu que a maquiassem, se arrumou, até conseguiu um pouco de perfume. Depois colocaram um capuz na cabeça dela, desses com buracos para os olhos e a boca. Colocaram-na no carro. Andaram apenas seiscentos metros, pararam e deram seis tiros nela”. E acrescentou García Márquez, com voz emocionada: “Seu irmão nunca fez nada, não moveu um dedo”. Nem sequer quis saber nada quando o escritor ofereceu-se para mostrar todo o material que tinha reunido.

Não foi o caso da mãe de Diana, outra jornalista sequestrada e que morreu por acidente depois de um cruzamento de tiros quando era transferida de lugar. “A mãe se agarrou ao presidente Gaviria, começou a persegui-lo, chegou a vê-lo quatro vezes. Disse que se sua filha morresse ele seria o responsável”.

Depois do tiroteio, Diana, gravemente ferida, foi transferida a um hospital em Cali.

Sua mãe disse a Gaviria: “Minha filha morreu e você é o responsável”. “Não morreu”, respondeu o presidente. “Morreu”, insistiu ela. “Não. Estou em contato com a polícia de Cali de forma permanente e me disseram”, rebateu. “Morreu”, repetiu. “Como sabe?”. “Porque é minha filha e é o que diz meu coração”. “Nesse momento, Diana tinha morrido”, concluiu García Márquez.

Todo mundo teria continuado escutando-o por horas.