quarta-feira, 27 de maio de 2015

Fernando Pessoa / Poema em linha reta

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Hoje, vivemos na sociedade do instantâneo, que louva apenas os nossos méritos. Basta abrirmos o facebook, o twitter, o instagram, ou qualquer outra rede social, que nos deparamos com fotos impecáveis, belos sorrisos, ângulos perfeitos, maquiagem feita e os cabelos produzidos. Somos assim? Acordamos assim? Tem jeito de embelezar a vivência humana no photoshop?
E isso não é exclusividade da internet. As revistas de salão, que cavucam a privacidade das personalidades públicas, colocam nas suas páginas imagens de pessoas perfeitas vivendo vidas perfeitas em castelos na Irlanda. Que coisa linda! Esfregando na nossa cara, dos pobres cidadãos comuns, o quanto estamos aquém dessa realidade paralela e irrepreensível. Vomitando sem cessar nos nossos ouvidos que aquilo é o ideal, e que devemos nos esforçar freneticamente para tentar alcançar os padrões dos famosos, os tão maravilhosos donos do quimérico modelo de perfeição.
Porém, muito nos enganamos ao achar que isso é só problema da contemporaneidade - ah, a nossa prepotência! Alguns indivíduos, espalhados no tempo, tiveram a sensibilidade de perceber o que hoje é escancarado aos nossos olhos. O registro que escolhi foi escrito por um homem nascido em 1888. Notem que é uma tendência histórica da nossa espécie esconder tudo que “queima nosso filme”, deixando à mostra apenas nossos êxitos.


Fernando Pessoa, português, múltiplo, escreveu o poema em questão por meio das mãos de Álvaro de Campos, um de seus heterônimos. Estamos falando do célebre “Poema em Linha Reta” (recitado nos vídeos e completo ao fim do artigo), onde o eu-lírico chuta o balde em todas as pessoas que não se admitem fracas, falhas: humanas. Afinal de contas, o que há de errado nele, que se reconhece “vil, literalmente vil, / Vil no sentido mesquinho e infame da vileza”? O que há de errado nos tantos “semideuses”?


É esse o nosso problema. Querer esconder nosso lado mendigo e mostrar apenas o príncipe (obrigada, Mark Twain). Deixar na obscuridade o Mr. Hyde e levar aos olhos públicos o Dr. Jeckyll (obrigada, Robert Louis Stevenson). E o que acontece quando deixamos transparecer os nossos defeitos? A nossa lama? Somos linchados. Somos taxados loucos, sem noção, fora da realidade.




Bruna Kalil Othero

OBVIOUS


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